"I fucking hate Goldfrapp!" - com esta frase Ellen Page, num papel absolutamente memorável, mostra-nos o nível de premeditação com que engendrou tudo em Hard Candy, um dos filmes mais surpreendentes de 2005, que aborda o sempre sensível tema da pedofilia sob um prisma quase... revolucionário. Quanto a mim Goldfrapp não era novidade, os sons de pop-electrónica desta banda inglesa, liderados pela incontornável Alison Goldfrapp, já os conhecia e apreciava há algum tempo. Para esta semana, do album Supernature, o envolvente You Never Know.
Em Berlim, no fim da Segunda Guerra Mundial, as potências aliadas reunem-se para a Conferência de Paz, para decidir o futuro no pós-guerra. A cidade é um local cheio de oportunidades e de perigos. Um correspondente de guerra americano aterra para cobrir a conferência, mas na realidade procura o seu antigo amor, uma alemã que tinha ficado para trás. Vê-se envolvido numa teia de suborno, morte e vingança . Filmado como os film-noir da época, mimetizando fotografia, angûlos de câmara e temáticas, O Bom Alemão é um filme interessante de Soderbergh, mas que não deslumbra. É uma homenagem aos clássicos, mas que não consegue fugir da sombra dos mesmos, correndo o risco da forma intreferir com o disfrutar da substância. Bem escrito e interpretado , Clooney e Blanchet a fazer uso das suas armas habituais, é merecedor de atenção, mas não obrigatório.
sexta-feira, março 16, 2007
Há momentos como este, em que a expectativa de mudança se torna densa, espessa, quase palpável, em que a tensão acumula à beira do desconhecido, em que apenas se tem uma certeza - nada vai ser como dantes. As variáveis são muitas, como vai ser a reacção dos envolvidos, quando vou ter que começar o novo caminho e terei eu as pernas necessárias para o trilhar? A confiança depositada sobre mim foi grande, de repente parece ser ainda maior. Há dias em que a vida parece suster a respiração...
... de Bruno Schiappa está terminada. É este o nome da peça que vamos apresentar em Junho. A partir daqui são ensaios em cima de ensaios, em cima de ensaios. E a fúria do Bruno sente-se em cada aula, com as marcações, com a atenção e o profissionalismo necessário para abordar um trabalho como este. Tenho mais uma ou duas coisas para fazer. Em termos de utilização não me posso queixar, entro durante imenso tempo, tenho diversos quadros, e encaro isso como uma prova de confiança à qual espero corresponder. No entanto não é o caso de toda a gente, e custa ver pessoas de quem gosto tristes por não terem um papel tão relevante, ou desafiante como queriam. Faz parte... agora mãos à obra...
quarta-feira, março 14, 2007
O local onde trabalho devia ser um sítio de produção de conteúdos, onde se trabalha em e se pensa sobre cinema, televisão, internet e audiovisual. Infelizmente isso é tudo no papel. Na verdade em 1000 pessoas, talvez 5 percebam e pensem realmente os conteúdos a que me referia. Com especial incidência no meu piso. Estou rodeado de malta que tanto podia estar aqui como a vender pastilhas elásticas, que não fazem ideia de coisa nenhuma, nem querem fazer. O pior é que não se calam, falam alto, cantam, gritam, discutem novelas e trivialidades como se se tratasse de um importante tratado filosófico. O pior é quando uma das inúmeras jovens mães traz o seu querido rebento de soja para o emprego. A histeria rebenta, tudo se levanta num reboliço doido, de empregadas a directoras todas viram a atenção para a criança que inadvertidamente veio parar a uma gaiola de malucas. Fala-se como se tivesse atraso mental, brinca-se, grunhe-se, pula-se, passa-se o bébé de braço em braço como se fosse uma taça que toda a equipa quer tocar, e arruina-se uma hora de trabalho, o clima e a paciência de quem está ao lado e (enganado com certeza) julga não ter vindo trabalhar para uma creche...
Depois de uma breve passagem pelo palco da Comuna, a Este - Estação Teatral da Beira Interior, trouxe o seu espectáculo Pax Romana ao Chapitô, para um número reduzido de dias, o fim-de-semana passado. Tendo como base os princípios da Commedia del'Arte, apresenta-se como uma peça leve, bem disposta, que segue as desventuras de três legionários romanos (segundo a estética de Uderzo), quando regressam de batalha. Sem linguagem, ou com uma linguagem rudimentar, um português a imitar o latim, baseia-se muito no trabalho físico dos actores, no rigor do gesto, num humor que é preciso e visual. O problema é que após o sorriso inicial a ideia esgota-se. Os gags repetem-se ao longo de uma hora, sem grande imaginação, nem diversidade. O que era inicialmente simples, torna-se em forçado e até exagerado. Se juntarmos a isso um espaço exíguo na tenda do Chapitô e um público demasiado jovem e histérico (que não parava de rir boçal e alarvemente a cada careta, cada gesto reproduzido em palco), temos uma experiência pouco satisfatória.
A visitar com reticências nos próximos locais onde pousarem...
Na aula de ontem, para além dos exercícios iniciais de aquecimento, e do ensaio da peça no final, o que mais me marcou foram os exercícios que fizemos no meio. Começámos por tentar reproduzir andar num espaço quase sem gravidade. Continuámos com gestos que cortassem o ar, que nos dessem impulso e tentámos perceber o efeito desse impulso no corpo. Passámos então para exercícios a pares, aí o nosso grau de atenção e de concentração teve que evoluír para outro nível. Começámos lado a lado, a tentar perceber a energia do outro, movendo-nos com o outro, como se o nosso corpo e o dele estivessem ligados por uma corrente invísivel, sem líderes, sem palavras, sem gestos pré-programados, avançávamos tendo apenas em atenção o outro e o que sentiamos desta dualidade. Foi então que veio o toque, o nosso corpo passava a estar em permanente contacto físico com o corpo do nosso colega, movendo-se o mais possivel numa harmonia, num fluxo de pele, carne e movimento, numa ligação constante de atenção, intenção e energia. É incrivel a terrivel liberdade de depender de quem está ao nosso lado e sentir que o outro depende de nós, de actuar como um só. Por fim, o mesmo exercício que este, mas com movimentos mais bruscos, mais fortes, mais intensos. Claro que não atingimos o potencial máximo na primeira vez que experimentamos este trabalho, provavelmente nem na segunda, nem na centésima, mas a busca, a procura, a ligação foi surpreendente.
De Portugal ao Brasil,num só pulo atravessa-se o Atlântico. Aqui com a voz de Caetano Veloso que compôs este terno O Leãozinho, que é uma insuspeita canção de amor. Não de amor no sentido mais comum, mas um piscar de olho enfim, uma melodia aos rapazinhos morenos das praias do Rio, os pequenos leões de juba solta e cabelo moreno que Caetano apreciava. Aqui fica, um dos grandes da música brasileira...
Ontem à noite fui ao cinema. Sendo domingo e tendo companhia alargada, resolvi escolher um filme que fosse levezinho, que entretesse, e que não precisasse de grande dor de cabeça para ser apreciado. A escolha recaíu sobre Dreamgirls. Foi bastante premiado, tem uma recriação de época que me pareceu interessante, a música que ouvi ficava no ouvido, os últimos dois trabalhos do realizador, Bill Condon, foram muito interessantes (Kinsey e Gods And Monsters) e ainda riscava mais um filme da lista dos Oscares.
Os primeiros vinte minutos pareciam confirmar que a decisão era acertada, o filme fluía sem problemas, os fatinhos eram giros, e a história envolvente. Foi então que tudo mudou. Em vez de cantar apenas em palco, os personagens acharam por bem cantar em todo o lado. O filme deixou de ser sobre uma banda de música, para ser um musical. Pessoalmente eu gosto de musicais, achei o Chicago interessante, mas deixo-me fascinar particularmente pelos clássicos, de My Fair Lady a Mary Poppins. Já Dreamgirls é um absurdo. Não é um musical, mas sim um interminável teledisco, as músicas encadeiam-se com pouco diálogo e quase nenhuma acção entre elas, ao ponto do desespero. É como as cut scenes dos filmes normais com música por cima. Quando, por exemplo no Rocky, se vê o boxeur a treinar, a levantar pesos, a correr, a esmurrar pedaços de carne com uma melodia a pontuar a acção, estas cenas servem para fazer correr o tempo. Dreamgirls é uma hora e meia deste tipo! Não há pachorra! É canção atrás de canção, não nos interessa o que se passa, quem fica ou quem parte, quem vive ou quem morre, apenas queremos que aquilo acabe. E aquele happy-ending forçado, é de bradar aos céus.
Rapidamente se esquece os valores de produção, a melodia, ou o trabalho de actores (que aliás não é mau mas também não merece o aplauso todo que recebeu), apenas queremos que acabe. Felizmente acaba... eventualmente eles calam-se...
sexta-feira, março 09, 2007
Ontem à noite (sem dúvida para comemorar o dia da mulher) o Biography Channel passou um documentário da sua série Crónicas de Amor, intitulado, Amor em Zona Perigosa. Seguiam os casos de mulheres que se entregam a "homens perigosos", músicos, motoqueiros, uma série de tipos violentos culminando numa mulher que se apaixonou por um "serial killer". Ora, este "serial killer" é o autor confesso de inúmeros homicídios de mulheres, onde as torturava, esventrava e violava sistemáticamente. Quando ele transferido para outra prisão, esta mulher (que foi juri no seu julgamento) mudou-se para outra cidade só para estar perto dele.
Há coisas que ultrapassam a minha capacidade de compreensão. Haverá assim uma escassez tão elevada de homens solteiros? Será o amor cego na verdadeira acepção da palavra? Ou, como diziem os Ornatos Violeta, o amor é uma doença?
Ensaio, ensaio, ensaio, ainda na aula (só devemos passar para a tenda mais em cima da estreia), e ainda a acrescentar quadros novos. Ontem começámos como de costume com um exercício sensorial, e depois duas colegas tentaram o novo trecho de texto que o Bruno tinha preparado. Meia dúzia de repetições e depois ensaiar a peça toda, desde o início, até ao ponto em que se encontra agora. É complicado conseguir fazer ensaios completos quando não está toda a gente, quando há faltas constantes de um ou outro elemento, mas lá se vai colmatando a ausência dos colegas com substitutos em cima da hora. Quanto mais perto estivermos da estreia, mais complexa se torna a peça, mais exigente fica o Bruno e mais dificil é tolerar faltas. E quanto a exigência, estamos a começar a sentir o nó a apertar, vai ser cada vez mais complicado falhar o texto, a entrada, confundir os passos, o Bruno não tolera desatenções. Pessoalmente entendo, se não for com alguma disciplina não é possivel fazer nada. Somos um grupo amador, com um número muito grande, com apenas dois ensaios semanais de pouco mais de duas horas cada um, e facilmente a distração se instala. Vamos ter que habituar os ouvidos, e a concentração, a um ou outro berro ocasional...
Nunca fui grande fã de Guillermo Del Toro, apesar de gostar do seu imaginário nem Mimic, nem Blade 2, nem Hellboy me convenceram. No entanto, por causa de tudo o que li e ouvi sobre este filme, aguardei a sua última fita com muita espectativa.
O Labirinto do Fauno é uma fábula crua, uma crítica dura à Espanha fascista de Franco. É aliás o segundo filme sobre o tema que Del Toro realiza, após El Espinazo Del Diablo em 2001, e parece querer voltar ao tema em 2009 com o filme 3993.
Antes de mais, e para que o cartaz não engane ninguém, O Labirinto do Fauno não é um filme para crianças, não é um filme de aventuras, nem está dentro do mundo de Tim Burton. É um conto sobre uma criança orfã de pai, cuja mãe casa com um sádico capitão fascista em Espanha em 1944, e que para fugir á horrivel realidade que a rodeia se deixa seduzir por um mundo de fadas e faunos, mas onde as criaturas fantásticas são tão concretas e maléficas quanto os monstros da vida real.
Guillermo Del Toro consegue tecer uma fina teia de emoções, de relações, numa película visualmente impressionante (é espantosa a diferença entre a indústria espanhola e aquilo que se consegue fazer em Portugal), muito violenta (por vezes de uma forma gráfica) e que me conseguiu cativar desde o primeiro instante. Há muito tempo que um filme não me enchia desta maneira, me tocava, chocava, surpreendia, apeteceu-me levantar e aplaudir de pé a força das imagens que tinha acabado de assistir. Ganhou 3 Óscares, merecia muito mais. Sei que a paixão que desenvolvi por este Labirinto pode não ser partilhada por muita gente, mas o cinema é feito destas coisas, não só de excelência técnica ou artística, mas de histórias que nos arrebatam e nos fazem esquecer quem somos e onde estamos...
A cada ensaio que passa é acrescentado mais um ponto à peça, ainda estamos na fase da construção, de teste, de aprendizagem e crescimento. Sem dúvida um work in progress. Eu continuo sem ter a certeza do rumo disto tudo, sem saber se, no final, vai ser um bom espectáculo, mas a verdade é que ali tenho o meu espaço de criatividade, de emoção e liberdade. Gosto imenso do ambiente que se cria, das pessoas, das dinâmicas, da electricidade que me passa pelo corpo, do estado em que saio todos os dias. Dia a dia, à procura da direcção de uma performance...
Ah... canta-se de novo em português no Sopros... Desta vez é Rio Grande, o projecto de João Gil que conta a história de um homem do campo, o seu crescimento, vida, ida para Lisboa e regresso à terra natal. Esta canção, é a conversa entre um pai e um filho, quando o filho sai de casa, e o pai lhe dá a única coisa que lhe pode dar, um conselho: faças o que fizeres na vida, vás por onde fores, nunca te esqueças de quem és. Da escrita de João Gil, na voz de Jorge Palma: Senta-te Aí...