quarta-feira, novembro 15, 2006

A Paixão Segundo João

Desde que sairam do espaço d'A Capital no Bairro Alto, os Artistas Unidos têm andado um pouco por toda a cidade, ocupando espaços de representação dos mais variados.
Encontraram para esta última investida de obras poiso no Convento das Mónicas na Graça, onde apresentam duas peças.
A Paixão Segundo João de Antonio Tarantino segue o calvário de um doente mental que acredita ser Ele, e de João um enfermeiro que o acompanha numa instituição psiquiátrica.
O texto, quase dois monólogos simultâneos, tem (como o título indica) diversas referências bíblicas, mas que se limitam a aflorar a ligação óbvia que se quer estabelecer entre este doido e as últimas horas de Cristo - de Pedro por exemplo, outro doido, limita-se a repetir "ora te conhece, ora não te conhece".
É uma peça falhada, a proposta de intenções expressa no programa não está em palco:
"É um meteoro. Não sabemos se é doido ou não, consciente ou alienado, violento ou pacífico, homem ou animal. Na sua luta com a sociedade experimenta a extraordinária e incrível iluminação, através de uma perda de identidade ou uma escolha obscura ou louca, fazendo-se passar pela figura mais alta da cultura e da religião cristã. É o máximo da espiritualidade e o máximo do realismo. “No mundo o mal existe e a desventura também”, são palavras de João no momento da separação; é a recusa do mistério. Os dois elementos coincidem na personagem: a sociedade encarrega-se de os curar ou anular."

Miguel Borges tem uma representação monótona e repetitiva, longe do que o papel pedia em intensidade e profundidade. O local escolhido é apropriado, o convento confere um peso secular à peça, mas a falta de nervo, de emoção, torna dificil criar qualquer ligação ao que se passa à nossa frente. A hora passa sem sobressaltos, sem incomodar, mas tambem sem nos emocionar em momento algum.
Existem alternativas mais interessantes por estas horas em Lisboa...

A Paixão Segundo João
Com
Miguel Borges e Américo Silva
Tradução Tereza Bento
Encenação Jorge Silva Melo
Uma produção ArtistasUnidos/Tá Safo/alkantara festival
NOVEMBRO: DIAS 1, 2, 22, 23,24 e 25 às 21H00 / Dia 11 às 19H00
CONVENTO DAS MÓNICAS - Largo da Graça
Preço: 10.00€
ESCRITÓRIO Artistas Unidos
R. Campo de Ourique,120 1250-062 Lisboa
tel: (00351) 213872418 / 213700120
fax: (00351) 213872418

terça-feira, novembro 14, 2006

Another World

Sempre que começo uma aula no Chapitô sinto que entro para um outro mundo, um mundo mais livre, onde as regras são diferentes e onde os juizos de valor são practicamente inexistentes.
Na aula de ontem, após o relaxamento inicial, fizemos diversos exercicios com posições fetais, posições de sono e movimento constante entre as varias. Andámos pela sala com um andar inventado por nós, fizemos rodopios, gestos, saltos e quedas, num encadeamento constante entre os vários elementos a 8, 4, 2 e finalmente a 1 tempo, num frenesim tal que perdiamos a noção do que estávamos a fazer. O objectivo não era obviamente a execução de cada passo milimétricamente, mas a busca de uma emoção, uma imagem, uma desenvoltura fisica que faz parte das aulas de segunda feira - antes disto tinhamos já evitado choques uns com os outros enquanto avançávamos pela sala cada vez mais rápido, bem como feito uma parafernália de movimentos, cambalhotas e exercicios quer de pé, quer no chão.
Regressámos à Commedia del Arte, escolhemos um personagem e encarnámo-lo fazendo sobressair o seu lado sensual, mais que isso, a sua libido.
Cada passo que damos, mesmo que seja em falso, é um passo em direcção a uma maior libertação, expressividade e auto-conhecimento.
O Chapitô tem sido cada vez mais um refugio onde estico as asas à imaginação...

Música da Semana


Esta semana ouve-se aqui no Sopros Death Cab for Cutie, uma banda da nova vaga da musica independente americana, ou pelo menos de uma nova vaga independente americana. São o contraponto musical perfeito à tambem "nova vaga" do cinema independente americano, como Eu Tu e Todos os Que Conhecemos, A Lula e a Baleia ou o seu novo porta estandarte Uma Familia à Beira de Um Ataque de Nervos. Tal como no cinema não traz nada de inovador, é um reformular de experiências passadas nomeadamente de bandas como R.E.M., nem sequer são necessáriamente recentes - têm já quase uma década de história.
Seja como for, e tal como nos filmes que mencionei, o esforço é meritório, o tom desenjoa da monotonia e a vibração fica no ouvido.
Do album de 2003 Transatlanticism aqui fica The Sound of Settling... tenham uma boa semana...

segunda-feira, novembro 13, 2006

As Vampiras Lésbicas de Sodoma


Desde a morte de Mário Viegas que a Companhia Teatral do Chiado se tem especializado em comédias non-sense, com grande dose de improviso, onde derrubam (demolem completamente) a quarta parede levando o espectáculo para o colo (literalmente) do público. Começou há dez anos com a estreia de As Obras Completas de William Shakespeare - que tem sido o abono de familia desta companhia - e vem-se mantendo constantemente.
A última instalação deste género de peças é As Vampiras Lésbicas de Sodoma, que já está em cena há 8 meses com alguma adesão do público - moderada.
Escrita por um dramaturgo (actor e argumentista) americano Charles Busch, que em 1984 foi catapultado para o sucesso por esta peça, está no entanto adaptada e enquadrada para a realidade portuguesa com diversas referências ao parque mayer e às vedetas dos anos 30, 40 e 50, bem como, no último quadro, um gag de uma actriz bem marcada do Porto.
Não é no entanto no texto que está o mérito do espectáculo, mas sim na interacção alucinada entre os vários actores, cada um com figurinos, maquilhagem e representação mais over-the-top que o anterior. Apesar dos dois actores principais serem o eterno Simão Rubim e Rita Lello, quem enche completamente o palco é Tobias Monteiro que tem uma performance absolutamente hilariante.
O problema principal reside na irregularidade de toda a peça. Se existem diversos momento em que não conseguimos conter o riso, com alguns gags muito bem conseguidos, existem outros em que no máximo suportamos um sorriso sofrivel, mais pela memória de momentos passados do que por aquilo que está em palco. Arrastando-se por mais de duas horas, As Vampiras Lésbicas de Sodoma não tinha nada a perder se cortasse meia hora de duração, se concentrasse mais nos momentos chave, reduzisse o improviso que nem sempre é uma mais valia, e acalmasse o tom geral. A histeria generalizada ganhava uma outra força se fosse um contraponto a uma representação contida em vez de uma constante do início ao fim.
No final de contas merece uma visita, se bem que está vários furos abaixo de As Obras Completas de William Shakespeare e com um preço que é pouco convidativo.


As Vampiras Lésbicas de Sodoma
Companhia Teatral do Chiado
Interpretação: João Carracedo, João Craveiro, Manuel Mendes, Rita Lello, Simão Rubim, Tobias Monteiro
Encenação: Juvenal Garcês
Texto: Charles Busch
Tradução: Gustavo Rubim, Patrícia Marques, Vítor d´Andrade
Adaptação: Companhia Teatral do Chiado
Quintas, Sextas e Sábados às 22h
Preço: 18,5 euros (existem diversos acordos, descontos e promoções, perguntar na bilheteira)
Teatro Estudio Mario Viegas
Largo do Picadeiro
1200-330 Lisboa
Bilheteira e Informações:
(351) 213 257 652
(351) 917 664 989
www.companhiateatraldochiado.pt
http://asvampiraslesbicasdesodoma.blogspot.com

sexta-feira, novembro 10, 2006

Marie Antoinette


O nome Coppola está a tornar-se cada vez mais uma referência na indústria cinematográfica. E se olharmos para a familia alargada, o clã Coppola inflitra-se por todos os poros do movie business. Dos menos conhecidos como o actor Marc Coppola, o realizador Christopher Coppola, Roman Coppola (com diversas pequenas posições), o jovem actor Robert Schwartzman, passando pelo seu irmão mais velho Jason Schwartzman (À Boleia Pela Galáxia, Uma Rapariga Cheia de Sonhos), Talia Shire (Rocky, O Padrinho), Carmine Coppola (o avô do clã, compositor), até Nicolas Cage, Sofia Coppola e o velho mestre Francis Ford Coppola, temos uma noção de como o cinema corre nas veias desta familia.
Sofia Coppola, filha de Francis Ford Coppola, depois de uma breve passagem como actriz, conseguiu firmar-se como realizadora e argumentista, tendo já a seu crédito três longas metragens, todas produzidas para a American Zoetrope a companhia de... Francis Ford Coppola.
Marie Antoinette é a sua última produção após o premiado Lost in Translation, pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Argumento Original. Segue a vida da última rainha francesa, mulher de Luis XVI, morta após a tomada da Bastilha. O filme, quase totalmente centrado em Versalhes, é mais um com a marca de Sofia Coppola. Exímia na utilização dos espaços, dos tons, das cores, conseguindo transmitir numa só imagem a solidão e a histeria que engoliram a jovem arqui-duquesa austríaca, transformada em simbolo da podridão da corte francesa do século XVIII. Visualmente exagerado, marcado com uma mescla de cenografia barroca com uma côr pujante típica dos anos 80, bem vincada aliás na música escolhida pela realizadora, é um filme sedutor. Este loucura visual é contraposta de uma forma soberba com os tons calmos e suaves da sua casa de campo, as sombras quentes das noites ou a pesada negritude dos últimos meses da sua vida. Se estética e musicalmente a realizadora assume riscos e acerta em cheio, o mesmo se pode dizer com o elenco. O seu primo Jason Schwartzman é brilhante como um triste Luis XVI e Kirsten Dunst prova, de novo, ser mais que uma cara bonita, mas uma actriz de um talento inegável e que transmite aos seus personagens um misto de erotismo e inocência.
Falhanço no box-office americano, Marie Antoinette é um filme a não perder. Parece que a arte de cinema corre mesmo no sangue...

quinta-feira, novembro 09, 2006

Respirar outra vez...

Como o regresso à tona de àgua. Ao fim de duas semanas respirei golfadas de ar fresco, saboreei cada momento, cada sorriso, cada exercico da aula de teatro. Não que a aula fosse particularmente extraordinária, começou atrasada, com muita gente e, após um relaxamento inicial, fizemos um trabalho de reconstrução de uma pessoa que nos fosse próxima. A seguir, com base nas palavras coragem e cobardia, relembrar e trabalhar (terminando com um gesto específico e um som) situações da nossa própria vida que essas palavras trouxessem à memória.
Acabou com a partilha (que demorou muito tempo) das experiências revisitadas.
Perdi em duas aulas trabalho sobre texto e sobre a Comedia Del Arte.
Mas voltei e soube... bem.

quarta-feira, novembro 08, 2006

Para quem acha piada


Pelos décimo aniversário do Contra-Informação, está no Vasco da Gama uma exposição itenerante. São diversos personagens deste programa, espalhados pelo centro para serem vistos e ouvidos ao vivo.

terça-feira, novembro 07, 2006

Faz amanhã duas semanas que fui à minha última aula de teatro... já começo a ressacar, se tudo correr bem volto rápidamente ao vício...

Ornatos Violeta


Foi fugaz a passagem desta banda formada no Porto. Em 1997 edita Cão! e em 1999 o seu segundo e último album, o brilhante O Monstro Precisa de Amigos.
Com influências musicais diversas, os Ornatos marcaram um estilo alternativo muito próprio, vincado na metálica voz caracteristica de Manel Cruz. Os dois singles memoráveis Ouvi Dizer (com Vitor Espadinha) e Capitão Romance (com Gordon Gano dos Violent Femmes) catapultaram para o sucesso um album carregado de grandes músicas para ouvir da primeira à última, uma e outra vez.
É uma revisita aos meus tempos de faculdade...
Para esta semana a música é Notícas do Fundo...

segunda-feira, novembro 06, 2006

The Devil Wears Prada

Há filmes em que à partida já se percebe o rumo que vão tomar. Os filmes de género (comédias, acção ou terror) têm muitas vezes essa particulariedade. Não é necessáriamente mau, quando entramos na sala de cinema muitas vezes queremos assistir a algo familiar, queremos ver os bons a ganhar e os maus a perder. Raramente estes títulos se excedem, mas muitas vezes cumprem o seu propósito que é entreter.
Há no entanto filmes que, por um motivo ou por outro, mesmo sendo reconheciveis, fogem à regra.
The Devil Wears Prada é um desses casos. Sem ser revolucionário na sua temática, ou na forma como a aborda, é uma comédia bem construida, muito inteligente, que consegue a espaços surpreender e que (caso raro) se mantem com a mesma força e coerência do inicio até ao fim.
O que leva este filme para um nivel diferente é a performance de Meryl Streep. Com o papel de uma patroa de uma revista de moda, cujo poder se estende por toda a industria, e que domina aqueles que a rodeiam com pulso de ferro, Streep tem uma performance absolutamente colossal, uma personagem a lembrar Cruella De Vil, carregada de pose, de glamour, com um veneno profundo e uma calma sádica, é mais um enorme papel desta actriz.
Se não fosse por mais nada (e o filme tem outros méritos), só por ela merecia o dinheiro, o tempo e o aplauso.


sexta-feira, novembro 03, 2006

Curiosidade


Abriu dia 1 de Novembro a exposição oficial "Star Wars", que ficará no Museu da Electricidade em Lisboa até 14 de Janeiro.
Numa área de 2000m2, onde são recriados alguns dos cenários da série, estão expostos desde naves a fatos dos seis filmes da saga.

quinta-feira, novembro 02, 2006

Da garganta sobre o rouco murmúrio que se escapa quando se tenta falar. Da cabeça os olhos tornam-se um peso desnecessário, o nariz um rio sem fim e a testa um centro de dor. Do corpo sobra a moleza de quem não tem força para erguer o seu próprio peso e a certeza de que os braços e pernas se vão separar pelas articulações...

Não há como fugir... estou constipado...

(bolas)

terça-feira, outubro 31, 2006

Música da semana

Em 1983 Sergio Godinho lança o seu oitavo album (nono se contarmos a banda sonora de Kilas o Mau da Fita) intitulado Coincidências. Foi uma tentativa de penetrar o mercado brasileiro, tendo diversas colaborações com artistas do outro lado do atlântico. Comercialmente não foi o album que lhe permitiu a internacionalização, mas musicalmente um album melodicamente bem-conseguido, com parcerias que deram a este disco uma riqueza temática e musical enorme.

Pelo lançamento do novo album Ligação Directa, aqui fica a memória de "O Que Há-De Ser de Nós?"

Quando tem o aspecto de, o cheiro de, e a consistência de, chamamos-lhe...

O blog www.freedomtocopy.blogspot.com publicou um post onde acusava Miguel Sousa Tavares de, no seu romance Equador, ter "muitas ideias parecidas e frases preacticamente iguais" a um livro intitulado Cette Nuit Noir de Dominique Lapierre e Larry Collins. Este artigo motivou uma crónica de MST no Expresso do passado sábado, não necessáriamente contrapondo as suas acusações, mas atacando os blogs, bloguers e principalmente o anonimato de que gozam.
A questão do anonimato parece-me, na realidade, uma falsa questão, as fontes anónimas são desde sempre usadas pelos jornais, mesmo quando (vide Casa Pia) estão em clara violação do segredo de justiça.
Para alem do mais não nos esqueçamos da possilidade judicial e informática de detectar os infractores e traze-los à justiça (a net não permite ao comum dos mortais o anonimato total).
Não nos esqueçamos tambem do espaço de liberdade que a internet pode ser, visto que a imprensa escrita é um espaço fechado, ao alcance apenas de alguns, e onde o direito de resposta nunca é automático, passando sempre pelo filtro editorial (nos blogs com comentários activados é imediato).

Mas o meu post (que deveria ser mini) não era necessáriamente sobre o anonimato na net.
O meu espanto é ter visto que o blog onde foi escrito o post que iniciou a polémica desapareceu e no seu lugar, com a mesma morada, está um blog dedicado a promover o livro em questão de MST.

Digamos que se vissemos este enredo num filme ficariamos com suspeitas...

segunda-feira, outubro 30, 2006

Apontamentos 2


A Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva apresenta de 27 de Outubro a 25 de Fevereiro de 2007 uma exposição sobre Sonia Delaunay, francesa refugiada em Portugal durante a 1ª Guerra Mundial, que conviveu com nomes como Eduardo Viana, Amadeo de Sousa-Cardoso ou Almada Negreiros.
Sendo fortemente influenciada pela sua passagem no nosso país, Delaunay regressou após o fim da guerra a França onde trabalhou sobre os texteis, cores e formas.
nesta exposição encontram-se "desenhos de tecidos", uma "pesquisa puramente pictórica de relações de cores com formas geométricas ritmadas".

A não perder obviamente a exposição permanente com obras de Vieira da Silva e do seu companheiro Arpad Szenes.

Praça das Amoreiras 56/58
1250-020 LISBOA
213880044/53
Segunda a Sábado: 11h-19h
Domingo: 10h-18h