Português de nascença, comunista de opção, Nobel de mérito e espanhol por casamento, foi ele o primeiro a fazer-me companhia no meu novo caminho diário, contava-me histórias de um mundo de uma cegueira branca como leite, precedida pela cegueira da alma que foi causa e consequência da primeira. Um mundo de esperança perdida, da bestialidade de um horror inumano e de quem teve que o enfrentar.
Em seguida estive com um jovem checo de nascença, judeu de religião, alemão de língua, que morreu novo demais e deixou atrás de si uma obra inacabada que fala de culpa, dor, inadequação e de um mundo que se move por regras que ele não compreende. Esteve este homem angustiado a falar-me de seu pai, tirano, opressor e que o moldou na sua reclusa fragilidade.
Estou agora com uma dinamarquesa, que por duas vezes esteve perto do Nobel e por duas vezes o perdeu para nomes maiores (Hemingway e Camus), que me mostra vidas e mundos de gelo, dos fiordes longiquos da Noruega, de paixões e naufrágios, de festins, palcos, velhos orgulhosos, e riquezas sumptuosas.
E amanhã, quem me fará companhia?
(Uma das coisas que descobri desde que mudei de casa é que é bom lêr no metro...)
quinta-feira, maio 25, 2006
quarta-feira, maio 24, 2006
As pernas são as marcas...
... que ainda se sentem hoje de manhã.
Para começar somos definitivamente três alunos, três dos sete que iniciaram o percurso.
Ontem levei o CD com a banda sonora da peça, que era há tanto devido. Ainda não o sentia pronto, está incompleto, existem músicas que têm que sair e talvez outras entrem em substituição, já para não falar nas transições entre temas que são absolutamente desastrosas em alguns casos. O impacto no Thiago foi no entanto surpreendente. Craig Armstrong, Nitin Sahwney, Tom Waits e Coldfinger, serviram de base para a criação de novas partituras e o início - agora sim - da construção final da peça.
Peça... uso o termo com precaução. Todas, mesmo todas as partituras têm uma base de dança. E a encenação, direi antes a coreografia, segue os trâmites do bailado contemporâneo, a repetição dos gestos, dos movimentos, sem diálogos. E enquanto é o Thiago a fazer as partituras, ele que tem 20 anos de carreira e diversos cursos de teatro e de dança, tudo é fluido, tudo é fácil. Quando somos nós, o movimento é perro, forçado, em alguns casos quase ridiculo. Não temos nem o conhecimento do próprio corpo, nem a técnica, nem a destreza, nem a experiência para levar algo deste calibre adiante.
Teatro-dança, com mais teatro que dança diz o Thiago... Mas a componente de dança é realmente muito forte.
A ver vamos...
Desta vez trabalho para fazer em casa, ensaiar o texto, escrever a sequência de partituras que foram feitas na última aula e, em dez acções, escrever a história do nosso personagem... Mais inputs para o trabalho final.
Tomei agora uma resolução, vou deixar de me preocupar. Se não sair bem é sempre uma experiência, e as testemunhas não serão decerto muitas!
terça-feira, maio 23, 2006
E os elementos elevam-se

No meio da tempestade que é a preparação de um casamento, as coisas a tratar são um sem número, vem a famosa lista de casamento, que serve para evitar os já tradicionais e tão desagradáveis presentes pirosos, ou a colecção de vinte máquinas de café. Como vai fazer parte da lista torna-se urgente definir a lua-de-mel. Um misto de exótico e urbano foi a primeira escolha, com uma semana em Cuba, não das praias mas a Cuba de Fidel, para a conhecermos antes da morte do velho general, e em seguida uma semana em Nova Iorque, com um contraste profundo entre estes dois mundos. Infelizmente Setembro é a altura dos tufões na América Central, deitando por terra os planos.
Segunda hipótese, Cambodja, tem cidades perdidas na selva lindissimas, e permitia (com Laos, Vietname e Tailândia) conhecer uma zona e cultura diferente e bastante distante. Setembro (como não podia deixar de ser) é um mês de monções no sudeste asiático segundo me dizem.
Não queriamos passar a lua-de-mel na Europa, continente que mais facilmente conhecemos no curto prazo em viagens comuns, mas em cada nova sugestão os elementos elevam-se contra nós... Se formos para Badajoz teremos alguma praga de gafanhotos na peugada?
segunda-feira, maio 22, 2006
Estranheza
Foi o que senti na última aula do workshop de teatro, pelos mais variados motivos. Em primeiro lugar a reunião do dia anterior não correu bem. Nada estava estruturado e o Thiago achava, suponho que como que por magia, que as coisas apareceriam construidas do vazio, e se criavam ligações com quem nunca se tinha antes visto. As reticências colocadas não o deixaram confortável, e as dúvidas que se levantaram deixaram um ambiente um pouco pesado (mas essa é outra história).
Em segundo lugar eramos apenas dois. Não sei quantos sobramos, três de certeza, mas até desses três apenas dois pudemos comparecer à aula.
A última questão prende-se com as partituras que desenvolvemos para ilustrar um quadro de um bêbado que chega a casa e confronta a mulher que quer sair. Não me pareceram fluidas, os gestos sairam algo forçados, e com uma componente coreográfica que não creio termos a capacidade técnica para desenvolver.
Foi uma aula estranha, daí ter levado quase uma semana a escrever sobre ela... Não sei que rumo irá agora tomar... Amanhã outra sessão se avizinha.
Pasmo!
É sempre assim, desde os primórdios deste blog que as visitas se reduzem drásticamente ao fim de semana, para metade, um terço dos dias normais, cheguei inclusivé a ter apenas meia dúzia de visitantes. É natural que assim seja, ao fim de semana raramente posto (e os visitantes frequentes já se aperceberam disso) e nesta altura as pessoas têm mais que fazer que andar a ler blogs.
Mas este Domingo não tive uma única visita! Nem uma! ZERO!!!
Tou pasmo...
sexta-feira, maio 19, 2006
Inside Man
Spike Lee regressa ao grande ecrã com este Inside Man, que é já o maior êxito de bilheteira do sua extensa carreira. De volta está o seu antigo companheiro Denzel Washington (que foi lançado por Spike Lee) na quinta colaboração conjunta, liderando um forte elenco onde se destacam Jodie Foster e Clive Owen. O filme toma os contornos de um thriller tradicional, com um assalto a um banco a ser levado a cabo de uma forma muito profissional mas pouco convencional, num plano considerado perfeito. As surpresas sucedem-se, como é apanágio deste género de filmes, mas existem diversos buracos no argumento que fragilizam uma estrutura bastante sólida, é por exemplo pena vêr alguem do talento de Foster destinada a um papel perfeitamente inconsequente.
Apesar de ser um blockbuster, Spike Lee mantem a sua dose de retrato social de uma América pluri-cultural, de uma metrópole que é o verdadeiro melting pot de pessoas das mais variadas proveniências. Com um virtuosismo na forma de filmar e de narrar a história que lhe é própria, Lee constroi um filme que se consegue destacar dos demais no género, apesar de não ser um marco na sua carreira.
Aconselhável.
Pela Kattaryna

Os Pearl Jam têm um novo album, invulgarmente numa banda com tantos anos de carreira é um album homónimo, passam por Portugal em Setembro e os bilhetes estão à venda nos locais habituais. Saiu uma entrevista no Y de 28 de Abril que não vou postar por ser grande demais.
Fica feita a referência.
Happy now? :D
quinta-feira, maio 18, 2006
Nos pormenores dos gestos
Pânico descubro que a carne picada que precisa de uma hora para estar pronta e que é a base do macarrão no forno, estava estragada. Erro meu, que a deixei quatro dias no frigorifico, bem sei que carne picada se estraga facilmente, mas enfim...
Corri ao Mercado da Figueira, para me reabastecer ainda a tempo de não jantar à meia noite. À minha frente na fila do talho estava um homem, cerca de 30 anos, com compleição indiana. "O que é que queres?" - disse-lhe em tom de gozo o talhante - "Frango sem pele? Porquê, tens medo de sujares as mãos? Não tens facas em casa?" - A enorme faca de trinchar caía sobre o frango despedaçando-o, arrancando a pele com visivel destreza - "Anda cá que eu mostro-te como se faz! Anda cá que levas uma talhada nas mãos que aprendes logo! Na tua terra tiram a pele ao frango?" - e dirigindo-se para uma velha que ali se encontrava à espera - "Era da maneira que aprendia! Eles tambem não fazem nada! Na terra deles não lhes tiram a pele." - Entregou-lhe o frango e o homem saiu. Dirigiu-se a mim: "Então o que deseja? Carne picada? Uma ou duas vezes? O senhor é que manda!"
Não é no facto de não te impedirem o acesso aos mesmos transportes públicos, ou aos mesmos restaurantes, impedirem-te de votar, ou criminalizarem a escravatura, nem de preverem que tens os mesmo direitos pela lei, mas é no dia-a-dia, todos os dias, a cada momento, em cada esquina, dizem-te, mostram-te, nos gestos, nas palavras, nos olhares, nas pequenas atenções, ali sabes - tu és diferente! E nunca te deixam esquecer isso...
I also believe in a better way - sing it Ben...
Sopro do género Eles "andem" aí..., Sim ok... mas agora a sério...
Soprado por MPR às 11:44
quarta-feira, maio 17, 2006

É sempre a mesma coisa, não há nada como a podridão que se instala quando algo fica por resolver entre duas pessoas, quando algo magoou ou marcou de alguma forma e não foi dito, posto para fora, em pratos limpos ali e na hora, doa a quem doer. E agora fica um ressentimento no ar, uma troca de acusações mútuas à distância, com aquele odor amargo do "eu tenho razão e tu não".
E mesmo achando que quem ficou em falta não fui eu, mesmo sentindo não ter feito algo que merecesse este clima de animosidade, fico, como sempre, com um peso nas costas, uma dor nas veias da tensão criada. Mais ainda quando a amizade, de tão recente e precária, ainda não ganhou as raizes que lhe permitam suportar a ventania, ainda não tem um tronco forte para aguentar a tempestade.
terça-feira, maio 16, 2006
A preparar o próximo ano lectivo

Com tanta mudança, tanta adaptação na vida e tanta coisa para tratar no imediato, é facil esquecer aquilo que não é urgente, mas que não deixa de ser importante. Com a experiência do workshop, que vai acabar em Julho, e do atelier de teatro que fiz, queria continuar a aprendizagem, a minha expansão pessoal, num vício de criatividade e expressividade corporal que se apoderou de mim.
Mas desta vez queria algo mais duradouro, mais estruturado, mais "a sério", não querendo com isso afirmar que o workshop que estou a fazer é "a brincar", longe disso, mas precisava de algo mais longo, que seja mais amplo naquilo que ensina, que permita uma exploração ainda maior da arte de representar (da qual sou espectador e fraco aprendiz).
Como tal comecei a fazer a minha busca. Pedi já informações ao espaço Evoe e à Act, que me parecem ter aquilo que procuro. O Chapitô, infelizmente, por alguns dias de incompatibilidade no incio, não é, este ano, opção.
Já agora, alguem tem sugestões de sítios onde procurar?
segunda-feira, maio 15, 2006
É a porra do princípio!
Há aquelas coisinhas pequenas, que na verdade não nos influenciam em nada o curso do dia, mas que, sem motivo aparente, nos deixam profundamente irritado. Uma das coisas são as pessoas que, independentemente da direcção que pretendem tomar, carregam am ambos os botões de chamada do elevador, fazendo com que este pare desnecessáriamente.
Outro é que, quando o botão de chamada já está carregado alguem, depois de olhar para mim, lá vá e pressione segunda vez o dito. Pior ainda é, tendo olhando bem para mim e vendo que já lá estava há algum tempo (não sou pequenino é dificil que não me notem!), entre em primeiro lugar no elevador, sem mais nem porquê. E enquanto que a história de carregar segunda vez no botão ainda pode ser imbirrância minha, o facto de se meter como um senhor crescido à minha frente, irrita-me solenemente. Não pela ordem de entrada, que o elevador tem tamanho para toda a gente e chegamos ao mesmo tempo, mas é a porra do princípio!
-Então vais-te casar?
-Vou
-Parabens!
-E quando é que te vais casar?
-Dia 23
-Eu ia-me casar nesse dia, mas acabou tudo...
-A que horas?
-Às 17
-Era a hora a que eu me ia casar...
-Onde?
-No Campo Grande?
-Com o Padre Vitor?
-Sim, porquê?
-Era nessa paróquia que eu me ia casar, com ele a celebrar o meu casamento!
-!!!
-Só te casas porque eu desisti!
sexta-feira, maio 12, 2006
O Salto
Ontem foi o aterrar do salto, é incrivel a diferença que duas aulas fazem no desenvolvimento do trabalho de actor, da construção de personagem, do próprio trabalho final.
Ontem continuámos com o trabalho com as partituras dinâmicas, movimento constante, um jogo de cadeiras em constante correria, até nos sentarmos, fixarmos a emoção e dizermos o texto que tinhamos preparado, assim, no momento. O barulho foi demais para o vizinho de baixo que subiu as escadas e ameaçou chamar a policia se não parássemos!
Mudança forçada de planos, o jogo agora decorria como se tivessemos a pisar ovos, os movimentos suaves, com uma tensão no andar. As mudanças de partituras podem ser feitas, mas não se pode ficar no vazio, se não for assumidamente depressa, tem que ser marcadamente lento, o meio termo aqui é que não funciona. Em frente com o trabalho, esta alteração veio trazer um nervo ao texto, à acção, como se algo se passasse que não se percebia bem o quê, como se existisse um segredo escondido por detrás daquelas palavras. Tira-se agora as cadeiras, a partitura mantem-se, cada vez mais interacção, mais emoção, mais texto.
Treino final de agressividade e defesa, movimento de ataque e gestos de medo, e sempre, sempre o texto de premeio. É incrivel as prestações que comecei a ver dos meus dois colegas (ontem fomos de novo apenas 3), não que mereçam o Grande Prémio do Juri em Cannes para a representação, mas ali, naqueles olhos vi, de uma forma genuina e constante, verdadeira emotividade, medo, raiva e texto... o mesmo texto que se nos enrolava na boca, a sair, fluido, genuino, sem pensar...
Relaxamento final feito com lençois, que lá ficaram depositados para mais tarde ganharem o seu papel e a sua energia próprias.
Um apontamento que me deixou mais calmo, a apresentação que vai ser feita no final deste workshop, vai ser feita sob a forma de exercicio público, e não necessáriamente uma peça no sentido mais tradicional do termo. Esse projecto, essa verdadeira peça, será desenvolvida no âmbito da associação de teatro que está a ser montada agora e à qual quero vir a pertencer, composta por ex-alunos do Thiago. Domingo temos uma reunião, a ver vamos o que dali sai...


