quinta-feira, maio 03, 2007

Começa hoje...

No Verão do ano passado fiquei a saber que iria acontecer em Maio algo sem precedentes em termos da indústria cinematográfica: a estreia no mesmo mês de três blockbusters, cada um com orçamentos milionários (texto aqui). São eles Homem-Aranha 3, Shrek the Third, e Pirates of the Caribean: At Worlds End. Três trilogias que, segundo os alguns analistas, não têm espaço para conviver ao mesmo tempo. Hoje começou a batalha com a estreia mundial do Homem-Aranha 3, orçamentado em 258 milhões de dólares, quase o dobro do custo do primeiro Homem-Aranha. Bateu desde já um record, abre em 4252 cinemas nos EUA, a maior estreia de sempre. Aceitam-se apostas sobre qual dos três gigantes vai cair.

Ensaios, ensaios, ensaios...

Está cada vez mais perto. Temos um mês para afinar o que falta, o que na verdade se resume a um punhado de aulas. E agora é a doer. O Bruno, apesar de ser apenas uma apresentação de final de curso, apesar de sermos todos amadores, leva este trabalho muito a peito. Como tal está gradualmente a ser mais exigente e menos paciente com os nossos erros. Por vezes reage demasiado impulsivamente, levanta a voz uns quantos decibeis acima do normal, saem-lhe um ou dois palvrões da boca. Mas honestamente não é coisa que me afecte. Sempre lidei bem com tensão deste tipo, principalmente ao saber que é uma coisa passageira, um largar vapor de momento.
Estamos no afinar de pormenores, a parte pior, entradas e saídas, marcações, tempos, entoações, figurinos e todos os mais pequenos aspectos possiveis. Este momento inviabiliza faltas, e ao que parece, quem não estiver é substituido. Não sei que tipo de tolerância vai ser dada, ou que faz um aluno que já não tenha papel, mas o cerco aperta.
Ainda não estou nervoso... ainda... a ver vamos com o passar do tempo.

quarta-feira, maio 02, 2007

Das Leben der Anderen

Quanto muita gente apostava na vitória de O Labirinto do Fauno para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, principalmente após os dois Óscares que este filme já tinha ganho, eis que o prémio acabou por ir para As Vidas dos Outros, primeira longa metragem deste jovem alemão, com um nome quase impronúnciável, Florian Henckel von Donnersmarck.

Em 1984, na RDA, a polícia política persegue e observa todos aqueles que considera serem inimigos do regime. Um dramaturgo, protegido pelo sistema, torna-se alvo de investigação quando a sua mulher, e actriz principal, é cobiçada pelo ministro da Cultura. É então posto sob escuta, na esperança de se encontrar algo que possa ser usado contra ele.
O centro do filme no entanto, é o do investigador responsável pelo caso, austero interrogador e capitão da Stasi, firme defensor do Socialismo e, como tal, um homem que sente reticências quando sente que as motivações por detrás da investigação são apenas pessoais.
É aqui que o filme ganha uma outra dimensão. Após um início pautado pela contenção, onde somos apresentados ao clima geral de suspeição e medo que existia na Alemanha de Leste, vemos a súbtil transformação do capitão, de um ser quase-mecânico, no seu lento processo em que se apaixona pela familia que investiga. É um estranho acordar, que o deixa numa situação de limbo, numa corda bamba entre a sua moral, a sua lealdade e os seus sentimentos pessoais.
A performance de Ulrich Mühe neste papel é quase perfeita, um under-acting contido, mas carregado de sentido, de energia, uns olhos perfurantes que pautam o desenvolvimento do personagem.

Uma pequena pérola, uma excelente estreia, a ver enquanto se aguenta em sala.

terça-feira, maio 01, 2007

Dia 1 de Maio é tradicionalmente um dia de celebração.
De festival de colheitas até ao motivo pelo qual hoje é feriado, o Dia do Trabalhador, no dia em que se conseguiu pela primeira vez a jornada de oito horas.
Pessoalmente também tenho muito que celebrar no dia primeiro deste mês, mas isso são outras conversas.

Não queria era deixar passar dois aniversários. De um amigo que faz 34 anos e de uma grande amiga que faz 35.
A grande amiga é a Comuna, Teatro de Pesquisa, que foi fundada a 1 de Maio de 1972, mantendo-se ainda hoje como um dos grandes pólos teatrais e culturais de Lisboa e do país.

A todos, parabéns.

Música da Semana

A 29 de Janeiro de 1983, meros quatro anos antes de morrer, José Afonso deu este concerto no Coliseu dos Recreios em Lisboa. Eu nunca o vi ao vivo. Mas a música e a memória perduram.
No dia do trabalhador, Zeca Afonso.

segunda-feira, abril 30, 2007

Indie Report -Curtas


Acabou ontem o Indie Lisboa e, infelizmente, este ano não consegui visitá-lo mais que uma mão cheia de vezes. Ao contrário de outros anos não me limitei às longas-metragens, nem sequer aos filmes em competição, passeando um pouco por outras categorias (sendo aqui pouco a palavra de destaque).
Uma das coisas com piada de uma sessão de curtas é que acaba sempre por se aproveitar qualquer coisa. Por muito más que algumas sejam, há sempre pelo menos uma que escapa. Este ano houve uma em particular que me chamou a atenção, chama-se Voyage En Sol Majeur, e descobri hoje venceu o prémio do público. Não me admira. É uma curta documental que Georgi Lazarevski (a sua primeira obra como realizador, foi assistente de camera no Amelie Poulain) faz sobre o seu avô. O senhor tem 91 anos, foi um músico de orquestra durante toda a sua vida e não tem nada de extraordinário para contar. Tem um sonho. Visitar Marrocos. Sonho esse impossibilitado pela sua mulher para quem felicidade é encontrar a cadeira mais confortável possivel. Lazarevski resolve então concretizar o projecto do avô e no processo faz um filme que é a descoberta de uma pessoa, de uma vida de pequenos arrependimentos, tragédias caladas e um sorriso desarmante. É um conto de ternura, uma peça de homenagem carregada de amor, tocante, simples e arrebatadora. Foge um pouco ao espírito experimental que pauta o festival, foi aliás apresentado com muito pouco entusiasmo na sessão que assisti. Mas a candura das imagens não deixa ninguem indiferente, como se prova pelo prémio.

Não sei se alguma vez mais passará por Portugal, mas se assim for é daqueles a não perder.

sábado, abril 28, 2007

Iklimler

Iklimer (Climas), é a quarta longa metragem (segunda a chegar a Portugal a seguir a Uzak - Longíquo), do cineasta turco Nuri Bilge Ceylan. Foi a minha escolha para hoje passar esta fresca tarde de sábado a tentar recuperar o (longo) atraso que tenho em relação aos filmes em cartaz. Escolhi esta obra particularmente por ter sido abundandemente aclamada pela crítica em geral, o que me aguçou a curiosidade de me aproximar de uma cinematografia que desconheço. Li muita coisa, diversos adjectivos, e foi tal a coro de vozes (ou letras neste caso) que sabia não poder falhar.
O filme conta a história de um casal que se separa, reencontrando tempos depois sem se reconciliar. E pronto. É isto. É um filme lindíssimo, sem dúvida, visualmente envolvente, com uma fotografia soberba. Mas é de tal maneira minimalista, de tal maneira reducionista, que se desvanece em nada. Planos longuissimos, câmara parada, personagens que não se movem, não falam, não evoluem, não existem, não interessam, não coisa nenhuma. Fumam e observam. Observam e fumam. Contemplativo até à exaustão, que me deixou a precisar de reanimação após tanta contemplação junta. Tudo demora uma eternidade, e para um filme de hora e meia parece não terminar.
A crítica fala-me de Tarkovski, de Antonioni, de "um timbre minimalista-impressionista e a sua visão espectral do mundo", de "um longo plano único de uma voracidade impressionante". O que ninguém me falou foi do enorme bocejo, do vazio narrativo, emocional, da passagem de um filme quase a um albúm de fotografias.
E cada vez mais sinto que a crítica está a falar sozinha. Pelo menos comigo começa a falar cada vez menos.

sexta-feira, abril 27, 2007

Ao vivo


De 15 a 20 de Maio, no Maria Matos, Sérgio Godinho vai apresentar o seu último trabalho, Ligação Directa. Os bilhetes estão à venda nos locais habituais e já não há muitos.

Silent Hill

Há muito tempo que não ia ver um filme de terror. Os motivos são vários, seja pela falta de companhia quando o programa implica coisas do género, seja por falta de tempo, seja apenas pelo facto de não ter aparecido nos últimos tempos nenhum filme deste tipo que me chamasse a atenção. Como fã do género, já me fazia alguma falta.

Desta vez fui ver Silent Hill (O Mistério do Vale), baseado numa série de jogos para a Playstation e Playstation2 com o mesmo nome. Não consegui de perceber o porquê do título em português já que a vila de Silent Hill não se encontra num vale...
Seja...
Uma mãe, ao ver a filha adoptiva a ter ataques de sonambulismo e nesse estado de transe gritar por Silent Hill, resolve, ao ver que os tratamentos não funcionam, levá-la a essa terra abandonada em busca de uma solução. O local, obviamente, esconde mais do que ela esperava encontrar.
Se o filme tem um mérito é o de ser das poucas adaptações de videojogos que se mantém fiel à sua origem, não só em termos de enredo e personagens, mas principalmente em termos de ambiente, de clima geral. E aqui funciona. O ar tenebroso, cinzento, a construção lenta, os sons distantes, a música, tudo se conjuga para dar uma sensação de tensão constante, um crescendo quebrado apenas pelo aparecimento das figuras apocalípticas que habitam aquele limbo. Silent Hill não se baseia em gore, nem em sustos repentinos, mas sim num ambiente carregado, num desenvolvimento sombrio e pausado.
O mix de efeitos de computador com cenários reais é muito bem conseguido, e visualmente tem momentos fortes, com especial destaque para o desenvolvimento das criaturas, que fogem um pouco ao que normalmente se encontra neste tipo de filme. Aliás, toda a história foge um pouco aos trâmites correntes, sendo filha directa da imaginação dos escritores da Konami, que desenvolveu o jogo.

Soube-me bem voltar a este tipo de história, que sem dúvida recomendo a quem, como eu, é fã.

quinta-feira, abril 26, 2007

Ao vivo, a cores, e imparável!

Em 2002 Robin Williams fez uma tour com 52 espectáculos, um dos quais foi transmitido em directo pela HBO. De regresso a Nova Iorque esta sua performance na Broadway é dos momentos mais incriveis de stand up comedy que já vi. Aos 50 anos tem uma energia indescritivel e não pede licença a ninguém. Religião, política, terrorismo, sexo, nada escapa à sua lingua mordaz, num furacão que devia ser visto por muito humorista nacional.

Sem desculpas nem papas na língua. Está à venda baratinho na Amazon e este Robin Williams Live On Broadway vale muito a pena, para quem se aguente sem legendas. Aqui fica um pequeno aperitivo...

Indie Report - O Garoto de Charlot by Coty Cream


Uma das acções interessantes do Indie deste ano foi a passagem do clássico de Chaplin, O Garoto de Charlot, pedindo aos Coty Cream para fazer a música que o acompanha. A banda sonora é um aspecto fundamental em qualquer fita, mas num filme mudo a música ganha um relevo ainda maior. Não é a primeira vez que uma acção deste género é efectuada, lembro-me de há pouco tempo os Clã terem musicado o Nosferatu, sessão essa que infelizmente não consegui ver.

O filme estava indicada pelo festival ser para todas as idades, e em abono da verdade foi isso que aconteceu, dos 2 aos 80 (literalmente) o público foi o mais variado que vi em qualquer sessão do Indie até hoje. Do The Kid pouco há a acrescentar, terno, divertido, é um clássico Chaplin, apesar de não estar ao nivel de por exemplo um Luzes da Cidade ou um Tempos Modernos.

O problema esteve exactamente naquilo que a sessão tinha de interessante. A música. É boa ideia misturar música actual com um filme com mais de oito décadas, mas essa música tem que estar ao serviço do filme, e não existir por si só. Os Coty Cream podem ser uma excelente banda, mas ali estão a musicar uma fita. Ou seja, têm que dar os tempos, os cortes, as emoções do filme. Não podem passar uma cena inteira sempre com o mesmo som, não podem passar de personagem em personagem sem alterar nada, não podem acompanhar uma perseguição cómica como se de David Lynch se tratasse. O trabalho de um músico de cinema é estar ao serviço do filme, e isso implica concessões. É tramado mas é assim mesmo, e em muitos momentos os Coty Cream trabalharam contra a história. A nota certa, o tom certo, a música certa faz ou destroi uma cena, acentua as emoções ou afasta-nos completamente, basta ver por exemplo o efeito que a banda sonora de Carpenter tem em Halloween (foi aliás o próprio que disse que sem a música o filme não conseguia meter medo). Mas não é só no género terror, é em todo o cinema. E aqui foram mais as vezes em que apetecia que parassem de tocar do que as vezes que ajudaram aquilo que se passava no ecrã.

Foi uma experiência que não correu bem, mas sem dúvida para repetir.

quarta-feira, abril 25, 2007

Na esquina...

Estava a passar pela Rua da Alfandega na Baixa quando um homem se dirige a mim com um sorriso e pede para lhe tirar uma fotografia ao pé de um quiosque fechado. Fiquei admirado mas fiz-lhe o favor. Quando se despediu disse: Sabe... é que não vinha a Lisboa há algum tempo. Foi aqui que eu soube do 25 de Abril.

Felizmente ainda há quem se lembre...

terça-feira, abril 24, 2007

EMDR


O processo que começámos a utilizar há umas aulas atrás está a ser usado principalmente como forma de melhor conhecermos o nosso personagem. Usamos este método para atingir um estado de relaxamento especialmente profundo, conseguirmos desligarmo-nos de nós próprios e, através de um percurso relativamente demorado, transformarmo-nos no personagem. Após esta transmutação vamos reviver as memórias do personagem. Elas não nos são dadas, nem temos tempo de racionalizar sobre elas, é-nos dito para nos "lembrarmos" de algo que se tenha passado e nós, automáticamente, lembramo-nos. De onde vêm estas recordações? Pouco importa. É algo nosso, que nós como actores damos ao personagem e que a personagem nos dá a nós em troca, permitindo assim conhecê-la melhor, saber-lhe o passado, os gestos, os gostos, a vida que a envolve para além da peça. O problema é que, apesar de fazermos um regresso cuidado ao nosso próprio corpo, essas memórias não se desvanecem. E apesar de sabermos que não é nada connosco elas tendem a alterar-nos. Ontem passei uma hora e meia difícil... foram ter comigo, perguntaram-me se estava bem, se estava cansado, se se tinha passado algo. Não se passou... foram as memórias do outro. E eu sei que isto é estúpido, aquele personagem nem sequer existe, na peça nem sequer é um personagem, são três ou quatro momentos desconexos, tudo foi criado, "inventado" por mim. Mas a verdade é que não consegui desligar, não consegui fugir do terrivel passado daquele homem...

Ainda bem que não sou actor... arriscava enlouquecer se fizesse certos papeis...

Thinking Blogger Award


Não é bem um prémio... é mais uma corrente de favoritos ou coisa do género.

O que se passa é que fui nomeado com um Thinking Blogger Award, por esta menina aqui, que deve ter apanhado sol a mais na cabeça. Fica no entanto o agradecimento. Dizem as regras que tenho agora que nomear cinco blogs que me façam pensar. Ora cá vai, com todas as injustiças inerentes a estas coisas:








(e mais poderia nomear mas pronto...)


A origem da coisa vem daqui, e estou mesmo convencido que se passar tempo suficiente todos os blogs vão ter uma nomeação...

Música da Semana

Robert Stevenson é daqueles realizadores que ficam uma vida inteira ligados a um estúdio, fazendo os filmes que lhe colocam à frente. Iria passar desprecebido como o autor de Son of Flubber ou That Darn Cat!, não fosse ter sido incumbido de fazer este Mary Poppins, que se tornou num clássico intemporal, bem como um veículo para Julie Andrews ganhar o Óscar, pequena vingança por ter sido preterida nesse mesmo ano para o papel principal em My Fair Lady, que desempenhava na versão da Broadway. Audrey Hepburn, que ficou com o papel, teve a sua voz dobrada nas canções do filme, e nem sequer foi nomeada para o Óscar, apesar de uma performance irrepreensivel.

Um das coisas que acho piada em Mary Poppins, é que por debaixo de toda a animação e fantasia, debaixo dos valores de familia e amizade, é um filme anti-capitalista. A música desta semana, Feed the Birds, é uma balada onde Julie Andrews fala de uma vendedora de alpista e da importancia dos pequenos gestos.O número musical que vem imediatamente a seguir, é pautado pela música Fidelity Fiduciary Bank, fazendo a apologia do investimento de capital e do sistema bancário, numa luta para angariar os dois pence de uma das crianças, luta essa que leva à boa conclusão do filme: não importa o dinheiro, importa a família e a entre-ajuda. Os bancários "maus" perdem, ou melhor, convertem-se e acabam por perceber que não há como os pequenos prazeres da vida.

Na semana da Liberdade... Feed the Birds.