quinta-feira, janeiro 31, 2008

O menino rebelde

Isto vai parecer pedante, mas Jack Kerouac, uma das maiores referências da literatura americana moderna, comparado a Hemingway, que influenciou uma geração inteira nos anos 60 com o seu livro On The Road, acaba por ser pouco mais que um menino rebelde.
Ao ler as aventuras e desventuras de Mr. Kerouac percebo que toda aquela estrada, aquela aventura, a boleia, o apanhar comboios de mercadorias com vagabundos, o contar os tostões sem saber o dia de amanhã, trabalhar na terra, na busca da liberdade absoluta é pouco mais que... uma fraude. Em 150 páginas já por três vezes mandou pedir dinheiro à tia, regressando a Nova Iorque para a sua cama e casa confortável.
É óptimo viver utopias, mas liberdade sem preço, escolhas sem consequências de pouco valem. Assim é fácil, é pouco mais que uma fantasia adolescente.
A magia lentamente desvanece-se...

Nove e Meia No Maria Matos

Depois de uma grande série de espectáculos no Maria Matos, chega agora o albúm Nove e Meia no Maria Matos, o último cd ao vivo de Sérgio Godinho.
Depois de ter estado lá a dançar ao vivo, chega agora a altura de recordar em casa.
Recomendo vivamente...

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Detail Korma


Planos para teatro frustrados pelo cansaço no corpo (adiados para hoje), pelo menos salva-se o jantar. Experimentar um indiano novo, mudamos de ideia quando vemos pizza, lasanha e cordon bleu no meio do caril. Vamos ao do costume.
Rua dos Bacalhoeiros, mesmo ali ao pé de casa. Chamuça, Nan, Chicken Korma, tudo óptimo como sempre. A meio da conversa e da refeição reparo... onde está o chicken neste korma? Procuro, procuro, nada, nem vestígio, nem asa, nem coxa, nem peito, nem pele, nada. Chamo o empregado que vai averiguar. Irritado sai da cozinha, deram-me um Vegetable Korma. Pede desculpa, diz que já estão a fazer o prato certo. Na verdade não tenho mais fome, o de vegetais estava saboroso, não há problema, fica para a próxima.
Acabada a refeição chega a conta. 11,5€ por duas pessoas? Deve haver engano, só pode, ora bem... o meu prato não está cá. Estão aqui as entradas, as bebidas, o prato da Ana, mas o meu...
Não paga. Não pago? Não, prato errado não paga. Mas não é justo, protestei, eu comi o prato todo, estava bom, não o substituiram porque eu não quis. Não estamos em casa, responde-me o empregado, não se cozinha qualquer coisa para despachar. Não tem o que pediu, não paga.
Sem mais. Um dos meus restaurantes indianos favoritos (do qual não me lembro o nome, mas é o único na rua dos bacalhoeiros em lisboa), que me voltou a surpreender.

terça-feira, janeiro 29, 2008

5 fins de semana... vamos a caminho do 4º. O tempo realmente voa. A ver se este Godot vai em viagem, Cascais quase de certeza, outras paragens em hipótese, mas a verdade é que são só mais dois fins de semana no Franco-Português e depois... puff... evapora-se...

Música da Semana

Pois pois pois pois... e esta semana... esta semana?... hum... o quê o quê?...
Então e Belle Chase Hotel, o tal projecto delirante onde apareceu JP Simões?
E porque não?
De La Toilette des Étoiles aqui fica São Paulo 451...

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Yerma

A ANIMATEATRO - Associação de Teatro e Animação do Seixal, existe desde 2001, e tem desenvolvido um trabalho em Amora, no Seixal, de promoção e divulgação teatral, que conta já com diversos projectos e uma dinâmica constante.
Numa pequena loja transformada, no local mais insuspeito, está a sede da ANIMATEATRO, com apenas 32 lugares, normalmente lotados, é a prova que a vivacidade e a criação teatral, não são exclusivos de Lisboa e Porto.
Yerma é a sua última produção, a peça de Garcia Lorca é levada a palco em tom minimalista, tal como teria que ser naquela sala, com as limitações e dificuldades que uma pequena companhia sempre apresenta. Limitações de espaço e financeiras, mas não limitações em termos de espectáculo.
Se há uma coisa que uma peça numa sala tão pequena e com cenário tão despojado faz, é colocar o foco de toda a acção nos actores. Estamos a meio metro deles, tudo se vê, tudo se ouve, tudo se sente. A fasquia é, naturalmente elevada, e foi maioritariamente ultrapassada. Haveria pormenores a afinar, principalmente na direcção de actores (Yerma não devia estar tão chorosa logo de início, mas sim uma evolução mais acentuada da tristeza), mas no geral é uma peça forte, bem construída, com uma temática intensa e que nos prende desde o início. Há talento escondido nos locais mais insuspeitos, que tristemente passa despercebido. Só está em cena até 3 de Fevereiro, e merece uma visita a quem se disponha a descobrir novos terras para o Teatro.



Yerma
de
Federico Garcia Lorca

Encenação, Tradução e Adaptação do Texto
Ricardo G. Santos

Elenco
Lina Ramos
João Zhoraide
João Ascenso
Claudia Palma
Catarina Lourenço
Nicole Santos
Marta Pessoa
Tânia Sacramento

Vozes Gravadas
Patrícia Moreira
Rita Araújo

Cenografia/Guarda Roupa
Joana Gomes

Imagem Gráfica
Luis Mileu

Composição Sonora
Paulo Mendes

Assistência Técnica
Nuno Santos

Produção
Animateatro
Praceta José Maria Vieira, Loja 4 A - Amora
2845-478 Seixal
Telefones 212254184/72
Fax 212254172
email animateatro@gmail.com
http://www.animateatro.org

Preço: 3,5€

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Só hoje


Este fim de semana só temos espectáculo hoje. Sábado não temos peça, recuperando no último domingo com mais uma performance.
Para além de hoje, só temos mais dois fins-de-semana. Se durarmos o tempo todo previsto. Quem estiver interessado... o tempo esgota-se. Informações e contactos aqui.

Cassandra's Dream

Woody Allen está de volta. É a sua terceira aventura inglesa, depois de 30 anos a ser o realizador de Nova Iorque, apaixonado pela big apple, está agora rendido aos charmes britânicos. Talvez seja pelo fracasso no box-office que os seus filmes têm tido desde há algum tempo nos EUA, salvando-se apenas na Europa.
Match Point foi um marco. Não só inaugurou esta nova fase da carreira do realizador, como era em si um filme extraordinário. O Sonho de Cassandra parece ser um pedido de desculpas pela teoria defendida em Match Point.
Dois irmãos com problemas financeiros resolvem matar um homem a pedido de um tio rico, que os recompensa generosamente.
A culpa. O tema central de O Sonho de Cassandra é a culpa, a linha que se atravessa entre o bem e o mal, e as consequências de a atravessar. Era já um dos temas de Match Point, mas enquanto que nesse filme era abordada de uma perspectiva intrigante (a sorte como o factor fundamental que decide o nosso caminho na vida), aqui é quase um regresso aos clássicos. O Sonho de Cassandra é uma tragédia clássica, grega, com os temas e construção de uma tragédia grega, mas com a working class inglesa como pano de fundo. O problema é que o filme nunca é cativante, especialmente bem filmado ou inteligente, o tempo passa sem grande problema, mas também sem grande brilhantismo. Ewan McGregor e Colin Farrell fazem os respectivos papeis em modo automático (Farrell tem duas caras apenas, sobrancelhas levantadas em sofrimento, ou sobrancelhas para baixo).
No final de contas é melhor que a média do que se costuma encontrar pelas salas, mas um Woody Allen nitidamente menor.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Atonement

Depois de algum tempo arredado das salas de cinema, chega a altura de recuperar os filmes que foram ficando por ver, principalmente numa altura em que as estreias se multiplicam no meio da época dos prémios, que culmina, como sempre, com os Óscares.

Expiação é o primeiro dos multi-nomeados (vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme Drama) a estrear em Portugal. 7 nomeações para os Óscares, entre os quais Melhor Filme, prémio que sinceramente dúvido que vença. Daí não se devem extrair conjecturas para a qualidade do filme.

Joe Wright, realizador de Orgulho e Preconceito, filma este Expiação com uma subtileza, quase uma dança com a câmara, o espectador, os actores e os eventos, fazendo este melodrama deslizar sereno, crescendo nos ombros de ambiências, paisagens e actores que se entrecruzam na teia de uma história, sem ganhar protagonismo, sem o procurar, num equilibrio que facilmente seria quebrado. Keira Knightley é impecável e James McAvoy confirma-se como um dos mais interessantes novos talentos. Menção para o trabalho impressionantemente maduro da jovem Saoirse Ronan de apenas 13 anos.
Sem nunca resvalar para o sentimentalismo fácil, é no entanto um filme sentimental, mas inesperado até na forma como se revela e nos toca. Com uma banda sonora brilhante, onde os sons do dia-a-dia se fundem na melodia clássica que sublinha a acção, Expiação é sem dúvida um filme a ter em atenção, um drama tocante, um filme pleno.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

1979-2008


Morreu Heath Ledger, um dos mais promissores actores da sua geração, com apenas 28 anos e uma carreira respeitável atrás de si, começou a mostrar talento em filmes como Monster's Ball ou Brothers Grimm, mas foi com Brokeback Mountain que realmente deu o salto.
Há ainda três filmes deste actor que não conhecemos. I'm Not There de Todd Haynes ainda não estreou em Portugal (e valeu a Cate Blanchett uma nomeação para Melhor Actriz Secundária), Dark Night, a continuação de Batman Begins de Christopher Nolan (em pós-produção neste momento) onde ele faz o papel de Joker. Deixou a meio The Imaginarium of Doctor Parnassus, o último filme de Terry Gillian, ainda em filmagens com estreia prevista para 2009.
Suspeita-se que a morte estivesse relacionada com abuso de droga.

Da colheita de 1979, aqui fica um pequeno tributo.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Oscares

Sairam as nomeações para os Oscares da Academia deste ano. Sem grandes surpresas. Os dois grandes favoritos são No Country For Old Men dos irmãos Cohen e There Will Be Blood de Paul Thomas Anderson. Tim Burton voltou a ser preterido, apesar de Johnny Depp ter sido nomeado para melhor actor.
A lista completa aqui.

Música da Semana


Ontem vi A Praire Home Companion, o último filme de Robert Altman. É uma despedida, o adeus de um homem de 80 anos que, a sofrer de leucemia, após uma vida repleta, resolve encarar a morte e com uma vénia sair de cena. Não é um filme brilhante, mas é um filme que diz muito sobre o homem, sobre a forma como quer ser recordado, qual é o último cunho que quis deixar no mundo. No caso de Altman é um sinal de festa, de música, sem lágrimas, the show must go on. César Monteiro fez o seu Vai e Vem, Oliveira (apesar de parecer eterno) teve o seu Porto da Minha Infância e o seu Je Rentre à La Maison. Quando eu morrer batam em latas, dizia Mário de Sá Carneiro (e também Mario Viegas), Sinatra cantou My Way e Piaf sem remorsos em Non, Je Ne Regrette Rien. É uma questão de escolhas, de opções, compromissos e consequências.
Que direi eu quando esse dia chegar?

Por hoje deixo Piaf dizer... sem remorsos...

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Equilibrio


O meu problema na sexta era a garganta. Não contei com a constipação, dores de corpo, sinusite, moleza, nariz entupido e a correr, suores e (desgraça) tosse. A solução? Comprimidos. Muitos comprimidos. Cêgripe em doses industriais para o corpo, zirtec para a sinusite, ipobrufeno para o nariz e garganta, pingos para o nariz, drill para a tosse e rouquidão, uma boa assoadela antes de entrar em cena, fincar os pés no chão e siga para bingo. Descobri que o melhor remédio ainda é a adrenalina. Depois de subir a palco o corpo reage de outra forma, a gripe fica em segundo plano, sobra apenas o nariz e a garganta.
Equilibrio. É a palavra chave. Neste caso com o corpo, conseguir encontrar um equilibrio entre aquilo que preciso fazer e aquilo que consigo fazer, a tentar ultrapassar as minhas próprias limitações. Equilibrio com a personagem, em constante mutação, evolução, sempre a afinar pormenores, a ouvir críticas e opiniões, em busca. Equilíbrio com os outros actores, na procura da contracena, de ouvir, de sentir, de olhar e ver, encontrar o espaço certo e o tom certo, atento aos problemas e deslizes, dar a mão quando é preciso e sentir que quem está do outro lado não nos vai deixar cair.
Neste momento, nesta peça, tenho noção dos meus limites e limitações, mas sentir que estou a atingir um ponto de equilibrio, a encontrar o meu local, a agarrar neste Garcin, neste inferno, e a aguentá-lo é, para mim, uma vitória.

Pequena sugestão. Se nos quiserem ir vêr mas ainda não foram sugiro que se apressem. Existe uma pequena hipótese de termos de cancelar a peça mais cedo.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Tinha que ser agora não tinha?

Começou ontem... uma ligeira impressão na garganta, no lado esquerdo principalmente. Começou a piorar, dor e dificuldade em engolir. Fui à farmácia, deram-me umas pastilhas. Não ajudam muito.
Hoje acordei pior, parece que engoli um gato vadio e ele foi arranhando o caminho conforme foi descendo. As pastilhas continuam tão ténues como ontem.
Amanhã tenho espectáculo, domingo também.
Alguém me explica como carga de água é que é suposto que eu suba a palco neste estado?!?!?!

Tinha de ser hoje... não podia ter sido há 3 ou 4 dias atrás... tinha de ser agora...

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Pela Estrada Fora

A ler o On The Road do Jack Kerouac, estou nas grandes planícies de Ford e Hawks, nos road movies dos anos 60 e 70, um James Dean, um Easy Rider, com jazz nos ouvidos, Miles Davis, Dizzy Gillespie, uma gaita de beiços no cair da tarde, um country-western no ar, o banjo a ressoar no pelo céu púrpura, ou até mesmo, mais recente, Shawn Mullins em Twins Rock, Oregon. Comboios de carga cruzam o horizonte, os cheiros mudam, uma ponta de tensão enquanto subo a bordo.
Ao de leve, uma brisa quente toca-me no rosto.

Até que levanto a cabeça, ouço um terrivel chiar nos ouvidos. Na estação do Marquês empurro-me por entre a turba para chegar a uma nova carruagem, pés rápidos apressados, colónia de formigas, pontos negros do qual sou apenas mais um.
E por um momento, apenas um segundo, senti-me ridículo.