quinta-feira, outubro 13, 2005
Sopros soltos 4...
Sopros soltos 3...
Sopros soltos 2...
Sopros soltos...
quarta-feira, outubro 12, 2005
O ataque do pó!

Ontem lá fui! Armado até aos dentes com todos os produtos de limpeza necessários, cheio de coragem e com a confiança de quem não sabia no que se ia meter! Eramos três... ela só uma... De certeza que tinhamos a situação controlada... Era dia da primeira limpeza profunda da casa!Chegámos de manhã, arrumámos as coisas e dividimos tarefas. Eu ficava encarregue do pó. Nada mais simples pensei, numa hora despacho o assunto! Oh doce ilusão, oh triste sina a minha! Só o quarto de vestir ocupou a manhã quase toda! Cada canto, cada gaveta e encaixe estavam absolutamente ocupados pelo pó! Tirei prateleiras e acessórios, nada foi deixado ao acaso, escadote para os locais inacessiveis e uma força de vontade inabalável. No fim estava orgulhoso de mim mesmo. Tinha vencido! Até que passei a mão... O horror! A tragédia! Parecia que estava na mesma! Usando uma inqualificável táctica de guerrilha, a sujidade tinha voltado para o sitio onde eu tinha acabado de limpar! Derrotado? NUNCA! Às armas camaradas! Que a luta continua, a vitória é certa e quem ri por último ri melhor!Segunda ronda e pouco depois o closet estava decente. Quase no fim julguei. A casa não está mobiliada e portanto não há onde o pó se esconder. ERRO! As portas! Meu Deus as portas! Verdadeiros campos de treino e ninhos de procriação onde o pó se esconde! Cada recanto, cada reentrância, o topo e os lados... ele avançava implacável! Há que ter força! Marche! É claro que o adversário era digno, principalmente com um pé direito de 3 metros e tal de altura! Mas nada que não se aguente.Next, a varanda! Aí comecei a achar que o mundo conspirava contra mim... Os desgraçados dos vizinhos têm o prédio em obras e o entulho passa para o meu lado. Luta inglória? Talvez, mas são essas as mais saborosas.Só faltava o chão... Mas... mas esperá lá... o que é aquilo? RODAPÉS!!!! Enormes! Com sujidade capaz de encher um caixão! Lá me pus de joelhos a rastejar pela casa toda, não havia maneira. Doia-me tudo, já tinha andado a comprar material necessário, a acartar com pesos 4 andares para cima e para baixo, a tratar da máquina da loiça, a arrumar coisas, e este combate parecia perdido! Comecei a tossir, os pulmões estavam prestes a rebentar. Tinha começado a minha epopeia havia sete horas até que... a tecnologia avançou! Aspirador ao ataque! Cada canto, cada rebordo, o chão inteiro! O pó dava-se por vencido, ouvia-se o seu grito no trepor de morte! Finalmente... ao fim de 8 horas de trabalho a casa começou a ter um aspecto decente... Apesar de ainda faltar espanar as paredes, limpar os vidros e dar mais um ataque (constante) ao pozito...Enfim... era para ir ao ginásio mas só me apetecia cama...
segunda-feira, outubro 10, 2005
O estrume

E passaram! Como se esperava os candidatos independentes às câmaras municipais venceram e com larga margem. Normalmente este seria um sinal de maturidade democrática, onde movimentos populares não originários nos partidos tomariam forma e dariam expressão aos desejos e anseios do povo, sem o espartilho da máquina partidária. O problema é que todos os independentes são renegados dos berços que lhes deram vida, e não por divergências programáticas, mas por não possuirem as condições minimas de ética e legitimidade para se candidatarem. Os nossos eleitos são os nossos representantes e, como tal, têm que estar acima de qualquer suspeita. Nos casos de ontem, não só são conhecidos demagógicos populistas com sérias dúvidas acerca da sua moralidade pessoal, como estão a braços com a justiça, com acusões bastante graves, que põem directamente em causa a capacidade de assumir um cargo público. Mas o voto deu-lhes a vitória. O preocupante é o motivo. Venceram as eleições não porque as pessoas acreditem que estão inocentes e injustamente acusados, mas porque as pessoas pura e simplesmente não querem saber! A lógica que diz "todos roubam mas este ao menos apresenta obra" é um sinal preocupante do estado da democracia em Portugal. O discurso vigente que acha que a corrupção é normal e aceitável, que a moralidade e os valores mais básicos não têm peso, que todos os politicos são farinha do mesmo saco, que o voto é de alguma forma indiferente, é o estrume onde germinam as ditaduras, é um sinal preocupante da vivência democrática nacional. Aliado a isto temos a quase deificação de alguns candidatos (vide as frases em Felgueiras ditas pelas pessoas na rua "É a nossa santinha!", "É a mãe de todos nós!") que transforma estes personagens em seres deveras perigosos. Felizmente estes pequenos vice-reis do seu burgo (onde Alberto João é referência primeira) ainda são apenas fenómenos de caciquismo local. Mas temo que seja uma questão de tempo até aparecer uma versão nacional de abutres da politica com este perfil.
Há que ter atenção ao desenvolvimento destes fenómenos, há que ter atenção à descrença no sistema democrático, muitas das ditaduras do último século tiveram origem no voto popular (como o caso alemão), há que não ter a ilusão que o estado das coisas não se altera...
Citando SG: "A democracia é o pior de todos os sistemas com excepção de todos os outros." e é preciso lutar por ela.
sábado, outubro 08, 2005
Noite de desilusão?

Ontem lá fui, carregado de materiais e ilusões, pronto para filmar a minha primeira curta. Sem meios técnicos, nem câmara decente, nem microfone, nem cenário, mas com o texto escrito e a inequívoca certeza daquilo que queria. O que me traiu não foi nenhum destes factores, mas sim o actor que escolhi para concretizar o meu projecto... eu! Erro de casting tremendo, não só fisicamente sou completamente errado para o personagem, como não tenho um décimo do talento necessário para aguentar um monólogo de dez minutos. Regressa o projecto ao papel, até arranjar quem tenho estofo para o fazer... Foi uma experiência de aprendizagem, o melhor é manter-me como escritor e quiçá um dia realizador, que cada qual de acordo com as suas capacidades... E mudou o rumo ao serão...
Há noites assim, planeia-se, organiza-se e de repente ela faz-nos o pino no meio da poeira e põe-nos a cabeça a andar à roda, num amanhecer inesperado por entre dores e sorrisos...
sexta-feira, outubro 07, 2005
O orgulho é o clitóris da alma...
quinta-feira, outubro 06, 2005
Quem querias conhecer?

Há uns dias ia tomar um copo com uma amiga e a ouvir o último cd de Goldfrapp. Ela disse-me que admirava a Alison Goldfrapp (vocalista do duo inglês) e que a achava uma pessoa completa. Não só talentosa, mas bonita, misteriosa, alguem que valia a pena conhecer.
Pus-me a pensar na diferença entre talento e a vontade de conhecer alguem. Isto é... pode-se olhar para uma pessoa de trinta maneiras diferentes. Lembrei-me de uma passagem de um filme onde uma rapariga pergunta às amigas: "Com quem gostavas de estar? Com o Denzel (Washington) ou com o Wesley (Snipes)?" resposta em uníssono "Denzel!" - "E com quem gostavas de passar a noite?" - "Wesley!!!"
Pus-me a divagagar (mal dos dias em que se tem pouco que fazer) em quem , das pessoas famosas que admiro, gostaria de conhecer pessoalmente, mesmo que não fossem famosos:
O tipo da foto (alguem me diz quem é?)
Tim Burton - a mente que produz aquilo só pode ser interessante
Michael Stype - um tipo que muito admiro, não só pelo seu talento mas pela sua postura social e politica
Christina Ricci - obviamente uma inadaptada
Cate Blanchett - não sei porquê tenho um fascinio pela senhora
Kate Winslet - parece-me uma tipa cheia de força e descomplexada em relação a si própria...
Johnny Depp - óbvio...
Slava (palhaço russo creio) - um criador daqueles só pode albergar uma alma gigantesca
Pessoa - decerto me abriria mundos para além dos mundos...
Kafka - o homem tinha problemas, muitos problemas, e conhecer a mente por detrás dos textos devia ser fascinante
Marylin Manson - é muito mais do que aparenta, muito mais que a pseudo-treta satânica...
Che - que dizer? Sentar-me e ouvir... apenas ouvir...
J.C. - a pessoa que mais mudou o mundo de certeza que tem algo de interessante para dizer ao vivo (mesmo não sendo crente)
Isto para dizer uma infima parte de todos...
Há no entanto outros tipos que admiro mas que se não fossem famosos não me despertavam a minima curiosidade (agora vão alguns exemplos de seguida só para ilustrar:
Scorsese (adoraria falar sobre os filmes mas...), Nicole Kidman (linda e excelente actriz, mas um pouco pretensiosa e arrogante), Russel Crowe, Dali, Saramago... só para nomear alguns.
A questão não é quem admiro, a questão é quem é que quereria ter lá em casa para jantar se os não conhecesse de lado nenhum...
E vocês? Quem gostariam de ter no vosso grupo de amigos?
quarta-feira, outubro 05, 2005
Repugnante!

Ontem tinha uma noite planeada de filmagens, mas acabou por ser uma bem diferente... de copos! No Bairro vários foram os pontos de passagem, os degraus de descanso e as pessoas encontradas. A conversa corria, nem sempre com nexo, mas constantemente divertida, digamos que o nivel de álcool nem permitiria outra coisa. Passagem pela cachupa (está aberta apesar de rumores em contrário que me chegaram aos ouvidos), conversa metida com outros elementos da noite, algum riso e até uma pequena dissertação à beira da estátua do Pessoa sobre o tema hetero/homossexualidade com uma rapariga de Peniche, nitidamente com uns copos a mais, os pés mais sujos que já vi e a frase exlclamativa "Ai meu Deus nunca tinha estado tão perto de um!!". Sinceramente só estando lá para ver, mas deu para mais uma ou duas gargalhadas. Destino seguinte: Oparte. Nunca lá estive, mas ouvi dizer bem, e havia lá mais pessoas para encontrar. Eram 5h30 da manhã e os 10€ de entrada foram o suficiente para nos fazer mudar de ideias. O dinheiro escasseia e a noite já tinha sido cara! De regresso ao carro passámos pelo Buddha Bar e pensámos em tentar entrar (mais uma estreia) caso não pedissem consumo mínimo. Nesse momento um puto, que não tinha mais de 17 anos, magrinho e com um ar franzino, saía acompanhado da namorada. Levava o copo distraidamente na mão e quando lhe chamaram a atenção para o facto voltou para trás para o pousar. Nesse momento um dos gorilas do sítio, uma besta que devia ser presa por uma trela começou a provocar o rapaz, a insultá-lo. E o miudo, ainda sem experiência nenhuma e a boca solta respondeu "Mas já devolvi, também não precisas de te armar em parvo!" Foi o pretexto que o animal queria, começou a espancar o puto sem apelo nem agravo enquanto o agarrava pela camisa. Eu e os dois amigos com quem estava ainda dissémos "Tenha lá calma, deixe lá o miudo, pronto já chega!", mas nada fizémos. Um monstro destes, capaz de atacar sem nexo nem barreiras alguem com metade do seu peso e um décimo da sua força, mete-me nojo! É absolutamente repugnante e deviam-lhe largar os cães em cima sem apelo nem agravo. O Buddha Bar passou a ser um sítio onde me recuso a pôr os pés depois de ter assistido áquilo. E o mais grave é que é a norma na noite de Lisboa. Cavalos impotentes que descarregam as suas frustrações em pessoas que não têm culpa das bestas quadradas que foram cuspidas neste mundo.
O que me repugna é também a inacção de quem assitiu a tudo, ou seja a nossa inacção. Não me mexi, não levantei um braço para ajudar o rapaz. Posso racionalizar o que quiser. Dizer que o tipo me desfazia, que não conhecia o miudo de lado nenhum, que se nós os três avançássemos os outros cinco gorilas que ali estavam e se riam da situação nos mandavam para o hospital. Posso justificar o que quiser. A verdade é que não nos mexemos e estávamos a meio metro daquilo. E a nossa cobardia é indesculpável...
terça-feira, outubro 04, 2005
Está pronta!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Finalmente! Quatro meses e dois dias depois a minha casa está pronta! Quer dizer... pronta pronta não estará... Há um pequeno pormenor na janela da cozinha que só vai ser tratado daqui a duas semanas, preciso de limpar a casa toda que está um nojo e mobilá-la... Mas que se lixe! Está pronta e prestes a ser ocupada. Não definitivamente, que a liquidez financeira não permite, mas uma transição gradual durante os próximos meses e (espera-se) em Abril próximo mudo-me de vez! Mas o importante é que está pronta, está lá e é minha!!!!
A casa está aberta a todos! Para os que querem conhecer, tomar café, pernoitar, passar umas férias em Lisboa, para as conversas e para o resto. É só telefonar. Quero ter aquilo cheio de gente e regularmente. Podem usar e abusar, que nunca tiva papas na lingua e quando estiverem a pisar o risco ponho-vos a andar sem problemas. Num próximo post devo publicar fotografias para quem não conhece.
Quarto andar sem elevador, na minha cidade, na cidade antiga, carregada de história, de vida, de uma mescla de gente e culturas, que pulsa energia em cada esquina. Ao lado do Terreiro do Paço, a duas ruas da Rua Augusta, a cinco minutos a pé do Rossio, do Chiado e a seis do Bairro Alto, é um refúgio para mim e para os meus. Sejam bem-vindos.
segunda-feira, outubro 03, 2005
O dia do eclipse

Hoje acordei cedo, era o dia do eclipse! Maravilha das maravilhas, nunca vista em Portugal nas últimas décadas. Saí de casa carregado de expectativa, mas antes de chegar ao carro um canguru saltitante apareceu-me à frente e apertou-me a mão. Tinha força o desgraçado e quis ficar à conversa sem me soltar. Falou-me do tempo, da vida, e da filha que apesar de ainda andar na bolsa já estava à espera de cria. Quando me deixou a mão doia-me. Fui para o carro e tentei conduzir, mas as dores não ajudavam. Farta da minha lentidão e inépcia, o meu carro (que é uma mulher e chama-se Fábia) resolveu tomar o destino nas suas mãos e conduziu-me pelas ruas da cidade. Que caminhos eram aqueles que nunca conheci? As palavras de intervenção estavam escritas nas paredes, as mulheres e os homens dançavam ao som de música que eu não ouvia. Pensei, o mundo endoideceu e vou chegar atrasado! Parei à beira de um jardim sem árvores, nem relva, nem arbustos, nem flores, mas era um jardim, e o mais belo que já vi. As pessoas passeavam em extâse com um perfume que não conheciam e na verdade não podiam sentir. Ali me deixei ficar absorto a sonhar com a janela de minha casa. Da janela da minha casa nada se vê porque tem um muro de andaime que tudo tapa. Saltei para lá e subi até onde conseguia, olhei em baixo a cidade de gente que se acotovela e atropela numa busca vã de algo que não encontra. Todos à exepção de uma rapariga de olhos escuros e sorriso largo que olhava para mim ao longe e me acenava. Ela saltava descalça pelos muros e paredes sussurando-me segredos que nunca concretizou e planos secretos que me fizeram sentir. Sentir o quê? Não sei, apenas sentir, que já é um estado melhor que não sentir. O Não-Sentir é o vazio da alma, é a morte que se aproxima. E eu sentia. O Sol piscou-me o olho, como um desenho animado e percebi que era tarde. Olhei para o meu destino e vi que lá chegava com duas passadas! Enchi-me de coragem e saltei mas de repente ficou escuro como o breu e vazio como o infinito. Fiquei perdido e desorientado, senti-me cair desamparado mas nunca mais sentia o chão. Na verdade o escuro era tal que até o chão perdeu a noção do seu sítio, do seu lugar, e dei por mim a flutuar ao lado dele. Baixo era cima e esquerda era direita. Não sabia se fazia o pino ou se estava sentado de cócoras. Foi aí que a Lua saiu de frente do Sol e tudo, de repente, se endireitou nas posições devidas. Dei por mim estatelado no cimento. A rapariga olhava agora para mim empoleirada nos andaimes dos quais eu tinha caido. Estava presa por uma mão e rodopiava feliz. Eu queria falar com ela, mas um relógio gigante com azia atropelou-me e prendeu-me com o ponteiro dos minutos. Avançou como o vento por entre os carros que não se desviavam apesar dos meus gritos. Pensei realmente que ia morrer. E enquanto isso o relógio só me falava de projectos, de futuro, de responsabilidade, dívidas e hipotecas. Largou-me sem apelo nem agravo à porta do escritório. Limpei a poeira de mim, que caia no chão com pequeninos gritos estridentes. Entrei hesitante. As portas abriram-se com os seus dentes afiados e, por momentos, julguei que me iam morder. Passei incólume e subi ao oitavo andar. Sentei-me em frente ao computador. O eclipse já passou, as paredes estão no sitio e está tudo na mesma.
É segunda-feira e não há nada para contar.
Espero que, quando sair daqui, a rapariga de olhos escuros e sorriso largo ainda esteja dançando à minha espera...
sábado, outubro 01, 2005
Proposta de uma vida!

Estava ainda ontem a falar com um amigo meu quando me apercebi. Pela primeira vez na vida tenho valor financeiro. Não é na conta, que tem um saldo negativo logo no dia de pagamento, mas tenho um carrito (pequenino mas anda) e uma casa na Baixa. Mais, a casa está toda em divida, o que me coloca no ponto certo para dar o golpe, nomeadamente para os meus pais reaverem o dinheiro que gastaram em mim. Caso eu tivesse um "acidente" eles herdavam a casa totalmente paga... Mas isto tinha que ser agora, que ainda sou solteiro e "bom rapaz", porque se arranjo uma lunática que me ature... lá se vai a herança para ela. O meu amigo propôs-se logo a atirar-me de uma janela em troco de 10% do valor da magra herança. Ia falar disto aos meus pais quando ele me disse: "Mas se te atirares tu da janela eu dou-te 2%!"
Eh pá! Isto é capaz de ser negócio! Eu ando mesmo mal de massas e assim toda a gente ficava feliz. Os meus pais recebiam algum troco de 26 anos de despesas, o meu amigo ficava com 8% por organizar a minha morte e eu ainda tinha 2%. Assim conseguia pôr a conta bancária em ordem. Mas depois pensei... e o funeral? As despesas são enormes e esta história de cair não sei quantos andares para a minha parte ficar para o cangalheiro não me parece nada bem. Mas não sei se estavam dispostos a dar-me mais de 2%... é um problema... É claro que aí a minha prestação da casa desaparece! E isso dá-me logo uma folga gigantesca no orçamento mensal! Sem dúvida vale a pena. Hum... mas lá está, eu acho que a Lusomundo, e já agora a PT em geral, tem um tratamento discriminatório em relação a mortos, na verdade não conheço lá nenhum a trabalhar! Isto é incrivel, com uma brincadeira destas arrisco-me a perder o emprego e ninguem me pode ajudar. Bom... empregos há muitos e qualquer coisa se arranja... estamos no século XXI, esse tipo de preconceito já nem se usa! Mas mesmo assim... podia passar uns meses sem nada e só 2%... Já sei! Falo directamente com os meus pais e passo a perna ao meu amigo. Atiro-me da janela em troco de apenas 9%! Assim eles ficam a ganhar, pagam menos 1% e eu ganho mais 7% do que estava à espera! BOA! De certeza que com esse valor ainda me aguento uns tempitos enquanto procuro novo emprego. Mas nada me diz que eles depois de eu estar morto me dão os 9%... Quer dizer... eles são meus pais e até hoje nunca me enganaram, muito pelo contrário! Mas depois de morto tudo muda, as pessoas começam a lidar contigo de forma diferente, mal te dirigem a palavra, passam por ti como se não te conhecessem e algumas mal te vêm começam a fugir aos berros. Bom, se eles não me quiserem enganar aceitam assinar um papel, enquanto eu estou vivo, a garantir o pagamento dos 9%. Um tipo tem que ter cuidado, porque depois de morreres perdes um bocado o controlo à tua vida e nos tempos que correm... nunca fiando! Apesar de um papel desses poder lixar o seguro e aí o negócio ia todo por água a baixo. Hum... não sei... vou ter que pensar melhor, mas lá que é um negócio promissor lá isso é!!
sexta-feira, setembro 30, 2005
Homem Branco, Homem Negro.

Ontem foi noite de teatro, em boa companhia de quem já sentia saudades.
A peça escolhida foi Homem Branco, Homem Negro, de Jaime Rocha no Teatro Aberto, encenada pelo inevitável João Lourenço. A história gira à volta de dois personagens - interpretados por António Cordeiro e Carlos Paca - um branco que cola cartazes e com fortes convicções anti-racistas e um negro que pura e simplesmente não se preocupa pelo assunto, é feliz, tem emprego e familia, é português e nasceu em Lisboa, bem como os pais. A indiferença de um sobre o tema e a fogosidade do outro vai gerar uma discussão e uma ligação entre os dois.
A visita era devida, que a peça já só dura até domingo, tinha tido boas criticas e até premios. Na verdade saí um pouco desiludido devido às altas expectativas, a peça não é má, trata temas controversos até com alguma dose de humor, mas creio que a meio perde um pouco o rumo e destroi o interesse que tinha criado até então. Seja como for fica a ideia.
A temática em debate é o racismo. Segundo li o problema seria : Poderá a negação de um preconceito ser em si mesmo um outro preconceito, tão cego e desastroso como o anterior?
Mas depois de ver a peça creio que a questão é a inversa. Não poderá a defesa extremada do anti-racismo camuflar sentimentos racistas? Afinal o que é o racismo senão a separação das pessoas pela sua cor da pele, seja essa separação feita de que forma for? Creio que o estádio máximo de evolução social será (agarrando numa frase usada contra a homofobia) o direito à indiferença. O objectivo não é tolerar as pessoas que são diferentes (seja essa diferenciação feita pela cor da pele, género ou orientação sexual), não é evitar discriminar essas pessoas. O objectivo é não ver a diferença. Estar na mesma mesa com diferentes pessoas e não tirar nenhum tipo de elacção por mais nada que não a pessoa em si. Não ver a cor da pele de uma forma mais profunda que se vê a cor dos olhos. Ninguem diz temos que ser solidários com as pessoas de olhos azuis, porque a cor dos olhos não faz com que essa pessoa seja catalogada com um grupo ou tipificada de alguma forma. Essa é a grande luta, a indiferença, o indivíduo como um ser único e singular, capaz de gerar admiração ou ódio apenas pelo seu mérito e caracteristicas pessoais. Porque a partir do momento em que agrupamos pessoas desta forma, mesmo que seja para as defender, não estamos a fazer mais do que admitir que são diferentes, não são iguais a mim. Há tempos um tipo numa discussão diz-me "Dizes-te anti-racista mas quantos amigos negros tens?" Sinceramente acho que essa frase define tudo. Porque nunca lhe passaria pela cabeça perguntar: "Quantos amigos ruivos tens?"
O direito à indiferença, à individualidade, ao eu como ser único e singular. O direito a que não olhem para mim a não ser... por mim mesmo.






