segunda-feira, junho 26, 2006

Hard Candy

De um panorama cinematográfico que se encontra por estas semanas bastante parado, escolhi para regressar às salas de cinema o filme Hard Candy. Este é a película de estreia do realizador David Slade, que tem construido a sua carreira em videos de música. Este projecto, no entanto, é o mais longíquo que se possa imaginar de um trabalho MTV. Pequeno em escala, tenso, claustrofóbico, controverso, é um filme que se baseia no seu argumento, numa realização contida, intensa e profundamente eficaz, mas acima de tudo é um filme que vive do trabalho extraordinário dos seus dois actores Patrick Wilson e a inacreditável Ellen Page, que com apenas dezasseis anos consegue uma prestação de uma força, uma complexidade, uma emotividade e gama tais, que rápidamente se tornará um nome de referência, caso consiga fazer as escolhas certas na sua carreira.


Hard Candy é um filme sobre pedófilia. Mas não é um filme simples, não é uma história de preto e branco, confronta-nos, surpreende-nos e questiona-nos a cada momento. De um início absolutamente soberbo, do encontro dos dois personagens principais num café, após se terem encontrado na net, a história nunca mais os abandona. É dificil, sem revelar o que se segue, comentar o desenrolar da acção, mas infelizmente a meio perde-se o rumo, as reviravoltas tornam-se demasiado absurdas, e o argumento bastante rebuscado.
Este é no entanto, um objecto muito interessante, que questiona as nossas próprias noções de bem e de mal, de certo ou errado...

sexta-feira, junho 23, 2006

Dissolução

Dissolução é o primeiro romance de C.J. Sansom, advocado doutorado em História. Trata da investigação de um homicídio, passado num mosteiro no século XVI, em Inglaterra. A capa diz "Um policial histórico que traz à memória O Nome da Rosa" (apesar de se passar dois séculos mais tarde), mas as semelhanças com a história de Umberto Eco param aqui, à excepção de um piscar de olho com uma referência fugaz ao segundo volume da Poética de Aristóteles, que se debruçaria sobre a comédia.
Sansom consege construir um enredo interessante durante a maior parte do livro, com uma escrita fluída e até cativante. No entanto cria um universo com um numero vasto de personagens, sem conseguir defini-las de uma forma profunda, criando em alguns casos figuras estériotipadas, lineares, planas. A maioria dos abades que se move no mosteiro onde a maior parte da acção se desenrola existe apenas para fazer número e multiplicar a quantidade de suspeitos, sem ter um papel fundamental na construção do enredo. O autor faz um esforço de tal maneira desmesurado para ilibar um dos personagens, mencionando o nome de todos menos o deste como possiveis homicidas repetidas vezes, que se torna evidente qual o culpado final. Pior ainda, a descoberta da trama é feita com base em apenas dois objectos que aparecem de forma fortuíta já em capítulos avançados, fazendo parecer que todo o resto do livro pouco mais serve do que encher espaço. A própria acusação final aparece tão infundada, tão vaga, que nos interrogamos se o autor fez sequer um esforço para arranjar uma forma de explicar como é que o nosso heroi ganhou a certeza de quem era o culpado.
Com uma crítica tosca e óbvia à Reforma Protestante em Inglaterra, nomeadamente aos métodos usados por Cromwell e por Henrique VIII, quase esquecendo que a tortura, a mentira, a ganância e o fanatismo não foram uma invenção inglesa, nem o exclusivo das ilhas britânicas ou dos reformadores.

É, infelizmente uma desilução, apesar de inicialmente prometer uma história mais envolvente e sem grandes pretensões.

quinta-feira, junho 22, 2006

"mas qu'os há os há!"

Lisboa, nove da manhã na Baixa. Junto a uma banca de jornais um homem diz convicto: "... que o Crime tem lá um bruxo e há três semanas o bruxo no Crime disse que a Selecção passava aos oitavos e não passava de lá. Portanto lá está, que há quem diga que não acredite em bruxos, mas qu'os há os há!"

E contra factos não há argumentos!

quarta-feira, junho 21, 2006

Ponto de viragem


Quando em 1991, na festa do meu 12º aniversário, um dos meus amigos de infância me ofereceu o LP (sim, o LP), deste Out Of Time dizendo "é uma banda que ando a ouvir, gosto muito.", não podia imaginar que se tratava de um dos albuns quintessênciais da música rock, e o ponto de viragem na carreira de uma banda que levava já uma década de existência. Com Out Of Time, os R.E.M. sairam definitivamente do mundo underground, onde construiram nome ao longo da década de 80 com a pequena editora IRS, e conseguiram conciliar reconhecimento dos seus pares, da crítica e sucesso comercial. Com a Warner Bros atingiram o mainstream, sem no entanto terem nunca comprometido o seu som e liberdade artística. Prova disso é a multiplicidade de estilos e experiências, nem sempre bem conseguidas mas sempre arriscadas e interessantes, que assumiram a seguir aos êxitos deste album e de Automatic For The People. Por exemplo Monster é, ao contrário dos anteriores, um album pesado, com um som electrico, e Up, o primeiro album após a saida do baterista Bill Berry, é uma experiência de maturidade sublime, onde os ritmos são agora electrónicos e de uma sonoridade complexa.

Aqui vos deixo Half A World Away, uma das primeiras músicas que me fascinaram desta banda de referência.

terça-feira, junho 20, 2006

Santo António já se acabou...


Mas mesmo assim ainda lá dei um pezinho e provei umas sardinhas que estavam, como deviam, a pingar bastante, pão à parte que pessoalmente não gosto da mistura. Na segunda de Sto. António não tinha previsto ir jantar aos santos, era só acompanhar a noiva e a cunhada a uma caracolada, para depois ir saborear o bifinho a casa. Sublinho o acompanhar, dê lá por onde der não consigo gostar de caracois, só o cheiro me faz confusão e o aspecto dos bichos rastejantes que passeiam o seu visco sabe-se lá por onde é absolutamente repugnante.
O problema foi passar pela Fnac a matar um jejum que data já de 2005. Foram vários meses sem comprar nada para mim, e o sufoco era demasiado: Sérgio Godinho, Mart'Nália e Truman Capote foram as vítimas deste pequeno surto de compras, após longa e penosa escolha.
Quando nos dirigimos para os caracois eram já dez para as nove, o aperitivo de fim de tarde transformou-se em jantar, e como sempre nestas alturas apareceram mais amigos que rondavam a zona. Vieram os caracóis, o pão, as febras, a salada de pimentos e, claro está, as famosas sardinhas.
A confusão era muita, as pessoas, os cheiros, as mesas e assadores. A multidão passava, a sangria e a cerveja corriam soltos. No meio de toda a agitação, numa rua que tinha sido vedada ao trânsito, estava pomposamente estacionado um carro. Infeliz o dono, terá toda a gente pensado, que não sai daqui com o bicho em muito bom estado. O problema é que o carro... era o meu! Estava ali parado há já alguns dias, o uso regular do metro não lhe dá muita saída e esquecemo-nos de o mudar. Foi com o coração na garganta que o encontrei no meio do tumulto, mas sobreviveu quase ileso. Só dei conta do limpa pára-brisas traseiro partido, mas nem posso garantir que tenha sido ali.
Subida ao bairro para ir ter com outros amigos. Deve ser a única noite do ano em que aquelas são as ruas mais calmas das redondezas. A noite acabou cedo. A cama chamava, mas... viver no centro do furacão não é pacífico. Foi barulho até de madrugada, com o comboio-a-apitar-na-garagem-da-vizinha-enquanto-se-apanhavam-na-minha cama-com-ela-e-nós-pimba!
Custou mas foi, acabei por adormecer...
Para o ano há mais...

segunda-feira, junho 19, 2006


De regresso de umas mini-mini férias que aproveitaram os feriados e as pontes-sobre-os-dias-para-parecer-que-descansamos-mais-desta-forma.
A ida foi calma, apesar da ameaça de ficarmos em Madrid devido a mau tempo no aeroporto das Astúrias. O terminal quatro é interessante, mas passar lá a noite não estava nos planos.
Os picos da Europa são de facto lindíssimos, mas aproveita-se melhor se se fizer turismo activo (ou como anunciava um cartaz, hyper-activo!), coisa que o tempo não permitiu.
A caminho de Bilbau, paragem em Santander que é uma cidade completamente desinteressante, mas isso só se sabe depois de lá ter ido!
Bilbau está como sempre a merecer uma visita, uma cidade que vive de uma arquitectura variada, onde o antigo e o ultra-moderno co-habitam harmoniosamente, com uma zona velha muito pitoresca e o Guggenheim.
Aquele museu é deslumbrante, as instalações do Serra que já lá estavam há dois anos são fantásticas e o resto... o resto merece o passeio pelo espaço.
Os espanhois continuam a falar alto, continuam a comer muito e relativamente mal.
A viagem de regresso foi durinha, mais de 11 horas de carro com paragem em Burgos para ver a Catedral que tinha fechado para visitas... 15 minutos antes.
Foi uma pausa que, como sempre, foi demasido curta.

segunda-feira, junho 12, 2006

Vou-me vou-me, mas volto!

Para aproveitar os feriados, este blog vai tirar férias e conhecer as tão badaladas pontes. Bons feriados e bom santo antónio para todos! Até segunda...

São três semanas... são três meses...

Foi na rua com nome de menina que se esconde por detrás da minha, e que tem o nome escarrapachado no meu B.I, que se fez o ensaio do teatro. Saímos da Ajuda, da casa do Thiago, onde os vizinhos já ameaçam chamar a polícia se não deixarmos de fazer barulho, e fomos para um sitio onde podemos estar sem incomodar ninguem e com espaço suficiente para fazermos os exercicios.
Estava manco, com alguma dificuldade em me mexer, mas mesmo assim tive pena da maior parte da aula se ter passado em conversa e marcação de datas. Sim arranjei os movimentos para o monólogo e as partituras para os movimentos, mas foi muito pouco tempo de trabalho, sem intervenção do Thiago e onde, na verdade, não consegui sustentar qualquer tipo de emotividade, ficando portanto num registo forçado e falso.
Agora são três semanas sem aulas, esta é dos feriados e está muita gente de férias, e as próximas duas são as que antecedem a estreia da peça do Thiago. Ao que parece ele não consegue fazer nada nas vésperas de estrear e portanto as aulas estão suspensas. Três semanas... depois em Julho quatro aulas em quinze dias e voltamos ao trabalho em Outubro. Mais três meses.
Já não vamos estrear no Maxim, a peça afinal vai ser em conjunto com outros alunos dele e vai ser em Cascais (ou assim agora se prevê).

Valeu a sardinhada dessa noite, que pingava e estava muito bm assada...

sexta-feira, junho 09, 2006

Out in the open

E pronto, a minha mãe descobriu ontem este blog, sendo que o meu pai é já leitor há algumas semanas.

É agora um blog aberto a todos os que me conhecem, excepção feita à malta do emprego, que trabalho é trabalho e cognac é cognac.

Bem-vindos...

Crédito onde o crédito é devido

E se levaram ontem com um post irado, hoje merecem um post de reconhecimento. Bastaram dois telefonemas para a LisboaGás e para a EDP, com as leituras correctas dos contadores e o problema está aparentemente resolvido. As facturas enviadas são eliminadas e são feitas outras com os valores exactos. Gostei do atendimento e da rapidez de resposta.

Afinal nem toda a gente funciona mal...

quinta-feira, junho 08, 2006

Estimativa


estimativa s. f., - cálculo; avaliação; cômputo.

(ainda é vago, preciso de mais ajuda)

avaliação s. f., - acto de avaliar; valor determinado pelos avaliadores; estimativa;
fig., - apreciação; estima.

Ok agora entendi, se uma estimativa é uma avaliação e uma avaliação é o valor determinado pelos avaliadores, então está justificada a conta de mais de 600 euros que os senhores do gás e da luz me meteram em casa. Para eles uma estimativa (como se pode provar pela definição de dicionário) é o valor que eles próprios (avaliadores) quiserem. E eles determinam que duas pessoas, novas, que nunca chegam a casa antes das sete da tarde, depois de terem pago todos os meses o que era devido, ainda têm que desembolsar mais 600 euros de consumo estimado!!!!
Mas nós andamos a fazer o quê? A gerir uma discoteca? Um parque de diversões? Qual das máquinas com potência suficiente para pôr o homem na Lua é que justifica esta estimativa de consumo? Terei eu por acaso espectáculos contínuos de pirotecnia para consumir este gás todo?
Será que em casa da mãezinha destes senhores o consumo é tão elevado?

quarta-feira, junho 07, 2006

Teorias Freudianas do Pequeno-Almoço

Numa sociedade que se afirma cada vez mais racista há um elemento de clara contradição: a imensa vontade que muita gente demonstra em ser negro. São as horas ao sol, os auto-bronzeadores, as centenas de euros nos solários, tudo com um único propósito: ficar cada vez mais escuro.
Não misturo aqui obviamente o simples gozo de ir à praia, ou mesmo o bronze que nos retira as tonalidades amarelo-esverdeada do rosto.
Refiro-me ao esforço concentrado, sistematizado, organizado e muitas vezes pago, que tem como única finalidade o escurecimento da pele.
Esta TFPA (Teoria Freudiana do Pequeno-Almoço), desenvolvida hoje por volta das oito da manhã, defende que na verdade existe uma busca para se tornar negro que tem como base a inveja do pénis e suas variantes sexuais masculinas e femininas. Na verdade quem é visto como grande amante? O macho latino, escuro, dominante, poderoso. Quem destila sexualidade? A mulata, morena, quente. E quem é visto como o homem com o maior orgão sexual, aliás com a componente fisica mais desenvolvida? O negro.
Ao invés o branco é associado com a beleza pura, angelical, com a meninice, com comparações com bonecas de porcelana, mas com um ar frágil, delicado, subtil.
É o complexo de inferioridade sexual que leva a esta busca desenfreada do escurecimento do corpo.
No seu inconsciente animal, debaixo das suas neuroses e fragilidades, o homem branco inveja o negro. Por detrás dos insultos e do rebaixamento existe um fascinio por uma capacidade sensual que roça o ridiculo, e se aproxima do culto inconsciente de idolos de bronze.

Mas vá... é só uma teoria!

terça-feira, junho 06, 2006

The New World


Terrence Mallick começou a sua carreira de realizador em 1969 e fez a sua primeira longa-metragem em 1973 com Baldlands, um filme polémico com Martin Sheen e Sissi Spacek. Cinco anos mais tarde voltou a atrás das câmaras em Days of Heaven com Richard Gere. Seguiu-se um interregno de duas décadas e em 1998 ressurgiu com o muito aclamado Thin Red Line.
The New World é a sua última obra, um filme que segue a história de um explorador inglês que conhece e se apaixona por Pocahontas, passando a meio do filme a seguir a história desta famosa india.
The New World não é uma película fácil, com um ritmo muito lento, a história avança com um tempo muito próprio e um tom de uma suave melancolia que se insinua a cada momento. É no entanto um filme lindissimo, em que a beleza das imagens nos rodeia e nos seduz, seguindo como fio condutor para uma história de amor, perda e redenção.
Um dos pontos fortes desta fita é o seu elenco, liderado por Colin Farrel - dos mais talentosos actores da nova geração - com Christopher Plummer e Christian Bale, mas a grande revelação é Q'Orianka Kilcher, uma jovem de dezasseis anos que foi escolhida para o papel de Pocahontas com apenas 14. Filha de pai peruano, mãe suissa e nascida na Alemanha, é de uma subtileza e de uma maturidade na sua actuação invulgar até em actrizes experientes.

Um filme diferente, mas não para agradar a todos.

  • Então isso da perna foi conm o quê? Mota?
  • Não. Não foi de mota, torci o pé.
  • É que essas motas são perigosas.
  • Pois...
  • O pára-choques é o corpo.
  • ...
  • Costumava levar muitos ali à companhia de seguros por causa das motas.
  • ...
  • Não há nada a proteger-nos como nos carros.
  • ...
  • A minima coisa e vai-se logo de rebolão.
  • Pois, mas eu torci só o pé, eu nem ando de mota.

Entrei no Taxi e repeti a mesma frase dos últimos dias "5 de Outubro por favor". Comecei a ouvir um barulho repetitivo, baixo, irritante e vi que o homem cortava as unhas enquanto conduzia. Foi então que olhei para as minhas e reparei que já precisavam de um corte...