segunda-feira, março 13, 2006

Olhos nos olhos


Estava um sábado invulgarmente quente e azul para a norma dos últimos tempos. Estava marcada uma aula de compensação do workshop de teatro, para colmatar o facto de termos começado apenas a dia 9 de Fevereiro. Aula iminentemente diferente da norma, dada na Praça de Alegria por uma professora conhecida do Thiago, onde o próprio se integrou como aluno. Foram cinco horas consecutivas, sem pausas nem intervalos, das 14h30 às 19h30, sem duvida extenuantes. Mas todos aqueles ali presentes, sem um único actor profissional ou aspirante a tal entre nós, tinham uma vontade de aprender e interiorizar o mais possivel. A aula foi sem dúvida diferente, expressão dramática e não teatro. Exercicios de aquecimento, descontração, relaxamento, confiança, voz, entreajuda, liderança, dicção, cooperação... até aqui tudo bem. São formas alternativas e necessárias de encarar a formação de actor - apesar de me ver incapaz de aguentar este tipo de exercicios durante meses a fio. No entanto a postura da formadora não foi necessariamente a melhor, contraditória dizia por um lado que as experiências são nossas e individuais, por outro fazia discuros de uma pseudo-moralidade "todos diferentes todos iguais" no fim de diversos exercícios. Enquanto criticava quando se perguntava pormenores sobre a execução de um exercício dizendo "não se prendam a regras", corrigia durante a execução do mesmo interrompendo as pessoas de uma forma desnecessária. Enquanto se mostrava liberal e aberta, era incapaz de aceitar a mínima crítica que lhe fosse dirigida.
Foi uma experiência que em parte me fez lembrar o atelier falhado do Pedro Wilson, interessante mas insuficiente, diverti-me mas aprendi pouco e não evolui nada.

sexta-feira, março 10, 2006

The Woodsman

Um dos filmes controversos de 2004, que passou despercebido à maioria do publico português, e que se encontra agora em DVD.
Estreia na realização de Nicole Kassel, é um dos dois grandes filmes independentes que Kevin Bacon e Kyra Sedgwick protagonizaram nesse ano (o outro foi o inspirado Loverboy).
Bacon é um homem em liberdade condicional que tenta refazer a sua vida. Recatado, quase anti-social, oculta um passado que ainda o atormenta.
Filme de uma contenção e profundidade raras, toca os aspectos mais sensiveis da complexidade humana. Pecado, culpa e redenção entrecuzam-se numa história que conta com o talento dos seus actores para lhe dar corpo.
Sem dúvida um filme a procurar no videoclube local.

Beyond Skin


Em 2001 eu andava em busca, de um novo rumo, novo ritmo, novo som. Descobri Nitin Sawhney, inglês de origem indiana, DJ, músico, produtor, compositor, autor, com uma obra pluri-cultural, multi-facetada, que mistura musica clássica, flamenco, musica indiana, brasileira, ritmos africanos, hip-hop, jazz numa salada russa improvável e inovadora que me deixou apaixonado. Era o seu quarto album. Com o passar do tempo comprei mais três, que me deixaram sempre surpreendido e empolgado. Aqui fica Homelands...

quinta-feira, março 09, 2006

Conversa ainda sobre a relatividade do tempo


A questão é que as pessoas muitas vezes se precipitam para relações e compromissos cedo demais, sem terem consciência do que estão a fazer. Namoras há meia dúzia de meses e pensas que conheces a outra pessoa, que tudo vai correr bem, mas objectivamente seis meses não é nada, não conheces a fundo o teu parceiro.
Objectivamente? E objectivamente quanto tempo é suficiente para que se possa afirmar que se conhece o outro?
Uma vida...
Mas então que se conhece o bastante para não se considerar uma precipitação?
Um ano.
E objectivamente porquê um ano? Porque não dois?
Pode ser, mais de um ano, pelo menos um ano...
E porque não seis meses, ou cinco, ou oito?
Porque não, seis meses é pouco!
Objectivamente falando?
Sim.
Com base em quê?
É assim, um ano é que é o mínimo.
Objectivamente?
Objectivamente!
Isso é a tua opinião, não é um facto; ainda não me justificaste porquê um ano.
Porque assim passas por todas as estações. (risos)
Então, objectivamente, é uma questão meteoreológica! (risos)
A sério, não acreditas em mim?
Com base em quê?
Nas pessoas que conheço!
E se eu te disser que das pessoas que conheço e que se casaram, a taxa de divórcio é maior naquelas que tiveram namoros grandes do que naquelas que tiveram namoros curtos?
É porque tu conheces pessoas estranhas! (risos)
E se eu te disser que não há norma, não há maximo e minimo, mas sim pessoas diferentes com relações diferentes e que o tempo necessário varia de relação para relação, podem ser seis meses, um ano, dois, uma década?
Mas em média... é um ano! (risos)

quarta-feira, março 08, 2006

Dois meses

O que são dois meses? 60 dias? 1440 horas? 86400 segundos?
Há dois meses já não era Natal, há dois meses já nem 2006 era novidade, há dois meses já se sabia que o Cavaco ia ser Presidente, há dois meses trabalhava no mesmo sitio a ganhar o mesmo dinheiro, com os mesmos amigos e já tinha começado o meu primeiro atelier de teatro. Há dois meses eu sentia da mesma maneira.
Dois meses são 0,6% da vida que já vivi e não mais de 0,2% da vida que ainda espero ter pela frente.
Dois meses não é nada...

Dia da Mulher

Hoje é o dia da mulher, ponto de partida para se dizer as maiores piroseiras e baboseiras sobre as mulheres em geral e sobre nenhuma em particular. Fica aqui o marco até que não se sinta a necessidade de dar um dia exclusivo, até que todos os dias o sejam... (ui, ui, piroso lugar comum...)

Sugestão

Abriu ontem na galeria Arte Contempo uma exposição multidisciplinar de quatro jovens artistas portugueses Carlos Correia, Pedro Barateiro, Sílvia Moreira e Ana Bezelga (as duas últimas com projectos em video).
Com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, é uma hipótese de conhecer alguns trabalhos recentes destes criadores nacionais.


Arte>Contempo
Rua dos Navegantes, 46-A (à Estrela)
1200-732 Lisboa
7 de Março a 15 de abril de 2006
5ª feira a Sábado das 14h30 às 19h30

terça-feira, março 07, 2006

Imagens

Foi o fecho de um ciclo, o intensificar de processoas até que se tornam practicamente automáticos, foi o sublinhar do imaginário que tem que estar subjacente a cada passo que damos, a cada exercicio que fazemos, cada gesto, cada comando deve evocar uma imagem, uma sensação, um quadro, uma situação. É esse o objectivo final desta fase, a criação de um universo sensorial que nos vai permitir gravar no corpo as emoções, essas partituras que mais tarde temos que utilizar para desenvolver personagens que tenham vida, expressividade, que seja verdadeiramente credivel.
Ontem fomos privados de alguns sentidos, primeiro da visão, no jogo a pares em que um tapava os olhos a outro, guiando-o pela sala numa suave interacção de protecção e confiança. Em seguida juntamo-nos a três, o do meio confiava de olhos e ouvidos tapados, circulando num imaginário só seu de mundos perdidos e novos. Passei por mais experiências do que imaginei possivel em tão curto espaço de tempo, de padre a carrasco, de uma dança de sedução a um passeio no espaço. No final, gestos criados por cada um de nós, tornados num encadeamento sucessivo de movimento e emoções. Ontem foi um passo mais, outro dificil, para cada gesto uma imagem, uma emoção, e esse passo levou-me numa viagem que abriu, de mansinho, mais um patamar para atingir...

Uma mão cheia


... de vida, de sonhos, de planos, de dias, de ti...

segunda-feira, março 06, 2006

Sem surpresas...até à surpresa final.

Foi na madrugada de ontem para hoje que foi feita a 78ª entrega dos Prémios da Academia de Artes e Ciências: os Óscares. Novo apresentador Jon Stewart, conhecido pelo seu trabalho no Daily Show, prometia comédia crítica e acutilante, desde o primeiro momento que não desiludiu. Com uma entrada onde brincava com a sua escolha para apresentar estes prémios e continuando ao longo da cerimónia a gozar consigo próprio, com a Academia e inclusivé com os temas mais sérios que iam aparecendo. Foi sem dúvida uma melhoria sobre a desgraça que Chris Rock fez o ano passado. De resto a cerimónia estava morna, as músicas não entusiasmavam, as montagens referentes a este ou aquele tema pareciam algo aleatórias e forçadas, quase como se existissem apenas para queimar tempo(Jon Stewart a dada altura vira-se para a câmara e diz "já não temos clips, acabaram-se os clips,por favor, se têm clips em casa enviem-nos, seja sobre que tema for, não importa se é em beta!). Os prémios eram os esperados, os vencedores antecipados subiam a palco para recebê-los como se soubessem de antemão que eram os vencedores e aquilo se tratasse apenas de uma formalidade. Eis senão quando chega o prémio de Melhor Filme. Eu estava confesso, sonolento e já meio cambaleante portanto quando anunciaram Crash como o vencedor demorei alguns segundos a processar a informação. Foi a grande surpresa da noite e a consagração de Paul Haggis, que já tinha levado o Oscar por melhor Argumento Original este ano após ter sido graciado com uma nomeação o ano passado por Million Dollar Baby.
A escolha surpreende, mas o buzz em Hollywood indicava que esta era uma forte possibilidade, até para a Academia se demarcar um pouco dos outros prémios. Pessoalmente acho imerecido, dos 5 candidatos ao Oscar vi 3 e este é o pior do trio, começa bem, o tema é interessante, mas segue uma linha de diversas histórias onde todos são o que não parecem tornado-se portanto algo repetitivo e com esforço colossal de ligar todos os personagens no fim,de uma forma por vezes demasiado rebuscada.

PS - Em comentários ao meu post anterior pediram-me para dizer quais os filmes que eu gostava que ganhassem.Como não vi todos os nomeados esse é um exercicio que ainda não estou em condições de fazer... Para lista completa de vencedores ir aqui.

sexta-feira, março 03, 2006

Por um triz


Eram 16h30, desliguei o computador, levantei-me e preparei-me para sair mais cedo. Patrão fora, dois colegas de férias e um outro que tinha acabado de ir embora. Estava bem disposto. Toca o telefone: "Miguel, prepara-te porque hoje vai ser até tarde!" - era o meu chefe que estava a caminho do escritório. Liguei ao Paulo para ele voltar para trás.
É sexta, são quase 21h30 e eu ainda aqui estou, com a cabeça em água e prestes a rebentar... Bom fim-de-semana a todos...

Oscar Night

Domingo é dia dos Oscares, cerimónia de vista em todo o mundo onde a indústria cinematográfica americana premeia aqueles que dentro de si considera os melhores. Bem sei que os prémios não querem dizer nada e que a Academia tem uma longa história de enganos - basta dizer que no ano de Taxi Driver foi Rocky o eleito com o Oscar de Melhor Filme ou que Alfred Hitchcock nunca foi premiado - e se olharmos então para a última década a lista de disparates não acaba Shakespeare In Love como filme do ano, Julia Roberts com o Oscar por Erin Brockovich, Ron Howard como Melhor Realizador num ano que contava com por exemplo Ridley Scott, Robert Altman e David Lynch na lista de nomeados, o ostracismo de Tim Burton e por aí fora.
No entanto, e se esquecermos o ano passado com a apresentação do desastroso Chris Rock, os Oscares são sempre grandes espectaculos, normalmente com surpresas técnicas, estéticas e cómicas q.b., e representam o sentir da maior indústria de entertenimento do mundo num dado momento. Ao olharmos para o exemplo de Rocky podemos fazer uma análise cultural dos EUA nos anos 70 e como a história deste heroi improvável (que perde o combate caso não se lembrem) tocou num nervo emocional americano.
Este Domingo lá estarei, madrugada dentro a acompanhar o desenrolar dos acontecimentos num ano onde tudo parece já estar garantido.
Aqui fica a minha lista de favoritos à vitória (e não dos que eu gostava que ganhassem):
Melhor Filme - Brokeback Mountain
Melhor Realizador - Ang Lee: Brokeback Mountain
Melhor Actor Principal - Philip Seymour Hoffman - Capote
Melhor Actriz Principal - Reese Whitherspoon - Walk The Line
Melhor Argumento Original - Paul Haggis /Robert Moresco - Crash
Melhor Argumento Adaptado - Larry McMurtry / Diana Ossana - Brokeback Mountain
Melhor Actor Secundário - aqui tenho dúvidas entre George Clooney em Syriana ou Paul Giamatti em Cinderella Man
Melhor Actriz Secundária - Rachel Weisz - The Constant Gardener

The Gift

Já passou quase meia década desde que ouvi pela primeira vez The Gift, o som triste e melancólico de uma voz única. Este How The End... Always End é uma música de uma beleza simples, sofrida, que desde sempre me tocou. Aqui fica...

quinta-feira, março 02, 2006

Syriana

A caça aos filmes em falta continua e a vitima desta vez foi Syriana, nomeado para dois Oscares, Melhor Actor Secundário e Melhor Argumento Original.
Para começar este não é um filme que viva das grandes interpretações dos seus actores, ninguem compromete, mas ninguem é realmente brilhante, a nomeação a Clooney parece ser mais devido à alteração fisica por que passou (engordou bastante para o papel, parecendo um homem banal e longe da imagem de sex symbol), do que propriamente a uma performance de destaque. Não conhecia o realizador, mas parecia-me ser um misto de Tony Scott, Michael Mann e Steven Soderbergh. Curiosamente Soderbergh é produtor executivo desta fita e Stephen Gaghan (o realizador) é o argumentista de Traffic. O enredo gira em torno de uma conspiração internacional que envolve grandes petrolíferas, o Estado americano e lutas de poder no Médio Oriente. As conclusões finais não são novas, os EUA influenciam, mentem, subornam, intimidam e matam para defender os seus interesses económicos. O formato tambem não, quatro personagens e quatro histórias aparentemente diferentes interligam-se. A forma fria e distante com que nos são dadas as situações afastaram-me de sentir algo, ou sequer me preocupar por aqueles personagens, fazendo com que passe em branco por todo o filme. Percebo quem goste mas, pessoalmente, não me disse nada...

P.S. - As imagens estão de volta!! :)

quarta-feira, março 01, 2006

Pessoal

Terça feira de carnaval. Aula de workshop de teatro, mais cedo por causa do aniversário do meu pai. 17h30 iniciava a aula, massagem aos pés, um momento de pausa, de tratar de nós, de cuidar de uma parte do corpo muitas vezes esquecida, o motivo? Antes da aula começar falava-se de meias. Assim o Thiago fazia-nos perceber que nem tudo está pré-programado, que se deve estar atento e reagir conforme o mundo se nos apresenta.
Há duas aulas falou-se de amor, relações humanas, casamento, ontem tivemos que levar um objecto que representasse para nós aquilo que foi dito nessa aula, mostrá-lo, falar sobre ele e reflectir de uma forma diferente (dar-lhe um nome, gostos, sexo, idade, como se de uma pessoa se tratasse). Foi dificil a exposição pessoal desta forma, foi dificil mostrar algo de intimo, único, de verdadeiramente importante. Rodou toda a gente e os sentimentos eram diversos, do amor, à tristeza, à perda, saudade ou ternura. Foi inspirador ver as pessoas abrirem-se e exporem-se de uma forma tão autêntica, tão genuina. A seguir tivemos que representar livremente o objecto em causa, no meu caso não representei o objecto em si, mas o sentimento por detrás do mesmo. Não foi fácil, nada fácil, abrir esta caixa de Pandora e deixar fluir sem censuras algo profundamente emocional. Demorei a aula quase toda para recuperar, para voltar à normalidade. Não estava preparado, não estava à espera desta reacção, foi dificil, foi muito dificil. O resto do tempo passou entre conversa e discussão sobre sentimentos, sobre a veracidade dos mesmos, sobre auto-conhecimento, sobre descoberta, quebrar barreiras e tabus na busca da interioridade, do bem-estar, do prazer. Estamos quase no fim desta fase. Mais duas aulas e damos outro passo em frente. O futuro promete...