sexta-feira, outubro 27, 2006

...e não é que se calhar é mesmo merda?

A ministra da Cultura anunciou o fim das Capitais Nacionais da Cultura argumentando que "As cidades não se renovaram através da cultura." - o que carga de água quer isto dizer? Não se renovaram através da cultura? Mas espera-se que através de um qualquer passo de magia tudo se transforme no país?

Este anuncio acompanha a redução prevista de 17,7 milhões de euros no orçamento do Ministério da Cultura, tornando-o "o mais baixo Orçamento para a Cultura dos últimos sete anos".

Este ministério é aquele que tem o orçamento (previsto para 2007) mais reduzido de todos os ministérios sendo o seu total algo como 0,4% da despesa de Estado para 2007, qualquer coisa como 1,2% da despesa prevista com o Ministèrio das Finanças e da Administração Pública, ou 8,9% do Ministério da Defesa.

E assim vamos cantando e rindo...

"A cultura, para mim, é uma merda!"

Cultura

do Lat. cultura

s. f.,
acto, efeito de cultivar.

do Al. kultur

s. f.,
desenvolvimento intelectual, saber;

utilização industrial de certos produtos naturais;

estudo, elegância;

esmero;

conjunto dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores morais e materiais, característicos de uma sociedade;

civilização.


"Já foste vêr O Filme da Treta?" - assim começou uma conversa à hora do almoço que passou para o número de espectadores na sala (como é óbvio está a ser um sucesso) e resvalou para os subsidios dados ao teatro e ao cinema. As duas pessoas com quem almocei são absolutamente contra qualquer tipo de subsidio, acham que a lei do mercado deve imperar em todos os casos. "Pagar para quê? Para meia dúzia de gatos pingados fazerem o que querem? Façam na garagem lá de casa, mas com o meu dinheiro não!" - e os exemplos continuavam de sucessos em Portugal, O Crime do Padre Amaro, Filipe La Féria. Se não se pagam não devem existir.
Quando digo que não é possivel que todo o teatro e cinema português se auto-sustente, quando falo da consequência de toda a produção cultural se resumir aos êxitos imbecis ou às novelas, quando digo que há coisas, como a saúde por exemplo, que têm uma importância tal que devem ser preservadas para alem do mercantilismo, quando respondo que a cultura é a base nevrálgica de uma sociedade, um motor fundamental para o desenvolvimento social, intelectual, para o conhecimento, a abertura das mentes e das ideias, a descoberta de novas formas de estar e de vêr o mundo, respondem-me: "A cultura é uma merda!"

Aí está... uma merda. O "desenvolvimento intelectual, o saber, o estudo, a elegância" são uma merda.

E são estas opiniões de merda, generalizadas ainda por cima, que fazem com que Portugal esteja na cauda da Europa. Porque se a Cultura por si só é um fim a atingir, é algo que deve ser difundido e proliferar o mais possivel, é tambem preciso dizer que as coisas não são indissociaveis, que não é por acaso que as sociedades que são industrial, economica, social e financeiramente mais avançadas, aquelas que são consideradas o centro do mundo, são tambem as que culturalmente são mais vibrantes e inovadoras.

Porque em Sarajevo se tocava ópera no meio das bombas, e se a Jugoslávia era de longe mais desenvolvida que Portugal, a Sérvia e a Croácia estão rapidamente a ultrapassar-nos.

Porque com mentalidades assim não há forma do país sair da "merda"... e destas "conversas da treta"....

Você? Eu????

A última aula do curso de teatro foi mais um festim para os sentidos. Relaxamento inicial, trabalho com locais conhecidos, animais, emoções.
Água, no fundo banho, recriação sensorial do calor, da água no corpo, na face, cheiros, objectos, imagens, sempre em busca de uma verdade familiar.
Por último trabalho com um tecido, perceber-lhe a forma, textura, sabor, brincar com ele, conhecer-lhe as possibilidades, o peso, funções para conseguir recriá-las, enquanto diziamos um texto, sem o ter perto.

A aula acaba, troco de roupa e vou para casa. Na descida do Chapitô até à Baixa fui com um grupo de colegas. De repente, no meio do tipico ambiente descontraido, uma das raparigas dirige-me a palavra e trata-me por você. Não foi num tom afectado, mas sim cerimonioso.
"Desculpa? Estás a falar comigo? TRATA-ME POR TU PELO AMOR DE DEUS!"
"Desculpe, quer dizer, desculpa, mas é dificil..."
"Quantos anos é que achas que tenho?"
"Hum... 32?"

Pronto, colapso cardíaco, um tipo põe aliança no dedo e aumentam-lhe logo mais meia dúzia de anos!

"Eh pá, tenho 26! Mas quantos anos é que tu tens?"
"19..."
Virei-me para outra...
"E tu?"
"16"

Pronto, caiu-me tudo! A miuda nasceu em 1990! 90!!!
Caraças, tou a ficar velho!
Na próxima aula vou ter com o Mouzinho que tem 59 a ver se volto a pôr as coisas sob perspectiva...

quinta-feira, outubro 26, 2006

Lady in the Water

M. Night Shyamalan especializou-se, desde a sua terceira longa-metragem O Sexto Sentido, em filmes cuja temática seja o sobrenatural, o bizarro, o misterioso. Essa imagem de marca fez dele um cineasta de sucesso num género especializado. Acumulando o cargo de realizador e argumentista em todos os seus filmes, sendo produtor na maioria dos casos e até actor, Shyamalan pode ser visto como one-man-show. Não é o primeiro a acumular tantas posições, de Chaplin a Woody Allen ou Orson Welles, mas este indiano criado num suburbio rico de Filadélfia não tem o nivel de genialidade de nenhum dos anteriores. Realizador com mestria, sabe contar uma história com a tensão que esta exige e consegue normalmente retirar boas interpretações dos seus actores (o dedo para o casting é notório, trabalhando com grandes talentos como Paul Giamatti, Adrien Brody, William Hurt, Samuel L. Jackson entre outros). A grande falha reside normalmente nos seus argumentos. São inegavelmente imaginativos mas após o êxito do twist final de O Sexto Sentido, tornou-se imperativo para Shayamalan repetir a surpresa em todos os seus filmes, na grande maioria das vezes sem grande nexo ou, como em Sinais e A Vila, a roçar o absurdo.Este Lady in the Water (A Senhora da Água na versão portuguesa) segue a marca do fantástico, mas num tom bastante mais próximo do conto de fadas. Com Paul Giamatti no principal papel e Dallas Bryce Howard (que retorna após A Vila) no title role, conta uma vez mais com um elenco sólido. Shyamalan está no entanto bastante mais suave, os elementos de medo são bastante atenuados em relação a titulos anteriores e consegue inclusivé introduzir toques de humor interessantes. O problema, uma vez mais, reside no argumento. Não que tenha um twist demasiado rebuscado no final, mas toda a construção dramática, todo o enredo é baseado num tanto faz que se torna incómodo, com novas informações a serem atiradas aos molhos e novas regras inventadas de repente. A sensação que passa é que, sem se preocupar com desenvolvimento de personagens, tensão dramática ou credibilidade, foi inventando um jogo como nos tempos de escola, faz-me lembrar quando de repente, em miudo, no meio de uma brincadeira gritava: "Agora eu posso voar e atiro raios dos olhos tá bem?" e pronto, estava assim introduzido um novo elemento. Esta ingenuidade divertida num jogo de crianças torna-se incredivel num filme, desligando emocionalmente o espectador daquilo que se passa no ecrã (e sem conseguir fugir, como é sua norma, a alguns buracos no argumento).
No final de contas A Senhora da Água é uma fábula terna, graciosamente filmada e com grandes interpretações, mas com um argumento fraco que não deve ser levado demasiado a sério.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Falha minha


mas decorre de 20 a 29 de Outubro a 4ª edição do DocLisboa - o festival de cinema decumental de Lisboa.

Apesar de já ir a meio merece sempre a pena destacar.

Informações em www.doclisboa.org

terça-feira, outubro 24, 2006

Cada dia mais...

Ontem foi aula física de novo, primeiros quinze minutos com extensões, alongamentos, abdominais. A seguir um exercicio no chão com movimentos de corpo, passagem para diversas posições (fetal, joelhos, numa constante evolução) e que vai ser repetido regularmente, como base para a criação (suponho) de uma elasticidade, coordenação, facilidade de movimentos, de alguma graciosidade, dentro do possivel.
Passo seguinte... passear. Andar, conhecer o nosso próprio andar, senti-lo percebê-lo. Mudá-lo agora, andar começando o pisar com os calcanhares, com a parte da frente dos pés, a parte de dentro e de fora, andar só sobre os calcanhares ou só em bicos dos pés. Regressar ao nosso andar e percebê-lo melhor. Ao som de ordens, mudar a emoção expressada enquanto se anda - alegria, ódio, tristeza, raiva, amor - a confusão instalou-se e não foi bem sucedido, mas o Bruno parecia já o esperar.
Voltar ao físico. Pares de tamanho e peso similar, pegar neles ao colo e caminhar com eles de várias formas diferentes, colo mesmo, ombros, pelas costas, subir sem impulso, fazer o pino com mãos no chão ou com cotovelos no chão, sempre sem impulso, sempre com o intuito de encontrar o próprio centro, o próprio equilibrio.
Por esta altura já destilava por todos os poros... descanso bem-vindo...
Segunda parte, surpresa, conhecer as posições de pés da Commedia dell' arte, quatro posições, que são as quatro posições base nas quais o ballet veio beber (e acrescentar uma quinta). Commedia dell'arte, teatro de improvisação criado no século XVI, muito marcada, de onde nasceram personagens tipicos como o Harlequim. Trabalhar sobre essas posições, mover, imaginar um momento, uma história, desenvolver o porte, a pose, o rosto, as mãos... adorei!
De novo voltámos às emoções, agora com mais calma, agora a procurar as motivações, correu bastante melhor.
Relaxamento final, demorado, aprofundado, de introspecção, reconhecimento do que é que correu bem e mal durante a aula.

Cada dia me surpreendo mais...

segunda-feira, outubro 23, 2006

Um mês

É sempre altura de regressar aos clássicos, e a música desta semana é intemporal.
E hoje... ao fim de um mês, parece-me totalmente apropriada...

DVD sugestions 2



Há filmes que por um motivo ou por outro, e apesar das tentativas para conseguir estar a par de tudo o que mereça ser visto em termos cinematográficos. Do ano passado perdi um filme que estava nomeado para o Oscar de Melhor Filme, Capote.
Já saiu em DVD e pude finalmente apanhá-lo.
Este é um filme de argumento e principalmente de actor, com o Oscar a ser merecidamente atribuido a Philip Seymour Hoffman e que confirmou aquilo que eu já desconfiava, de todos os filmes nomeados para Melhor Filme ganhou o pior. A não perder por todos os que gostam de bom cinema.

DVD sugestions


Serviu o fim de semana para rever uma das obras mais emblemáticas de Oliver Stone.
Com um argumento denso, uma lista de estrelas impressionantes, uma montagem brilhante e imagens intensas, aborda a investigação real feita ao assassinato de John F. Kennedy.
Disponivel num Director's Cut absorvente é um filme a que apetece voltar regularmente.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Há namoros que começam com um olhar...
e duram algum tempo...
nem sempre esse namoro é uma pessoa...
pode ser um espaço, um local, uma imagem, um cheiro, sabor ou objecto

e prolonga-se, aprofunda-se, mas por um motivo ou por outro não se concretiza...
falta de tempo, de espaço ou mesmo (como neste caso) de dinheiro...

as visitas, embora pouco frequentes, eram constantes
e o namoro crescia,
apenas pedaços de madeira e ferro forjado,
mas era um namoro mesmo assim...

até que, na celebração mais importante da minha vida,
o namoro finalmente se consumou, como prenda

mesmo assim ainda teve a sua espera,
veriz e polimento segundo me diziam...
ontem chegou, entregaram lá em casa

e ao fim de tanto tempo
da espera e do cuidado
do dinheiro e do significado
ainda tiveram a lata de me entregar completamente manchado de VERMELHO!

(ele há coisas que não se percebem...)

quinta-feira, outubro 19, 2006

E café ao sol? Não?

Café ao sol... podia referir-me a um desejo inconcretizavel nesta semana de chuva constante e que leva a episódios caricatos como a rega contínua dos miseros canteiros relvados ao pé do meu emprego debaixo de uma tempestade diluviana... e ainda nos dizem para poupar água...
Mas não... não se refere a um sonho de esplanada à beira-mar com trajes mais soltos e esguios e uma temperatura bastante mais amena, mas sim à aula de ontem.
Depois do relaxamento inicial tivemos que nos situar num espaço conhecido, onde nos sentissemos bem, protegidos, à vontade, a interacção com uma pessoa nesse espaço era pedida. A seguir pegar em café, chá ou sumo e interagir com eles nesse espaço, escolhi café... bebi-o, senti-lhe o gosto, o calor, a reacção no corpo.
Segunda parte, e ainda com o clima de relaxamento inicial, sentir o Sol. O nosso corpo estava ao Sol, senti-lo na pele, mudar de posição, perceber o que é que esta exposição nos faz ao corpo. Quem vai comigo à praia sabe que não sou de estar muito tempo ao sol, começa a queimar, entro na água, seco-me e vou para a sombra. Ali, naquela sala, de noite e com chuva lá fora, não havia sombra, e o Sol era implacavel. Tornou-se quase insuportável... tivemos então que perceber que emoção era aquela que estávamos a sentir e materializa-la numa pessoa... as surpresas da mente não param... para mim foi inesperado quem se formou à minha frente.
Intervalo... a tempo...
Segunda parte da aula numa regressão ao passado, ventre da mãe, bébé, criança, primeira injustiça e primeiro momento de alegria de que nos conseguiamos lembrar.
Relaxamento final e... até segunda...

Uma coisa que é fundamental nestes exercicios é o tempo que demoram... estamos tanto tempo dentro de um mesmo estado que ele, lentamente, se insinua nos poros do corpo e nos invade... É uma sensação estranha...

Sem dúvida são aulas diferentes... e a quarta sensorial promete enormes surpresas para quem participa...

quarta-feira, outubro 18, 2006

Little Miss Sunshine

Little Miss Sunshine é o último filme da nova vaga do cinema independente americano. Realizado por uma dupla - Jonathan Dayton e Valerie Faris - que, apesar de ser esta a sua primeira longa-metragem, tem construido um extenso reportório no meio dos video-clips e da publicidade.
Com um titulo em português absolutamente horrivel (Uma Familia à Beira de um Ataque de Nervos), é mais uma comédia na linha de A Lula e a Baleia ou Eu,Tu e Todos os Que Conhecemos, sem portanto trazer grande surpresa nem no estilo, nem no tema - a história de um grupo de inadaptados, com uma vida mais ou menos patética, neste caso uma familia alargada com histórias pessoais pelo menos invulgares.
A súbita participação da filha mais nova num concurso de beleza chamado Little Miss Sunshine, é o pretexto para uma viagem numa velha carrinha Volkswagen através do país.
O que separa este filme dos seus similares é o tom verdadeiramente marcado de comédia, com o já tradicional toque de amargura, mas sem resvalar (salvo uma exepção) para o ridiculo.
É um filme de actores, e desde Greg Kinnear até à pequena Abigail Breslin (absolutamente fantástica na sua composição) os actores estão lá e não desiludem.

Não é novidade, mas é uma comédia bem conseguida, tocante por momentos, divertida com o seu toque de estranheza e de crua realidade. Para quem fez vida nos video-clips é uma escolha inesperada para começar carreira no cinema, mas sólida, bem filmada, com noção de tempo cómico, e até - a espaços - com uma utilização interessante do ecrã largo.
Merece a visita para uma hora e meia bem passada.

terça-feira, outubro 17, 2006

Temos actores

Segunda feira é o dia físico nas aulas de teatro, enquanto que as quartas são reservadas para um trabalho mais sensorial. Ontem foi segunda feira... trabalho físico! Um início duro, com sequências de movimentos que misturavam ioga, com aeróbica, alongamentos e trabalho abdominal, sem parar, sem descansar, para soltar os músculos. A seguir formámos quatro corredores, em fila fomos fazendo os exercicios pedidos, saltos corridas, pulos, obstáculos de frente, de lado, de costas, a rastejar pelo chão, de gatas, a cair, encontrar o centro, o peso, foi uma hora de correria ininterrupta.
O descanso no chão foi bem-vindo, ao som de música recapitular a aula até ao momento, e quando uma versão blues, lindissima, do Nothing Compares 2 U, foi o mote para imaginarmos uma pequena história, um breve momento. Essa história foi recriada, ao som da música do filme "Heroi", por cada um de nós, enquanto os outros formavam plateia, em grupos de seis, sem contracenação nem palavras. Este foi o ponto alto da aula, duas ou três pessoas levaram o exercicio demasiado a peito e extravazaram completamente as suas dores. Foi aqui que vi pela primeira vez alunos muito promissores. Esta capacidade de sentir é a base para desenvolver um bom trabalho e posso afirmar, temos actores, como é óbvio não são muitos, mas temos.
No final um jogo de espelhos bem disposto e um relaxamento para terminar.
Quarta continua...

segunda-feira, outubro 16, 2006

The Pillowman

Esteve no Maria Matos, terminou domingo passado, a falta de tempo tornou mais urgente o visionamento, sábado à noite, primeiro balcão.

A primeira coisa que se notou foi que o teatro estava cheio de malta nova, facto a assinalar e louvar, a média de idades rondava muito abaixo dos 30.

Segundo facto a assinalar, o Maria Matos, apesar de renovado, não acredita na utilização de ar condicionado, o que torna a visita bastante mais dolorosa do que seria necessário.

The Pillowman é a última peça do premiado dramaturgo irlandês Martin McDonagh. Com um início kafkiano, a trazer à memória O Processo, conta a história de um escritor que está numa sala de interrogatório da policia, sem saber porque ali se encontra.
O texto é brilhante, a escolha de Tiago Guedes (que tinha realizado Coisa Ruim para cinema) não podia ter sido melhor. Tenso, surpreendente, inesperadamente cómico, é uma peça enorme, não na duração, mas na sua força, na sua escrita, na amplitude dos sentimento de induz.

Na encenação Guedes (que após um início em publicidade estudou cinema em Nova Iorque e Direcção de Actores em Londres) opta por um cenário negro, despojado, pensado para um propósito apenas, trabalho de actor. Mas, tal como o texto, tambem a encenação é surpreendente, e um cenário aparentemente simples demonstra ser versátil, complexo, com uma utilização do espaço, da luz e da cor muito inteligentes.

Se o texto precisa de actores a peça não se pode queixar neste capítulo, com Albano Jerónimo, Gonçalo Waddington, Marco D'Almeida e João Pedro Vaz, contou com um quarteto de actores que funcionaram como um coro sem solista, sempre afinado, no tom, capaz da exigência emocional que se impunha, mas sem deslumbrar.

O único ponto em que acho ter havido uma falha foi no excessivo tom cómico. Se a ambiguidade entre a força dramática da situação e a comédia da acção ou dos diálogos é um ponto a favor nesta peça (bem explícita aliás no texto), o tom leve foi, a espaços, levado longe demais.

Como realizador Tiago Guedes mostrou-se seguro, competente, preocupado em contar bem uma história, como encenador a marca de storyteller mantem-se.
Faz falta em Portugal alguem assim, que se preocupe com o texto e a melhor forma de o fazer passar, sem os tiques umbiguistas de pseudo intelectualismo que muitas vezes mina a arte representativa nacional.

James e o Pêssego Gigante

Em 1996, no ano em que realizou Marte Ataca!, três anos após produzir O Estranho Mundo de Jack, Tim Burton produz James e o Pêssego Gigante para a Disney. Realizado por Henry Selick, que já tinha realizado a anterior animação de Tim Burton, é a perfeita junção do macabro mundo Burton com o meigo imaginário Disney, e mais uma obra de referência da mente deste brilhante cineasta.
Sem ser tão negro como a maioria das suas obras, segue a viagem de um rapaz orfão na sua fuga de duas tias que o exploram. Após a visita de um misterioso homem, embarca dentro de um pêssego gigante, acompanhado por um gafanhoto, uma centopeia, uma aranha, uma joaninha e uma minhoca, rumo a uma cidade longínqua onde a felicidade se pode atingir.

A música ficou a cargo de Randy Newman, que já compôs para outros grandes filmes Disney como Toy Story ou Monstros & Companhia e é a minha escolha para esta semana.

O filme inexplicávelmente nunca foi lançado em DVD em Portugal, mas vai passar numa cópia soberba dia 1 de Dezembro no Lusomundo Happy, para quem pode pagar estas coisas.