quarta-feira, outubro 18, 2006

Little Miss Sunshine

Little Miss Sunshine é o último filme da nova vaga do cinema independente americano. Realizado por uma dupla - Jonathan Dayton e Valerie Faris - que, apesar de ser esta a sua primeira longa-metragem, tem construido um extenso reportório no meio dos video-clips e da publicidade.
Com um titulo em português absolutamente horrivel (Uma Familia à Beira de um Ataque de Nervos), é mais uma comédia na linha de A Lula e a Baleia ou Eu,Tu e Todos os Que Conhecemos, sem portanto trazer grande surpresa nem no estilo, nem no tema - a história de um grupo de inadaptados, com uma vida mais ou menos patética, neste caso uma familia alargada com histórias pessoais pelo menos invulgares.
A súbita participação da filha mais nova num concurso de beleza chamado Little Miss Sunshine, é o pretexto para uma viagem numa velha carrinha Volkswagen através do país.
O que separa este filme dos seus similares é o tom verdadeiramente marcado de comédia, com o já tradicional toque de amargura, mas sem resvalar (salvo uma exepção) para o ridiculo.
É um filme de actores, e desde Greg Kinnear até à pequena Abigail Breslin (absolutamente fantástica na sua composição) os actores estão lá e não desiludem.

Não é novidade, mas é uma comédia bem conseguida, tocante por momentos, divertida com o seu toque de estranheza e de crua realidade. Para quem fez vida nos video-clips é uma escolha inesperada para começar carreira no cinema, mas sólida, bem filmada, com noção de tempo cómico, e até - a espaços - com uma utilização interessante do ecrã largo.
Merece a visita para uma hora e meia bem passada.

terça-feira, outubro 17, 2006

Temos actores

Segunda feira é o dia físico nas aulas de teatro, enquanto que as quartas são reservadas para um trabalho mais sensorial. Ontem foi segunda feira... trabalho físico! Um início duro, com sequências de movimentos que misturavam ioga, com aeróbica, alongamentos e trabalho abdominal, sem parar, sem descansar, para soltar os músculos. A seguir formámos quatro corredores, em fila fomos fazendo os exercicios pedidos, saltos corridas, pulos, obstáculos de frente, de lado, de costas, a rastejar pelo chão, de gatas, a cair, encontrar o centro, o peso, foi uma hora de correria ininterrupta.
O descanso no chão foi bem-vindo, ao som de música recapitular a aula até ao momento, e quando uma versão blues, lindissima, do Nothing Compares 2 U, foi o mote para imaginarmos uma pequena história, um breve momento. Essa história foi recriada, ao som da música do filme "Heroi", por cada um de nós, enquanto os outros formavam plateia, em grupos de seis, sem contracenação nem palavras. Este foi o ponto alto da aula, duas ou três pessoas levaram o exercicio demasiado a peito e extravazaram completamente as suas dores. Foi aqui que vi pela primeira vez alunos muito promissores. Esta capacidade de sentir é a base para desenvolver um bom trabalho e posso afirmar, temos actores, como é óbvio não são muitos, mas temos.
No final um jogo de espelhos bem disposto e um relaxamento para terminar.
Quarta continua...

segunda-feira, outubro 16, 2006

The Pillowman

Esteve no Maria Matos, terminou domingo passado, a falta de tempo tornou mais urgente o visionamento, sábado à noite, primeiro balcão.

A primeira coisa que se notou foi que o teatro estava cheio de malta nova, facto a assinalar e louvar, a média de idades rondava muito abaixo dos 30.

Segundo facto a assinalar, o Maria Matos, apesar de renovado, não acredita na utilização de ar condicionado, o que torna a visita bastante mais dolorosa do que seria necessário.

The Pillowman é a última peça do premiado dramaturgo irlandês Martin McDonagh. Com um início kafkiano, a trazer à memória O Processo, conta a história de um escritor que está numa sala de interrogatório da policia, sem saber porque ali se encontra.
O texto é brilhante, a escolha de Tiago Guedes (que tinha realizado Coisa Ruim para cinema) não podia ter sido melhor. Tenso, surpreendente, inesperadamente cómico, é uma peça enorme, não na duração, mas na sua força, na sua escrita, na amplitude dos sentimento de induz.

Na encenação Guedes (que após um início em publicidade estudou cinema em Nova Iorque e Direcção de Actores em Londres) opta por um cenário negro, despojado, pensado para um propósito apenas, trabalho de actor. Mas, tal como o texto, tambem a encenação é surpreendente, e um cenário aparentemente simples demonstra ser versátil, complexo, com uma utilização do espaço, da luz e da cor muito inteligentes.

Se o texto precisa de actores a peça não se pode queixar neste capítulo, com Albano Jerónimo, Gonçalo Waddington, Marco D'Almeida e João Pedro Vaz, contou com um quarteto de actores que funcionaram como um coro sem solista, sempre afinado, no tom, capaz da exigência emocional que se impunha, mas sem deslumbrar.

O único ponto em que acho ter havido uma falha foi no excessivo tom cómico. Se a ambiguidade entre a força dramática da situação e a comédia da acção ou dos diálogos é um ponto a favor nesta peça (bem explícita aliás no texto), o tom leve foi, a espaços, levado longe demais.

Como realizador Tiago Guedes mostrou-se seguro, competente, preocupado em contar bem uma história, como encenador a marca de storyteller mantem-se.
Faz falta em Portugal alguem assim, que se preocupe com o texto e a melhor forma de o fazer passar, sem os tiques umbiguistas de pseudo intelectualismo que muitas vezes mina a arte representativa nacional.

James e o Pêssego Gigante

Em 1996, no ano em que realizou Marte Ataca!, três anos após produzir O Estranho Mundo de Jack, Tim Burton produz James e o Pêssego Gigante para a Disney. Realizado por Henry Selick, que já tinha realizado a anterior animação de Tim Burton, é a perfeita junção do macabro mundo Burton com o meigo imaginário Disney, e mais uma obra de referência da mente deste brilhante cineasta.
Sem ser tão negro como a maioria das suas obras, segue a viagem de um rapaz orfão na sua fuga de duas tias que o exploram. Após a visita de um misterioso homem, embarca dentro de um pêssego gigante, acompanhado por um gafanhoto, uma centopeia, uma aranha, uma joaninha e uma minhoca, rumo a uma cidade longínqua onde a felicidade se pode atingir.

A música ficou a cargo de Randy Newman, que já compôs para outros grandes filmes Disney como Toy Story ou Monstros & Companhia e é a minha escolha para esta semana.

O filme inexplicávelmente nunca foi lançado em DVD em Portugal, mas vai passar numa cópia soberba dia 1 de Dezembro no Lusomundo Happy, para quem pode pagar estas coisas.

sexta-feira, outubro 13, 2006

Nova Iorque


Descobri a minha segunda cidade. Se Lisboa é hoje, e será sempre, um amor fecundo, Nova Iorque é uma paixão. E perdoe-me a minha cidade esta confissão pública, mas, apesar de fiel, nunca jurei exclusividade.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Assim começa...

... a primeira aula a sério do novo curso. Relaxamento inicial, deitados no chão, prolongado, profundo, tomando consciência do nosso corpo e das nossas emoções.
Em seguida o objecto que tinhamos que levar para aquela aula, no meu caso um livro, conhecê-lo com os cinco sentidos, olhar para ele, saber-lhe os pormenores, conhecer-lhe as texturas, senti-lo com o toque, observar-lhe o cheiro, o som que faz (e acreditem que um livro tem muitos, mas muitos sons) e por último o gosto. Em seguida explorá-lo, para que serve, como o usar, e não nos limitar-mos à sua utilização óbvia, criar, inventar novas possibilidades.
Desaparece agora o objecto, mas mesmo assim temos que o sentir, conhecer-lhe o peso, o cheiro, o toque, a forma... Deixar que a memória sensorial o torne físico de novo. E voltar a explorá-lo, lembrar como nos veio parar às mãos, foi oferecido? Comprado? O que sentimos nesse momento?
Em seguida sentamo-nos como que em plateia. Cinco de nós vai para a frente dos outros, pensa num texto que saiba de cor, um poema, letra de música, o que seja. Começamos de novo a manusear o objecto sem que ele lá esteja e, movendo-nos pela sala com o texto que pensámos, recordamos o momento em que esse objecto veio parar às nossas mãos, falamos com a pessoa, sentimos de novo, sempre com o texto de cada um e com a memória sensorial trabalhada.
Por fim, novo relaxamento, mais solto, mais divertido, leve...

O trabalho sobre os sentidos começa, esta base é fundamental para o desenvolvimento do trabalho de actor.

Começou a sério, e já começou a levantar suspeitas e desconfiança em alguns alunos que não tinham a percepção do tipo de trabalho que aqui ia ser desenvolvido.

Um ponto muito positivo, logo desde o primeiro minuto que somos habituados a estar em frente a público, neste caso os colegas, mas seja, temos que nos habituar à presença de outros.

O trabalho promete...

quarta-feira, outubro 11, 2006

The Black Dahlia

Brian De Palma é um dos mais versáteis cineastas em actividade e que, apesar de não ser um inovador, é dos realizadores que mais percebe de cinema - sendo inclusivé conhecido por homenagear nas suas obras os autores de referência.
The Black Dahlia é o seu último filme e tinha uma enorme expectativa de o ver, apesar de saber que De Palma é capaz do melhor e do pior, o homem que fez Phantom of the Paradise, Scarface, Carlito's Way, Snake Eyes ou The Untouchables, foi tambem responsável por filmes menores como Mission to Mars ou Raising Cain (não sei os títulos em português de todos os filmes, por isso uso os originais).
O elenco é sólido, Scarlett Johansson tem o seu toque de sensualidade e força habituais (é uma actriz minha de eleição confesso), Hilary Swank volta a mostrar a sua incrivel versatilidade - quem a viu em Boys Dont Cry ou Million Dolar Baby e a vê aqui percebe o alcance desta senhora - e Josh Hartnett mostra que afinal pode ser mais que apenas um actor de comédias parvas para adolescentes.
Mas o cerne deste filme, para além de um argumento denso, um policial carregado de tensão, é a realização inspirada de De Palma. Feito como um film-noir dos anos quarenta, carregado de referências cinematográficas, mas com um nervo, uma crueza notáveis. A utilização da câmara, da profundidade de campo, de todo o espaço do ecrã largo, o conhecimento absoluto de cada factor na construção de uma cena, de um filme, revelam-se numa obra que, apesar de não ser de referência, merece um olhar muito, mas muito atento.

terça-feira, outubro 10, 2006

Chapitô


Primeira aula do curso de Expressão Dramática no Chapitô. Primeira aula de um curso de três anos que, espero, venha acrescentar bastante aquilo que tenho feito noutras paragens. Primeira questão... somos 30. Número elevado de alunos pode ser um problema. Ontem foi a apresentação, cada um de nós teve que se sentar numa cadeira em frente à turma toda e dizer quem é. Grande variedade de pessoas, dos 16 aos 59 anos, alunos que lá estão há 3 anos, ou principiantes, gente que já fez teatro e outros que nem nunca pensaram no assunto e estão lá porque deve ser "giro".
A aula acabou com um relaxamento bastante bem conduzido e sem os risinhos tipicos de quem nunca experimentou.
Amanhã começa a sério, a expectativa acumula...

Belmonte

Belmonte é a vila que conheço com maior concentração de museus por metro quadrado. Uma visita rápida ao turismo local e somos brindados com uma visita demorada por cada rua da vila onde há em cada esquina um suposto lucal de interesse ou um mini-museu. Chegou ao ponto de fazerem um passe para todas as atracções a preço reduzido ao estilo das grandes cidades. Mas não é por isso que Belmonte merece uma visita. Tem uma pousada, reconstruida do antigo Convento de Nossa Senhora da Esperança, que é um deslumbre. Com vista da serra e uma paz circundante imensa, é um local lindissimo, decorado com um extremo bom gosto e um restaurante absolutamente fenomenal. Situada ao lado da Serra da Estrela e perto de inúmeras aldeias históricas, é o local ideal para uma escapadinha refortelecedora.

sábado, outubro 07, 2006

Jet Lag

5 horas de trás do sol que se põem a leste de quem viaja e se move da zona escura para a luz do pequeno almoço almoçarado na madrugada da manhã que se avizinha do dia seguinte que ainda não mudou hoje na volta do regresso com pormessa de retorno ao sol que se põe no lado contrário do inverso de quem abre os olhos e os fecha por um instante sem dormir para não permitir ao corpo perder as horas que se querem achar na cama do descanso final... quê?

Trovante

Porque voltei...

quinta-feira, setembro 28, 2006

World Trade Center

Pit stop em Lisboa para trocar de bagagens, de beijinhos e abraços com a familia.
Antes de ir deu tempo para ver World Trade Center de Oliver Stone, mais um filme sobre o atentado de 11 de Setembro (a seguir a United 93).
Depois de ver o trailer fiquei inquieto, parecia-me mais um filme a gabar o heroismo extremo dos americanos versus o horror do terrorismo. No entanto Stone nunca fez um filme consensual ou fácil, e nunca caiu no simples american way.
Erro... nota-se que acima de tudo este filme é um projecto encomendado pela indústria, provavelmente para se redimir do seu imenso flop com Alexandre - que custou uns exorbitantes 150 milhões de dólares. Não é o primeiro cineasta que tem que ceder aos fretes dos estúdios para poder filmar aquilo que quer, já Scorsese por exemplo, teve que fazer o Cabo do Medo para poder realizar A Última Tentação de Cristo, e saiu-se brilhantemente em ambos. Stone, que parece ter perdido o rumo desde Nixon em 1995, faz aqui um filme óbvio, previsivel, sem nada para dizer nem mostrar, com o melodrama forçado das familias dos presos nos escombros (que sabemos desde o inicio se safam), e pior que tudo chato, muito chato. No final já ninguem tem cabeça para aturar a choradeira e a banalidade do pouco que se desenrola à nossa frente.
Tem sido bem aceite nos Estados Unidos (já se esperava) e talvez lhe dê a oportunidade de continuar a filmar ficção e voltar ao nivel de qualidade a que já nos tinha habituado. Se assim for, valeu a pena o esforço...

domingo, setembro 24, 2006

Perfeição... não podia ter sido melhor... o sentimento, a cerimónia, a refeição, a dança, a alegria, os novos e velhos amigos. Primeiro dia do resto da tua vida... com direito a dedicatória, a abraços, a beijos, a sorrisos largos que pulam e estravazam o que nos vai na alma.
Para alem do sentimento geral descobri uma lição: por vezes não adianta puxar por quem não quer ser puxado, tive surpresas, muitas, quem apareceu e quem não, quem estava feliz, quem no fundo quer estar, sente falta e abraça.
E ao meu lado... brilhava linda e una, feliz como nunca, imensa na sua discreta aparição... como uma suave nota de música que, suspensa, nos encanta.
Por isso hoje não sou quem fui, marcado para sempre em mim, na pele, no corpo, na alma.

E tinha que mudar a música, porque todos fomos feitos para brilhar...

Últimos dias


Os últimos dias revestem-se sempre de uma particular importância, há um sentimento de closura, de fim de ciclo, normalmente uma tristeza pelo que ficou para trás, uma nostalgia familiar.
Na terça feira foi o último dia do workshop de teatro com o Thiago. Foram meses erráticos, por vezes sem rumo definido, com controversia e sobressaltos, mas onde aprendi muito, onde comecei finalmente a perceber o que é isso de representar, o que é isso de ser actor.
O Thiago é uma pessoa marcante, quem o conhece, quem fala com ele não o esquece, do alto do seu metro e noventa, voz grossa e sorriso contagiante, tem ainda a inocência de uma criança em muito do seu sonhar, e uma certeza no seu caminho, na sua arte, que fazem dele um apaixonado pelo teatro, um apaixonado pela vida. Essa paixão de viver, tentou ele transmitir-nos, fazendo com que não nos deixássemos afundar no lodo da mediania urbana. Se a semente teve frutos só o tempo o dirá.
Nesta última aula,filmada, iriamos representar um pequeno texto. O meu, retirado de uma peça de uma amiga, tinha um peso pela sua temática que me tolhia o gesto. Quando cheguei ainda estava o Thiago a trabalhar com o meu outro colega. Fiquei 10 minutos a fazer os últimos acertos. Depois lancei-me - ele ligou a camera e disse: vai Miguel, de uma vez. Fiz, com a paixão, as falhas e inseguranças que tinha. Quando acabei, à espera de uma direcção e mais ensaio ele respondeu apenas: está passado!
Abracei-o... última etapa ultrapassada.
Último dia... para um novo inicio e um aprofundamento ainda maior. Quanto ao Thiago, espero que os nossos caminhos nunca se descruzem.

sexta-feira, setembro 22, 2006

Volver!

No meio do turbilhão dos dias tenho deixado passar alguns pontos que seriam de importância fulcral noutras alturas. O cinema por exemplo.
Mesmo assim ainda houve tempo para ir ver o último filme de Pedro Almodóvar: Volver.
A mestria reconhece-se desde a primeira cena, hilariante retrato de um grupo de mulheres que, em grupo, limpam frenéticamente as campas de um cemitério durante uma ventania.
Estes dois temas, o humor e a morte, são pedra de toque para um filme que não tem um dos elementos mais marcantes do realizador: a homossexualidade.
A força das imagens é marcante Penélope Cruz revela-se - a quem como eu ainda o não sabia - como uma actriz imensa, os personagens são humanos, frágeis e muito bem trabalhados como habitualmente, o sentido de humor está lá, mas apesar de tudo este é um filme menor de Almodóvar. As emoções são varridas pelo vento de uma forma ligeira, talvez ligeira demais para as temáticas abordadas, e a própria história parece mais um aglutinar de boas ideias sem um desenvolvimento muito coerente ou aprofundado.

Está, ainda assim, vários furos acima da média que se pode encontrar nas salas.