sexta-feira, outubro 12, 2007

Carpe Diem

Foto de João Braz


Esteve no Teatro Camões o novo espectáculo de Bruno Cochat Carpe Diem com o próprio Bruno Cochat, Joana Furtado, Mathieu Réau, Mónica Alves, Rita Fernandes, Ruben Garcia e Ruben Santos.
Dizia a folha de sala:

"Espectáculo de dança dirigido a um público jovem e que pretende reflectir universos contemporâneos que hoje invadem territórios cognitivos das vidas de todos nós. O wrestling, os videojogos, a televisão, o sonho na sua relação com o movimento e com as artes performativas foram os temas que serviram de ponto de partida para este evento. Uma reflexão sobre a inscrição da ideia de “espectáculo” nos tempos que correm."

Como diz que disse? Ao me levantar depois de perto de uma hora espectáculo fiquei sem perceber se Cochat alguma vez foi adolescente ou se conhece alguma criança ou adolescente actualmente. De dança pouco se viu, jogos populares, novo circo, clowning, estiveram em palco a tentar fazer um pouco de tudo em vez de fazer aquilo que sabem fazer bem: dançar. É que para circo estão a milhas do que se apresenta por aí e o que vi foi banal. Em vez de um espectáculo para jovens resolveram fingir que eram uma máscara de jovens e andar, sem fio condutor nem nexo, a saltar de vulgaridade para vulgaridade, sem imagem, nem mensagem, nem sequer algo visualmente estimulante. Aliás, tinha duas crianças ao meu lado e elas reagiam apenas nas raras vezes em que a plasticidade dos corpos se notava, nos raros momentos em que a dança se sobrepunha aos pseudo-jogos. Fora isso os miudos ficavam totalmente indiferentes. É pena, a ideia era boa, mas é muito diferente falar aos adolescentes e fingir que se é um adolescente parvo a saltar à corda. É diferente abordar os temas que os afligem ou ter afirmações óbvias e batidas como fumar é mau e a televisão estupidifica.
Pela primeira vez desde há muito tempo saí do Teatro Camões a sentir-me completamente defraudado, a sentir que a Floribela tinha chegado à dança contemporânea...


quinta-feira, outubro 11, 2007

Fados

Carlos Saura tem uma longa ligação à música, noemadamente ao flamenco, que foi palco de muitas das suas obras. A sua trilogia dedicada ao tema (Bodas de Sangre, Carmen e El Amor Brujo) é disso prova. Anos mais tarde volta à carga com Sevillanas e Flamenco de Carlos Saura. Este último título começa uma outra trilogia dedicada a estilos de música e que culmina com este Fados, tendo passado por Tango, No Me Dejes Nunca.
Fados não é um documentário, não é uma abordagem extensiva sobre a música, não tenciona decifrar, desconstruir e segmentar a história e percurso do fado em Portugal. Fados é uma homenagem.
Não interessa se há ou não outros fadistas que poderiam estar representados, se as teses sobre a origem do fado estão ou não correctas, se há - que as há - falhas. O que interessa é um filme de uma simplicidade desarmante, sem nunca ser simplista. Saura filma o fado na sua génese, a música, a canção, mas com uma abordagem global, sem os típicos maneirismos que se costumam associar, num palco assumido, brincando com as luzes, as cores, as imagens e a dança que os enquadra. Saura dá-nos tempo para redescobrir novos e velhos conhecidos, para ouvir e sentir o fado.
Como homenagem é emocionante, ouvir o velho Marceneiro a cantar numa mesa de uma taberna, ou Mariza em dupla luso-castelhana a cantar o Meu Fado, passando pela sentida vénia de Caetano a Amália, ou pela brilhante ligação de Chico Buarque à revolução de Abril, Fados deixou-me de lágrimas nos olhos. Não creio que se fosse espanhol ou alemão acontecesse o mesmo, mas não tenho dúvidas que sairia da sala com vontade de ver, ouvir e conhecer novos fados...

quinta-feira, outubro 04, 2007

.45


Na terça passada fui a uma das poucas ante-estreia que não calham ao meio da semana, em cima dos meus ensaios.
O primeiro erro cometido foi o ter aceite entrar numa sala de cinema sem me ter informado antes sobre o filme que ia ver. Falha grave.
.45 é um filme com Milla Jovovich, conta a história de uma mulher que se vinga do seu namorado, um gangster ciumento que a agride.
Um filme mau é apenas um filme mau. Agora um filme mau pretensioso é insuportável. Gary Lennon, o realizador, é um argumentista que tem aqui a sua primeira obra. Parece um puto saído da escola de cinema, que idolatra Tarantino, mas sem um pingo de talento. O que escorre, com amadorismo completo, são cenas gratuitas de violência e sexo, coladas a cuspo, com diálogos imbecis, situações idiotas, cortadas por cenas "documentais" dos personagens a falar directamente para a câmara como se fossem entrevistados. O trabalho de actores é do mais grotesco que vi nos últimos tempos, soltando fuck's e shit's como se não houvesse amanhã, grunhindo e cuspindo o texto entre gritos e esgares - eu sou tão mau, eu sou tão feio.

Lixo com pretensões a arte. Intragável. O melhor do filme, é mesmo o trailer...



quarta-feira, outubro 03, 2007

Dois novos actores. Vão entrar dois novos actores, para dois papeis importantes o Lucky e o Pozzo no lado Beckett da peça. Um já está garantido, o outro decide até sexta...

Uma semana sem ensaios... Integração dos novos elementos... recomeço, texto para decorar... 108 páginas...

Agora é para doer...

terça-feira, outubro 02, 2007

Sala de espera

Então o que é que a aflige...

Nem sei... sabe, eu comecei a envelhecer para aí há dois anos...

Música da Semana

Foi Deus, música de Alberto Fialho Janes, foi imortalizada por Amália Rodrigues. Os Donna Maria gravaram uma nova versão no seu primeiro albúm de originais Tudo é para sempre...Regravar esta música requer coragem. Em primeiro lugar porque é um fado lindissimo dificil de cantar, em segundo lugar porque a comparação com Amália é sempre feita e por último porque é uma música a louvar quem a canta, e digamos, nem todos merecem que se faça. Os Donna Maria pela voz de Marisa Pinto saem-se muito bem deste desafio e são a minha escolha para esta semana.

segunda-feira, outubro 01, 2007

China, China & Tian bian yi duo yun

O Sabor da Melancia e China, China fazem dupla no King. O primeiro é um deprimente drama musical antecedido pela curta de João Pedro Rodrigues. Comecemos pelo filme português. Não é mau, mas também não é bom. É o chamado filme morno, não incomoda nem entusiasma. Conta a história de uma chinesa que vive em Portugal, mãe infeliz com a sua vida, rotina diária com uma reviravolta final esperada. Pouco acontece, pouco hás a dizer, mas o tempo passa.
Já o filme de Tsai Ming-liang é exactamente o tipo de coisa para que tenho andado a perder a paciência. Um actor porno reencontra uma mulher que vive no andar de baixo da casa onde ele filma e "apaixona-se". Ela não sabe a profissão dele, até ao fim do filme. É um filme contemplativo, parado, lento, que se arrasta demoradamente de plano para plano. Depressivo, cinzento, até que, subitamente, são introduzidos números musicais extravagantes, cómicos levados ao absurdo, para cortar o clima. Do primeiro ao último minuto está repleto de cenas de sexo, de sexualidade, não de sensualidade - longe disso - o mais metafórica e auto-destrutiva que pode haver. Tudo sumado o filme é uma masturbação mental do realizador, sem nada para dizer, nem história para contar, nem sequer imagens particularmente diferentes ou perturbantes, apenas uma tentativa de chocar, de ser oh-tão-intelectual, oh-tão-profundo, oh-tão-à-frente, limitando-se a ser oh-tão-chato. Parafraseando uma amiga, como pode um filme com tanto sexo ser tão monótono?

Há melhores maneiras de gastar duas horas de vida...


sábado, setembro 29, 2007

sexta-feira, setembro 28, 2007

Avisam-se os senhores passageiros que é "puribido" fumar em toda a rede do metro.


É bom saber...

quinta-feira, setembro 27, 2007

Vista... curta! (passo a publicidade)



O existencialismo...

Ontem ensaio, depois de uma segunda-feira em que não nos reunimos. Foi só a equipa do Sartre a ensaiar, quando ainda estamos em dúvida em relação aos actores que vão fazer a peça. Tivemos uma introdução muito interessante do Alexandre quanto à obra do filósofo e ao existencialismo, pano de fundo para esta metade da peça. Foi interessante e deu-nos uma perspectiva diferente daquilo que fazemos em palco.
A seguir leitura completa, apenas da nossa parte, que acho ter sido a melhor até hoje. Gosto bastante das duas actrizes que contracenam directamente comigo, e tenho confiança que este trio consiga levar aguentar-se muito bem.
Pessoalmente sofro um pouco de parte do complexo do Garcin, o meu personagem. Enquanto que ele precisa que lhe digam que ele não é cobarde, que é um homem de coragem, eu preciso que me digam que consigo fazer este papel, que tenho alguma capacidade como actor. Espero que as dúvidas se dissipem com o andar do tempo.

Gosto bastante deste projecto...

quarta-feira, setembro 26, 2007

Hairspray

"Good morning Baltimore!"
Em 1988 John Waters escreveu e realizou a sua estravagancia musical Hairspray. Quase duas décadas volvidas ela volta ao ecrã.
Um musical com humor, Hairspray tem a vantagem de nunca se levar a sério. Cai, ou melhor, atira-se de cabeça para todos os clichés do género, incorporando-os e brincando com eles, divertindo o público e os próprios autores no processo.
A crítica social é herança de Waters, mas não deixa de ser inesperada num filme deste género, abordando, mesmo que de forma superficial, temas como o racismo, o papel da mulher e o direito à diferença, numa sociedade obcecada pelo corpo.
A música fica no ouvido, a reconstrução de época é eficaz, fatinhos e cabelos no ponto, produção irrepreensivel, mas o que toda a gente paga para ver é o papel de John Travolta, mãe gorda e tímida da nossa heroina. Há que dar a mão à palmatória, Travolta não é o melhor actor do mundo, tem diversas deficiências mas tem coragem e fez escolhas de carreira inesperadas. Se foi Tarantino que o relançou com Pulp Fiction (se bem que o êxito da tripla Olha Quem Fala não lhe tenha feito muito mal), Travolta soube nos últimos 13 anos manter-se no topo graças a uma versatilidade e uma capacidade de arriscar louváveis.
Hairspray é um feel-good movie que nos deixa com um sorriso na cara e uma canção no ouvido.

terça-feira, setembro 25, 2007

Factory Girl

Os anos 60 foram abundantes em personagens iconográficos e Andy Warhol foi um deles. Se é verdade que o seu trabalho foi inovador, serviu-se da cultura popular como objecto de crítica e como punchline, acabando por ser uma parte integrante dessa pop-culture, a pop-art foi engolida pelo mainstream. Pessoalmente Warhol era um personagem bizarro, uma figura andrógina, incapaz de lidar com o seu passado familiar, intimidado pelo dinheiro e pela high-society, era um menino mimado, egoísta, auto-centrado, cobarde, fascinado pelas celebridades em que, em última análise, ele próprio se tornou. Era também um génio.

Factory Girl - Quando Edie Conheceu Warhol, é a história de Edie Sedgwick, socielite que se fascinou e deixou fascinar por Warhol e pelo mundo da arte, fama, festas e drogas em que se movia.
Para quem se sente atraído pelos anos 60 e pelos personagens que nele habitaram, este é um filme bastante interessante. Mais do que a descida ao sub-mundo das drogas de uma menina rica fascinante (bom papel de Sienna Miller, apesar de não ter o ar inocente e arrebatador da original), é um inside look à The Factory, local onde Warhol e o seu gang criavam, viviam, num clima de liberdade, mas sustentado sempre por familias endinheiradas. Eram sanguesugas. Mas será possivel atingir niveis de criatividade e inovação artística sem experimentação? Será possivel criar estando sempre dependende do dinheiro? Quantas escolhas não são feitas apenas com base na necessidade de por comida na mesa?
Guy Pearce merece uma menção especial pela sua prestação como Andy, tendo Hayden Christensen a arrumar o elenco, um Dylan não-assumido.

Factory Girl é um filme interessante, sem nunca atingir níveis de exepção. A ver...

Música da Semana

É terça-feira, dia de mais uma canção semanal.
Quando vi a Ópera do Malandro em Lisboa (há 3 ou 4 anos talvez?) houve uma canção que me ficou na cabeça. Contava a história de uma prostituta (naquele caso dava a entender prostituto) que, apesar de repudiada pela vila, se vê em situação de salvar o povoado do ataque de um guerreiro estrangeiro. Se há uma coisa que gosto nos textos é que me transmitam imagens através de processos simples ou inesperados. É o que acontece aqui, com a descrição inicial da vida da mulher e também no final da noite "ela se virou de lado, e tentou até sorrir." É uma descriçaõ directa até, mas cria-me na cabeça a imagem de um corpo tortuado, o pequeno alívio de se mover e o esforço tremendo que é o sorriso, mas ao mesmo tempo, é esse sorriso que mostra como ela se sente depois de tudo ter acabado. Eu sei que é simples, mas este tipo de escrita diz-me muito. É um conto de ingratidão e de sofrimento, com uma bela letra (e música) de Chico Buarque, que aqui vos deixo na versão original dos anos 70, cantada pelo próprio Buarque: Geni e o Zepelim.

segunda-feira, setembro 24, 2007

1923-2007

Agora foi a vez de Marcel Marceau nos deixar... no silêncio.