Primeiros números
As primeiras indicações já sairam. 56 a 60% de abstenção, num referendo, numa matéria tão importante como esta. Seja qual for o resultado final começo a perceber o tipo de país em que vivo...
As primeiras indicações já sairam. 56 a 60% de abstenção, num referendo, numa matéria tão importante como esta. Seja qual for o resultado final começo a perceber o tipo de país em que vivo...
A caça aos Óscares continua, apesar de, dado o número de estreias, sentir que estou cada vez mais a perder terreno. O último filme que vi foi The Pursuit of Happyness, com Will Smith nomeado para o Óscar de Melhor Actor Principal.
O filme conta a história verídica de um homem que sem emprego, sem casa, dinheiro ou mulher e com um filho nos braços, consegue dar a volta e vencer na vida.
Não é um grande filme... na verdade é bastante mediano (o trailer é mais forte que a fita em si), passava bem por aqueles casos da vida da TVI, com valores de produção um pouco acima da média. Só há duas coisas que fazem com que se mereça uma ida ao cinema, Will Smith, que dá mostras de classe como actor dramático e o seu filho que se estreia como actor. Will Smith já não é surpresa, com Ali mostrou ter talento, apesar de aqui ter um desafio menos condizente com a sua persona pública e com o seu físico, interpretar um homem de meia idade caído em desgraça. Quanto ao seu filho Jaden Smith, costuma-se dizer que filho de peixe sabe nadar e com dois pais actores está bem encaminhado. O miúdo é uma delicia. Pouco mais há a destacar, da história já se conhece o fim antes de começar e o tempo passa sem sobressaltos de maior - salvo os azares consecutivos de que é vítima o nosso heroi - e acaba feliz. Típico filme de domingo à tarde se se quiser apenas passar o tempo.
É o meu novo sabor musical do momento, este americano-canadiano com a sua voz inconfundivel, chamou-me a atenção com o misto de pop, musical e rock independente. Esta canção, Cigarettes ans Chocolate Milk é do seu segundo album Poses, e não me sai da cabeça. Não sei porquê mas visualizo-a como o início perfeito para a versão cinematográfica de Frozen...
Bem... seja como for... é a música da semana.
Amador é a nova peça dos Artistas Unidos, que estreou dia 1 de Fevereiro no Convento das Mónicas. Um crítico de teatro chega a casa vindo de mais uma peça. Está farto, jura para nunca mais ir ao teatro, diz que o drama existe em todo o lado menos no palco, está furioso, ao mesmo tempo o drama que se desenrola em sua casa é-lhe invisivel.
Amador é uma peça com uma ideia, o problema é que não tem mais do que isso: uma ideia. O crítico entra em casa e repete o mesmo texto ao longo de toda a peça, está farto, diz que está farto, que basta ligar a televisão ou lêr o jornal para se ver o drama da vida real e que no palco só existe vazio, a Arte como uma manifestação pseudo-intelectual das frustrações dos artistas, enormes egos vazios. Mas não sai dali... repete inclusivé linhas inteiras de texto três, quatro, cinco vezes, Gerardjan Rijnders (o autor da peça) não sabe o que fazer com este personagem, então transforma-o num disco riscado. Mas nem sequer o que diz é sobejamente interessante, não faz sequer uma crítica com pés e cabeça ao teatro, repete frases ocas que se esgotam nos primeiros cinco minutos. À sua volta o drama da vida real desenrola-se e ele é cego, surdo e mudo. Não vê a sua mulher bêbeda, o seu filho toxicodependente que se masturba em frente a ele, que destroi a casa, que viola e mata a própria mãe.
A peça acaba como começa, o crítico está farto, diz que o drama está em toda a parte e não vê o drama ao seu lado. Mas isso já se tinha percebido há uma hora atrás. Os actores fazem o que podem, mas não têm muito que fazer, os personagens são estáticos, não evoluem, não têm acção, não mudam emocionalmente. Como diz o Amador: no palco... nada.
Chega a época dos Óscares e o número de estreias de filmes que merecem a pena triplica. Entre a semana passada e esta semana estrearam meia dúzia de longas-metragens e a corrida contra o tempo começou. Ontem foi a vez de Blood Diamond, último filme de Edward Zwick (Glory, The Last Samurai), nomeado para 5 Óscares, dos quais se destacam as nomeações para Leonardo DiCaprio e Djimon Hounsou, os dois actores à volta dos quais todo o filme revolve.
Na última quarta feira o último exercício da aula de teatro foi fixar o olhar num colega e, ao som de música, colocá-lo num espaço, para depois o transformar num personagem e imaginar uma história. Ficámos de a escrever para ontem trabalharmos sobre ela. Segunda-feira não pude ir à aula (caso raro) e portanto ontem fui com ânimo redobrado. O Bruno atrasou-se e pediu a uma colega para começar o relaxamento inical. Passado meia hora já estavamos todos mais que relaxados e ele sem aparecer. A Patricia (a tal colega) tentou que começássemos um exercício sensorial baseado na história, enquanto esperávamos. Alguns fizemos, outros não, mas sem perturbar. Às 20h30 soubemos que o Bruno não vinha... o resto do tempo passou entre conversas, despedidas e pouco mais. Afinal de contas não houve aula... Para mim faz a semana inteira... É incrivel como fico com comichões quando isto acontece, a falta que me faz este trabalho é impressionante. Bem, segunda começa-se de novo. Fica só a referência para a Patricia, que sem preparação, nem aviso, conseguiu durante quase hora e meia manter a turma a funcionar, a fazer qualquer coisa de minimamente util e sem se dispersar. Não é fácil, principalmente para uma aluna, obrigado pelo esforço.

Comecei esta rubrica a semana passada, na qual viso explicar os motivos que me levam a votar Sim no referendo de dia 11. O primeiro foi Saúde Pública, o segundo é a Lei Actual.
Há uma coisa que toda a gente sabe mas que parece ser esquecido nos discursos, o que está em referendo é tão simplesmente isto – as mulheres que resolvem interromper a gravidez até às dez semanas devem ser presas? Está-se a falar de despenalizar, não é apoiar, liberalizar, globalizar, normalizar, obrigar, ou seja o que for, a única, repito ÚNICA questão aqui é saber se as mulheres que tomam esta difícil decisão devem depois ver ou não a sua vida devassada, escrutinada, serem acusadas e sujeitas a uma pena de prisão.
Muitos dos defensores do Não afirmam que esta é uma falsa questão, que nenhuma mulher é realmente presa e que portanto não se deve alterar a lei. Para mim isto indica o oposto, se as mulheres não são presas é porque os juízes, a sociedade em geral sente alguma repulsa em o fazer, não cumprindo a lei. Ora a Lei não é algo que exista por si só, a Lei é a emanação daquilo que uma certa sociedade considera certo ou errado, e uma lei que não é posta em prática é por definição uma lei errada. É no entanto uma lei que empurra as mulheres para o sub-mundo do aborto ilegal, que as torna arguidas e as persegue, mesmo que no fim ninguém as queira prender. Até ao dia... até ao dia em que um juiz mais conservador se agarre à letra da lei e não atenda às súplicas de quem já sofreu tanto.
Outro ponto interessante é a análise da lei actual. A lei permite o aborto em três casos: perigo de vida da mãe, violação da mãe e malformação do feto. O primeiro caso é bastante óbvio, é preservar a vida da mãe, ok. No entanto já o segundo e o terceiro caso me levam a reflectir. Quais os motivos para impedir uma gravidez que resulte de uma violação? Suponho que seja não obrigar a mulher a passar por uma gravidez que começou com um caso traumático e ter um filho indesejado. E malformação do feto? Nem precisa ser uma malformação demasiado grave, se houver hipótese da criança nascer cega ou surda o aborto é permitido. Porquê? Suponho que seja para não obrigar a mãe a ter uma criança que lhe vai causar sérios problemas ao longo da vida e que pode ela própria (em caso de atrasos mentais profundos) não chegar a gozar de uma vida plena. São dois casos que existem para evitar causar dor, sofrimento, desgaste aos pais, para preservar a vida dos pais e das suas famílias. E ninguém contesta esta lei, ninguém acha que uma violada deve ter o filho, apesar de o poder dar para adopção, como parece ser a solução milagrosa preconizada por muitos defensores do Não. Mas se se considera que estes casos de gravidez indesejada podem ser alvo de aborto, porque não outros? Porque não alguém que não tem dinheiro para sustentar o filho, ou que tem 16 anos e vê a sua vida parar, ou que é demasiado velho e doente, ou que viu o homem da sua vida abandoná-la por alguém mais novo, ou os mil e um motivos que nem me passam pela cabeça porque não vivo as vidas das mulheres que têm que tomar das decisões mais complicadas que alguma vez tomaram? Quem somos nós para dizer que um filho deficiente é mais problemático ou menos desejado que outro? Quem somos nós para decidir pela mulher? A lei já diz que a mulher pode decidir, mas a lei não engloba todas as situações, não pode englobar porque não consegue. Só quem vive é que tem capacidade de decidir sobre a sua vida? Quem somos nós para dizer o contrário?

Marc Foster tomou o mundo da Sétima Arte de assalto em 2001 com a sua segunda longa-metragem Monster's Ball, um filme negro e deprimente, mas ao mesmo tempo tocante, que valeu um Oscar a Halle Berry. Manteve a sua boa estrela com o terno Finding Neverland e provou a sua versatilidade com o thriller Stay. Agora tem um novo projecto, uma comédia intitulada Stranger Than Fiction.
Um homem, fiscal do IRS, solitário, enfadonho e obcecado por números, que começa a ouvir uma voz que lhe narra a vida. Descobre que é o personagem de uma história e que a sua autora o está prestes a matar.
Stranger Than Fiction tem uma permissa inovadora e muito interessante, e é um filme antes de mais muito inteligente no uso que faz dela. A forma como somos levados para este mundo, para esta vida fechada sobre si mesma e vemos, em paralelo, o desepero do personagem e do seu criador, é de louvar. Emma Thompson está brilhante, Maggie Gyllenhaal tem um magnetismo próprio e até Will Ferrel se insere num registo uns passos mais acima do seu normal.
Bem escrito, imprevisivel, curioso em algumas soluções encontradas (como os números que aparecem desde o início na imagem), Stranger Than Fiction é o confirmar de um um autor que ainda tem muito para dar.
Honestamente já me apetecia um pouco de música lusa aqui no blog, mas o regresso à lingua de Camões ainda vai ter que esperar, o file lodge continua em baixo e não encontro outro site onde possa alojar as músicas para fazer o stream para aqui, sugestões são bem-vindas.
Até lá fica o melhor que encontro na net, nesta semana Portishead, banda alternativa inglesa, com uma sonoridade melancólica, e com Beth Gibbons na voz - rouca, depressiva, itensa, memorável. Do primeiro album de 1994 Dummy aqui fica o fabuloso Glory Box...
No dia 22 de Dezembro do ano passado recebi um telefonema de uma amiga a dizer-me que eu tinha que ir ver a peça "Por Detrás dos Montes" que estava no Meridional e que ia sair no dia seguinte. Não consegui arranjar tempo. No entanto a peça voltou a cena e no sábado passado consegui finalmente vê-la. É excepcional.
Por Detrás dos Montes é a segunda peça do Projecto Províncias, que visa criar espectáculos que captem a singularidade das diferentes regiões de Portugal. Esta fala, como o título sugere, de Trás-os-Montes, e se como me disse uma amiga, o teatro serve antes de mais para me contar uma história, esta peça não o faz, conta mil. Estão lá todos, os emigrantes, os miúdos, os velhos, os pauliteiros e os agricultores, as bordadeiras, as professoras, as dores, os mitos, os costumes, a religião, os amores, os cheiros, as cores, os sons, um mundo transmontano quase mítico. E pouco interessa se ele existe tal qual, se as Floribelas não inundaram já as mentes e hábitos daquela gente, se é real, ou quase efabulado, mas é um retrato profundo, intenso, humano, místico e tocante, muito tocante, capaz de levar às lágrimas. Toda a peça – e será peça? não roça aqui o limite da dança? da música? - que não conta com palavras como meio de comunicação, está imbuída de um espírito quase mágico, que apenas se consegue com talento, dedicação, e trabalho, muito trabalho, estudo, pesquisa - foram cinco as residências artísticas - e empenho. Visualmente poderoso, marcante, com soluções cénicas simples, mas nunca simplistas ou simplórias, sempre inesperadas, sempre emblemáticas. Tem na música um dos seus elementos mais importantes e um imenso Fernando Mota, que concebeu inclusive a máquina musical que domina a sonoridade do espectáculo.
Imperdivel, absolutamente imperdível, dá vontade de ver e rever, saborear intensamente, até que o dia se desvaneça à nossa volta.
Às vezes há coisas que passam por mim e que não são registadas aqui no blog, seja lá por que motivo for. Mas é bom ter momentos em que se pode parar e prestar a devida homenagem. No teatro Camões esteve em Novembro do ano passado o ciclo Como Tu e Eu, em que diversos coreógrafos preparavam espectáculos com pessoas sem formação em dança. Foram diversas propostas interessantes, das quais só tive oportunidade de ver uma, o Natural de Clara Andermatt, espectáculo preparado para a Company of Elders, um grupo inglês de idosos. Foi dos espectáculos mais tocantes e profundos que já vi, num misto de teatro, música e dança, a segunda coisa que vejo desta senhora (a seguir ao Grito do Peixe) e a segunda genial. A forma como ela utiliza os corpos, as vozes, as vidas, os sonhos e medos daqueles homens e mulheres é incrível. Um final arrepiante, onde os performers contemplam a sua própria mortalidade, que foi de levar às lágrimas.
Um outro espectáculo – esse ainda em cena – é O Auto da Barca do Inferno que está nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos. É um espectáculo disponível apenas por marcação e pensado para escolas (como as horas de exibição o mostra), mas que consegue cativar os miúdos desde o primeiro minuto com um texto que nem sempre é fácil. Os claustros são uma escolha primorosa e as soluções de encenação (com escadotes a ter os mais variados usos) dão uma vida à peça que é de assinalar. Está até Março com novo elenco, saiu Graciano Dias e João Barbosa (absolutamente hilariante) para o espectáculo Moby Dick em cena no S. Luiz, e entraram para o seu lugar Mário Sousa e Filipe Vargas que eu não tive oportunidade de ver. Se Duarte Gomes é um anjo fraquinho e Francisco Nascimento tem mais cara que voz, o resto do elenco tem o talento e a energia suficiente para cativar os espectadores. Para quem estuda e não só, até Abril em Belém.