segunda-feira, janeiro 14, 2008

O fim de semana da estreia

Foto: Sofia Maul

Sexta-feira, 11 de Janeiro, 21h30. As portas abertas, o público ocupa os seus lugares. À espera de entrar eu tentava dominar os nervos. Fútil esforço. De repente um pensamento assolou-me: as cadeiras. As cadeiras, que têm um papel central na peça, não estavam no sítio. E agora? O pano está aberto! Avisar alguém, seja quem for, rápido! A tensão aumentou, a desconcentração também. Quando a peça começa eu estava um caco. Ninguém me ouvia, tropeçava, tremia (e respirar como me lembrou depois a Sofia?) falhei texto. Uma deixa pendurada, e agora foram-se as palavras, embrulhei texto, saltei falas, escorreguei periclitante à beira do percipício. Para recuperar, para me equilibrar virei-me para o exagero. Tenho uma tendência natural para o over-acting, neste caso foi catastrófico.
No final toda a gente feliz, estreámos. Eu tirava a maquilhagem da cara e nem acreditava no que me tinha acontecido.

Sábado, 12 de Janeiro, 21h30. As portas abertas, o público ocupa os seus lugares. À espera de entrar eu dominava os nervos. As cadeiras estavam no seu sítio. Mais calmo, controlado, consegui descer o tom, vencer o medo, o texto saíu, o resto também. Com problemas? Sim, muitos, o ritmo desceu, o tom monocórdico foi demasiado usual. Para controlar alguns problemas acabei por criar outros.
No final toda a gente estava desolada. A peça tinha corrido mal a todos. Eu tirava a maquilhagem da cara a sorria. Apesar de diversos problemas, tinha conseguido dominar alguns dos que me tinham perseguido durante o dia anterior e até alguns dos ensaios.
Precisávamos de mais tempo. É a diferença entre profissionais que dedicam o seu dia ao teatro e nós que dedicamos algumas noites, cansados, doridos, dormentes.
Mas queixo levantado, o espectáculo está lá, o texto é bom, os figurinos são excelentes, temos actores fantásticos que têm momentos muito bons, e o palco continua sempre a fascinar-me. Só queria ter mais tempo, mais ensaios, mais espectáculos, mais experiência, mais talento, mais teatro...

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Ensaio com público

foto: Sofia Maul


Mais de 50 pessoas??? Isso não é bem um ensaio, é quase uma ante-estreia... Ontem tivemos o último ensaio que, devido à assistência inesperadamente grande, foi transformada num espectáculo a sério. Ainda sem video. Esse vai ser uma surpresa para a estreia, para o público e, principalmente, para nós. A ver vamos, vai ser uma "estreia" na estreia...


O meu fato está assombrado. Ante-ontem manchei o joelho. Levaram o fato para o limpar. A limpeza borrou o fato (mas disfarçadamente). Ontem, no mesmo sitio, voltei a sujar o fato. Ninguem faz a mínima ideia (eu incluído) onde carga de água é que me sujo, nem porquê no joelho... É mistério... Eu descofio que existem pequenos duendes com latas de tinta que se divertem a pintar-me quando eu estou em palco. Para quem for à peça... procurem-nos e avisem-me!


Hoje às 16h30 Hipócritas no Curto-Circuito na Sic Radical, para quem quiser ver.
Hoje às 21h30 Hipócritas no Franco-Portugais. A estreia...

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Ensaio Geral


Hoje é o ensaio com público, uma espécie de ante-estreia digamos, mas ontem foi o primeiro teste mais a sério. Ensaio geral, com duas ou três pessoas que viram a peça pela primeira vez, entre as quais uma jornalista.
Correu tudo mal. Correu tudo bem.
Foi realmente fraquinho, entrámos sem ritmo, esquecemos texto que sempre soubemos de cor, cenas que funcionavam bem que ficaram mornas, mortas, lentas.
Mas a verdade é que o fizemos, o espectáculo todo, de uma ponta a outra, sem pausas, sem interrupções, saltou texto? passa à frente, resolve ou a contracena ajuda, está lá, vivo, o espectáculo inteiro. Pela primeira vez, luz, som, figurinos, cenário, maquilhagem, texto, tudo se conjugou pela primeira vez em palco. Os erros? Existem, foram muitos, mas podem ser corrigidos, são corrigidos. Vê-lo ali, nascido, aquele espectáculo que por vezes me pareceu quase uma miragem, tranquilizou-me, muito. O resto é concentração e ritmo.

Só uma coisa me preocupa... alguem sabe como raio é que se tira brilhantina do cabelo????? É que lavar três vezes com champô normal não chega...

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Palco


Ontem foi o primeiro ensaio no Franco-Portugais, ensaio técnico, luzes, som, marcações. Uma pequena surpresa com os horários, em vez de meia-noite, tivemos que sair de lá às 22h, o que fez com que o ensaio fosse muito apressado, literalmente a correr. Mas fez-se.

Palco.

Pela primeira vez ontem pisei o palco onde tudo vai acontecer. Estavam lá os adereços, o cenário despojado, os bancos, a árvore, a mesa, a espátula, as luzes, o pano, a plateia, o negro...

Por um momento deitei-me no chão sozinho. Tinha uma luz directamente por cima de mim. Deitei-me, fechei os olhos e fiquei a ouvir os sons, os passos na distância, outros actores a falar nos camarins, o silêncio...

Deve ser por ser novato nestas andanças, mas o palco, seja ele qual for, aquele onde a acção se vai desenrolar, fascina-me. Tenho dito que ando nervoso por causa de peça. Não é verdade. Não estou nervoso, estou ansioso, impaciente, feliz, como se uma descarga eléctrica me trespassasse o corpo todos os dias. Acordo com um sorriso, adormeço carregado de energia, tenho dificuldade em estar quieto. A peça, o texto, este Inferno do meu Garcin envolve-me, preenche-me, toma conta do espaço.

Nervoso? Não... estou fora de mim...


Deve ser por ser novato...

terça-feira, janeiro 08, 2008

Música da Semana - Godot nos Infernos

Esta semana não podia ter aqui outra música. Carlos Gardel compôs na década de 30 este tango, que ouvi pela primeira vez no filme Perfume de Mulher em versão instrumental, tal como a apresento aqui.
É um tango magnífico, particularmente forte e tocante, sem voz então acho-o mesmo soberbo.
É o pano de fundo de uma das cenas mais fortes da peça que estreio no franco-português na sexta-feira: Godot nos Infernos.
O texto por si só é agonizante, mas ao som de Gardel ganha um novo corpo e força. Assim sendo aqui fica Por Una Cabeza. E sexta ali tão perto...

Estelle (enquanto vê, do Inferno, um homem que a amava a dançar com outra mulher)
Ai, meu Polegarzito, de que é que te estás à espera para rir na cara dela? Bastava que eu lançasse um olhar, ela nunca teria a ousadia de... Será que eu já não sou nada?
(...)
Ela está a dançar através do meu olhar...

segunda-feira, janeiro 07, 2008

National Treasure: Book of Secrets

Para abrir o ano é costume ir ao cinema. Ter um cartão de filmes tem imensas vantagens, nomeadamente o facto de se poder ir ao cinema as vezes que se quiser por um preço muito acessivel. Por outro lado, acaba por limitar as salas de cinema a que se tem acesso e, consequentemente, os filmes que se pode ver. A escolha de dia 1 acabou por recair em O Tesouro: Livro dos Segredos. Grande êxito nos EUA, que também não se está a portar mal no resto do mundo.

Costuma-se dizer: se me enganam uma vez a culpa é deles, se me enganam segunda vez a culpa é minha.
Eu vi o primeiro O Tesouro. Ir ver esta sequela foi, sem dúvida, pouco inteligente.
Não há muito que dizer. O filme está carregado de vedetas e de grandes actores: Nicolas Cage, Diane Krueger, Ed Harris, Harvey Keitel, Jon Voight, e até, sua majestade a rainha, Helen Mirren, mas todas elas, sem excepção, estão ali de mão estendida a ganhar o seu, sem convicção nenhuma no que estão a fazer, cheque para pagar as contas e siga para bingo. Na verdade como é possivel acreditar num argumento tão imbecil? O argumento e personagens saltam de sitio para sitio, entrando e saindo de todo o lado com a maior das calmas e à vontade, seja do Palácio de Buckingham, da Sala Oval, ou mesmo de um simples, ó tão fácil, rapto do presidente americano. Os argumentistas acham verdadeiramente que o espectador médio é atrasado mental, e tratam-nos como tal.
Mas se o primeiro filme já era mau porque é que eu insisto?

Mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa...

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Godot nos Infernos

Aqui está ela. A peça que me tem marcado os últimos meses. Agora é a sério. Bem o mal, estreia dia 11. Para quem estiver interessado, aqui fica, o melhor que consigo dar.


"Ok. Nem Deus nem o Diabo atendem.
Então, quem me vem buscar?

Inês, Estelle e Garcin estão no inferno. Mas não há fogo eterno nem demónios nem tridentes. Não há, sequer, outros condenados. O espaço não é vermelho nem quente, mas vazio. Há três canapés e uma estátua do Super-Homem. Nenhum espelho. A única coincidência com o imaginário colectivo é talvez o Criado, que poderia ser Caronte. Vladimir e Estragon estão no mundo, parece. Mas não há casas nem árvores nem carros nem portas nem janelas nem outras pessoas. Apenas uma árvore de natal. Artificial. Depois, vêm Pozzo e Lucky, mas sabem tanto ou tão pouco do mundo como Didi ou Gogo. Nada mais. Existir é isto, dum lado e doutro da vida. A menos que alguém venha. "




GODOT NOS INFERNOS
Instituto Franco-Portugais
11 de Janeiro a 10 de Fevereiro
Sextas e Sábados 21h30 (dia 18 de Janeiro não há espectáculo)
Domingos 17h00 ( apenas dias 20 de Janeiro e 10 de Fevereiro)

Preço: 6,50 euros

(Desconto de Pin Cultura, Maiores de 65 anos, estudantes, profissionais do teatro e grupos +10: 5,50euros)

Informações e reservas:966419650 \ hipocritas@gmail.com


Texto, Adaptação e Encenação: Alexandre Borges

Baseado em: "Huis Clos" de Jean-Paul Sartre e "À Espera de Godot" de Samuel Beckett
Elenco: Ana Chambel l Filipa Pais de Sousa l Manuel Barbosa l Miguel Pires Ramos l Selma Totta l Sara Totta l Sheila Totta l Sofia Ribeiro l Ricardo Lérias
Cenografia: Filipa Ribeiro da Silva

Figurinos: Maria Azevedo e Nuno Nogueira
Caracterização: Sílvia Soares

Música/ Sonoplastia: Tiago Martins (participação especial)

Vídeo: Henrique Soares
Fotografia de Cena: Sofia Maul

Direcção Técnica: Bruno Gaspar

Operação de Luz: Filipe Sim-Sim

Imprensa: Sílvia Soares

Design: Vivóeusébio Colectivo de Design

Direcção de Produção : Filipa Pais de Sousa

Produção: Hipócritas

Institut Franco-Portugais

Avenida Luís Bívar, 91 / 1050-143 Lisboa

Tel: (+351) 21 311 14 00

Fax: (+351) 21 311 14 68


Minha?

Ensaios diários agora que a estreia está a uma semana de distância. Já desde dia 2 com fim-de-semana incluido.
Ontem o ensaio começou com uma conversa. O que estava bem, o que estava mal, no geral e com cada um de nós.
Começou por mim. Descobri que a abordagem que estava a fazer ao personagem estava completamente errada. Pior, descobri que de ensaio para ensaio tenho performances oscilantes e que por vezes trago nas costas a culpa do arrastar do espectáculo.
A uma semana da estreia esta crítica caiu em cima de mim como uma bomba. Pensei, é desta, não consigo mesmo fazer isto e a peça inteira vai ser arrastada para o buraco por mim.
Depois continuou a conversa. Mais de uma hora com todos.
Subimos.
Os nervos à flor da pele, concentração, mudei em absoluto a abordagem, exsplorei, tentei novos caminhos.
No fim a reacção foi positiva. Ao que parece é por aqui mesmo.

Mas a tensão não desaparece... Consigo dar a volta a este Garcin?

quinta-feira, janeiro 03, 2008

I Am Legend

Honestamente não estava à espera de nada de especial deste último blockbuster com Will Smith. O filme não pára de render dinheiro, mas para Smith é habitual que assim seja. Filmes que baseam o seu sucesso no nome de um actor ou em efeitos especiais normalmente saem furados.

Desta vez, no entanto, a surpresa é agradável.
Um cientista é o último homem vivo, após uma experiência falhada com a mutação genética de um virus, que acaba por dizimar a Humanidade.
Um dos motivos pelo qual Eu Sou A Lenda funciona, é o facto de se preocupar com a sua personagem central, a sua vida, rotinas, passado, ânsias e medos. Afinal, um homem que vive só durante 3 anos não pode estar completamente são. Como se mantém viva a esperança, como se impede a loucura de tomar conta?
Ok, o filme é um blockbuster, não um ensaio psicológico, como tal tem que ter a sua dose de acção e suspense, e têm-a.
Os efeitos especiais são de primeira apanha, as imagens de uma Nova Iorque abandonada são impressionantes. O thriller, a puxar ao terror, que se desenvolve é tenso e bem conseguido e Will Smith não compromete.
Nos últimos 15 a 20 minutos no entanto, o filme perde o pé, banaliza um pouco, na busca do fadado happy-end.
Mas mesmo assim, para filme-pipoca, é bastante interessante.

terça-feira, janeiro 01, 2008

Top 10 do ano

No final de cada ano, ou neste caso no início de um novo, é usual o aparecimento dos tops do ano. O Sopros não é excepção, portanto aqui fica a minha escolha dos 10 melhores filmes de 2007, por ordem alfabética:

The Brave One
Eastern Promisses
El Laberinto Del Fauno
Das Leben Der Anderen
Letters From Iwo Jima
Little Children

The Namesake
Ratatouille
Redacted
Shortbus

Os filmes estão linkados para os posts que fiz na altura. 2008 promete ser um ano ainda melhor de cinema. A ver vamos...

Redacted

Quando abordaram Brian De Palma com 5 milhões de dólares para fazer um filme video digital de alta-definição, ele respondeu que o faria se houvesse um tema que justificasse não usar a película. Descobriu que existe todo um mundo de imagens digitais a circular pela net. Nomeadamente filmes sobre o Iraque, sejam opiniões pessoais, videos de familiares, e principalmente videos de soldados no terreno, feitos com telemóveis, camaras portáteis, vários tipos de DV's. Essas imagens trazem uma realidade que os media não mostram, numa espécie de autismo, como se não existisse.
De Palma, cercado por advogados, agarrou no caso de um grupo de soldados que violou e matou uma rapariga iraquiana de uma forma brutal, desconstruiu a parafernália de videos, imagens e informação numa net cada vez mais aberta, e reconstruiu-os, dramatizando-os com actores, mas mantendo viva a sensação de real por detrás de tudo.
O resultado final é um dos filmes mais poderosos do realizador de Corações de Aço e Os Intocáveis, ao ponto de ser urgente o visionamento deste filme. Não que traga algo de novo à informação que temos sobre a guerra, não dá dados novos ou confidenciais, mas traz-nos a experiência do medo até ao peito, dá-nos uma visão interna de eventos horriveis. No final de Apocalypse Now, Marlon Brando diz a famosa frase "The horror, the horror...". Censurado é o horror. Não o horror da guerra como estamos habituados a vê-la, dos combates ou carnificina, mas o horror humano mais profundo, que habita para lá da guerra, dentro de nós, o horror de se ver, de se viver algo que nunca se devia ter vivido.
Censurado é o filme mais importante que está hoje nas salas de cinema...

Música da semana

2008, novo ano, novo início(?) e bem e tal.
A verdade é que se é para abrir o ano, então que se abra em grande. Maior que Vinicius, Tom Jobim e Bethânia juntos é dificil.
Por isso, para arrancar em grande, O que tinha de ser...

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Bee Movie

O último filme saído dos estúdios Dreamworks tinha um dos mais inventivos teasers que já vi. O que por si só me atiça a curiosidade.
O trailer era banal em comparação, mas não prejudicava o filme. Se juntarmos a isto o facto de ser o projecto pessoal de Jerry Seinfeld, produzido por Steven Spielberg, A História de uma Abelha era dos filmes de animação que eu aguardava com mais expectativa.
Uma abelha sai da colmeia, para conhecer o mundo real, acabando por criar amizade com uma humana, e meter-se numa série de sarilhos.
Para ser directo ao assunto posso dizer que este é o pior filme de animação computorizada que já vi. Eu perdi diversas fitas, mas nem na Dreamworks, nem na Pixar, nem na Fox, vi algo tão fraco.
Técnicamente é perfeito, claro, as texturas soberbas, visualmente fabuloso. Mas aquilo que sempre diferenciou este género, desde o primeiro Toy Story, foi a imaginação na história, personagens, situações e humor que, divertindo as crianças, tinha sempre algo para tocar os adultos.
Do ponto de vista do argumento este é dos mais fracos que já vi. Vinte trocadilhos entre "be" e "bee", situações disparatadas, personagens desinteressantes, nada ali faz muito sentido, nem nos liga pessoal ou emocionalmente a seja o que for. Passamos as duas horas de filme a pensar como terá sido possivel desperdiçar tanto talento junto e fazer algo que nos faz sair da sala com um amargo de boca, um desalento perante tudo o que o filme podia ser e nunca consegue nem de longe.
Depois de um Shrek o Terceiro abaixo do nivel dos outros dois, A História de Uma Abelha é um falhanço. Esperemos que o próximo Kung Fu Panda ponha a Dreamworks de novo no caminho certo.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Eastern Promises

Este parece ser o ano em que todos os grandes realizadores fazem um filme. Gus Van Sant, Manoel de Oliveira, os irmãos Cohen, Tim Burton, Brian de Palma, Robert Redford, Ridley Scott, Paul Thomas Anderson, Wes Anderson, Neil Jordan, Mike Nichols, Francis Ford Coppola, David Lynch, Todd Haynes, são apenas alguns dos nomes que estrearam ou vão estrear um filmes feito em 2007. David Cronenberg juntou-se à lista com um dos melhores filmes que vi este ano, Promessas Perigosas.
Sem dúvida, Promessas Perigosas é uma aposta comercial, um thriller sobre a máfia russa, que poderia facilmente descambar para uma banalidade superficial. Nas mãos de Cronenberg no entanto, transforma-se numa reflexão sobre a violência, mais um passo na temática que atravessa a carreira de Cronenberg, a transformação do corpo e "o outro em mim", a descoberta do estranho que habita dentro do meu corpo, da minha alma (curiosamente o tema do último filme de Neil Jordan).
É verdade que desde Spider, Cronenberg tem-se afastado do seu lado mais gore, mais agressivo em termos visuais, mas mesmo assim, o sublinhar violento está sempre lá - vide a cena, já antológica, da luta na sauna neste filme.
Voltando a trabalhar com um Viggo Mortensen cada vez mais maduro, cada vez mais refinado, e com Naomi Watts, Cronenberg constroi uma fita com um elenco sólido.
A não perder, Cronenberg firma-se cada vez mais como um dos grandes autores da História do Cinema.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Paranoid Park + Porca Miséria

O hábito não existe, mas há algumas raras excepções em que as longas-metragens em Portugal são antecedidas de uma curta. É mais comum com filmes de animação do mesmo estúdio das super-produções em estreia. Desta vez é uma curta de animação portuguesa a anteceder o último filme de Gus Van Sant.
Porca Miséria é uma curta de Joaquim Pinto e Nuno Leonel, conta a história de um rapazinho de rua e o seu porquinho mealheiro. Dura 4 minutos, é de uma simplicidade desarmante, terno, mas ao mesmo tempo duro e surpreendente. Em apenas 4 minutos fiquei com o coração nas mãos, com vontade do chorar. A abertura perfeita para Paranoid Park.
O último filme de Gus Van Sant é, na sua linha habitual, uma das experiências mais extremas que este realizador já fez. Um acidente sinistro marca a vida de um adolescente.
A montagem descontinuada, a ausência de uma cronologia lógica, a câmera que segue, nos habituais planos longos e fechados, os passos daquele rapaz, tudo contribui para o clima pesado, para a lenta descoberta da verdade, para o olhar perscrutador debaixo da apatia, do dia a dia, do skate, do namoro, dos amigos, no âmago da tragédia. Tragédia essa que quando se revela por fim, negra, chocante, nos deixa ainda mais desarmados.
É dos filmes mais interessantes em exibição, onde a narrativa desce para segundo plano, para dar lugar a tempos, espaços, planos e emoções.