terça-feira, agosto 22, 2006

Um ano


Fez no dia 9 deste mês um ano que nasceu este espaço. Sem pretensões e honestamente sem nenhum objectivo definido, tornou-se ao longo do tempo um local de conversa, desabafo, troca de ideias, encontros, tomadas de posição ou apenas um escape, uma forma de me expressar, de comunicar com outros. Já aqui tinha dito que escrever é uma forma de repensar as coisas, assim sendo este blog é para mim uma forma de enquadrar e reviver eventos que forma marcantes, mesmo que sempre limitados pelo facto de ser um relato público o que obriga às devidas reservas.
Dito isto há algo que, passados doze meses não consigo perceber: o que carga de água me estaria a passar pela cabeça para baptizar o blog como: "Sopros d'Improviso"? É dos nomes mais pirosos que me podiam passar pela cabeça, e com apóstrofo ainda por cima, apóstrofo!!!
Para remediar foi mudar o nome do blog apenas para sopros, não é grande coisa, mas pode-se dizer que estou numa fase de controlo de estragos...

Assim sem pompa nem circustância, nem jantar comemorativo e já com 13 dias de atraso, aqui fica assinalado o primeiro aniversário do sopros...

segunda-feira, agosto 21, 2006

Tunísia

Os planos para o Verão não estavam feitos, quando vimos os preços que pediam para a Tunísia achámos ter encontrado a resposta, escolhemos e embarcámos certos de não encontrar nenhum paraíso perdido, mas pelo menos conseguir duas semanas de praia e descanso. Nada mais errado.
O presságio do que estava para vir começou logo no avião, com o comentário de um veraneante enquanto sobrevoávamos a Argélia: "Olha África! Vê lá se descobres aí o Liedson a correr!"
O hotel era o que se esperava, pagámos 3 estrelas tivemos 3 estrelas, o quarto era limpo, a comida razoável, as piscinas eram boas e a praia estava a 20 metros. Os problemas começaram com os animadores, o barulho ensurdecedor que se fazia sentir ininterruptamente de manhã à noite era insuportável. A música martelava a cabeça e não nos deixava descansar um momento que fosse. Só a partir das 19 se conseguia sequer ouvir o mar, porque tínhamos um parque aquático em frente ao hotel que seguia o mesmo esquema de música alta, portanto nem na praia estávamos safos. Percebemos por outras pessoas que era prática comum nos hotéis até de 4 estrelas.
Fartos fizemos uma excursão a Tunis, Cartago e Sidi Bou Said, passámos mais tempo no autocarro que nos sítios que vimos invariavelmente a correr em manada. O almoço que nos serviram era insuportável. A paisagem tunisina é horrível, o país parece um imenso bairro de lata, com casas sempre inacabadas, em cimento ou tijolo exposto, com ferros espetados para futuros acrescentos, sem arruamentos, muito pó e lixo, aos montes, em todo o lado, nas ruas, nos olivais, até nos cemitérios.
A consequência da viagem, da correria e do ar condicionado foi três dias de cama com uma constipação. Aí a música tornou-se um verdadeiro tormento e foi com alívio que vimos chegar a nossa segunda excursão de dois dias, ao deserto.
Nunca me senti tão aldrabado, tão intrujado, tão enganado e gozado em toda a minha vida. Do deserto nada se viu, um passeio de dromedário de uma hora revelou-se uma fraude, andámos dez minutos, os guias pararam deitaram-se no chão a fumar e a meter-se com as turistas, ficámos ali meia hora e voltámos para trás, no meio de dejectos e sacos de plástico.
Os sítios onde parámos pelo caminho (com excepção do coliseu romano em El Jem) eram buracos para turista, a brochura da excursão prometia coisas que não cumpria, os preços que nos cobravam nos locais para que éramos arrastados pelo guia turístico eram um roubo (5 dinares, ou seja 3 euros por um gelado estilo Perna de Pau é incrível mesmo que fosse no Chiado) e o hotel onde pernoitámos nessa saída roçava os limites da decência humana.
É um país de terceiro mundo já o sabíamos, mas o nível de aldrabice, de sujidade, de descaracterização que se encontra é além do que se podia esperar. Ser enganado propositadamente, chateado, impedido de descansar é inaceitável.
Tunísia nunca mais, praias no mundo há muitas...

sexta-feira, agosto 18, 2006

José Mário Branco

Gostei de ter nestas semanas música portuguesa a passar no blog. A minha escolha desta vez não será tão consensual como as últimas, mas José Mário Branco não é um artista consensual. Um dos grandes cantores de Abril, nunca virou cara à luta, denunciando constantemente as desigualdades, injustiças, abusos e vícios que observou ao longo da vida. Este tema- - extraído do album Correspondências de 1991 - é no entanto um dos mais pessoais, com o sub-nome Carta aos Meus Netos, é uma melodia terna, com uma letra de uma doçura extrema, de um homem que nunca se esqueceu de amar...

Voltei!

Já desde quarta feira, mas só volto ao trabalho na segunda. A descrição da viagem segue numa próxima postagem, mas fica já a dica, não recomendo a Tunísia a ninguém.
Antes de mais um mini-post a falar sobre o último filme que vi na noite anterior a viajar, a animação Over the Hedge, em português Pular a Cerca. Pelo que percebi já saiu das salas em Lisboa, pelo menos a versão original saiu de certeza. É pena, a Dreamworks, de onde sairam por exemplo AntZ e Shrek, volta a bater a Disney aos pontos. Pular a Cerca é o conto de meia dúzia das criaturas mais alucinadas e ternas de um bosque que acordam uma manhã de Primavera para perceber que o seu bosque fora reduzido a uma faixa de terreno rodeada de condominios suburbanos humanos. São ajudados por um guaxinim (raccoon em inglês) que tem segundas intenções. Apesar de ser, como sempre, um conto moral sobre o valor da amizade e da honestidade, está carregado de um humor complexo e foge às normas tradicionais deste tipo de histórias. Carregado de vedetas e com uma animação extraordinária é de longe mais completo e muito mais divertido que o seu rival de maior sucesso Cars.

sexta-feira, julho 28, 2006

É desta, vou, vou e nem olho para trás, é hoje, ao fim do dia, dia caótico, carregado de coisas penduradas, mas vou, não quero saber do que fica ou deixa de ficar, vou, vamos os dois, ao lado um do outro sempre, nos momentos maus e nos momentos bons - e este é dos bons - em direcção a Sul, poucos dias, e depois mais ainda, para o continente negro, para o sol e praia, para o descanso prometido, merecido, vou de abalada, este blog fica sozinho, fica com o Jorge e a sua canção de esperança, fica com os poucos resistentes que por aqui vão passando, e sei que quando voltar as visitas cairam para um décimo, que quando recomeçar vão estar na metade, que vai demorar a recuperar as leitores, excepto alguns, os mais fieis, que me acompanham e que eu acompanho, esses não desistem, esses sei que posso contar com eles, e eles comigo... para esses um obrigado, e até ao meu regresso...

Fui... como uma brisa rumo aos sopros quentes do deserto - mas volto, sempre.

quinta-feira, julho 27, 2006

E foi o que foi, um pouco de nada, um sopro de susto que passou com os bálsamos do reencontro programado. Mergulhei de cabeça no espaço vazio, maior que mim mesmo, ausente da presença que preciso. Foi o que foi, desencontros, conversas, presenças... e passou...

quarta-feira, julho 26, 2006

No Tempo dos Assassinos


Cantor, compositor, autor, artista, Jorge Palma é um homem de altos e baixos, de momentos de génio e períodos de decadência. Já o vi dar concertos memoráveis e já tive que sair ao fim de duas músicas por não conseguir olhar para um homem a cair de bêbado em palco, vício esse que é uma constante da sua vida, com curas de desintoxicação de maior ou menor grau de sucesso, e que lhe corroeu o mundo e particularmente a carreira - prova disso é a falta de albuns de originais de 1989 a 2001.
No entanto quando acerta é em cheio e tem músicas de uma força, uma riqueza e uma beleza dificilmente igualáveis.
Em Junho de 2002, no Teatro Villarett, viveu-se um desses momentos altos, três concertos intimistas que em boa hora foram transpostos para disco com o título "No Tempo dos Assassinos".
Aqui fica um dos seus hinos de força e esperança, vindos de um homem que numa noite tudo perde e tudo recupera...

terça-feira, julho 25, 2006

Sob encomenda

Há dias em que as palavras escorrem como bom vinho por uma garganta sedenta após um jantar de categoria. Há outros em que arranham como areia de um condenado à morte no deserto.

Hoje tinha que escrever dois textos, nenhum me saiu de jeito...

Os astros não estão conjugados...

segunda-feira, julho 24, 2006

Piratas das Caraíbas: O Cofre do Homem Morto

Se há uma coisa que me irrita particularmente é agarrarem em algo que é bom e destruirem-no. O Piratas das Caraibas: A Maldição do Pérola Negra, primeiro filme desta trilogia que tem já estreia marcada para o seu capítulo final no Verão de 2007, era um filme condenado à desgraça. Baseado numa atracção antiga dos parques temáticos Disney e com Johnny Depp ao leme (ele que, apesar de adorado pelos fãs não conseguia ter um êxito sem a parceria de Tim Burton), eperava-se um flop com um actor de culto vendido aos grandes estúdios. O resultado no entanto foi surpreendente. Realizado por Gore Verbinski, que ainda não tinha apresentado nenhum título memorável e produzido por Jerry Bruckheimer (o mesmo de O Rochedo, Pearl Harbor, Armageddon ou Gone In 60 Seconds), o primeiro Piratas apresentava um humor peculiar, aventura q.b. sem o exagero histérico típico da casa Bruckheimer, uma história envolvente com um enredo por vezes surpreendente, bons efeitos especiais e um Capitão Jack Sparrow, anti-heroi sublimente interpretado por Depp, num limiar entre o gay e o drogado, o falsário e o vilão, mas por quem não conseguíamos deixar de torcer, que lhe valeu uma nomeação para o Óscar (improvável aliás num filme deste cariz).
A segunda parte desta (já) trilogia Piratas das Caraíbas: O Cofre do Homem Morto, está a ser um sucesso comercial colossal, batendo até hoje recordes sucessivos do box-office americano (melhor dia de sempre, melhor fim-de-semana de abertura, filme mais rápido a chegar aos 100 milhões de dólares, aos 200 e aos 300), tendo já ultrapassado o primeiro Harry Potter nos EUA e galopando para uma posição verdadeiramente memorável na lista dos mais rentáveis de todos os tempos.
No entanto o filme é não merece um décimo da atenção que tem usufruido. Transformou-se numa comédia caótica, passando os limites do absurdo, perdeu o nervo, a inventividade e a capacidade de surpreender. Depp é uma caricatura de si mesmo, correndo frenético de um lado para o outro sem se perceber muito bem o que ali está a fazer. O filme centra agora em Orlando Bloom, um William Turner que até encontra o pai e se firma cada vez mais como heroi clássico. O enredo é feito de um tanto faz irritante, onde tudo pode acontecer sem nenhum nexo aparente. Por vezes há pequenos lampejos daquilo que me deliciou no primeiro filme, a cena de abertura ou o personagem de Davy Jones, um Bill Nighy irreconhecivel, mas não chegam para resgatar a película do naufrágio. Este resultado para mim é inesperado visto que se mantem a equipa do primeiro filme, mesmo produtor, mesmo realizador, mesmo elenco, mesmos argumentistas (responsáveis por filmes como Shrek) e até o mesmo estúdio. Pior ainda é o hábito irritante que se criou nos últimos anos, o de fazer dois filmes de seguida e acabar um deles a meio. Desde O Senhor dos AneisMatrix adoptou esta estratégia, mas não nos esqueçamos que o primeiro era inevitável, Senhor dos Aneis é uma trilogia ecrita em livro há 50 anos.Em suma, uma pequena desilusão para os fãs, que não manchará o êxito deste filme pipoca.

sexta-feira, julho 21, 2006

Queria antes de partir de fim-de-semana mudar a música mas um problema técnico não me permite. Seja como for ficam em bela companhia mais uns dias...

Eu, graças à mudança de sistema no trabalho, vou ter fim de semana prolongado a começar hoje! Parto para mais uns diazinhos de sol, mar e relaxe.

Até ao meu regresso desejo a todos um grande, mas mesmo grande,fim-de-semana!

quinta-feira, julho 20, 2006

Cars

Cars é o último filme da parceria Disney-Pixar e é, para o bem e para o mal, tudo aquilo que se poderia esperar de um filme Disney. A animação é, como de costume, soberba, cada novo filme parece uma evolução sobre o anterior, os reflexos por exemplo nos capots do carro e todo o trabalho sobre a luz é perfeito. A história utiliza um background inovador, um mundo apenas constituido por carros, que serve de tela a uma história onde os valores tradicionais do amor, da amizade e da humildade imperam.
É, no entanto, um filme que se leva demasiado a sério, moralista até à medula dos ossos, não é capaz de brincar consigo próprio para além do humor clean e que não ponha em causa a mensagem a passar, longe por exemplo da Idade do Gelo ou dos devaneios caóticos de Shrek.
Com uma duração um pouco maior que a norma para este tipo de filmes (quase duas horas de duração), merece no entanto a visita descontraída e sem grandes pretensões. Um filme para vêr do primeiro minuto (com uma curta metragem deliciosa como prólogo) até ao último (com as tradicionais surpresas das animações).

quarta-feira, julho 19, 2006

E de repente estavamos vivos...

Metro, nove da manhã, a multidão de cabeças, de braços, de corpos, espera apática pela carruagem. Ao contrário do normal, a composição que veio da Amadora parou do nosso lado e deixou aí os passageiros, pronta para partir, provavelmente atrasada. Entrámos. Cada um se encostou no seu espaço, num gesto mecânico, repetido diáriamente, a imagem central de um conjunto de espectros que deambulam eternamente este planeta. Arrancámos, foi então que se ouviu uma voz: Próxima estação Alfornelos. Ninguem tinha mudado a gravação, ninguem tinha dito à carruagem que estávamos a partir da Baixa e não da Amadora, mas de repente era como se ganhássemos vida. Uma senhora meio adormecida levantou a cabeça e começou a olhar em volta preocupada, como se num instante tivesse atravessado a cidade. Por todo o lado houve um pequeno sobressalto, todos sorriram, um ou outro riu baixo, olhámo-nos nos olhos com a cumplicidade de ter percebido o erro, houve uma pequena onda que percorreu as pessoas que ali estavam, da jovem estudante que tapava o decote embaraçosamente grande, à mulher (vendedora, talvez peixeira) com os pés enormes, angulosos, à cigana que se cobria e escondia de preto, ao professor com o computador no colo, ao homem de negócios que deixou de estar absorto no seu jornal...
Foi apenas um instante... passou...

terça-feira, julho 18, 2006

Adeus até Setembro

Passou. Veio a última aula da temporada, e finalmente o regresso ao formato de aula, sem forum de discussão, sem peça final, mas aula, pura e simples. Há alguns meses que não acontecia e já lhe sentia a falta. Começámos com partituras simples, um gesto, um movimento, tocámos paredes imaginárias, corpos ausentes que mudavam a textura, a côr, a temperatura.
Fomos estátuas, ansiosas por nos mostrarmos a um qualquer mercador de rua, fomos ansiedade de venda, de movimento.
Em seguida inter-relação com as partituras criadas até então. Não me foi fácil concretizar, o esforço de abstracção não foi bem conseguido, senti-me ridiculo, desconcentrei-me. A partir daí foi uma luta comigo mesmo para voltar ao passo, mas nem no improviso final consegui verdadeiramente concretizar aquilo que me foi pedido ao nivel que quero, que de certa forma me exigo.
Em Setembro acaba o workshop, espero até lá ter conseguido outro sítio onde possa contínuar a dar seguimento a este trabalho.

segunda-feira, julho 17, 2006

Fui... fomos... no Intercidades das 19h21 que afinal tambem parava em frente ao meu emprego. Fomos para dois dias apenas do adoçar de boca, de descanso, de praia, de sol, de mar, da imensidão de não fazer nada. Foi o primeiro passo na areia este ano, foi o prenúncio do que está para vir. O próximo fim de semana será igual... e o outro... até as férias comecem!

sexta-feira, julho 14, 2006

Na Vida Real

Se há figura de proa na música portuguesa, que atravessou décadas, modas, fados e estilos foi Sérgio Godinho. Editando o seu primeiro album Os Sobreviventes em 1971 foi, de todos os cantores de Abril, aquele que mais evoluiu, mais se adaptou, mais mudou, mantendo-se no entanto fiel à sua música, aos seus ideais, a uma coerência que permite conjugar canções com 30 anos de diferença, numa harmonia perfeita em palco. Só assim se explica o misto de público jovem que se encontra nos seus concertos com aqueles que o acompanham desde a sua estreia.

Na Vida Real, album editado em 1986, marca um momento chave de mudança musical, de um ciclo que se tinha fechado com Salão de Festas. Sempre muito marcado pelos arranjadores e directores musicais com quem se liga, encontra neste album uma sonoridade urbana, moderna, poderosa, onde se encontram alguns clássicos como Lisboa que amanhece ou Pode alguem ser quem não é?
Pessoalmente, uma das minhas favoritas e por vezes esquecidas é Isto anda tudo ligado, onde Sérgio, pela boca de uma criança por nascer, se interroga sobre o mundo que o acolhe. Um letra sempre magistral e um som marcante...