Ao folhear o Actual do Expresso dei de caras com um artigo sobre o último trabalho de Radiohead. Ainda não fiz o download do muito aguardado cd daquela que considero ser a melhor banda da actualidade. Na crónica João Lisboa comparava a notoriedade de Radiohead a Pink Floyd na altura do Dark Side of The Moon. Qembrei-me que seria uma excelente ideia. Aqui está live, Pink Floyd, já pela voz de David Gilmour, Eclipse.
Adaptações de Stephen King ao cinema são mais que muitas, a maioria não merece o esforço de abrir os olhos para as ver. Desta vez com John Cusack e Samuel L. Jackson, resolvi dar-lhe uma hipótese. Um escritor de livros de fantasmas anda pelo país a visitar hoteis assombrados para acabar a sua mais recente obra. Ele é um céptico, até que chega ao Dolphin Hotel em Nova Iorque e, contra os avisos do gerente, insiste em ficar no quarto 1408. A permissa é mais que velha. Casas, quartos e hoteis assombrados não são proprimamente novidade, mas 1408 consegue construir um clima tenso e pregar um ou outro susto. O problema é que rápidamente se perde. Transforma-se num tanto faz, com o quarto a mudar a cada dez segundos, a acontecer as coisas mais espalhafatosas, sem nexo, perdendo-se o clima de tensão, de medo, rodeado de um tédio que se instala enquanto que o sub-aproveitado Cusack é atirado de um lado para o outro sem dó nem piedade. Quando chega ao fim sai-se da sala com um sabor estranho na boca, uma sensação de tempo perdido e pouco mais.
Fez-se muito barulho em torno deste O Reino. À falta de um realizador de renome, o enfoque caíu no seu produtor Michael Mann e no galardoado Jamie Foxx. E pouco mais havia por onde agarrar. Após um atentado na Arábia Saudita que vitimou centenas de americanos, uma equipa do FBI viaja até lá para investigar e descobrir os culpados. O filme não é de Michael Mann, mas é a la mode de Michael Mann. Peter Berg não tem curriculum que se conheça, resolve então tentar ser (aqui, porque nem em Very Bad Things, nem em Welcome to the Jungle o fez) um sub-Michael Mann. Imitação pobre na utilização do ecrã largo, nos movimentos de câmara, nas temáticas, na violência. Não tem é metade do talento, nem ideias. O filme é seco, pouco tem a dizer, os personagens são planos e as ligações entre elas básicas. Como thriller deixa muito a desejar, Berg comete o erro de tentar conduzir a fita para um "who donne it", o problema é que o mistério sobre quem terá sido o autor é inócuo, visto que não existem suspeitos, não os conhecemos nem queremos conhecer. Sem saber por onde conduzir o enredo, O Reino põe os seus personagens principais a não fazer nada durante a primeira hora de fita. Investigação rápida, conclusões óbvias (que a policia saudita é incapaz de tirar), perseguição, muita sorte e um rapto à última da hora com consequente tiroteio. Se como thriller é falhado, como policial também, como filme de acção fica-se pelo partir muito e mostrar pouco. Tiros, explosões, sem se perceber quem como e onde, sem o mínimo de noção espacial, ou seja o que for, o que interessa é fazer muito barulho para ver se ninguém nota. Percebe-se que Michael Mann não realiza-se um argumento tão fraco. Peter Berg não é assim que algum dia se irá firmar como um realizador a ter em conta.
Frank Oz é um realizador com altos e baixos. Sem nunca ter sido brilhante, tem alguns filmes com apontamentos interessantes.
Morte no Funeral conta a história de um funeral e da estranha reunião familiar que se cria.
É um filme muito british. O início é hilariante, os enganos sucedem-se, e as situações incómodas são aproveitadas com peso e medida, a tempo e sem excessos (um reparo para a tradução que está fora de sincronia durante os primeiros vinte minutos de filme, o que distrai bastante). Os diversos personagens são apresentados sempre com humor, as relações bem desenvolvidas e inesperadas. O problema é que depois de expostos os lugares, problemas, persongens e situações, o filme fica a repetir-se durante mais de meia-hora. Não é que as piadas não tenham graça, mas ao fim de algum tempo cansam.
Felizmente a última meia hora salva o filme. Depois das referências sexuais, do pânico, das drogas, de algumas gargalhadas bem soltas, o filme tem um final até tocante, conseguindo calar uma sala que se ria histéricamente.
Grosso modo é uma fita bem construída, inteligente, divertida, com o seu q.b. de provocação. Acima de média do que se encontra nas salas.
Temos os actores quase todos. Falta o criado. Mas os ensaios continuam.
Segunda regresso com leitura, ontem começo de marcações em palco.
Desastre...
Na primeira cena, nas primeiras 15 ou 20 páginas, estou em palco com o criado. Desde a primeira leitura que essa é a altura onde sinto que estou pior, com dificuldades ainda mais acrescidas, perdido, falso. Devagar, comecei lentamente a ganhar alguma consciência, talvez mais alguma segurança, ou se calhar apenas a insistir em erros velhos. Tive uma tarde de trabalho com uma amiga que me começou a ajudar a perceber intenções, começar lentamente a melhorar, corrigir, uma tarde que foi um primeiro passo. Até que cheguei ao ensaio...
Mudou tudo, nervoso por subir ao palco entrei pior que nunca. Para agravar o encenador mudou completamente o sentido e leitura do meu texto, do meu personagem. Catástrofe.
Saí de lá a sentir que na verdade não tenho capacidade para fazer aquele papel, que nunca vou acertar, percebê-lo, interiorizá-lo, vivê-lo. Que vou chegar a palco e cair desamaparado no ridículo. Voltei para casa de rastos.
Hoje acordei com a certeza que ia ser horrivel. Ainda tenho essa certeza.
Essa certeza que só passa com trabalho, muito, durante 3 meses...
Em 1981 o teatro A Barraca estreia um dos seus mais memoráveis espectáculos “Fernão, Mentes?”, adaptação de Helder Costa da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Com música de Fausto e Zeca Afonso, foi o berço do albúm Por Este Rio Acima, disco quintessêncial da música popular portuguesa e marco do qual Fausto nunca se conseguiu libertar totalmente. Para esta semana resolvi relembrar A Voar Por Cima das Àguas, uma das muitas músicas deste trabalho, que em miúdo adorava, e ainda hoje adoro.
Grindhouse parte dois. Quentin Tarantino e Robert Rodriguez criaram um evento cinematográfico de homenagem aos exploitation movies dos anos 70. Uma sessão dupla, com trailers ficticios no intervalo a que chamaram Grindhouse. A fraca receita no box-office americano fez com que os dois filmes fossem distribuidos em separado.
Planet Terror (Planeta Terror) é o segundo filme desta dupla, desta vez a cargo de Robert Rodriguez, realizador de culto, a quem pessoalmente nunca achei muita graça.
Um gás quimico controlado pelos militares é acidentalmente largado sobre a população de uma pequena cidade, transformando-os em zombies carnívoros.
Entrei com expectativas baixas, não gostei do Death Proof (o primeiro filme, realizado pelo Tarantino) e este não me dava grandes indícios.
Enganei-me.
Planet Terror é para o cinema como um gigantesco cheesburguer é para a culinária, é gordurento, a escorrer molho, cheio de sal e colestrol, mas sabe demasiado bem para resistir.
É prazer sem culpa, Rodriguez agarra no género que Carpenter e Romero celebrizaram, encorpora os seus clichés, expõem os seus defeitos e usa-os para nos dar um misto de sátira e homenagem carregada de gore, acção, estilo, onde o humor está sempre presente, e não conseguimos parar de querer mais.
Foi o suficente para eu querer rever o Death Proof e tentar perceber se não me enganei na minha primeira análise. Uma coisa é certa, Grindhouse foi um evento pensado em conjunto, não como a soma de dois filmes isolados, estou ansioso que saia o pacote em dvd para finalmente os poder ver como é suposto, com first e second feature, trailers (mesmo assim conseguimos ver o trailer de Machete) e um enorme balde de pipocas...
Esteve no Teatro Camões o novo espectáculo de Bruno Cochat Carpe Diem com o próprio Bruno Cochat, Joana Furtado, Mathieu Réau, Mónica Alves, Rita Fernandes, Ruben Garcia e Ruben Santos. Dizia a folha de sala:
"Espectáculo de dança dirigido a um público jovem e que pretende reflectir universos contemporâneos que hoje invadem territórios cognitivos das vidas de todos nós. O wrestling, os videojogos, a televisão, o sonho na sua relação com o movimento e com as artes performativas foram os temas que serviram de ponto de partida para este evento. Uma reflexão sobre a inscrição da ideia de “espectáculo” nos tempos que correm."
Como diz que disse? Ao me levantar depois de perto de uma hora espectáculo fiquei sem perceber se Cochat alguma vez foi adolescente ou se conhece alguma criança ou adolescente actualmente. De dança pouco se viu, jogos populares, novo circo, clowning, estiveram em palco a tentar fazer um pouco de tudo em vez de fazer aquilo que sabem fazer bem: dançar. É que para circo estão a milhas do que se apresenta por aí e o que vi foi banal. Em vez de um espectáculo para jovens resolveram fingir que eram uma máscara de jovens e andar, sem fio condutor nem nexo, a saltar de vulgaridade para vulgaridade, sem imagem, nem mensagem, nem sequer algo visualmente estimulante. Aliás, tinha duas crianças ao meu lado e elas reagiam apenas nas raras vezes em que a plasticidade dos corpos se notava, nos raros momentos em que a dança se sobrepunha aos pseudo-jogos. Fora isso os miudos ficavam totalmente indiferentes. É pena, a ideia era boa, mas é muito diferente falar aos adolescentes e fingir que se é um adolescente parvo a saltar à corda. É diferente abordar os temas que os afligem ou ter afirmações óbvias e batidas como fumar é mau e a televisão estupidifica. Pela primeira vez desde há muito tempo saí do Teatro Camões a sentir-me completamente defraudado, a sentir que a Floribela tinha chegado à dança contemporânea...
Carlos Saura tem uma longa ligação à música, noemadamente ao flamenco, que foi palco de muitas das suas obras. A sua trilogia dedicada ao tema (Bodas de Sangre, Carmen e El Amor Brujo) é disso prova. Anos mais tarde volta à carga com Sevillanas e Flamenco de Carlos Saura. Este último título começa uma outra trilogia dedicada a estilos de música e que culmina com este Fados, tendo passado por Tango, No Me Dejes Nunca. Fados não é um documentário, não é uma abordagem extensiva sobre a música, não tenciona decifrar, desconstruir e segmentar a história e percurso do fado em Portugal. Fados é uma homenagem. Não interessa se há ou não outros fadistas que poderiam estar representados, se as teses sobre a origem do fado estão ou não correctas, se há - que as há - falhas. O que interessa é um filme de uma simplicidade desarmante, sem nunca ser simplista. Saura filma o fado na sua génese, a música, a canção, mas com uma abordagem global, sem os típicos maneirismos que se costumam associar, num palco assumido, brincando com as luzes, as cores, as imagens e a dança que os enquadra. Saura dá-nos tempo para redescobrir novos e velhos conhecidos, para ouvir e sentir o fado. Como homenagem é emocionante, ouvir o velho Marceneiro a cantar numa mesa de uma taberna, ou Mariza em dupla luso-castelhana a cantar o Meu Fado, passando pela sentida vénia de Caetano a Amália, ou pela brilhante ligação de Chico Buarque à revolução de Abril, Fados deixou-me de lágrimas nos olhos. Não creio que se fosse espanhol ou alemão acontecesse o mesmo, mas não tenho dúvidas que sairia da sala com vontade de ver, ouvir e conhecer novos fados...
Na terça passada fui a uma das poucas ante-estreia que não calham ao meio da semana, em cima dos meus ensaios. O primeiro erro cometido foi o ter aceite entrar numa sala de cinema sem me ter informado antes sobre o filme que ia ver. Falha grave. .45 é um filme com Milla Jovovich, conta a história de uma mulher que se vinga do seu namorado, um gangster ciumento que a agride. Um filme mau é apenas um filme mau. Agora um filme mau pretensioso é insuportável. Gary Lennon, o realizador, é um argumentista que tem aqui a sua primeira obra. Parece um puto saído da escola de cinema, que idolatra Tarantino, mas sem um pingo de talento. O que escorre, com amadorismo completo, são cenas gratuitas de violência e sexo, coladas a cuspo, com diálogos imbecis, situações idiotas, cortadas por cenas "documentais" dos personagens a falar directamente para a câmara como se fossem entrevistados. O trabalho de actores é do mais grotesco que vi nos últimos tempos, soltando fuck's e shit's como se não houvesse amanhã, grunhindo e cuspindo o texto entre gritos e esgares - eu sou tão mau, eu sou tão feio.
Lixo com pretensões a arte. Intragável. O melhor do filme, é mesmo o trailer...
quarta-feira, outubro 03, 2007
Dois novos actores. Vão entrar dois novos actores, para dois papeis importantes o Lucky e o Pozzo no lado Beckett da peça. Um já está garantido, o outro decide até sexta...
Uma semana sem ensaios... Integração dos novos elementos... recomeço, texto para decorar... 108 páginas...
Foi Deus, música de Alberto Fialho Janes, foi imortalizada por Amália Rodrigues. Os Donna Maria gravaram uma nova versão no seu primeiro albúm de originais Tudo é para sempre...Regravar esta música requer coragem. Em primeiro lugar porque é um fado lindissimo dificil de cantar, em segundo lugar porque a comparação com Amália é sempre feita e por último porque é uma música a louvar quem a canta, e digamos, nem todos merecem que se faça. Os Donna Maria pela voz de Marisa Pinto saem-se muito bem deste desafio e são a minha escolha para esta semana.
O Sabor da Melancia e China, China fazem dupla no King. O primeiro é um deprimente drama musical antecedido pela curta de João Pedro Rodrigues. Comecemos pelo filme português. Não é mau, mas também não é bom. É o chamado filme morno, não incomoda nem entusiasma. Conta a história de uma chinesa que vive em Portugal, mãe infeliz com a sua vida, rotina diária com uma reviravolta final esperada. Pouco acontece, pouco hás a dizer, mas o tempo passa. Já o filme de Tsai Ming-liang é exactamente o tipo de coisa para que tenho andado a perder a paciência. Um actor porno reencontra uma mulher que vive no andar de baixo da casa onde ele filma e "apaixona-se". Ela não sabe a profissão dele, até ao fim do filme. É um filme contemplativo, parado, lento, que se arrasta demoradamente de plano para plano. Depressivo, cinzento, até que, subitamente, são introduzidos números musicais extravagantes, cómicos levados ao absurdo, para cortar o clima. Do primeiro ao último minuto está repleto de cenas de sexo, de sexualidade, não de sensualidade - longe disso - o mais metafórica e auto-destrutiva que pode haver. Tudo sumado o filme é uma masturbação mental do realizador, sem nada para dizer, nem história para contar, nem sequer imagens particularmente diferentes ou perturbantes, apenas uma tentativa de chocar, de ser oh-tão-intelectual, oh-tão-profundo, oh-tão-à-frente, limitando-se a ser oh-tão-chato. Parafraseando uma amiga, como pode um filme com tanto sexo ser tão monótono?
Há melhores maneiras de gastar duas horas de vida...