sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Memórias de infância

Antes do "Dragon Ball", antes do "Big Brother" e antes dos "Morangos com Açucar" existiu um programa que me marcou especialmente enquanto puto. Era um programa infantil, com marionetes e muita música, mas que não era linear nem básico, havia um grupo de miudos, alguns adultos excêntricos dos quais o Guarda Serôdio me ficou gravado na memória, e havia um manjerico cheio de picos e uma linguagem muito própria que toda a gente parecia perceber. Era para malta nova mas falava de temáticas muito além do trivial que hoje se vê, muito além da simplicidade assustadora com que muitas vezes se estupidificam as crianças. Lembro-me por exemplo de uma música que dizia "Quem sou eu, disse eu, só que ninguem respondeu, ninguem... Mas o que é que me deu para estar hoje assim? Estou aqui se estou... Mas para onde é que eu vou, quem sou? Toda a gente sabe mais ou menos quem é..." São questões a que muita gente ainda hoje não soube responder, que todos nós nos colocamos mais cedo ou mais tarde, e que eram postas a um público que se calhar as sentia mas ainda não tinha a maturidade suficiente para as verbalizar e estruturar desta forma.
Com canções de Sérgio Godinho "Os Amigos do Gaspar" são para mim um marco. Escolhi como banda sonora desta semana não o "É tão bom", música que o próprio Sérgio já voltou a cantar nos seus concertos, mas "A Paixão do Velho Pires, o Marinheiro" onde ele declara o seu amor...
Aqui fica...

Lançamento

Foi na pequena livraria da cinemateca, espaço demasiado exíguo para as pessoas que compareceram, que foi feito o lançamento do Dicionário de Cinema Português 1989-2003. Com a apresentação de João Brites, escolha pessoal de Jorge Leitão Ramos, não só por uma ligação de muitos anos mas tambem por ser alguem que, apesar de ser do meio cultural nomeadamente das artes representativas, não está mencionado no livro por se ter dedicado quase exclusivamente ao teatro. Estiveram presentes familia e amigos, colegas e profissionais da Sétima Arte, inclusivé um grupo de alunos da Marquês de Pombal, onde Leitão Ramos é professor, que foram ver e ouvir o "stôr" de uma forma diferente, num ambiente estranho. Foi uma recepção calorosa, e já os media tinham durante o dia feito uma cobertura interessante do lançamento, rádio, televisão e imprensa dos quais deixo aqui um exemplo. Ficaram as palavras, as fotos e os sorrisos. Resta agora a obra, uma obra de referência maior no panorama audiovisual português.

Gramática

Eu sei que é uma coisinha pequena mas se o feminino de actor é actriz, o feminino de autor não devia ser autriz?

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Mudança


É vox populi que a mudança é algo de positivo, que traz benefícios, aumentos de eficiência, novos conhecimentos e nos torna mais abertos, com uma visão mais plurifacetada do mundo que nos rodeia. Aqui na empresa essa ideia parece ser regra, tenho em média uma mudança de seis em seis meses, infelizmente a mudança é apenas de sítio e mais nada. Agora estou num gabinete fechado com mais dois colegas, cinco janelas e cinco televisões, posters de filmes por todos os lados. Vamos mudar dentro de pouco tempo para um open-space atafulhado de secretárias e, após visita, com um ar-condicionado psicótico de um calor abrasador. Não temos privacidade, nem espaço, nem sitio para colocar nada, muito menos aparelhos receptores de tv fulcrais para o controlo de emissão. Parece que decidem da vida e das andanças das pessoas sem fazer puto de ideia de quem são, do que fazem ou o que necessitam. Secretária e computador assunto arrumado. Mas quando ninguem de direito informa quem deve nem se preocupa minimamente... torna-se difícil...

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

WC


Foi uma revolução ou uma catástrofe natural... Toda a gente do meu piso se mudou menos o pessoal aqui dos Canais Lusomundo e, de repente, à minha volta parecia uma zona desmilitarizada, um local de impacto. Sobramos cinco... últimos resistentes do holocausto, nós e as baratas que se escondem quando passamos. Hoje sobram três, três homens perdidos num vazio de secretárias, num deserto de armários sem propósito e caixotes por transportar. A nossa vez deve ser para a semana, vamos ser desterrados para o prédio ao lado, seguindo a manada do resto da empresa.
As infraestruturas, no entanto, continuam as mesmas, nomeadamente os Wc's são os mesmos, um para senhores e outro para as senhoras que, neste preciso momento, são inexistentes. Hoje passei em frente do dito (do das madames) sem saber porquê parei. O piso está vazio, uma casa-de-banho é uma casa-de-banho seja qual for a marca na porta, principalmente quando todas as pessoas que estão aqui são do mesmo sexo. Pensei em entrar como se transpusesse uma barreira invisivel em território desconhecido e proíbido. Senti-me um puto outra vez, um miudo a entrar pela primeira vez no wc das meninas, numa transgressão digna dos anais. Parei e quase entrei, mas continuei e fui para a do costume. Disse para mim mesmo que era uma estupidez entrar, que estava a ser infantil, que se era igual então mais valia ir à minha. Disse e racionalizei, mas na verdade tive pudor de transpor a barreira, de entrar onde o sinal não deixava.
Num piso de três homens eu voltei a ser atabalhoadamente criança.

Palco - ponto final e virgula...

Foi um final com a primeira vez em palco, certo que o público eramos nós mesmos mas palco mesmo assim. E de repente tudo muda, não sei se é das luzes, da pequena elevação, se das cadeiras à nossa frente vazias dos espectros de outras noites, mas de repente tudo muda por um momento... E cria-se a certeza de querer mais, querer aprofundar mais, conhecer mais, experimentar mais, aprender muito muito mais! Um pequeno palco e tudo muda...
Ontem foi a última aula do atelier de teatro, para a semana começo um workshop de seis meses que se antevê mais intenso, mais dificil, mais sério, com um maior aprofundamento de mim mesmo e anseio com mais, muito mais palco...
Ponto final neste espaço, ponto e virgula neste grupo, que há aqui pessoas de quem não me quero afastar e espero manter contacto, até agora eles foram o meu maior público, os meus maiores fãs.
Isto é apenas uma virgula que o teatro segue dentro de momentos.

terça-feira, janeiro 31, 2006

Oscar


E cá estão os nomeados para os Óscares deste ano, algumas surpresas como Capote ou Crash para melhor filme, apesar deste ano tudo parecer mais ou menos encaminhado. BrokeBack Mountain parece ser o vencedor antecipado, Melhor Filme e Realização são prováveis, sendo Philip Seymour Hoffman em Capote o principal candidato ao Oscar de Melhor Actor Principal e Reese Witherspoon em Walk The Line a protagonista mais provavel a levar a estatueta para casa. É possivel que George Clooney leve alguma coisa por Good Night and Good Luck, nem que seja melhor argumento. Todas as dúvidas serão tiradas no dia 5 de Março sob a batuta de Jon Stewart que deve levar a sua irreverência do Daily Show para a Academia. A ver vamos...
Os nomeados principais estão listados em baixo. Para uma lista completa ir aqui.

Best Motion Picture of the Year
Nominees:

Brokeback Mountain (2005) - Diana Ossana, James Schamus

Capote (2005) - Caroline Baron, William Vince, Michael Ohoven

Crash (2004) - Paul Haggis, Cathy Schulman

Good Night, and Good Luck. (2005) - Grant Heslov

Munich (2005) - Steven Spielberg, Kathleen Kennedy, Barry Mendel

Best Performance by an Actor in a Leading Role
Nominees:

Philip Seymour Hoffman for Capote (2005)

Terrence Howard for Hustle & Flow (2005)

Heath Ledger for Brokeback Mountain (2005)

Joaquin Phoenix for Walk the Line (2005)

David Strathairn for Good Night, and Good Luck. (2005)

Best Performance by an Actress in a Leading Role
Nominees:

Judi Dench for Mrs. Henderson Presents (2005)

Felicity Huffman for Transamerica (2005)

Keira Knightley for Pride & Prejudice (2005)

Charlize Theron for North Country (2005)

Reese Witherspoon for Walk the Line (2005)

Best Performance by an Actor in a Supporting Role
Nominees:

George Clooney for Syriana (2005)

Matt Dillon for Crash (2004)

Paul Giamatti for Cinderella Man (2005)

Jake Gyllenhaal for Brokeback Mountain (2005)

William Hurt for A History of Violence (2005)

Best Performance by an Actress in a Supporting Role
Nominees:

Amy Adams for Junebug (2005)

Catherine Keener for Capote (2005)

Frances McDormand for North Country (2005)

Rachel Weisz for The Constant Gardener (2005)

Michelle Williams for Brokeback Mountain (2005)

Best Achievement in Directing
Nominees:

George Clooney for Good Night, and Good Luck. (2005)

Paul Haggis for Crash (2004)

Ang Lee for Brokeback Mountain (2005)

Bennett Miller for Capote (2005)

Steven Spielberg for Munich (2005)

Best Writing, Screenplay Written Directly for the Screen
Nominees:

Crash (2004) - Paul Haggis, Robert Moresco

Good Night, and Good Luck. (2005) - George Clooney, Grant Heslov

Match Point (2005) - Woody Allen

The Squid and the Whale (2005) - Noah Baumbach

Syriana (2005) - Stephen Gaghan

Best Writing, Screenplay Based on Material Previously Produced or Published
Nominees:

Brokeback Mountain (2005) - Larry McMurtry, Diana Ossana

Capote (2005) - Dan Futterman

The Constant Gardener (2005) - Jeffrey Caine

A History of Violence (2005) - Josh Olson

Munich (2005) - Tony Kushner, Eric Roth


Entrei!


Ontem lá estava, 19h para a entrevista das 19h30 no IPJ na Expo. Com medo do trânsito e de não chegar a tempo cheguei bem antes do que era necessário. Na entrevista eramos só dois, para alem do Thiago Justino. A primeira coisa que me saltou à vista é que ele é apaixonado por aquilo que faz, está muito à vontade e fala pelos cotovelos. Não pára um momento encadeando os temas e as conversas de uma forma alucinante, falando das pessoas como se nós, que estamos com ele pela primeira vez, as conhecessemos de longa data e soubessemos exactamente quem são.
O tempo passou fluido, percebi que o grupo que lhe apareceu era bastante heterogéneo e que precisou daquela conversa para perceber realmente quem são as pessoas e o que pretendem. Da minha parte fiquei motivado, parece-me ser alguem contagiante, mas que ao mesmo tempo estudou bastante, trabalhou em diferentes áreas e tem um conhecimento pluri-disciplinar. Acredito que vai ser um workshop que vai dar bastantes frutos onde vou realmente aprender e descobrir, sempre guiado por quem conhece e sabe puxar pelo melhor de nós.
Começo quinta-feira dia 9 no Belem Clube. Somos um grupo pequeno o que vai permitir um acompanhamento mais personalizado.
Já agora... ainda há vagas. Alguem interessado?


It will be a learning experience...

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Movie Update


O frio do fim-de-semana foi propício às idas ao cinema, locais quentes e fechados sabem sempre melhor. Se a sexta - com um jantar lá em casa e a necessidade de acordar cedo no dia seguinte - não foi propícia a grandes saidas, já o Sábado esteve em grande. Comecei com o último Woody Allen Match Point com Jonathan Rhys-Meyers e Scarlett Johansson. Este é capaz de ser o filme mais negro que Allen fez ao longo da sua extensa carreira onde defende que é a sorte que determina o destino de cada um e não a sua capacidade própria ou sequer o valor moral. Com um elenco fortissimo é quase uma obra-prima conduzida com delicadeza e mestria, com um argumento muito bem construído e até algo polémico. Sem dúvida a não perder.
A segunda fita foi The Libertine com Johnny Depp primeira obra de Laurence Dunmore. Com Depp, John Malkovich e Samantha Morton no elenco esperava-se algo de notavel e não foi por falta de empenho dos actores que tal não foi conseguido. No entanto é uma fita que falha em transmitir qualquer tipo de emoção pós-monólogo inicial de Depp, que nos deixa com água na boca para uma viagem anti-orgásmica sobre a vida de John Wilmot, conde, poeta, libertino do século XVII que conheceu uma morte prematura culpa da sua vida de bebida e mulheres duvidosas. Não merece o tempo da visita e se forem fãs de Depp esperem pelo DVD.
No Domingo ainda houve tempo para uma visita ao Fórum Lisboa ver um trabalho de uma amiga inserido numa mostra dedicada ao documentarismo português.
Foi um fim de semana proveituoso...

Em família...


O problema de se começar a ficar independente, mesmo que de forma tardia, é que existem ondas de choque por parte de quem sempre sustentou a nossa dependência física, social, económica e principalmente emocional. O abandonar do ninho, por muito anunciado que seja, é sempre um momento complicado de quebra de laços, ou talvez nem tanto, mas pelo menos o quebrar de rotinas e de hábitos, o alterar dos rituais que durante anos e anos serviram de suporte a uma rede familiar e afectiva, ritos que nos transportam pela vida e nos sustentam no dia-a-dia. Sim, venho de uma família e sou uma pessoa de rituais, não tanto de rotinas mas de rituais, há coisas que preciso, preciso de uns dias de praia por ano, preciso do contacto regular com alguns amigos, preciso de estar com os meus pais, preciso de tempo com a minha namorada, preciso de ir ao cinema, preciso de teatro e dança e espectáculos, preciso de música, preciso de imaginar e discutir... Como tal é bom manter certas tradições com os meus pais. Ontem, Domingo, fiquei em casa para estar um pouco com eles... ontem vimos à lareira um DVD.
A escolha foi na base de um filme que fosse leve, divertido e calmo. Viu-se o Anger Management... Não recomendo, é bastante ridiculo, mas vá... para Domingo à noite, com lareira em casa...

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Um rapaz a arder...


Tenho a triste mania de escrever histórias, ou melhor a triste mania de imaginar histórias, que o acto de as escrever acaba invariavelmente por se ficar pelas intenções. As ideias são passadas a papel, ou a byte do computador, mas raramente são desenvolvidas. A forma das histórias é sempre de argumento de cinema. Tenho uma imaginação muito visual e os enredos normalmente vêm acompanhados de imagem e até música. No entanto é raro encontrar uma canção que encaixe na perfeição a um momento destes apontamentos literários, muito menos se a música for posterior à narrativa. Uma exepção é este Rapaz a Arder dos Naifa que se tornou a banda sonora perfeita da cena final de um filme que pensei, ou melhor, que estruturei no seu esqueleto principal. Aqui fica...

Benefícios

Desde que acabei o curso (que nada tem a ver comigo nem com o trabalho que agora faço) que trabalho em audiovisual. A vantagem de se trabalhar no meio é que às vezes se tem acesso a algumas coisitas que normalmente não são de graça. Esta semana vamo-nos mudar (parte de nós pelo menos) para o prédio ao lado. Quando assim é (e eu tenho uma mudança em média de 6 em 6 meses) faz-se uma selecção do que se leva. Existem inumeros dvd's de trabalho que já não são necessários e que são distribuidos por todos, conforme o conhecimento e agilidade de cada um em escolher das pilhas e caixas em que se encontram... Assim levo para casa mais de 50 filmes, entre coisas que gosto, que nunca vi, para guardar, oferecer, emprestar ou aquelas coisas que ao fim ao cabo nunca lhes vou tocar.
Nem sempre é um trabalho estimulante... mas às vezes tem os seus benefícios!

Ying Xiong

Foi um dos filmes que imperdoavelmente perdi no cinema no meio de exclamações e arrependimentos. Adiei o visionamento em casa puramente por uma questão de oportunidade. Ontem pude finalmente colmatar a minha falha.
Que Zhang Yimou era bom já eu sabia, que visualmente o filme era atraente tambem consegui perceber pelas apresentações, mas Heroi é mais que isso.
Heroi é um filme de poesia visual, de um imaginário oriental marcante, de uma lenda milenar que fala de amor e traição, honra, coragem e perda. É o sublimar das emoções de uma forma profunda, intensa, é o marcar de algo que nos trascende, de valores acima que cada um de nós.
Heroi é um filme de uma beleza invulgar, de uma plasticidade tactil, sensorial, de calor, de frio, de cores vivas, profundas, maiores que a realidade.
Um filme tocante que espero ter a oportunidade de rever numa sala de cinema, num ecrã condigno, no escuro que me permita absorver verdadeiramente esta obra...

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Mole


(Pollock)

Sinto-me estupidamente doente, o costume, trivial e croquetes, dôr de corpo, de garganta, de cabeça, moleza, como sempre, e sinto-me estupido.
É o problema de se estar assim, a estupidificação da mente através da fragilização do corpo, de repente tudo parece mais lento, preciso que me digam as coisas duas vezes para prestar atenção, parece que abrandei e as pessoas à minha volta não notam, pareço um disco de 45 rotações a tocar a 33...
Mas recuso-me a ceder a esta treta, tenho a penúltima aula do atelier de teatro hoje, o fim-de-semana está à porta, na segunda vou fazer uma entrevista para saber se sou aceite num workshop de teatro com o Thiago Justino, nem pensar que me amolecem! Virus, bactéria, fungo ou o que seja podes ir andando que aqui não tens aconchego!

*suspiro*

Só me apetece ir para a cama... tão estupido este estado... tão estupido...

quarta-feira, janeiro 25, 2006

"Se ganhar o Euromilhões compro uma gaja destas (aponta para a televisão)"
"Mas qual é o gozo? Ela não gosta de ti..."
"Eu tambem não gosto dela é só foder e deitar fora! E se ganhar dou-te dois milhões a ti mas tens que arranjar uma amante, não me venhas com essas paneleirices de que só gostas da tua mulher!"

É casado, licenciado, tem mais de 30 anos e um filho...