sexta-feira, dezembro 07, 2007

Contos de Algibeira


Foi ontem no Frágil o lançamento destes Contos de Algibeira, uma edição Casa Verde, que reune textos de dezenas de autores portugueses e brasileiros, numa aventura conjunta de gente que nunca antes tinha trabalhado junto, nem sequer se conhecia. Tratam-se de micro-ficções, com o máximo de 500 caracteres, alguns a ocupar apenas duas ou três linhas. Pequenas histórias, normalmente carregadas de humor, pequenas reflexões do quotidiano.
Ontem, no Frágil, tivemos apenas meia dúzia de conhecidos e desconhecidos, para ouvir o Jorge Silva Melo divagar um pouco sobre esta colecção de textos. É daquelas pessoas que vale sempre a pena ouvir falar, seja sobre literatura seja sobre o que for, foi bom revê-lo e dar-lhe um abraço.
Quanto ao livro é interessante, os textos são inteligentes, surpreendentes até, para além do facto que o Alexandre Borges, nosso ilustre encenador, é um dos autores.
No final, três das actrizes d'Os Hipócritas (o meu grupo de teatro), leram de forma descontraida e informal, uma selecção de textos. Uma noite bem passada.
Contos de Algibeira. Nas lojas...

quinta-feira, dezembro 06, 2007

O tempo


Até segunda-feira ficam as marcações da peça feita. Falta um mês para a estreia, parece imenso tempo, mas na verdade com a paragem durante o Natal, sobram apenas duas semanasem Dezembro. Três ensaios por semana, duas horas por ensaio. É pouco, muito pouco... Sinto o tempo a escorrer-me por entre as mãos, felizmente tenho tido mais facilidade do que pensei em decorar texto. Não para a frente, mas o texto marcado é mais facilmente memorizado, suponho que é lógico, mas sendo esta a primeira peça a sério que faço, todas as pequenas conclusões óbvias a que chego são para mim quase que revelações...
10 de janeiro... tão perto...

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Beowulf

Robert Zemeckis depois de ter realizado o filme Polar Express, animação que utilizava uma técnica de motion capture para reproduzir os gestos e expressões dos actores em cena, com um realismo considerável, apaixonou-se por esta nova tecnologia. Avançou então para este novo projecto, baseado numa lenda britânica, um poema épico escrito há mais de mil anos. A grande inovação é a utilização do 3D, uma técnica recente que foge dos óculos tradicionais azul e vermelhos, para um efeito mais fiel e sem as habituais consequências do método anterior (dores de cabeça, etc).
Se é de técnica que se fala, então Beowulf é um filme notável, a animação é primorosa e o 3D perfeito, principalmente com a noção de profundidade que é imensa. Não saem coisas do ecrã em direcção ao público, não nos esquivamos de setas (nesse aspecto a Disney está anos à frente), mas continua a ser impressionante. Só por essa experiência merece a visita.
Como filme é fraco, uma história demasiado linear, demasiado focada nas cenas de acção, preocupada com o aspecto visual em deterimento do desenvolvimento do argumento. É uma pequena desilusão, Angelina Jolie tem mais sensualidade ao vivo de t-shirt sem maquilhagem, do que em todo o filme, como ser sedutor, irresistivel.
Monstros, dragões, batalhas, tudo se foca exclusivamente nesse ponto, onde o abuso de técnicas a lembrar Bruce Lee, ou mesmo Matrix, tornam essas mesmas sequências demasiado inacreditáveis.
Enfim, é um filme pipoca, com uma lógica de parque de diversões.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Achmed the Dead Terrorist



Thanks Puligare...

Música da Semana

Confesso que a minha relação com Arcade Fire não tem sido fácil. Quando os conheci pela primeira vez foi por mero acaso, numa Virgin, em que os pus a tocar à sorte. Não me convenceram. Quando vieram a Portugal tive diversos amigos em pulgas para os ver, e todos me disseram maravilhas do espectáculo. Dei-lhes uma segunda oportunidade. Continuaram sem me convencer. Há pouco tempo pus o Funeral a tocar no carro, um pouco por falta de alternativas. Pouco a pouco fui mudando de opinião, até chegar ao ponto de ouvir uma música em repeat. Essa canção é Rebellion (Lies), e é a minha escolha para música da semana.
Enjoy...

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Delirium


O Cirque du Soleil veio finalmente a Portugal. O espectáculo escolhido foi Delirium, show que não precisa de tenda, adaptável a salas de espectáculo normais. Erro. Delirium não é um espectáculo de Novo Circo, divaga pela dança, música e multi-média, com diversas projeções de video. Há vários problemas.Para começar o Pavilhão Atlântico deixa, na maior parte da sala, o espectador demasiado longe do palco. A sensação que dá é de estarmos a olhar para um espectáculo que é feito para outras pessoas, ao qual estamos a espreitar por uma racha num muro.Quanto ao que está em palco, não é carne nem peixe. Como concerto é desinteressante. Como circo é quase inexistente. Como bailado, monótono e como show multimédia tem pormenores interessantes, apontamentos fortes, mas nada que surpreenda, nenhuma ideia que não tenha sido explorada já desde os anos 80 em video-clips. A falta de uma linha coerente, narrativa ou não, que una os vários quadros é notória, sendo as coisas atiradas para palco sem motivo aparente. A falta de imaginação é tal que para terminar a performance cantaram o Alegria, do espectáculo homónimo do Cirque, algo que foi criado há vinte anos.Uma desilusão. Muito barulho, ruído visual e não só, num show que dá uma imagem errada do imenso potencial do Cirque Du Soleil.
Em Abril e Maio vem cá o Quidam, esse sim, a não perder.

sexta-feira, novembro 30, 2007

quarta-feira, novembro 28, 2007

Laitakaupungin valot

Aki Kaurismäki é um cineasta que, por minha falha, não conhecia. Finlandês multi-premiado com longa carreira, tem agora o seu último trabalho em exibição em Portugal: Luzes no Crepúsculo.
Um homem solitário vê-se envolvido num crime quando é seduzido por uma mulher fatal.
Fraude e génio, já ouvi dizer de tudo sobre este autor, o que vi não me seduziu mas também não me deixou indiferente. Kaurismäki filma com uma distância tremenda dos seus personagens, com uma frieza, um afastamento que se reflecte numa estética pouco naturalista, forçada, como se pintasse frios quadros de uma paisagem árida, crua, feia até. Não existe grande amor, ódio ou remorso, apenas gestos quase mecânicos, sentimentos que afloram apenas a pele e escorrem demoradamente para o chão.
Não existe uma beleza interior, nem paisagens idílicas, mas uma certa angústia apática, como se aceitasse tudo o que acontece com pálida indiferença.
É pelo menos curioso, merece mais do que apenas 3 pessoas numa sala.

terça-feira, novembro 27, 2007

Música da Semana

Ao ver o Across the Universe fiquei com uma vontade enorme de voltar a Beatles. Não esperei, fui à Fnac comprar o Sgt. Peppers Lonely Heart's Club Band. É o album mais marcante de uma época, de uma geração, e das peças de música mais influentes de sempre. Quebrou barreiras como nunca ninguem e poucos depois o fizeram, com a introdução de revoluções em termos estruturais, melódicos, temáticos, e até de produção num dos mais imitados e emblemáticos trabalhos que conheço.
Aqui fica a genial canção de encerramento, A Day in the Life...

segunda-feira, novembro 26, 2007

Mr. Magorium's Wonder Emporium

Chega a altura do Natal e os filmes com o target familiar começam a brotar por todos os lados. Apesar de ser um terreno tradicionalmente dominado pela Disney, estes últimos anos tem-se assistido ao surgimento de diversos filmes de outras casas a atacar este target. A Walden Media é uma das concorrentes com pretensões no mercado.

É por aí que nos chega este Mr. Magorium's Wonder Emporium, com o título português O Maravilhoso Mundo dos Brinquedos, conta a história de uma casa de brinquedos mágica, o seu criador e das pessoas que orbitam à sua volta.
Durante quase uma hora é um filme terno, com um Dustin Hoffman excêntrico, e uma Natalie Portman doce, como é seu apanágio. Não transborda de imaginação ou criatividade, mas é terno, comovente a espaços, na verdade cumpre a sua função de enterter. Não fosse os últimos vinte ou trinta minutos e o filme seria ao menos divertido, mas o final lamechas, previsível, foleiro e apressado acabam por deitar por terra um esforço que, apesar de não ser genial, era pelo menos competento. Fica o fascinio de Hoffman e o sorriso desarmante de Natalie Portman.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Já cheira mal...


Um cozinheiro da cadeia de hoteis Sana foi despedido por ser sero-positivo. Recorreu para os tribunais. Perdeu na primeira instância e agora na Relação voltou a perder. Os juizes ignoraram TODOS os relatórios médicos e científicos, dizendo que ficou provado que o cozinheiro tinha o HIV no seu sangue, suor, lágrimas e saliva, e que portanto existiria o perigo de contágio a clientes que tivessem "feridas na boca"(!!!!!) É um facto médicamente falso, atestado como tal por todos os especialistas ouvidos, mas os juizes resolveram esquecer os relatórios e testemunhos que vão contra o seu preconceito. Assim, sancionam legalmente a descriminação das pessoas infectadas com SIDA, promovendo o medo e morte social destas pessoas.

E nada acontece a estes juizes... é deprimente...

Notícia completa aqui.

Across the Universe

Julie Taylor, realizadora de Frida, teve uma ideia, fazer um filme que tivesse como base a música dos Beatles. Assim nasceu o musical Across the Universe, que segue a história de um rapaz inglês que parte para os EUA à procura do pai, acabando por criar amizade com um grupo de americanos, no meio do turbilhão dos anos 60.
Across the Universe é um filme visualmente cativante, vivo, cheio de cor, um pouco alucinado até. Conta com um grupo de actores fantástico, de onde Evan Rachel Wood e Jim Sturgess
se destacam. Gosto de ver performances onde tudo é natural, onde ninguem parece estar a representar, e as coisas fluem naturalmente. A música, essa então dispensa apresentações, rodeia-nos, seduz-nos, faz viver o filme.

A história na verdade não é muito coerente. Os personagens e as relações entre eles não são o mais robusto possivel, muitas vezes fica-se com a sensação que o argumento é apenas um pretexto para passar mais uma canção. Se não fossem os Beatles toda a estrutura do filme se ruiria. Mas na verdade não me importo de ouvir mais uma vez albuns como Abbey Road, The White Album ou Sargeant Peppers...

Como filme não é brilhante, mas os Beatles... ah os Beatles...

quinta-feira, novembro 22, 2007

3 em 5...

... dias uteis por semana. Agora são três ensaios semanais. O tempo começa a escassear, mês e meio não é muito, e o trabalho pela frente é ainda intenso. Mas a peça começa a tomar forma. Aos soluços, tropeções, a crescer lentamente, mas com um rumo que começa a parecer cada vez mais definido. Quando a mim, sinto-me mais à vontade no personagem, começo a saber, até mais instintivamente, as reacções do Garcin, o que pensa, o que sente.

10 de Janeiro, cada vez mais perto...

quarta-feira, novembro 21, 2007

3


3 é o segundo espectáculo de uma trilogia, criada pelo teatro cão solteiro, tendo por fundo o tema o sonho. Construído em parceria com André Godinho, cineasta que recolheu imagens do primeiro espectáculo A Carta Roubada.
No Sábado passado não houve representação, falta de público. Ontem só lá estávamos dois, mas mesmo assim avançaram com a performance.
Há ideias interessantes. Para começar, o próprio local, e o percurso que se faz até à "sala", o visitar de um espaço em decadência, como se sentisse a memória do edifício. Cénicamente, o sofá virado de costas tem impacto, as mãos e pés que ocasionalmente aparecem são visualmente bem conseguidas. O video de André Godinho é de uma crueza árida, uma estética Bergmaniana, e acaba por ser o centro da peça.
Mas a base, como sempre, é o texto. Este é um espectáculo de textos, declamados, sem actores visiveis (ou quase), sem narrativa, sem ilustração. É um diálogo entre o texto, o video e o espaço cénico. A representação destes textos, a leitura dos mesmos é um desastre. Os dois actores criam uma forma estéreotipada, oh tão teatral, tão repetitiva, monótona e gasta. Não consegui perceber os textos. As palavras eram atiradas ao ar, Deus nos livre mudar ritmo, entoação, Deus nos livre representar, sentir o que se está a dizer. Não. Há uma pré-concepção intelectual do que é declamar um texto em teatro, e aqui vai disto, uma hora inteira no mesmo registo. O mais grave é que este ponto destroi tudo o resto. A ambiência, o video, até a pequena surpresa final, cuja interpretação se perde. O que é que estiveram a dizer mesmo?
É pena, a ideia tinha potencial...


3
de: Cão Solteiro & André Godinho

2 a 25 de novembro, de 3ª a domingo, às 22h
na R. do Poço dos Negros, 120
reservas 96 017 47 98 (das 14h às 22h)

terça-feira, novembro 20, 2007

In Rainbows


A primeira vez que ouvi Radiohead foi com o single do seu primeiro album Creep. Essa porta de entrada é comum para grande parte dos antigos fãs da banda. O disco era Pablo Honey, interessante trabalho rock, com influências grunge, mas que se destaca principalmente pelo single Creep, enorme sucesso que ainda hoje passa nas rádios. O EP Iron Lung foi um ponto de transição para o seu albúm seguinte, The Bends. Aqui finalmente começa a emergir com maior leitura a sonoridade particular dos Radiohead. Fora das tendências maiores da época (Smashing Pumkins eram reis na altura), The Bends é um trabalho pessoal, algo depressivo, com um Tom York inspirado.
Com Ok Computer é firmado o estatuto mundial de culto de Radiohead. Para muitos o seu melhor disco, Ok Computer é uma vez mais uma evolução sobre o passado, num caminho electrónico, com odes geniais como Paranoid Android, num conjunto de músicas inovadoras que se ouve e (re)descobre vezes sem conta.
Eis que chega Kid A. Aí tudo rebenta. O caminho da banda encontra novos territórios, e se a experimentação é algo que os define, Kid A é um album marcante, de rupturas. Muitos fãs ficaram desiludidos, Kid A não tem um som fácil que fique no ouvido, mas é um dos grandes albuns da década.
Amnesiac. Para mim o expoente máximo de Radiohead. Quando o ouvi pela primeira vez pensei que tivessem perdido o juízo de vez. As ondas de rádio ficaram (com raras excepções) prácticamente arredadas deste disco, e com motivos, quase não há uma música que possa passar, quase nenhuma que se apanhe de ouvido, que tenha uma construção melódica simples. Mas com canções como You and Whose Army?, Like Spinning Plates ou Life in a Glass House, os Radiohead atingiram um nivel de absoluto génio, uma referência única, marcante no panorama mundial, asseguraram um lugar vitalício no panteão das lendas musicais.
Em 2003 o muito aguardado Hail to the Thief é lançado. Qual seria o passo seguinte para esta surpreendente banda? Foi um regresso às origens. Hail to the Thief é um belíssimo CD, mas é quase como se Kid A e Amnesiac tivessem sido apagados e este fosse o seguimento de OK Computer. Nada de mal, não é possivel reeinventar-se a cada passo, e Hail to the Thief é um trabalho sólido.
Este ano voltam à carga com In Rainbows. Para os fãs, quatro anos sem música nova custa um pouco a passar. E no lançamento do disco abanam toda a indústria, as músicas estão disponiveis para download no seu site, e cada um paga o que quer, podendo inclusivé não pagar nada. É o assumir definitivo a morte da forma tradicional de venda de música. Há também uma edição especial, carregada de extras, mais cara, para colecionadores. Pode ser o início de uma revolução. E a música? Bem, a música é do nível a que a banda já nos habituou. Parece que encontraram um local confortável, um tom, um estilo próprio, e que aí se instalaram para lançar sons de qualidade, com uma boa produção, intensos, mas sem surpreender, sem inovar, sem sair desse nicho que criaram para si próprio. Mas In Rainbows é um trabalho que merece uma escuta atenta, não desilude, apenas não inova. Afinal, um bom albúm é ou não é apenas um bom albúm?
A música desta semana é Bodysnatchers, deste In Rainbows. Enjoy.