quarta-feira, fevereiro 06, 2008

JC

Foi uma questão de última hora, não tinha pensado em máscara de carnaval. Com a barba já a pedir tesoura pensei que só podia escolher um de dois personagens, ou ia de Che ou de Cristo. Escolhi o segundo, mais facilmente reconhecivel, mais interessante de representar talvez, e definitivamente mais a ver com a época.
Túnica, cabeleira comprida, corda, coroa de espinhos, sem maquilhagem, pose serena, in charachter durante 4 horas a noite inteira.
O que eu não tinha previsto era a reacção das pessoas. No carnaval no Bairro é normal que as pessoas se metam, o clima é de festa, as máscaras ajudam e o alcóol solta as línguas e os espíritos. Mas há certas personagens que tocam uma nota emocional maior que outros, e dê lá por onde der, Jesus Cristo é a figura central da sociedade ocidental. Era o único Cristo na rua, o que ajudou, no meio de trinta diabos, muitos travestis, palhaços, zorros, piratas e outros que tais, os comentários eram a rodos. A noite toda me pediam a benção, salvação, cada padre me chamava chefe, toda a gente brincava, falava, metia-se, pediam fotos, trocavam piropos. 4 horas em personagem. Foi divertido, há realmente coisas com que toda a gente se identifica.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Música da Semana

Começa amanhã a Quaresma, o perído de contrição que culmina com a morte e ressureição de Cristo, para os católicos. É um período carregado de simbologia, biblica naturalmente, mas não só. E mesmo não sendo católico... vamos lá pôr uma música de alegria para esta época.
Oh Happy Day, uma pitada de Gospel para animar os espíritos.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street

Há aqueles projectos em que, à partida, mesmo sem conhecer o resultado final, se sabe que tudo só pode correr bem. Tim Burton e o musical Sweeney Todd são um par perfeito. O estilo visual de Burton encaixa como uma luva na Londres de meados do século XIX em que a peça se desenrola, bem como no tema negro do texto.
É daqueles filmes em que não consigo ser isento. Ainda o genérico estava no início já eu dava pulos na cadeira, sentia-me um miúdo numa loja de brinquedos, a cada imagem só me apetecia bater palmas. Sou fã incondicional do Tim Burton, sou fã do Johnny Depp e sou fã da peça.
Vamos por partes. Sweeney Todd: O Terrivel Barbeiro de Fleet Street é um musical. Baseado no original de Stephen Sondheim, bastante cortado para o cinema, vive da sua ambiência sonora. Sem Danny Elfman (óbviamente) este filme mesmo assim ainda soa como um filme Tim Burton e, imagine-se, Johnny Depp e Helena Bonham Carter até sabem cantar.
Um barbeiro atormendado por ter sido injustamente acusado, regressa a Londres 15 anos mais tarde para se vingar do juíz que o afastou da mulher e filha.
Esta é uma história de culpa, perda e vingança. Negra, mas ao mesmo tempo com o seu toque de humor macabro.
Burton parece atingir aqui a idade adulta. Dentro do seu reino de fantasia, o mal ganha uma corporidade até hoje nunca vista na sua obra, um carácter físico e palpável, roçando por vezes o gore. Depp e Carter são perfeitos nos respectivos papeis e visualmente o filme é tudo aquilo se poderia imaginar de uma peça Burton. Um negro gótico fascinante, uma Londres assustadora e surreal.
É impossivel não comparar o filme à peça, que o Teatro Aberto levou a palco há bem pouco tempo e, curiosamente, a encenação de João Lourenço não fica a perder para o filme de Tim Burton. Em termos de actores há uma vantagem para o filme, mas o personagem de Todd é mais ameaçador na peça, e a própria Mrs. Lovett tem um humor mais macabro. Para o delíro visual do filme, os cenários espantosos do Aberto dão um forte contraponto. Em termos músicais a força instrumental do filme é ultrapassada pela qualidade das vozes do Aberto.
Na verdade são duas abordagens distintas, mas igualmente interessantes.
Quanto ao filme... é sem dúvida para não perder...

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

The Darjeeling Limited

Wes Anderson está de volta, e todos os que ficaram de boca aberta com The Royal Tenenbaums ou deliraram com The Life Aquatic of Steve Zizou, têm em The Darjeeling Limited a oportunidade de reencontrar um dos mais originais e estimulantes cineastas recentes.
Há algo que poucos realizadores conseguem, criar uma marca diferenciada, algo que, com apenas alguns momentos de visionamente nos permita dizer quem está por detrás da câmara. Wes Anderson é uma dessas raridades.
Com um sentido de humor súbtil, Anderson cria um universo absurdo, onde as regras são apenas ligeiramente, apenas um pouco, diferentes, o suficiente para causar estranheza e depois, por incrivel que pareça, empatia e emoção. Quem são os personagens andersianos? Seres trágicos, tocados pela desgraça que carregam em si uma aura, como se nada que os envolva realmente os afectasse, mas que na realidade sentem a sua tristeza e a dos outros profundamente. É nesse olhar trágico que reside a base da comédia brilhante de todos os seus filmes. Em The Darjeeling Limited seguimos a história de três irmãos, numa viagem espiritual de comboio (que dá o nome ao filme) pela India. Familia. Anderson sempre teve a familia com um papel central e fulcral em toda a sua obra e aqui não foge à regra. Sempre familias disfuncionais, mas que no fundo se amam e se compreendem, no meio da rejeição. Os seus actores acabam por ser a sua familia, daí existir um grupo que sempre o seguiu, acompanhou e compreendeu o seu sentido de humor único. A figur paternal central foi, até agora, Bill Murray, que tem uma passagem de testemunho deliciosa e tocante, logo no início da "longa-metragem", onde é ultrapassado por Adrien Brody na corrida para apanhar o comboio.
Brilhante na utilização da câmara, na construção dos planos, na utilização impar da música, da imagem, dos deliciosos travelings, do cenário incrível (genial como sempre, já Steve Zissou era primoroso nesse campo), The Darjeeling Limited é um filme de antologia de Wes Anderson. A não perder por todos os fãs... com uma ressalva, normalmente quem não ama odeia...

quinta-feira, janeiro 31, 2008

O menino rebelde

Isto vai parecer pedante, mas Jack Kerouac, uma das maiores referências da literatura americana moderna, comparado a Hemingway, que influenciou uma geração inteira nos anos 60 com o seu livro On The Road, acaba por ser pouco mais que um menino rebelde.
Ao ler as aventuras e desventuras de Mr. Kerouac percebo que toda aquela estrada, aquela aventura, a boleia, o apanhar comboios de mercadorias com vagabundos, o contar os tostões sem saber o dia de amanhã, trabalhar na terra, na busca da liberdade absoluta é pouco mais que... uma fraude. Em 150 páginas já por três vezes mandou pedir dinheiro à tia, regressando a Nova Iorque para a sua cama e casa confortável.
É óptimo viver utopias, mas liberdade sem preço, escolhas sem consequências de pouco valem. Assim é fácil, é pouco mais que uma fantasia adolescente.
A magia lentamente desvanece-se...

Nove e Meia No Maria Matos

Depois de uma grande série de espectáculos no Maria Matos, chega agora o albúm Nove e Meia no Maria Matos, o último cd ao vivo de Sérgio Godinho.
Depois de ter estado lá a dançar ao vivo, chega agora a altura de recordar em casa.
Recomendo vivamente...

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Detail Korma


Planos para teatro frustrados pelo cansaço no corpo (adiados para hoje), pelo menos salva-se o jantar. Experimentar um indiano novo, mudamos de ideia quando vemos pizza, lasanha e cordon bleu no meio do caril. Vamos ao do costume.
Rua dos Bacalhoeiros, mesmo ali ao pé de casa. Chamuça, Nan, Chicken Korma, tudo óptimo como sempre. A meio da conversa e da refeição reparo... onde está o chicken neste korma? Procuro, procuro, nada, nem vestígio, nem asa, nem coxa, nem peito, nem pele, nada. Chamo o empregado que vai averiguar. Irritado sai da cozinha, deram-me um Vegetable Korma. Pede desculpa, diz que já estão a fazer o prato certo. Na verdade não tenho mais fome, o de vegetais estava saboroso, não há problema, fica para a próxima.
Acabada a refeição chega a conta. 11,5€ por duas pessoas? Deve haver engano, só pode, ora bem... o meu prato não está cá. Estão aqui as entradas, as bebidas, o prato da Ana, mas o meu...
Não paga. Não pago? Não, prato errado não paga. Mas não é justo, protestei, eu comi o prato todo, estava bom, não o substituiram porque eu não quis. Não estamos em casa, responde-me o empregado, não se cozinha qualquer coisa para despachar. Não tem o que pediu, não paga.
Sem mais. Um dos meus restaurantes indianos favoritos (do qual não me lembro o nome, mas é o único na rua dos bacalhoeiros em lisboa), que me voltou a surpreender.

terça-feira, janeiro 29, 2008

5 fins de semana... vamos a caminho do 4º. O tempo realmente voa. A ver se este Godot vai em viagem, Cascais quase de certeza, outras paragens em hipótese, mas a verdade é que são só mais dois fins de semana no Franco-Português e depois... puff... evapora-se...

Música da Semana

Pois pois pois pois... e esta semana... esta semana?... hum... o quê o quê?...
Então e Belle Chase Hotel, o tal projecto delirante onde apareceu JP Simões?
E porque não?
De La Toilette des Étoiles aqui fica São Paulo 451...

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Yerma

A ANIMATEATRO - Associação de Teatro e Animação do Seixal, existe desde 2001, e tem desenvolvido um trabalho em Amora, no Seixal, de promoção e divulgação teatral, que conta já com diversos projectos e uma dinâmica constante.
Numa pequena loja transformada, no local mais insuspeito, está a sede da ANIMATEATRO, com apenas 32 lugares, normalmente lotados, é a prova que a vivacidade e a criação teatral, não são exclusivos de Lisboa e Porto.
Yerma é a sua última produção, a peça de Garcia Lorca é levada a palco em tom minimalista, tal como teria que ser naquela sala, com as limitações e dificuldades que uma pequena companhia sempre apresenta. Limitações de espaço e financeiras, mas não limitações em termos de espectáculo.
Se há uma coisa que uma peça numa sala tão pequena e com cenário tão despojado faz, é colocar o foco de toda a acção nos actores. Estamos a meio metro deles, tudo se vê, tudo se ouve, tudo se sente. A fasquia é, naturalmente elevada, e foi maioritariamente ultrapassada. Haveria pormenores a afinar, principalmente na direcção de actores (Yerma não devia estar tão chorosa logo de início, mas sim uma evolução mais acentuada da tristeza), mas no geral é uma peça forte, bem construída, com uma temática intensa e que nos prende desde o início. Há talento escondido nos locais mais insuspeitos, que tristemente passa despercebido. Só está em cena até 3 de Fevereiro, e merece uma visita a quem se disponha a descobrir novos terras para o Teatro.



Yerma
de
Federico Garcia Lorca

Encenação, Tradução e Adaptação do Texto
Ricardo G. Santos

Elenco
Lina Ramos
João Zhoraide
João Ascenso
Claudia Palma
Catarina Lourenço
Nicole Santos
Marta Pessoa
Tânia Sacramento

Vozes Gravadas
Patrícia Moreira
Rita Araújo

Cenografia/Guarda Roupa
Joana Gomes

Imagem Gráfica
Luis Mileu

Composição Sonora
Paulo Mendes

Assistência Técnica
Nuno Santos

Produção
Animateatro
Praceta José Maria Vieira, Loja 4 A - Amora
2845-478 Seixal
Telefones 212254184/72
Fax 212254172
email animateatro@gmail.com
http://www.animateatro.org

Preço: 3,5€

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Só hoje


Este fim de semana só temos espectáculo hoje. Sábado não temos peça, recuperando no último domingo com mais uma performance.
Para além de hoje, só temos mais dois fins-de-semana. Se durarmos o tempo todo previsto. Quem estiver interessado... o tempo esgota-se. Informações e contactos aqui.

Cassandra's Dream

Woody Allen está de volta. É a sua terceira aventura inglesa, depois de 30 anos a ser o realizador de Nova Iorque, apaixonado pela big apple, está agora rendido aos charmes britânicos. Talvez seja pelo fracasso no box-office que os seus filmes têm tido desde há algum tempo nos EUA, salvando-se apenas na Europa.
Match Point foi um marco. Não só inaugurou esta nova fase da carreira do realizador, como era em si um filme extraordinário. O Sonho de Cassandra parece ser um pedido de desculpas pela teoria defendida em Match Point.
Dois irmãos com problemas financeiros resolvem matar um homem a pedido de um tio rico, que os recompensa generosamente.
A culpa. O tema central de O Sonho de Cassandra é a culpa, a linha que se atravessa entre o bem e o mal, e as consequências de a atravessar. Era já um dos temas de Match Point, mas enquanto que nesse filme era abordada de uma perspectiva intrigante (a sorte como o factor fundamental que decide o nosso caminho na vida), aqui é quase um regresso aos clássicos. O Sonho de Cassandra é uma tragédia clássica, grega, com os temas e construção de uma tragédia grega, mas com a working class inglesa como pano de fundo. O problema é que o filme nunca é cativante, especialmente bem filmado ou inteligente, o tempo passa sem grande problema, mas também sem grande brilhantismo. Ewan McGregor e Colin Farrell fazem os respectivos papeis em modo automático (Farrell tem duas caras apenas, sobrancelhas levantadas em sofrimento, ou sobrancelhas para baixo).
No final de contas é melhor que a média do que se costuma encontrar pelas salas, mas um Woody Allen nitidamente menor.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Atonement

Depois de algum tempo arredado das salas de cinema, chega a altura de recuperar os filmes que foram ficando por ver, principalmente numa altura em que as estreias se multiplicam no meio da época dos prémios, que culmina, como sempre, com os Óscares.

Expiação é o primeiro dos multi-nomeados (vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme Drama) a estrear em Portugal. 7 nomeações para os Óscares, entre os quais Melhor Filme, prémio que sinceramente dúvido que vença. Daí não se devem extrair conjecturas para a qualidade do filme.

Joe Wright, realizador de Orgulho e Preconceito, filma este Expiação com uma subtileza, quase uma dança com a câmara, o espectador, os actores e os eventos, fazendo este melodrama deslizar sereno, crescendo nos ombros de ambiências, paisagens e actores que se entrecruzam na teia de uma história, sem ganhar protagonismo, sem o procurar, num equilibrio que facilmente seria quebrado. Keira Knightley é impecável e James McAvoy confirma-se como um dos mais interessantes novos talentos. Menção para o trabalho impressionantemente maduro da jovem Saoirse Ronan de apenas 13 anos.
Sem nunca resvalar para o sentimentalismo fácil, é no entanto um filme sentimental, mas inesperado até na forma como se revela e nos toca. Com uma banda sonora brilhante, onde os sons do dia-a-dia se fundem na melodia clássica que sublinha a acção, Expiação é sem dúvida um filme a ter em atenção, um drama tocante, um filme pleno.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

1979-2008


Morreu Heath Ledger, um dos mais promissores actores da sua geração, com apenas 28 anos e uma carreira respeitável atrás de si, começou a mostrar talento em filmes como Monster's Ball ou Brothers Grimm, mas foi com Brokeback Mountain que realmente deu o salto.
Há ainda três filmes deste actor que não conhecemos. I'm Not There de Todd Haynes ainda não estreou em Portugal (e valeu a Cate Blanchett uma nomeação para Melhor Actriz Secundária), Dark Night, a continuação de Batman Begins de Christopher Nolan (em pós-produção neste momento) onde ele faz o papel de Joker. Deixou a meio The Imaginarium of Doctor Parnassus, o último filme de Terry Gillian, ainda em filmagens com estreia prevista para 2009.
Suspeita-se que a morte estivesse relacionada com abuso de droga.

Da colheita de 1979, aqui fica um pequeno tributo.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Oscares

Sairam as nomeações para os Oscares da Academia deste ano. Sem grandes surpresas. Os dois grandes favoritos são No Country For Old Men dos irmãos Cohen e There Will Be Blood de Paul Thomas Anderson. Tim Burton voltou a ser preterido, apesar de Johnny Depp ter sido nomeado para melhor actor.
A lista completa aqui.