quinta-feira, julho 06, 2006

Força Z.

Há momentos da vida que por mais preparados que estejamos nos apanham sempre de surpresa, e há pessoas de quem sentiremos sempre a falta passem quantos anos passarem.

A música desta semana é de um dos grandes senhores de sempre, um icon, Bob Dylan. Em 1973 ele gravou, no album Planet Waves este Forever Young, que se tornou uma das suas canções de referência em todo o mundo.

Vai com dedicação para uma amiga e companheira das lides de palco, que perdeu alguem muito próximo há bem pouco tempo.

Um beijinho Z.

quarta-feira, julho 05, 2006

A poupança

O cheiro inundava a casa, um misto amargo de queimado, com azedo, com um travo a gordura, era profundamente enjoativo. Ao entrar na cozinha tornou-se insuportável. Um esgar de nojo percorreu-me o rosto. Que foi isto?
O óleo do Jumbo, o bom óleo Auchan, novo, tresandava após fritar uns panados de frango. O cheiro nauseabundo espalhou-se por todas as divisões, colou-se à comida tornando-a impossivel de engolir.
Tudo para o lixo, óleo, almoço e o resto com uma lavagem profunda. Lixivia no lavatório para não restar rasto.

A poupança de alguns cêntimos no preço do óleo custou-nos a garrafa inteira, a comida, o trabalho e o cheiro entranhado nas roupas, nas equinas, no corpo.

Há mesmo que saber que produtos não comprar marca branca...

A Lula e a Baleia

Quando a geração do peace and love dos anos 60 chega ao poder e forma familia o descalabro da estrutura familiar começa.
A Lula e a Baleia, filme de Noah Baumbach, argumentista de The Life Aquatic With Steve Zissou, é um terno, provocante, dramático e hilariante retrato de uma separação numa familia intelectual americana em meados dos anos 80. Com Laura Linney e Jeff Daniels nos principais papeis, é a baseado na experiência pessoal do realizador (filho do escritor Jonathan Baumbach). Um filme arriscado desse ponto de vista, com uma visão agridoce, mas bastante crítica de todo o processo, que se torna um exemplo do fracasso da familia enquanto instituição, que se inicia naquela década: "Os teus colegas todos não têm os pais divorciados?"
A arrogância intelectual do pai, a devassidão da mãe, a sua própria falta de talento e plágio constante, e o descontrolo alcoólico do irmão mais novo, fazem parte de uma parafernália de confusas ideias, emoções e sensações que acarreta toda a experiência.
Vencedor do prémio para melhor realização e melhor argumento em Sundance, A Lula e a Baleia tem sido premiado em diversos circulos, incluindo uma nomeação para o Oscar de Melhor Argumento Original e 3 nomeações para os Globos de Ouro.

Um pequeno filme independente que prova uma vez mais que o cinema americano não se limita à idade mental de 4 anos, que está vivo, pulsante e capaz de surpreender.


terça-feira, julho 04, 2006

No meu prédio


São pedras, são madeiras, são cinco andares de uma existência que começou em 1777 (na altura seriam só três), ano de construção e que dura até hoje, com a varanda ao comprido, o quarto de vestir, as tábuas corridas de madeira, as portadas, o pé direito alto, a luz todo o dia, a pedra do forno na cozinha.
O primeiro andar no entanto é um caso à parte. Com uma entrada própria, ocupa todo o edificio, que tem normalmente duas casas por piso. Salão imenso, salas forradas a madeira, foi comprado por um arquitecto, jovem, que planeia fazer ali o seu atelier e residência.
Foi através dele que descobri, e mais tarde confirmei, que naquele prédio, naquela casa, naquele primeiro andar, trabalhou durante alguns anos Fernando Pessoa.

São 230 anos de vida de um prédio... com muita história... E são pormenores destes que acrescentam ao gozo de viver na Baixa...

segunda-feira, julho 03, 2006

Samaritana

Há uma adolescente, de sorriso ingénuo, que sonha ir à Europa. Há uma amiga, que a ajuda a prostituir-se para alcançar esse sonho. Há um amor jovem, intenso, puro. Há um pai, policia, viuvo, carinhoso, que desconhece completamente a vida paralela da filha. Há um clima tenso, de tragédia eminente, e uma beleza triste em cada passo. Samaritana, o último filme do coreano Kim Ki Duk (o mesmo que já nos tinha trazido Ferro 3) que ganhou o Prémio de Realização em Berlim.
Um exclusivo do Alvaláxia em Portugal, e merece a visita.


sexta-feira, junho 30, 2006

Conversa alta e animada no metro, alguem vociferava algo a ver com Castelo Branco e Bragança. Levanto-me. Ele, alto, muito magro, calças azuis a estrear, camisa vermelha, virava sem parar as páginas do "Metro". Olhando a porta, de costas para toda a gente, gritava sozinho: "Nem antigamente, quando isto era pior. Agora nem as capitais de distrito, nem Bragança, ou Castelo Branco!". Quando as portas se abriram começou a correr como se perseguisse o seu destino.

A rotunda do Saldanha à hora do almoço não se afigura como o sitio mais apetecivel para passear de carro. Atrasado para uma refeição que o meu estômago há muito pedia, irritado pelo trânsito excessivo que a greve do metro origina, fazia a curva em direcção ao sinal vermelho. Parado, perto da berma, mas ainda na estrada, estava um espectro, curvado, fato completo castanho muito usado, saco de plástico numa mão e bengala na outra, que não se apoiava no chão. Parecia o João César Monteiro, que, em vez de morrer, se tinha escondido no meio dos indigentes da sua cidade. Barba rala, olhava atentamente o vazio...

A primeira vez que o vi estava sentado numa cadeira de plástico, a meio da tarde, no pequeno espaço entre carros estacionados. Dias mais tarde, numa noite de Junho, situava a mesma cadeira na ombreira da porta de um restaurante da mesma rua. Mas ontem pouco depois do Arco Escuro na Rua dos Bacalhoeiros, esta velha figura adormecida, com a idade bem avançada, via escorrer languidamente os dias rodeado das bases de um andaime que ali está a ser colocado. Parecia uma triste escultura em exposição...

quinta-feira, junho 29, 2006

Miss Daisy


Estreia amanhã a peça Miss Daisy de Alfred Uhry, premiada com o prémio Pulitzer e que deu origem ao filme Driving Miss Daisy com Jessica Tandy (vencedora de um Oscar pelo seu papel) e Morgan Freeman.
Na sua primeira representação em Portugal cabem a Eunice Muñoz e Thiago Justino encarnar os personagens, num trabalho que explora a vivência de uma senhora judia e o seu motorista na América sulista dos anos 50.
É o regresso de Eunice ao auditório que tem o seu nome, e para mim é uma oportunidade de ver o meu professor de teatro em palco pela primeira vez.

São apenas 14 interpretações num curto espaço de tempo.

MISS DAISY",
de Alfred Uhry
Aud. Municipal Eunice Muñoz (Rua Mestre Aviz - Oeiras)
4ªs, 5ªs, 6ªs feiras e Sábados - 21H30 / Domingos - 17H00
De 30 de Junho a 15 de Julho
Actores:Eunice Muñoz, Guilherme Filipe e Thiago Justino
Encenação e Direcção: Celso Cleto
Informações:Telef. 214 408 582 / 214 429 304 –
paulo.afonso@cm-oeiras.pt rmaria.desousa@gmail.com
Bilhetes:10,00
Bilheteira: No local - 2ªs e 3ªs feiras - das 14H00 às 18H00 / 4ªs feiras a sábados - das 14H00 até às 21H30 / Domingos - das 14H00 às 18H00 /
Reservas: 214 429 304 ou 960 272 519
Lojas FNAC, Lojas de viagens ABREU e www.ticketline.pt (Reservas: 210 036 300)

Para a Alex


Há canções que, a seu jeito, nos confortam, inspiram ou dão conselhos valiosos.
Aqui vai para a Alex, escritora, fotógrafa e heartbraker... porque há gente que não merece minha amiga...


Chega

"Não, não te quero mais,
Agora eu que decido aonde eu vou...
Não, não, não suporto mais,
Prefiro andar sozinha como sou...!
Andar de madrugada feito traça,
Feito barata, feito cupim...
Dizer p'ra mim que eu gosto mais de mim,
Que eu sou assim e não tem jeito...
Vai sair da minha vida,
Você vai ter que mudar
Da minha casa, de atitude, chega!
Ainda mais agora que eu vou viajar,
P'ra me livrar de você!
Não quero mais ser seu amigo, nem inimigo, nada!
Andar de madrugada feito traça,
Feito barata, feito cupim...
Dizer p'ra mim que eu gosto mais de mim,
Que eu sou assim e não tem jeito...
P'ra entrar na minha vida
Você vai ter de mudar
Da minha casa, de atitude, chega!
Ainda mais agora que eu vou viajar,
P'ra me livrar de você!
Não quero mais ser seu amigo, nem inimigo, nada!
P'ra entrar na minha vida
Você vai ter de mudar
Da minha casa, dos seus amigos e chega!
Ainda mais agora que eu já viajei e me livrei de você,
Não quero mais ser seu amigo, nem inimigo, nada!
Pra você é o fim da estrada,
Com você fechei a tampa
Da minha casa, dos meus amigos, chega!
Ainda mais agora que eu vou viajei e me livrei de você,
Não quero mais ser seu amigo, nem inimigo, nada!
P'ra você é o fim da estrada,
Com você fechei a tampa!..."

Mart'Nália é a filha do cantor Martinho da Vila e o seu nome é a mistura do nome do seu pai com o de sua mão Anália. O primeiro album data de 1987, mas esteve dez anos até gravar a sua segunda obra. Pé do meu Samba é o terceiro disco desta cantora, dos ritmos quentes do samba, que descobri há pouco tempo...

quarta-feira, junho 28, 2006

Foto de Alexandra Gil

O miudo do cão agora anda no metro - foi a primeira coisa que pensei quando o vi, calças ruças, camisa de fora e aquele cachorro pendurado no ombro enquanto segurava um balde, improvisado com um cordel e uma garrafa de plástico cortada, na boca. O acordeão soava da mesma forma, rude, desengonçada, mas de quem já tem alguma experiência nas mãos. Ele já não é um miudo e o cachorro já não é um cachorro, ambos apenas pequenos de estatura. Olhando melhor o cão já não é o mesmo, o pêlo maior e mais lustroso e as patas menos firmes denunciam-no, é o fiel depositário das esmolas, mas não denota a segurança nos ombros do dono.
Lembro-me agora que nem ainda há dois dias o tinha visto no chão da Rua Augusta, sorriso firme no rosto, rodeado de outros miudos, cada um deles com o seu cão nos ombros e o seu acordeão nos braços. Ganhou seguidores, o fiel amigo de quatro patas derrete corações e as cópias tornam-se inevitáveis, é a crua lei da oferta e da procura. Vendo bem se calhar não era o miudo que agora deambulava no metro, mas sim algum da sua falange de adeptos, que resolveu, ou foi forçado a seguir esta vida.

Aquele que conhecia, o eterno da Rua Augusta, tinha um ar vivo, esperto, um olhar terno e sorria como se fosse feliz, sentado no chão, na calçada, a tocar notas um pouco desencontradas para uma plateia que olhava enternecida para um cachorro, empoleirado muito quieto no ombro, como o papagaio de um qualquer pirata de perna de pau, das histórias encantadas que ele ainda tinha idade para ouvir...

Dizia ontem um locutor de rádio: "e vai haver uma interrupção entre os oitavos de final e os quartos. Mas como vamos nós VIVER sem futebol?"

O ênfase na palavra viver foi tal que pensei que fosse caír fulminado por um raio à primeira luz do dia de hoje, incapaz de VIVER sem futebol.

Mas depois continuou "Nestes dias vamos fazer a análise do campenonato, as estatisticas, entrevistas e a previsão da próxima fase."

Suspirei de alívio. Afinal é possivel VIVER com substitutos de futebol, como se fosse uma metadona aldrabada.

Ainda bem. É que já tinha planos para o fim-de-semana...

terça-feira, junho 27, 2006

Há seres...

Há seres que se escondem nas pregas escuras do ciber-espaço que, sentindo-se autênticos cavaleiros, defensores consagrados da moral vigente, mui altos protectores dos valores universais que, normalmente anónimos (o que contrasta com o ar de damas ou cavalheiros da mais pura estirpe), se dignam a saltitar de blog em blog espalhando ao vento comentários e críticas como se tivessem do seu lado a luz divina.

Mas de onde é que saem estas criaturas?

segunda-feira, junho 26, 2006

Hard Candy

De um panorama cinematográfico que se encontra por estas semanas bastante parado, escolhi para regressar às salas de cinema o filme Hard Candy. Este é a película de estreia do realizador David Slade, que tem construido a sua carreira em videos de música. Este projecto, no entanto, é o mais longíquo que se possa imaginar de um trabalho MTV. Pequeno em escala, tenso, claustrofóbico, controverso, é um filme que se baseia no seu argumento, numa realização contida, intensa e profundamente eficaz, mas acima de tudo é um filme que vive do trabalho extraordinário dos seus dois actores Patrick Wilson e a inacreditável Ellen Page, que com apenas dezasseis anos consegue uma prestação de uma força, uma complexidade, uma emotividade e gama tais, que rápidamente se tornará um nome de referência, caso consiga fazer as escolhas certas na sua carreira.


Hard Candy é um filme sobre pedófilia. Mas não é um filme simples, não é uma história de preto e branco, confronta-nos, surpreende-nos e questiona-nos a cada momento. De um início absolutamente soberbo, do encontro dos dois personagens principais num café, após se terem encontrado na net, a história nunca mais os abandona. É dificil, sem revelar o que se segue, comentar o desenrolar da acção, mas infelizmente a meio perde-se o rumo, as reviravoltas tornam-se demasiado absurdas, e o argumento bastante rebuscado.
Este é no entanto, um objecto muito interessante, que questiona as nossas próprias noções de bem e de mal, de certo ou errado...

sexta-feira, junho 23, 2006

Dissolução

Dissolução é o primeiro romance de C.J. Sansom, advocado doutorado em História. Trata da investigação de um homicídio, passado num mosteiro no século XVI, em Inglaterra. A capa diz "Um policial histórico que traz à memória O Nome da Rosa" (apesar de se passar dois séculos mais tarde), mas as semelhanças com a história de Umberto Eco param aqui, à excepção de um piscar de olho com uma referência fugaz ao segundo volume da Poética de Aristóteles, que se debruçaria sobre a comédia.
Sansom consege construir um enredo interessante durante a maior parte do livro, com uma escrita fluída e até cativante. No entanto cria um universo com um numero vasto de personagens, sem conseguir defini-las de uma forma profunda, criando em alguns casos figuras estériotipadas, lineares, planas. A maioria dos abades que se move no mosteiro onde a maior parte da acção se desenrola existe apenas para fazer número e multiplicar a quantidade de suspeitos, sem ter um papel fundamental na construção do enredo. O autor faz um esforço de tal maneira desmesurado para ilibar um dos personagens, mencionando o nome de todos menos o deste como possiveis homicidas repetidas vezes, que se torna evidente qual o culpado final. Pior ainda, a descoberta da trama é feita com base em apenas dois objectos que aparecem de forma fortuíta já em capítulos avançados, fazendo parecer que todo o resto do livro pouco mais serve do que encher espaço. A própria acusação final aparece tão infundada, tão vaga, que nos interrogamos se o autor fez sequer um esforço para arranjar uma forma de explicar como é que o nosso heroi ganhou a certeza de quem era o culpado.
Com uma crítica tosca e óbvia à Reforma Protestante em Inglaterra, nomeadamente aos métodos usados por Cromwell e por Henrique VIII, quase esquecendo que a tortura, a mentira, a ganância e o fanatismo não foram uma invenção inglesa, nem o exclusivo das ilhas britânicas ou dos reformadores.

É, infelizmente uma desilução, apesar de inicialmente prometer uma história mais envolvente e sem grandes pretensões.

quinta-feira, junho 22, 2006

"mas qu'os há os há!"

Lisboa, nove da manhã na Baixa. Junto a uma banca de jornais um homem diz convicto: "... que o Crime tem lá um bruxo e há três semanas o bruxo no Crime disse que a Selecção passava aos oitavos e não passava de lá. Portanto lá está, que há quem diga que não acredite em bruxos, mas qu'os há os há!"

E contra factos não há argumentos!

quarta-feira, junho 21, 2006

Ponto de viragem


Quando em 1991, na festa do meu 12º aniversário, um dos meus amigos de infância me ofereceu o LP (sim, o LP), deste Out Of Time dizendo "é uma banda que ando a ouvir, gosto muito.", não podia imaginar que se tratava de um dos albuns quintessênciais da música rock, e o ponto de viragem na carreira de uma banda que levava já uma década de existência. Com Out Of Time, os R.E.M. sairam definitivamente do mundo underground, onde construiram nome ao longo da década de 80 com a pequena editora IRS, e conseguiram conciliar reconhecimento dos seus pares, da crítica e sucesso comercial. Com a Warner Bros atingiram o mainstream, sem no entanto terem nunca comprometido o seu som e liberdade artística. Prova disso é a multiplicidade de estilos e experiências, nem sempre bem conseguidas mas sempre arriscadas e interessantes, que assumiram a seguir aos êxitos deste album e de Automatic For The People. Por exemplo Monster é, ao contrário dos anteriores, um album pesado, com um som electrico, e Up, o primeiro album após a saida do baterista Bill Berry, é uma experiência de maturidade sublime, onde os ritmos são agora electrónicos e de uma sonoridade complexa.

Aqui vos deixo Half A World Away, uma das primeiras músicas que me fascinaram desta banda de referência.