sexta-feira, setembro 07, 2007

Personagens...

Estação de Metro de Picoas, são quase dez da manhã, entro já atrasado para o emprego. Ao meu lado uma mulher de volume considerável, calções de ganga estica e abre as pernas bufando em esforço. Mal me sento ela vira-se para mim e diz: consegue ver se tenho água no joelho? É que me está a doer para caramba!

Há muita coisa que espero que me digam, mas esta não era uma delas...

quinta-feira, setembro 06, 2007

Joseph Garcin, jornalista e literato

"Eu aceito tudo: as chamas, os ferros em brasa, as pinças, o garrote, tudo o que queime! Quero sofrer a sério! É melhor ser mordido, chicoteado, coberto de ácido sulfúrico, do que este sofrimento mental, este fantasma de sofrimento, que acaricía e nunca dói o bastante!"

Provavelmente é este o personagem que vou representar, o dúbio, cobarde, traidor, pulha Joseph Garcin, condenado a sofrer para a eternidade a companhia de duas mulheres que não lhe vão dar um momento de descanso.
Ontem foi o regresso aos ensaios, à leitura, agora com o texto completo, com as 108 páginas das duas horas de peça, densa, leve, de contrastes, com um texto excelente, a que espero consigamos fazer jus.
Para além de Garcin, ontem ainda li o papel de Estragon, do lado Beckett da peça, registo completamente diferente, mais rápido, leve, cómico, mais frenético, igualmente desafiante. Aliás, dos 8 papeis possivéis (são dez mas dois são femininos), 6 são muito bons.
Leitura de texto, que não deu para acabar porque começámos demasiado tarde, mas que me encheu o peito, como se respirasse fundo. Voltei para casa com um sorriso nos lábios, a cantar no carro. A falta que estas coisas me fazem...

quarta-feira, setembro 05, 2007

La Nouba

O Cirque du Soleil vem a Portugal ainda este ano. Já tenho bilhetes, mas na verdade não pensei que fossem algo de realmente extraordinário, pelo que já conhecia. Estive em Barcelona onde vi o Alegria, um dos espectáculos mais antigos da companhia. Entusiasmante, técnicamente evoluído, divertido, mas sem ser sublime.
Até que o mês passado, em Orlando, vi um dos seus espectáculos residentes La Nouba.
O que faltava a Alegria, La Nouba tem em sobra. Da frase "faire la nouba", qualquer coisa como "pintar a manta", La Nouba é um festim para os sentidos. Mais do que apenas mestria técnica, mais do que a música ou o bailado de luz, La Nouba é um espectáculo total, surpreendente, arrebatador, onde o nosso olhar está constantemente a ser aliciado para outro ponto do enorme teatro que foi construído de propósito para este espectáculo. Novo circo no seu melhor, num misto sedutor de emoções, que tem o número de cama elástica e trampolim mais incrivel que alguma vez assisti, bem como três miudas no diabolo que são inacreditáveis.
Espero pelo show em Portugal com vontade redobrada.

terça-feira, setembro 04, 2007

Mysterious Skin

A verdade é que não conhecia o trabalho de Gregg Araki, realizador californiano com 20 anos de carreira mas apenas um punhado de filmes em carteira. A partir de agora vou estar atento.
Mysterious Skin - Pele Misteriosa conta a história de dois rapazes ligados por algo que lhes aconteceu na infância. Um deles, perdeu a memória de algumas horas e convence-se ter sido raptado por extra-terrestres, procura a ajuda do outro para conhecer o seu passado.
Mysterious Skin é um filme surpreendente, não por ter um argumento carregado de reviravoltas e curvas apertadas, mas pela forma inesperada com que aborda temas como pedofilia, homossexualidade ou prostituição sem as julgar, nem cair nos clichés do género. É um filme poderoso, intenso, sem o intuito de chocar, belo no seu olhar sobre as pessoas que retrata, que são, pelo menos, imperfeitas.
É um filme cru, directo na imagens e vivências que transmite, triste até à medula, mas com um fundo de esperança, sempre o rasto que sublinha a vida, afinal ainda há algum amor para receber. Os personagens de Mysterious Skin são assim, sofridas, doridas, mas amadas.
Com um papel memorável de Joseph Gordon-Levitt, Mysterious Skin é um filme que não merece passar despercebido no vazio das salas de cinema.

Música da Semana

Depois de ter visto o filme Mysterious Skin, de que vou falar daqui a pouco, não podia ter uma música que não fosse Sigur Ros. Depois da histeria das canções pop de Verão, aqui fica algo com um pouco mais de consistência.
O belíssimo samskeyti.

segunda-feira, setembro 03, 2007

Ratatouille

A animação Disney sofreu períodos de apogeu e de menor fulgor. Inovadora nos anos 30, fazendo a primeira longa-metragem de animação, manteve-se em alta até aos anos 60 com filmes como Branca de Neve e os Sete Anões, Pinóquio, Dumbo, Cinderela ou A Bela Adormecida entre outros clássicos. Os anos 70 e 80 não foram de grande força criativa até à Pequena Sereia em 1989, inaugurando a era Katzenberg com títulos como A Bela e o Monstro, Aladino ou O Rei Leão. A partir da viragem do milénio, com a saída de Katzenberg para a Dreamworks apareceu novo período negro, colmatado apenas pela associação à Pixar, empresa responsável pela primeira longa-metragem de animação computorizada Toy Story - Os Rivais. A marca de qualidade Pixar manteve-se em títulos como À Procura de Nemo, Monstros & Ca ou Os Incríveis. Até que há pouco tempo a Pixar foi comprada pela Disney.

A primeira produção desta nova/velha Pixar é este Ratatouille (Rátatui), que chegou até nós em Agosto.

Segue a história de uma pequena ratazana de esgoto que sonha ser um chef em Paris. O conceito é inovador, mas difícil de vender como a própria Pixar confirma. O resultado final mostra que esta companhia continua a ser dos mais fortes concorrentes no mercado da animação.

O filme é delicioso, as aventuras e desventuras deste pequeno rato estão carregadas de um sentido de humor único, que foge à regra instituída de piadas avulsas com referências cinematográficas.
Os personagens são do mais terno que se fez nos últimos tempos, jogando com a atracção da animação, mas também com a repulsa que as ratazanas produzem na vida real.
Técnicamente perfeita, o que por esta altura é já expectável, Ratatouille é uma fita de encher o olho, que reproduz a vida e ambiência parisiense ao pormenor.
A não perder, principalmente na versão original.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Filadélfia


Com quase um milhão e meio de habitantes, Filadélfia é uma cidade que se visita a pé. A sua zona turística é diminuta, sendo o restante composto por àreas comerciais e de indústria. Em declínio acentuado, a ex-capital da nação está a debater-se com sérios problemas de pobreza e desertificação. Os pedintes são inúmeros e os prédios abandonados multiplicam-se, alguns dos quais com uma arquitectura bem interessante. É no entanto o berço dos EUA e isso sente-se em todo o lado. Carregada de edifícios emblemáticos e locais de culto, foi lá que se assinou a Declaração da Independência e se redigiu a Constituição Americana.
Para quem quer perceber o que é ser americano, como eles se vêm a si próprios e ao seu lugar na História, Filadélfia é o local a visitar. Em três dias está tudo visto, mas o City Hall, o Liberty Bell Center (onde está o famoso sino rachado), o Independence Hall (onde foi assinada a Declaração de Independência), o National Constitution Center onde há uma excelente exposição sobre a história americana e uma apresentação emocionante sobre o conceito de Liberdade e a expressão "We the People", são paragens fundamentais na descoberta de uma Nação de contradições.
Se juntarmos a isso a imperdível Eastern State Penitentiary, uma prisão em ruínas que ocupa uma manhã inteira a visitar e que é fascinante, e a busca pelos passos do Rocky (ícone presente em toda a cidade), Filadélfia torna-se uma cidade de contrastes que não justifica que se atravesse um oceano para conhecer, mas que é meritória de uma visita se estivermos naquele continente.

quinta-feira, agosto 30, 2007

USA

Na minha piquena viagem aos States vi-me forçado a andar quatro vezes de avião. Das quatro vezes voei com a mesma companhia, a qual não posso mencionar o nome porque a US Airways era capaz de não achar piada. A tal companhia (cujas iniciais são USA) é a mais incompetente na qual alguma vez viajei. A dita (US Airways) em quatro voos conseguiu não cumprir um único horário, tendo os atrasos variados entre hora e meia e doze horas! Para além do mais, e sem mencionar o nome US Airways, fizeram o distinto favor de perder uma mala durante sete dias, numa viagem que demorou dez. O que eu não percebo é como é que uma mala que aterra em Filadélfia (confirmado pela própria US Airways) a 19 de Agosto, se mantém desaparecida até 24.
Passar 26 horas para regressar de Orlando para Lisboa é algo que não desejo a ninguém, principalmente se dessas 26 se passar mais de 12 num aeroporto sem informações, a passar frio, sem sequer ser colocado num hotel até que o avião estivesse disponível.
Mas seja, é apenas um desabafo, uma companhia que conseguiu practicamente arruinar uma viagem inteira e fazer dos voos uma autêntica tortura...

quarta-feira, agosto 29, 2007

Voltei

Cansado, suado, doente, de rastos, mas voltei.
Da próxima vez vou ter que tirar férias que descansem...

sexta-feira, agosto 10, 2007

quinta-feira, agosto 09, 2007

Aniversários


Hoje faço 2 anos de blog. Começou sem propósito definido, numa altura de mudança na minha vida, passou por diversas transformações e é hoje um espaço aberto à opinião, à minha e à dos outros. Dois aninhos. Fica marcada a data. A todos os que me leêm um muito obrigado, cá vamos andando para o terceiro ano...

Devagarinho aproxima-se, com a subtileza de um gato, pé ante pé, avança, a sombra insinuando-se nos recantos mais escondidos... já lhe sinto o cheiro... as férias estão aí!

quarta-feira, agosto 08, 2007

Bug

Antes de mais tenho que deixar algo perfeitamente claro, diga o trailer o que disser, seja este filme vendido de que forma for, Bug não é nem nunca foi um filme de terror.

Baseado numa peça de teatro, Bug conta a história de um homem e uma mulher solitários que julgam ter insectos a viver debaixo da pele.
William Friedkin, movie brat dos anos 70, não teve uma carreira uniforme. Se O Exorcista se tornou uma referência do cinema de terror e Os Incorruptiveis Contra a Droga chegou ao ambicionado Óscar, a verdade é que nos últimos anos não fez nada digno de registo.
Bug não é um filme fácil, nem sequer um filme consensual, mas é um filme a ter em conta. Passado quase todo num quarto de hotel, é uma peça em três actos, a descida á loucura de duas pessoas, numa caminhada lenta, perturbante e, mais assustadoramente, consciente. Se Peter (Michael Shannon) está infectado pela loucura, Agnes (Ashley Judd) deixa-se infectar, começa a acreditar após uma decisão consciente, a solidão é demasiado assustadora, ou acredita ou perde o parceiro, e ela prefere o bicho, a loucura e a morte.
Bug é um filme claustrofóbico, tenso, histérico, uma viagem ao que mais negro existe em nós.

Friedkin regressa, finalmente, com algo polémico.

terça-feira, agosto 07, 2007

Ola Kala

A entrada é forçada contra o ar que nos impede o caminho, lá dentro a escuridão é quebrada apenas por uma fina teia de luz que se eleva poucos metros acima de nós. Uma estrutura gigantesca insinua-se, mas sem nunca deixar adivinhar a sua verdadeira natureza, esqueleto vivo que nos rodeia. O espectáculo começa, som, luz e cor iludem o olho e confundem a mente. Quem é aquela gente, que silhuetas deambulam naquele lugar? Não é gente, são aranhas trepadeira, moscas irrequietas, são lagartos, são gazelas, pequenos demónios voadores que desafiam a gravidade.
Ola Kala é o novo espectáculo da série CCB Fora de Si, produzido pelo grupo francês Les Arts Sauts, é uma performance global, música e corpo, imagem e luz conjugam-se num lugar utópico, numa cúpula onde estes artistas de novo circo nos seduzem e fazem uma demonstração de perícia única.

A não perder às 21 horas, até 26 de Agosto, no Centro Cultural de Belém.