Ed Wood Jr. foi considerado o pior realizador de todos os tempos. Durante os anos 50 escreveu, produziu, realizou e foi actor em diversos filmes de terror, ficção cientifica e westerns de low-budget. A sua carreira decaíu após aquele que o próprio considerou a sua obra prima Plan 9 From Outer Space, que coincidiu com a morte de Bela Lugosi - actor famoso pelo seu papel de Drácula, e que, velho, bêbado e acabado, entrou em diversos filmes de Wood. Foi com Ed Wood, o filme de Tim Burton, que este bizarro autor entrou para a cultura popular, tendo um seguimento de culto devido às fitas absolutamente ridículas que fez. Travesti, disforme, acabou a vida a realizar filmes porno, na falência e viciado em drogas. O que muita gente não sabe é que na verdade Ed Wood... é Deus. Ou quase. Existe uma Igreja (real, com mais de 3000 pessoas baptizadas) que seguem os ensinamentos deixados por este homem, chamam-lhe o Woodismo. Para os curiosos, podem visitar aqui.
Os ensaios continuam. Sem grande novidade. Com o passar do tempo o Bruno tem ficado mais exigente e mais impaciente, o que levou na segunda a uma reacção um pouco mais a peito de um dos alunos. Mas nada que não se ultrapasse. Ontem, para além de fazermos a primeira passagem completa de uma ponta à outra (qualquer coisa como 50 minutos), insistimos bastante na cena final. As minha dúvidas mantêm-se, mas é como diz um amigo meu, não podemos encarar aquilo como uma peça, apenas como um exercício de final de ano de um grupo amador de pessoas que se encontra duas vezes por semana.
Shortbus é o novo filme polémico de John Cameron Mitchell, autor de Hedgwig. Quando parti para esta sessão ia de pé atrás. Tinha ouvido bastante sobre a controvérsia que rodeava a fita, ligado às cenas de sexo explícito que tem. A quebra da barreira da pornografia para o cinema dito "normal" não é novidade, mas a verdade é que os exemplos mais recentes não oferecem muito mais do que o simples "shock value". Pensei que este fosse outro desses casos, em que o sexo é usado de forma quase gratuíta. Shortbus no entanto é muito mais que isso. Um grupo de pessoas, das mais diversas experiências e inclinações sexuais, tentam encontrar um rumo e sentido para as suas vidas, encontrando refugio numa casa chamada Shortbus, um local onde as regras são suprimidas e a busca de liberdade é absoluta. Desde a fantástica cena inicial que as cenas de sexo são progressivamente menos ousadas, menos "in your face", a partir do momento em que começamos a descobrir cada personagem e começamos a embrenharmo-nos nas suas vidas, nas suas dúvidas e problemas. Surpreendentemente, no meio do drama envolvente, Mitchell consegue encontrar o humor necessário, consegue fazer-nos sorrir perante a adversidade, o que é indispensável para conseguirmos a ligação aqueles personagens, sem os julgar. Todos eles, sem exepção, podem ser considerados desviantes sociais, sexuais e, no entanto, não nos consiguimos deixar de fascinar por este grupo. É um filme terno. Sem dúvida terno, de relações humanas, de emotividade, de lágrimas e sorrisos, de corpos, de cores e cheiros, de amor, de sexo. O sexo é tão parte da história como qualquer outra coisa, é uma parte integrante, intrínseca, necessária. Desengane-se quem vai à procura de excitação sexual. Apesar de explícito, é o inverso da pornografia. Shortbus é um dos filmes a não perder. Cru, directo, real, mas ao mesmo tempo, enfabulado, tocante e intensamente optimista.
Confesso... há coisas em que, realmente, não passo de um puto crescido!
Está na Comuna, na sala nova, uma comédia de Moliére. O Tartufo segue as desventuras de uma familia que acolheu um falso beato, Tartufo, que conseguiu seduzir o dono da casa e fazer-se passar quase por santo a seus olhos, enquanto vai engordando e enriquecendo à custa dos favores alheios. Este texto poético carregado de humor, é uma critica social divertida, de uma velocidade vertiginosa, num dedilhado que dá gosto presenciar. Carlos Paulo é o insidioso Tartufo, num papel pejado de ironia, liderando um elenco que (salvo raras expeções) está à altura da empreitada.
Mais uma encenação de João Mota, directa, eficaz, que usa três frentes do palco (como é hábito naquela sala), dando uma sensação de maior realismo, e colocando o espectador dentro da acção.
Uma boa opção para começar uma noite de fim-de-semana.
O Tartufo
de: Moliére Encenação João Mota
Interpretação: Carlos Paulo, Álvaro Correia, João Tempera, Jorge Andrade, Ana Lúcia Palminha, Miguel Sermão, Lucinda Loureiro, Sara Cipriano, Hugo Franco, Judite Dias e Alexandre Lopes
Quarta a Sábado - 21h30; Domingo - 16h
Preço: 10€ (existem diversos descontos, perguntar na bilheteira)
Lou Rhodes é mais conhecida por ser a voz do grupo britânico Lamb. Com um som variado, nem sempre perfeito, esta banda de trip-hop tem um vasto leque de influências e músicas com sonoridades diversas. Gabriel é o seu single mais conhecido em Portugal. Em 2004 a banda acabou e Lou Rhodes lançou-se num projecto a solo, que não difere significativamente do caminho que já seguia. Para esta semana, Beloved One.
Em 1870 Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão começaram um folhetim no Diário de Notícias, sob a forma de cartas enviadas à redacção, em que relatavam uma trama envolvendo traição, ciúme, morte e a alta sociedade lisboeta. A princípio houve quem achasse que as cartas eram reais, havendo inclusivé investigação policial ao sucedido, mas no fim do Verão já Lisboa sabia que se tratava apenas de um folhetim. Seria? O Mistério da Estrada de Sintra é um filme habilmente construido, que relata o a conhecida obra, mas também a sua escrita, saltando entre os dois mundos, pondo a hipótese da ficção ter um fundo de verdade, que os próprios escritores desconheciam. Este é um filme invulgar no panorama nacional. Com uma reconstrução de época irrepreensivel, habilmente disfarçando as suas próprias limitações, O Mistério da Estrada de Sintra transpira competência em todos os departamentos técnicos. Fotografia irrepreensivel, uso inteligente do som, cenários e figurinos impecáveis. Tal competência, não sendo o cerne de um filme, é um factor fundamental para o conseguirmos apreciar, e extende-se à dobragem de Bruna di Tulio, brasileira de nascença, que teve a voz emprestada (grande trabalho) por Carla Chambel. Tudo funciona como deve, os momentos de tensão, de erotismo, os diálogos e o trabalho de actores - em grande Ivo Canelas e António Cerdeira - que não deve nada a qualquer fita em cartaz.
Cinema comercial no seu melhor, um estandarte na luta contra a imagem típica da cinematografia lusa, como algo feito a olhar para o próprio umbigo, pequenos reinos vedados ao exterior onde os realizadores depositam as suas frustrações intelectuais.
Mais prova que o cinema português feito a pensar no público, não se limita a padres imberbes com o cio ou a filmes da treta.
Se desenharmos uma linha deste Eraserhead, passando por Blue Velvet, Wild at Heart, Lost Highway e Mulholland Dr., vemos que este Inland Empire é a conclusão de um percurso que David Lynch tem vindo a traçar desde o seu primeiro filme. Que conclusão é essa? O desaparecimento da narrativa convencional e a submersão num mundo surreal, num pesadelo abstracto onde tempo, espaço e personagem deixam de ter sentido. Todas as artes deram já este passo, da pintura, à escultura, à dança, mas o cinema continua a manter-se num rumo descritivo, narrativo, sendo as variações feitas dentro do tempo e forma dessa narração, existem questões estéticas, artísticas, mas sempre dentro da permissa que existe uma história para contar. Pois em Inland Empire não existe uma história, existe uma trip visual, um delírio fantasmagórico que assombra a mente de Lynch. Para o salto final para o lado de lá, Lynch escolheu filmar em video, o que é curioso, pois tem sido este meio o grande percurssor das experiências não narrativas.
O problema quando se desconstroi algo desta forma é que se não tem pontos de comparação e, como tal, sentimo-nos perdidos ao olhar para o ecrã. São emoções cruas, são visões, sonhos. Existe uma ténue linha condutora - uma actriz que, ao fazer um filme, perde a noção entre a sua vida e a vida do seu personagem, entre passado, presente e futuro, entre verdade e ficção - mas essa linha é demasiado esbatida para que nos suporte. Resta-nos aproveitar a viagem e absorvê-la o melhor possivel, deixando as intrepretações para depois.
Esta escolha dá um ar de tanto-faz. O filme acaba ali. Podia ter acabado antes? Sim. Se em vez daquela cena fosse outro era igual? Não. É o mesmo que dizer que num quadro abstracto se podia ter feito riscos e traços de outra cor, noutra direcção e que valia o mesmo. Não valia. Podia-se fazer, mas era outro quadro. Aliás o que ideia é essa de poder? Numa narrativa convencional também se pode mudar o que se quiser, imaginar o que se quiser, escrever o que se quiser, apenas de forma mais formatada e com regras facilmente reconheciveis.
Se gostei do filme? Sinceramente não sei. Gostei da experiência de o ter visto. Todo o cinema deve ser assim? Não, mas há lugar para experiências limite. Quanto mais não seja porque as imagens tenebrosas que Lynch nos mostra estão carregadas de sentido, de terror, de dúvida e de sensações quase físicas.
Abram a mente e tentem, sem reservas nem expectativas. É sem dúvida uma experiência única.
Cenas de Natureza Sexual é daqueles filmes que passam completamente despercebidos, não tem nomes sonantes (à parte de Ewan McGregor), não é realizado por ninguém de monta, não vem de um grande estúdio (é uma produção independente inglesa), não foi um sucesso, nem especialmente bem recebido pela crítica. A sua história é de tal maneira dispersa e casual que não será motivo de entusiasmo para ninguém. É por isso que é das pérolas mais inesperadas de todos os títulos que estão em cartaz. Um grupo desconexo de pessoas vive pequenos episódios num dia de Verão no enorme parque de Hampstead Heath em Londres. É apenas isto. Sem efeitos especiais, nem sequer grande fotografia, sem meios, nem cenários. Apenas isto. No entanto é escrito com um humor tal que não conseguimos deixar de ser seduzidos, tem um espírito leve mas inteligente e terrivelmente divertido. É surpreendente. As situações, relação e diálogos apanham-nos desprevenidos, enredando-nos num novelo que tem tanto de inesperado como de simples. Depois há os actores. Cada um com uma pequena ponta, pequenos textos e cenas, feitos com aquele ar de naturalidade. Todos eles perfeitos, tão perfeitos que até parece que não representam, é tudo tão fácil, tão fluido, que nos esquecemos que estão ali actores, belissimos actores. Sem vedetismo, sem protagonismo, ao serviço do personagem e da história, por mais pequena ou ridícula que possa parecer. É daqueles filmes que passa por nós como uma brisa de verão. Sem excessos, sem pretensiosismos, que nos deixa com um sorriso na cara e um aroma de relva.
Segunda feira serviu apenas para acertos. Olhámos com mais atenção para a cena final e começámos a coreografá-la. O Bruno não gosta de mim. Em vez de estar com uma rapariga gira (ou mesmo com uma rapariga feia) vou estar com um marmanjo de um metro e oitenta às costas. Literalmente! É o preço da arte!!! :D
Baseado num conhecido livro para crianças, O Segredo de Terabitia conta a história de dois pré-adolescentes inadaptados que imaginam um mundo de fantasia só seu, para onde se escapam e criam uma relação profunda. Primeira obra como realizador do animador, argumentista e produtor Gabor Csupo, este é um filme surpreendente. Faz um uso contido dos efeitos especiais, surpotando-se mais na química entre os dois miudos Josh Hutcherson, que tinha aparecido antes em RV com Robin Williams, e AnnaSophia Robb, num papel antagónico aquele que fez no delírio de Tim Burton Charlie e a Fábrica de Chocolate. É em torno da timidez e talento do rapaz e da alegria de viver e fantasia da rapariga, que todo o filme gira, e é esta ligação aos seus personagens principais que nos permite uma experiência emocional sentida. Fundamentalmente é uma fita que louva a amizade, a imaginação e os limites a que ela nos permite chegar. Sem brilhantismo, mas sem pretensões de ser mais do que aquilo que é, um filme familiar (sem o sentido pejorativo que normalmente tem este termo), divertido, tocante. Um pequeno aviso à navegação, preparem os lenços, pois as lágrimas arriscam-se a correr soltas.
terça-feira, maio 08, 2007
Assisti a esta conversa e não resisti em transcrevê-la:
Neta: Então avó, que série andas tu a ver á noite? Avó: Roma. (rindo com ar malandro) tem tanta queca! Neta (a rir): a sério? Eu agora também a estou a ver. Avó: Mas não é por isso que eu vejo. Gosto de coisas históricas. Passa é muito tarde. Mas o episódio de ontem não teve nada disso. Neta: Mas eu estou a ver em DVD. Comecei ontem. Só vi o primeiro episódio. Avó: Bem, então o segundo! Ui, ui!
Marlango é uma banda espanhola, de Madrid, que tem feito algum sucesso desde 2004. A moda de cantar em inglês não é inventada por nós, e este grupo faz parte dessa tendência. Com um som que faz lembrar uma mistura de jazz com os nossos The Gift, lançaram já dois albúns. A música desta semana é do seu segundo trabalho Automatic Imperfection, um disco imperfeito como diz o título, mas com alguns temas que deixam promessa. Senhoras e senhores, a voz de Leonor Watling: Shake the Moon.
O meu regresso a uma sala de teatro era há já muito tempo devido. Das várias peças em cena escolhi Dúvida, de John Patrick Shanley, dramaturgo americano, que com esta peça ganhou um Tony Award e o Prémio Pullitzer. E o texto é realmente soberbo. Um padre é acusado pela madre superiora de um colégio católico de abusar sexualmente de um rapaz de 12 anos, que é seu aluno. A peça constroi-se num novelo complexo de acusações e suspeições, um confronto entre dois personagens densos, muito bem delineados, sendo o público conduzido ora para um lado, ora para o outro, na busca da verdade, mas sabendo que, provavelmente, a certeza é algo que nunca vislumbrará. Culpa e inocência chocam, mas mais do que isso, é a colisão de duas formas antagónicas de olhar o mundo, numa altura (logo após a morte de JFK) em que a América duvida de tudo, inclusivé de si própria. Dúvida é então uma peça genial? Não. Longe disso. O problema não está no texto, nem na cenografia (apesar da fonte ser um toque de gosto duvidoso). O problema está na equipa de quatro actores. Se Isabel Abreu é insipiente e Lucília Raimundo mal aparece, de Diogo Infante e Eunice Muñoz esperava-se muito mais. Infante devia ter ido mais vezes à missa, ouvir como fala um padre. Não convence nos sermões que profere e mantém um registo neutro no resto do tempo. É capaz de muito mais e melhor - quem o viu a fazer Becket no Trindade... Eunice Muñoz é, sem dúvida, uma das figuras máximas do nosso teatro. Mas a idade pesa, esquece-se do texto, enrola, e usa a sua vasta experiência para colmatar as falhas, bem como a falta de emoção genuína. É versátil nas artimanhas, mas não convence, e é já a segunda vez em muito pouco tempo que a vejo a passear por uma peça, confiando que o seu talento inato chega para vender o papel. Não chega. Está a quilómetros de uma Mãe Coragem e os Seus Filhos que me apaixonou quando era ainda uma criança.
A reacção do público foi elucidativa. Mal a peça acabou levantou-se num coro de aplausos que durou um minuto. Ainda as luzes da sala não estavam totalmente acessas, mal os actores sairam de palco, pararam de aplaudir. Como se fossem obrigados a uma ovação em pé porque "a Eunice é uma senhora e a peça é muito boa, já tinha lido", mas depois de cumprida a obrigação, não se sentissem motivados para realmente acolher quem estava em palco. É pena...
Dúvida
Encenação Ana Luísa Guimarães
Tradução: Felipa Mourato, Ana Luísa Guimarães Interpretação: Eunice Muñoz, Diogo Infante, Isabel Abreu e Lucília Raimundo
Até 10 de Maio de 2007 21h30
Preço: 15€ (existem diversos descontos, perguntar na bilheteira)
Teatro Maria Matos Avenida Frei Miguel Contreiras, 52