Ontem dei por mim a ouvir Bob Dylan e a ter daquelas conversas dissertativas sobre os anos 60 e as suas consequências; mudou alguma coisa, não mudou e o quê?
Gostava de ter vivido numa época como os anos 60 nos EUA e França ou os anos 70 em Portugal. Bem ou mal, com méritos e excessos, a verdade é que as pessoas acreditavam em algo, lutavam por alguma coisa, democracia, paz, igualdade, direitos humanos, seja o que for, mas sentia-se que o mundo como o conhecemos podia ser mudado, e que estava nas mãos das pessoas o poder de o mudar.
Hoje ninguém acredita em nada. Em Portugal vive-se um clima cinzento, abatido, mediocre. Sente-se que tudo está, no geral, errado, mas que nada é, no geral corrigível. Pior, sente-se que não temos nada a ver com a solução (uma vez mais vaga) para os problemas que se abatem sobre o país, que quer a culpa quer a responsabilidade de os resolver está nos outros, em alguem indistinto (politicos, economistas, futebolistas?) que não têm nem a capacidade nem a vontade de os resolver. Pensa-se pequeno, vive-se pequeno, sem aspirações e sem sonhos. Não temos o poder de mudar, a obrigação de mudar, apenas o direito a um queixume sem fim, mas também sem propósito. Alguém sabe realmente o que quer ver mudado? Mais "direitos", mais "justiça social", chavões vazios que traduzem apenas um mal estar generalizado.
Nada é feito sem cada um de nós. Nada muda sem cada um de nós. Não existe um Portugal externo a mim, vazio, oco, com más notas a matemática, com salários congelados, com uma classe política medíocre. Portugal sou eu e a minha mulher, o meu pai, a minha mãe, o meu vizinho e o vizinho dele. Portugal somos todos nós. Se o país está mal, se é cinzento, feio, fechado a culpa é minha, de todos nós, de cada um de nós e está nas mãos de cada um de nós o poder de o mudar. Não é só com o voto, é com cada dia, cada passo, cada gesto, Portugal existe para lá da Superliga, da Maddie e do défice, existe nas manhãs, nas tarde e noites que vivo e respiro.
Sem nunca esquecer, Abril de 74, Maio de 68 pode ser, deve ser Novembro de 07, Janeiro de 08, Agosto de 09, sem esquerdas, sem direitas, mas com ideias, com mudança.
Está e sempre esteve nas nossas mãos.