quarta-feira, março 28, 2007

Programa Primavera


"No ano em que completa 30 anos, a Companhia Nacional de Bailado apresenta em estreia, no Teatro Camões, o Programa Primavera, quatro coreografias num programa único:

dualidade_formas@ilusao de Gagik Ismailian

The Vertiginous Thrill of Exactitude de William Forsythe

Passo Contínuo de Mauro Bigonzetti

Treze Gestos de um Corpo de Olga Roriz"

Estiveram de 8 a 24 de Março, eu só consegui ir à última apresentação, e como de costume não saí desiludido. Forsythe pegou em temas clássicos e apresentou-os com uma força, uma vivacidade, uma vertigem de dança e técnica, quase inebriante. Bigonzetti foi o meu favorito, a beleza da dualidade dos dois corpos ali presentes, a sua força e confrontação, o seu diálogo estético e emocional, acompanhados de acordeão ao vivo encheu-me as medidas. Seguiu-se Ismailian, que teve momentos visualmente interessantes, outros menos conseguidos, mas que terminou com um bailado a três de uma energia, uma sensualidade incriveis, que elevou toda a performance a outro nível. Quem me deixou desiludido foi Olga Roriz, mas a minha reacção é puramente insintiva, a música deixou-me com dor de cabeça, o que bloqueou logo a hipótese de apreciar o resto, que mesmo assim me pareceu algo repetitivo.
Quatro em um... por cinco euros. Mais barato que ir ao cinema, custa ver que o público não adere, custa ver companhias a fechar e o panorama cultural e artístico cada vez mais pobre. No capítulo da dança o CNB é das poucas que sobrevive... A ver vamos...

terça-feira, março 27, 2007

Dia Mundial do Teatro


A todos os actores, dramaturgos, encenadores, técnicos, frentes de casa, assistentes, público, a todos os que acreditam, os que se deixam encantar, os que se entregam e se dedicam, os que se esforçam, que se sacrificam, a todos os que elevam a nossa existência a um outro patamar: Obrigado.



Hoje o teatro é de graça. Aproveitem!

Música da Semana

Já lá vão dois anos desde que a Cuca me deu a conhecer, no saudoso Dizconversando\Conversadizendo, esta cantora espanhola. A música era Siempre Me Quedará, e apaixonou-me imediatamente, passei a noite em repeat, a ouvir vezes sem conta. Esta semana o som aqui do Sopros tinha que ser em espanhol...
Senhoras e senhores... Bebe...

segunda-feira, março 26, 2007

Ontem, dia 25 de Março, saíram os resultados finais da eleição do maior português de todos os tempos, feita pela RTP. 41% dos votantes elegeram António de Oliveira Salazar, com uma larga vantagem sobre o segundo classificado Álvaro Cunhal, que conseguiu 19,1%. Curiosamente tal coincidiu com a comemoração dos 50 anos do Tratado de Roma, tratado esse que vai contra tudo em que o tacanho nacional-fascista acreditava, e impôs no nosso pequeno país. Os resultados são alarmantes, 41% das pessoas acreditam que ele foi o MAIOR português de sempre, o que levaria a supor que uma grande maioria o considera um grande homem, ou pior, que apoiaria o seu regresso se tal fosse possível. Quantos? 50%? Mais?
Em simultâneo, a RTP encomendou à Eurosondagem um estudo, e os resultados são algo dispares daqueles que o concurso revelou. Aí em primeiro lugar estava D.Afonso Henriques com 21%, seguido de Camões com 15,2%. Salazar aparece em 7º lugar com 6,6%. Não fico, mesmo assim, mais descansado. Só o simples facto de ele aparecer na lista é preocupante, o facto de quase 7 em cada 100 o considerarem o maior português de sempre é então incrível.
Não vou discutir números, mas o facto de haver uma fatia significativa do nosso país que apoia um homem que representa tudo o que abomino é assustador. Tal como é assustador o facto de existirem elementos de partidos de extrema-direita a tentar tomar conta de associações de estudantes de diversas universidades e a conseguir em algumas escolas secundárias.
É preocupante que o fascismo seja visto de uma forma tão ligeira, tão simples, se considere tão normal a opressão, a repressão, a polícia politica, os presos, as mortes, a perda de direitos, a xenofobia, o racismo, a descriminação, o ódio e se esqueça tudo o que foi e poderá ainda voltar a ser. É abominável que se esteja a massificar ideologias que nos retornam a um passado fechado, sangrento, aterrador...

Hoje eu tenho vergonha de ser português.

The Painted Veil

O improvável casamento entre uma rapariga mimada da alta-sociedade e um médico bacteriologista em meados dos anos 20, abre caminho para a solidão e a infedelidade. The Painted Veil é um filme sobre a descoberta do outro, do amor, de si próprio. Baseado no romance de Somerset Maugham, desenrola-se na China, em 1925, numa aldeia do interior onde existe um surto epidémico de cólera, e para onde o Dr.Fane se voluntaria a ir, apenas para castigar a mulher pela sua traição. Dirigido por John Curran, realizador de pequenos filmes independentes, este é no entanto o projecto de Naomi Watts e Edward Norton, que são, para além das vedetas, os dois produtores do filme. Lento, pautado, com a necessária construção suave, é uma fita que se sustém num trabalho de actor cuidado, em paisagens deslumbrantes, mas principalmente numa noção exacta do que a história precisa em termos de tempo, espaço e fôlego para crescer. Intimista mas com uma escala épica, simples mas estruturado, duas pessoas mas com um país em ebulição que faz tanto parte daquela relação como qualquer dos dois. The Painted Veil é uma visita a um mundo frágil de emoções, de uma beleza arrebatadora.

sexta-feira, março 23, 2007

SEIS !

Kan shang qu hen mei


Selecção oficial dos festivais de Sundance e de Berlim (onde foi premiado), este Pequenas Flores Vermelhas é, se a memória não me falha, o primeiro filme de Zhang Yuan a estrear em portugal. Cineasta chinês com década e meia de carreira, realizou esta adaptação de um romance chinês, com co-produção italiana, e apadrinhado por Marco Mueller, o patrão do Festival de Veneza desde há dois anos, ele que tinha sido um dos principais dinamizadores dos festivais de Roterdão e Locarno, desde há mais de 20 anos.
O filme conta a história de um rapaz de quatro anos que é deixado pelo pai num infantário em regime de internato, na china pós-revolucionária. A sua inadaptação e revolta é seguida num tom terno, carinhoso, cómico, e faz com que nos prendamos aquele pequeno diabrete. Pequenas Flores Vermelhas é um filme lindíssimo, nas imagens visuais e nos sentimentos humanos, sensivel, caloroso, mas parece não ter muito por onde evoluir. Seguimos as desventuras da criança com prezo, mas pouco mais se retira dali. Uma hora e meia em boa companhia, sem grandes sobressaltos, nem surpresas, mas sempre com um sorriso nos lábios.

quinta-feira, março 22, 2007

Eureka!

Finalmente começo a encaixar as peças todas. Ontem, durante a relaxação e principalmente durante o trabalho sensorial cheguei a uma conclusão. Todas as pontas que faço, todos os papeis, todas as passagens em quadros diferentes, aparentemente disconexas, são a mesma pessoa, a mesma personagem. O mesmo homem com uma pulsão para amar e que não consegue dar esse amor, que não consegue ser amado. Ao descobrir isto consigo finalmente dar um sentido ao que estou a fazer e preparar, espero eu, uma actuação muito mais consistente.
Agora pausa... retoma-se depois da Páscoa.

quarta-feira, março 21, 2007

Notes on a Scandal

Um dos filmes que aguardei com maior expectativa foi este Notes on a Scandal (Diários de um Escândalo), não pela história, nem pelo realizador Richard Eyre (de cujo trabalho apenas conheço Iris, e sem grande entusiasmo), mas pelo par de actrizes que encabeçam o cartaz, Judi Dench e Cate Blanchett, ambas nomeadas para o Oscar - Actriz Principal e Secundária respectivamente. Foi uma desilusão doce. Tudo é mediocre, vulgar. A narrativa e a construção dramática são mornas e tremendamente previsíveis. O desenvolvimento de personagens (exceptuando as duas principais) é linear e nem o próprio rapaz com quem Blanchett se envolve está minimamente estruturado ou possui algum tipo de sedução. Mas... temos actrizes! E que actrizes! Como uma final de Wimbledon entre dois tenistas de topo, um Agassi contra Sampras, vemos estas duas mulheres a encher o ecrã com papeis desmesurados, trocar olhares, emoções, argumentos, cumplicidades, constantemente num bater de bola sem saber qual das duas merece maior aplauso. Judi Dench é alguém com uma capacidade inata para representar. Fabulosa a forma como ela, sempre contida, sempre sem explodir nem elevar a voz, entrega um cocktail de emoções, uma mistura de sabores que devia ser estudada nas escolas de teatro... tudo é perfeito, até a forma como sobe as escadas para visitar a sua "amiga" é plena de intenção, excitação, impaciência... E para cada cena de Dench há uma de Blanchet... tendo visto O Bom Alemão e agora este Diários de um Escândalo é impossivel não comparar. Não é que a performance num seja melhor que no outro... é que são duas pessoas totalmente distintas, não é a mesma actriz em dois papeis, são duas mulheres. Nervosa, tensa, cheia de charme, ingénua talvez... eu acredito que aquela professora se deixa seduzir por aquele rapaz banal não porque esteja no argumento, não porque seja bem realizado, nem sequer por estar a vê-lo, mas porque Blanchett me diz que sim, e se ela diz, eu acredito. É essa a marca dos grandes actores, fazer-nos acreditar na profunda sinceridade dos seus actos e sentimentos, contra tudo e contra todos. Não se explica como deram o Oscar a Jennifer Hudson...
História banal, filme vulgar, mas duas representações de louvar os céus.

terça-feira, março 20, 2007

Show stopper - apontamento

A última parte da peça só foi entregue na quarta feira, e portanto apenas ontem foi feito o primeiro ensaio. Ainda em construção claro, mas há uma coisa que é desde já certa: a cena em que a Patricia se olha ao espelho e diz: "Beija-me... beija-me a alma..." é de longe o melhor texto de toda a peça e ela intrepreta-o com uma força, uma intensidade incriveis! Vai sem dúvida roubar o espectáculo! Uma grande performance...

Música da Semana

"I fucking hate Goldfrapp!" - com esta frase Ellen Page, num papel absolutamente memorável, mostra-nos o nível de premeditação com que engendrou tudo em Hard Candy, um dos filmes mais surpreendentes de 2005, que aborda o sempre sensível tema da pedofilia sob um prisma quase... revolucionário.
Quanto a mim Goldfrapp não era novidade, os sons de pop-electrónica desta banda inglesa, liderados pela incontornável Alison Goldfrapp, já os conhecia e apreciava há algum tempo.
Para esta semana, do album Supernature, o envolvente You Never Know.

segunda-feira, março 19, 2007

The Good German

Em Berlim, no fim da Segunda Guerra Mundial, as potências aliadas reunem-se para a Conferência de Paz, para decidir o futuro no pós-guerra. A cidade é um local cheio de oportunidades e de perigos. Um correspondente de guerra americano aterra para cobrir a conferência, mas na realidade procura o seu antigo amor, uma alemã que tinha ficado para trás. Vê-se envolvido numa teia de suborno, morte e vingança . Filmado como os film-noir da época, mimetizando fotografia, angûlos de câmara e temáticas, O Bom Alemão é um filme interessante de Soderbergh, mas que não deslumbra. É uma homenagem aos clássicos, mas que não consegue fugir da sombra dos mesmos, correndo o risco da forma intreferir com o disfrutar da substância. Bem escrito e interpretado , Clooney e Blanchet a fazer uso das suas armas habituais, é merecedor de atenção, mas não obrigatório.

sexta-feira, março 16, 2007

Há momentos como este, em que a expectativa de mudança se torna densa, espessa, quase palpável, em que a tensão acumula à beira do desconhecido, em que apenas se tem uma certeza - nada vai ser como dantes.
As variáveis são muitas, como vai ser a reacção dos envolvidos, quando vou ter que começar o novo caminho e terei eu as pernas necessárias para o trilhar? A confiança depositada sobre mim foi grande, de repente parece ser ainda maior.
Há dias em que a vida parece suster a respiração...

quinta-feira, março 15, 2007

A Fúria

... de Bruno Schiappa está terminada. É este o nome da peça que vamos apresentar em Junho. A partir daqui são ensaios em cima de ensaios, em cima de ensaios. E a fúria do Bruno sente-se em cada aula, com as marcações, com a atenção e o profissionalismo necessário para abordar um trabalho como este. Tenho mais uma ou duas coisas para fazer. Em termos de utilização não me posso queixar, entro durante imenso tempo, tenho diversos quadros, e encaro isso como uma prova de confiança à qual espero corresponder. No entanto não é o caso de toda a gente, e custa ver pessoas de quem gosto tristes por não terem um papel tão relevante, ou desafiante como queriam.
Faz parte... agora mãos à obra...

quarta-feira, março 14, 2007

O local onde trabalho devia ser um sítio de produção de conteúdos, onde se trabalha em e se pensa sobre cinema, televisão, internet e audiovisual. Infelizmente isso é tudo no papel. Na verdade em 1000 pessoas, talvez 5 percebam e pensem realmente os conteúdos a que me referia. Com especial incidência no meu piso. Estou rodeado de malta que tanto podia estar aqui como a vender pastilhas elásticas, que não fazem ideia de coisa nenhuma, nem querem fazer. O pior é que não se calam, falam alto, cantam, gritam, discutem novelas e trivialidades como se se tratasse de um importante tratado filosófico. O pior é quando uma das inúmeras jovens mães traz o seu querido rebento de soja para o emprego. A histeria rebenta, tudo se levanta num reboliço doido, de empregadas a directoras todas viram a atenção para a criança que inadvertidamente veio parar a uma gaiola de malucas. Fala-se como se tivesse atraso mental, brinca-se, grunhe-se, pula-se, passa-se o bébé de braço em braço como se fosse uma taça que toda a equipa quer tocar, e arruina-se uma hora de trabalho, o clima e a paciência de quem está ao lado e (enganado com certeza) julga não ter vindo trabalhar para uma creche...