sexta-feira, julho 14, 2006
Ela trazia a corpo voluptuosamente apertado nas curvas de uma saia demasiado vermelha e uns labios demasiado pintados. Chamava a atenção e sabia-o, fazia por isso. Andava com a confiança de quem coleciona olhares com a indiferença de uma menina que apanha pedras na praia para logo as devolver ao mar. Sofia tinha inveja, queria ter aquele corpo demasiado grande para a camisa, queria ter os seios perigosamente expostos no decote cavado, queria sentar-se a lêr um livro no banco da estação de comboios e fingir que não repara que ali ela era o centro dos comentários sussurrados dos adolescentes, das fantasias dos executivos e da libido dos velhos. Mas não podia. As dores roubaram-lhe a juventude, o tempo fugiu-lhe demasiado depressa, jogava xadrez como ninguem, mas não se soube defender da vida. Tímida, num vestido castanho largo até aos pés, dobrava-se a custo para apanhar um livro que lhe caira da pilha que trazia. Ali, na multidão, Sofia não era ninguem...
quinta-feira, julho 13, 2006
quarta-feira, julho 12, 2006
De volta!
Voltei ontem ao teatro! Que saudades! Do espaço, das pessoas, das conversas, do sentimento livre de criação, dos temas, da expressividade!
Ontem o Thiago estava eléctrico, queria falar da peça dele (que parece estar a correr muito bem em termos de público), da experiência, do que ele próprio utiliza do curso que está a dar, das técnicas e truques. Falou-se de tudo, da encenação, dos ensaios, do trabalho de actor, do que é isso de ser actor, das coisas extraordinárias da vida, da energia criativa, pessoal, original, da vida e da postura que se tem perante ela.
Foi o regresso para a despedida. Antes de férias só mais uma aula e depois Setembro, intensivo para voltar ao mesmo trabalho que se tinha no início. Foi tambem um mudar de direcção, mais virado para as aulas, para o treino, para os exercícios em vez do enfoque na peça final, vamos felizmente a voltar a ter AULAS, que bem precisamos. Foi bom voltar... segunda dá-se um gostinho para o Verão... e em Setembro o esforço final...
terça-feira, julho 11, 2006
E pagam-lhes...
Esta história soube através de um outro blog, mas o primeiro single do novo album dos Red Hot, Dani California, é um plágio directo de uma música de Tom Petty intitulada Mary Jane's Last Dance. Torna-se inacreditável quando se ouvem ambas ao mesmo tempo. Deixo aqui o link para o programa de rádio que lançou a polémica. Vale a pena gastar uns minutinhos e ouvir...
segunda-feira, julho 10, 2006
Eu, tu e todos os que conhecemos
Quando a solidão se torna demasiado forte para suportar, quando a necessidade de se ter alguem faz com que soframos para além do possivel, com que nos humilhemos, que toquemos seja em quem for que se nos atravesse no caminho e entreguemos o coração sem perguntar nem comos nem porquês, o humor aparece. É desta busca de companhia, de amor, deste triste humor amargo de abandono que vive Eu, Tu e Todos os Que Conhecemos, longa metragem de estreia de Miranda July, que conta a história cruzada de um vendedor divorciado, dos seus filhos de uma artista que conduz um taxi para ganhar dinheiro, e de diversos personagens de um bairro onde a ânsia de amar e ser amado pulsa em cada esquina vazia.
Uma produção independente americana, uma comédia dramática que merece não passar despercebida.
sexta-feira, julho 07, 2006
Surpresa
De regresso a casa, de passagem pelo arco da Rua Augusta, reparei que um grupo de pessoas se juntavam em volta do que parecia ser uma performance de rua. Em vez de ir para casa lá fomos e entrámos no Festival Urbano Pedras D'Água, um evento organizado pelo C.E.M. - Centro em Movimento, que já existe há algum tempo e que está a ter o seu apogeu final de 26 de Junho a 7 de Julho, com diversos eventos espalhados pela Baixa, desde percursos pedonais, instalações de video, performances de teatro, música e dança.
Senti-me um pouco ridículo por não ter reparado que algo se passava quando vivo ali, mas ainda vou a tempo de apanhar o encerramento hoje.
Fica aqui feito o convite para algo que, segundo o pouco que vi ontem, apresenta um plano pluri-disciplinar bastante interessante.
Aqui podem ver o programa completo ou aceder ao site do C.E.M.
Apareçam... até logo...
Pseudo
Uma das coisas boas em ter aniversários na familia é a possibilidade de se conhecer novos restaurantes ou revisitar velhos conhecidos que estão normalmente longe das modestas possibilidades de quem começa a vida.
Ontem, pelos aniversário da minha mãe, fomos experimentar o Eleven, tido por muitos como um dos melhores restaurantes da cidade, os preços na carta pelo menos assim o indicavam.
Situado no topo do Parque Eduardo VII, tem uma vista que é verdadeiramente deslumbrante, e uma parede totalmente em vidro tira todo o proveito do espaço. A decoração é sobria, apesar de pontualmente deslocada, como a imagem gigantesca de um menino a chorar logo á entrada.
Desde o inicio que o restaurante começou a desiludir, as pequenas entradas não estavam brilhantes, até a qualidade do pão era banal.
A sopa não se destacava, a vitela estava bem confecionada, mas o sabor a pesto apagava os restantes e não era superior a dezenas de outras, até a sobremesa, mil folhas de dois chocolates (ainda hei-de perceber porque é que lhe chamam mil folhas) era igual à que se come em qualquer restaurante um pouco acima da média.
A questão não é que a comida fosse má, o problema é que para preços daqueles temos que ter uma experiência única, ninguem paga 25 euros por uma entrada que se come igual em qualquer lado.
Para melhor restaurante de Lisboa fica-se pelo pseudo, inclusivé em alguns pormenores que se tornam ridículos, como por exemplo o bacalhau vir acompanhado por 5 batatas e em seguida vir um empregado servir mais duas antes de se começar a comer, gesto este repetido por todos os pratos (eu tive mais um pouco de massa), o que nos deixa a perguntar porque carga de água não veio o prato servido desde a cozinha.
Duas horas e meia para acabar a refeição tambem não abonam a favor de um serviço médio.
Para a gama de preços, não é de todo recomendado.
quinta-feira, julho 06, 2006
Força Z.
Há momentos da vida que por mais preparados que estejamos nos apanham sempre de surpresa, e há pessoas de quem sentiremos sempre a falta passem quantos anos passarem.
A música desta semana é de um dos grandes senhores de sempre, um icon, Bob Dylan. Em 1973 ele gravou, no album Planet Waves este Forever Young, que se tornou uma das suas canções de referência em todo o mundo.
Vai com dedicação para uma amiga e companheira das lides de palco, que perdeu alguem muito próximo há bem pouco tempo.
Um beijinho Z.
quarta-feira, julho 05, 2006
A poupança
O cheiro inundava a casa, um misto amargo de queimado, com azedo, com um travo a gordura, era profundamente enjoativo. Ao entrar na cozinha tornou-se insuportável. Um esgar de nojo percorreu-me o rosto. Que foi isto?
O óleo do Jumbo, o bom óleo Auchan, novo, tresandava após fritar uns panados de frango. O cheiro nauseabundo espalhou-se por todas as divisões, colou-se à comida tornando-a impossivel de engolir.
Tudo para o lixo, óleo, almoço e o resto com uma lavagem profunda. Lixivia no lavatório para não restar rasto.
A poupança de alguns cêntimos no preço do óleo custou-nos a garrafa inteira, a comida, o trabalho e o cheiro entranhado nas roupas, nas equinas, no corpo.
Há mesmo que saber que produtos não comprar marca branca...
A Lula e a Baleia
Quando a geração do peace and love dos anos 60 chega ao poder e forma familia o descalabro da estrutura familiar começa.
A Lula e a Baleia, filme de Noah Baumbach, argumentista de The Life Aquatic With Steve Zissou, é um terno, provocante, dramático e hilariante retrato de uma separação numa familia intelectual americana em meados dos anos 80. Com Laura Linney e Jeff Daniels nos principais papeis, é a baseado na experiência pessoal do realizador (filho do escritor Jonathan Baumbach). Um filme arriscado desse ponto de vista, com uma visão agridoce, mas bastante crítica de todo o processo, que se torna um exemplo do fracasso da familia enquanto instituição, que se inicia naquela década: "Os teus colegas todos não têm os pais divorciados?"
A arrogância intelectual do pai, a devassidão da mãe, a sua própria falta de talento e plágio constante, e o descontrolo alcoólico do irmão mais novo, fazem parte de uma parafernália de confusas ideias, emoções e sensações que acarreta toda a experiência.
Vencedor do prémio para melhor realização e melhor argumento em Sundance, A Lula e a Baleia tem sido premiado em diversos circulos, incluindo uma nomeação para o Oscar de Melhor Argumento Original e 3 nomeações para os Globos de Ouro.
Um pequeno filme independente que prova uma vez mais que o cinema americano não se limita à idade mental de 4 anos, que está vivo, pulsante e capaz de surpreender.
terça-feira, julho 04, 2006
No meu prédio

São pedras, são madeiras, são cinco andares de uma existência que começou em 1777 (na altura seriam só três), ano de construção e que dura até hoje, com a varanda ao comprido, o quarto de vestir, as tábuas corridas de madeira, as portadas, o pé direito alto, a luz todo o dia, a pedra do forno na cozinha.
O primeiro andar no entanto é um caso à parte. Com uma entrada própria, ocupa todo o edificio, que tem normalmente duas casas por piso. Salão imenso, salas forradas a madeira, foi comprado por um arquitecto, jovem, que planeia fazer ali o seu atelier e residência.
Foi através dele que descobri, e mais tarde confirmei, que naquele prédio, naquela casa, naquele primeiro andar, trabalhou durante alguns anos Fernando Pessoa.
São 230 anos de vida de um prédio... com muita história... E são pormenores destes que acrescentam ao gozo de viver na Baixa...
segunda-feira, julho 03, 2006
Samaritana
Há uma adolescente, de sorriso ingénuo, que sonha ir à Europa. Há uma amiga, que a ajuda a prostituir-se para alcançar esse sonho. Há um amor jovem, intenso, puro. Há um pai, policia, viuvo, carinhoso, que desconhece completamente a vida paralela da filha. Há um clima tenso, de tragédia eminente, e uma beleza triste em cada passo. Samaritana, o último filme do coreano Kim Ki Duk (o mesmo que já nos tinha trazido Ferro 3) que ganhou o Prémio de Realização em Berlim.
Um exclusivo do Alvaláxia em Portugal, e merece a visita.
sexta-feira, junho 30, 2006
Conversa alta e animada no metro, alguem vociferava algo a ver com Castelo Branco e Bragança. Levanto-me. Ele, alto, muito magro, calças azuis a estrear, camisa vermelha, virava sem parar as páginas do "Metro". Olhando a porta, de costas para toda a gente, gritava sozinho: "Nem antigamente, quando isto era pior. Agora nem as capitais de distrito, nem Bragança, ou Castelo Branco!". Quando as portas se abriram começou a correr como se perseguisse o seu destino.
A rotunda do Saldanha à hora do almoço não se afigura como o sitio mais apetecivel para passear de carro. Atrasado para uma refeição que o meu estômago há muito pedia, irritado pelo trânsito excessivo que a greve do metro origina, fazia a curva em direcção ao sinal vermelho. Parado, perto da berma, mas ainda na estrada, estava um espectro, curvado, fato completo castanho muito usado, saco de plástico numa mão e bengala na outra, que não se apoiava no chão. Parecia o João César Monteiro, que, em vez de morrer, se tinha escondido no meio dos indigentes da sua cidade. Barba rala, olhava atentamente o vazio...
A primeira vez que o vi estava sentado numa cadeira de plástico, a meio da tarde, no pequeno espaço entre carros estacionados. Dias mais tarde, numa noite de Junho, situava a mesma cadeira na ombreira da porta de um restaurante da mesma rua. Mas ontem pouco depois do Arco Escuro na Rua dos Bacalhoeiros, esta velha figura adormecida, com a idade bem avançada, via escorrer languidamente os dias rodeado das bases de um andaime que ali está a ser colocado. Parecia uma triste escultura em exposição...
quinta-feira, junho 29, 2006
Miss Daisy

Estreia amanhã a peça Miss Daisy de Alfred Uhry, premiada com o prémio Pulitzer e que deu origem ao filme Driving Miss Daisy com Jessica Tandy (vencedora de um Oscar pelo seu papel) e Morgan Freeman.
Na sua primeira representação em Portugal cabem a Eunice Muñoz e Thiago Justino encarnar os personagens, num trabalho que explora a vivência de uma senhora judia e o seu motorista na América sulista dos anos 50.
É o regresso de Eunice ao auditório que tem o seu nome, e para mim é uma oportunidade de ver o meu professor de teatro em palco pela primeira vez.
São apenas 14 interpretações num curto espaço de tempo.
de Alfred Uhry
Aud. Municipal Eunice Muñoz (Rua Mestre Aviz - Oeiras)
4ªs, 5ªs, 6ªs feiras e Sábados - 21H30 / Domingos - 17H00
De 30 de Junho a 15 de Julho
Actores:Eunice Muñoz, Guilherme Filipe e Thiago Justino
Encenação e Direcção: Celso Cleto
Informações:Telef. 214 408 582 / 214 429 304 –
paulo.afonso@cm-oeiras.pt rmaria.desousa@gmail.com
Bilhetes:10,00
Bilheteira: No local - 2ªs e 3ªs feiras - das 14H00 às 18H00 / 4ªs feiras a sábados - das 14H00 até às 21H30 / Domingos - das 14H00 às 18H00 /
Reservas: 214 429 304 ou 960 272 519
Lojas FNAC, Lojas de viagens ABREU e www.ticketline.pt (Reservas: 210 036 300)

