segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Do desassossego

Bernardo Soares, um dos muitos heterónimos de Fernando Pessoa, escreveu o Livro do Desassossego, uma das obras mais emblemáticas do autor, um texto não-narrativo carregado de uma tristeza arrebatadora, uma reflexão sobre a vida do autor.
Passar este texto para teatro é um desafio imenso, a estrutura, tempo e métrica de uma obra teatral, não parece ajustar-se ao Livro do Desassossego. O resultado é, portanto, surpreendente.
Carlos Paulo é o centro desta peça, com uma hora de um monólogo vivo, pessoal, intenso, carrega nos ombros a responsabilidade de nos dar Pessoa, numa hora, sem perder o fio condutor principal dos diferentes fragmentos do livro, sem se perder num tom linear que, uma primeira leitura, podia ameaçar.
Cenográficamente engenhoso, musicalmente competente, Do Desassossego é uma peça envolvente, com um texto lindissimo, representado em grande forma.
A não perder, no Teatro da Comuna.

Do Desassossego
de: Fernando Pessoa / Bernardo Soares
Encenação João Mota
Interpretação: Carlos Paulo, Hugo Franco

Quarta a Sábado - 21h30
Até 29 de Fevereiro
Preço: 10€ (existem diversos descontos, perguntar na bilheteira)
Comuna Teatro de Pesquisa
Praça de Espanha
1070-024 Lisboa
Telefone: 217 221 770/6
Fax: 217 221 771

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

John Rambo

Confesso, quado soube, há coisa de um ano, que Sylvester Stallone ia tentar relançar a carreira com um sexto Rocky e um quarto Rambo, só me faltou deitar no chão a rir. Convenhamos, um homem de 60 anos aos murros com campeões do mundo de boxe ou a rebentar com tanques belindados usando apenas arco e flecha é, no mínimo, patético.
Rocky Balboa veio e surpreendeu-me. Um filme terno sobre um homem em fim de vida que perdeu tudo o que lhe é querido e precisa mostrar que ainda não está acabado. Torna-se convincente pela incrível forma física de Stallone e pelo argumento bem desenhado.
Chega agora John Rambo. E não é que surpreende também?
A história é do mais linear que pode haver, Rambo vive ainda na Tailândia desiludido com o mundo, até que é abordado por um grupo de médicos religiosos que quer ir de barco até à Birmânia, onde existe das mais longas e brutais guerras civis da história. Pretendem aliviar o sofrimento das vitimas daquele genocídio. Ele concorda (relutantemente), e a coisa corre mal. Os médicos são raptados e Rambo junta-se a um grupo de mercenários para os libertar.
A questão aqui é que a violência ganha, por fim, corpo, uma fisicalidade impressionante, o terror espelhado na cara das pessoas é real, a tortura, o massacre, a sexualidade existe pela primeira vez nesta série de filmes. Rambo volta a ser um homem e, enfim, a máquina de guerra que sempre se apregoou. Mas desta vez a sério. Não rebenta tanques, não destroi sozinho exércitos, não é um personagem de papel a rebentar com bonecos de plástico. É uma pessoa, e as suas acções são horriveis e têm consequências, em si próprio, e nos outros. É um regresso a casa. Como se este personagem precisasse desta explosão para finalmente se encontrar e acabar a viagem que começou à mais de vinte anos em A Fúria do Heroi.
Exagero? Talvez, para quem cresceu com estes filmes talvez não seja. Mas vale a pena tirar as dúvidas...

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

14 de Fevereiro


Dia dos namorados... o amor está no ar, os passarinhos cantam, pequenas setas de cúpido cruzam o horizonte, os esquilos enrolam as suas caudas, enquanto que as velinhas cor-de-rosa, os chocolates em forma de coração, os quartos de hotel e os restaurantes da moda esgotam. O amor é impingido pela garganta abaixo e por apenas um dia toda a gente é extraordináriamente feliz, tem de ser, dê lá por onde der.

É também o Dia Europeu para a Disfunção Sexual...

Coincidência?

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Away From Her

É daqueles casos raros. Venceu o Globo de Ouro para Melhor Actriz Principal (Julie Christie), categoria na qual foi vindo a ser premiado ao longo do ano, apresentando-se como o mais forte candidato a ganhar o Óscar nesta categoria. Está também nomeado para Melhor Argumento Adaptado. É dos filmes mais falados nesta época de prémios, e não estreou no cinema em Portugal. Não é uma questão de atraso, como no caso do No Country For Old Men (maior candidato à vitória do Oscar de Melhor Filme) que estreia depois dos Oscares, Longe Dela foi directo para video e vai passar nos TVCine já em Março.

Seja como for o filme está disponivel e quem tiver curiosidade em ver em acção Julie Christie tem agora a oportunidade.
Uma mulher, casada há 44 anos com um homem com quem partilha tudo, passado, vida, intimidade, o tipo de ligação que apenas o tempo e uma grande cumplicidade permitem. Até que ela fica com Alzheimer. A vida começa a desmoronar-se, na degradação de tudo aquilo que ela alguma fez foi, ou sentiu.
Longe Dela não é um grande filme, mas é uma história emocional (preparem os lenços), que recai única e exclusivamente nos ombros dos seus actores. É raro tal aposta, principalmente porque quase todos têm mais de 60 anos, mas resulta numa fórmula terna, intensa, desarmante até.
Quanto mais não seja faz um belissimo domingo debaixo da manta num dia frio...

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Música da Semana

Esta semana precisava de uma música bem disposta.
Seu Jorge... Team Zizou...

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Pois bem... continuemos...


É esta a última frase que Joseph Garcin diz em Huis Clos, e em Godot nos Infernos, momentos antes da peça acabar. O pano cai, mas o martírio daqueles três personagens continua pela eternidade, saimos daquele inferno mas ele não desaparece.
O mesmo acontece com esta peça. Ontem caiu o pano sobre a quinta produção dos Hipócritas, Godot nos Infernos, a minha primeira peça a sério. Deste julho que este texto me acompanha, com mais intensidade depois do Verão e em pleno desde 10 de Janeiro, data em que estreámos no Instituto Franco-Português.

"E agora? O que é que fazemos?"
"Esperamos pelo Godot..."
"Sim, mas enquanto esperamos?"

Vazio. Fica sempre uma sensação de vazio quando termina um projecto, principalmente algo tão intenso e envolvente como este, algo que para mim foi tão marcante. Aprendi imenso, cresci imenso, tenho tanto ainda para andar, tanto para corrigir, melhorar, mas este foi o maior passo que já dei.
Agora pausa... silêncio. Um mês ou dois de interrupção na vida artística dos Hipócritas, para um regresso anunciado que, espero, seja muito em breve.
Deixei Garcin com as suas Inês e Estelle, mas nunca o teatro.

"Pois bem... continuemos..."

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Últimos dias...


É este fim de semana que acaba o nosso Godot nos Infernos, o pequeno projecto que me tem fascinado desde o Verão está agora na sua recta final. Ainda deve ter um último fôlego em Abril, em Cascais, mas na sua "temporada regular" no Franco-Português acaba neste domingo dia 10 com uma matinée às 17h, depois de hoje e amanhã apresentarmos as duas últimas noites às 21h30.
Espero que este não seja o meu último passo, espero antes que seja o primeiro... Sei que vai ser o primeiro, dê lá por onde der agora o dificil é parar...

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

3:10 to Yuma

James Mangold nunca foi um génio, mas a verdade é que sempre fez filmes relativamente sólidos, competentes. Walk the Line, Cop Land, Girl Interrupted, são alguns dos títulos que fazem parte da carreira deste realizador.
O Comboio das 3:10 é um remake do filme de 1957 com Glenn Ford. Conta a história de um fazendeiro pobre que escolta um perigoso ladrão, Ben Wade, que foi capturado, para o levar ao comboio das três e dez, que o levará para a prisão de Yuma. O gang Wade é que não dá descanso aos captures do seu lider, fazendo de tudo para o soltar.
Este western não é um clássico, não ficará no panteão do género ao lado de Rio Bravo ou Imperdoável, mas no entanto é um filme robusto, com dois grandes actores. Christian Bale e Russel Crowe fazem um duelo interessante, constroem dois personagens intrigantes cuja relação evolui lentamente, mas de uma forma inesperada.
Não é o western típico, as cenas de acção são bem conseguidas, o ar sujo e "real" não é novidade, mas funciona bem, no entanto o fundamental são as relações humanas, o encontro dos dois homens, o encontro do pai com o filho, questões morais, quem somos, como nos definimos e porquê.
Emocional, O Comboio das 3:10 passou completamente despercebido em Portugal, estando quase a sair da maioria das salas. É injusto. Está muitos furos acima da maioria dos filmes que passam pelos cinemas, foi inclusivé falada como sério candidato à temporada de prémios americana, promessa essa falhada, apesar de ter sido nomeado para 2 Óscares.
Uma boa aposta para os fãs do género, e não só.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

JC

Foi uma questão de última hora, não tinha pensado em máscara de carnaval. Com a barba já a pedir tesoura pensei que só podia escolher um de dois personagens, ou ia de Che ou de Cristo. Escolhi o segundo, mais facilmente reconhecivel, mais interessante de representar talvez, e definitivamente mais a ver com a época.
Túnica, cabeleira comprida, corda, coroa de espinhos, sem maquilhagem, pose serena, in charachter durante 4 horas a noite inteira.
O que eu não tinha previsto era a reacção das pessoas. No carnaval no Bairro é normal que as pessoas se metam, o clima é de festa, as máscaras ajudam e o alcóol solta as línguas e os espíritos. Mas há certas personagens que tocam uma nota emocional maior que outros, e dê lá por onde der, Jesus Cristo é a figura central da sociedade ocidental. Era o único Cristo na rua, o que ajudou, no meio de trinta diabos, muitos travestis, palhaços, zorros, piratas e outros que tais, os comentários eram a rodos. A noite toda me pediam a benção, salvação, cada padre me chamava chefe, toda a gente brincava, falava, metia-se, pediam fotos, trocavam piropos. 4 horas em personagem. Foi divertido, há realmente coisas com que toda a gente se identifica.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Música da Semana

Começa amanhã a Quaresma, o perído de contrição que culmina com a morte e ressureição de Cristo, para os católicos. É um período carregado de simbologia, biblica naturalmente, mas não só. E mesmo não sendo católico... vamos lá pôr uma música de alegria para esta época.
Oh Happy Day, uma pitada de Gospel para animar os espíritos.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street

Há aqueles projectos em que, à partida, mesmo sem conhecer o resultado final, se sabe que tudo só pode correr bem. Tim Burton e o musical Sweeney Todd são um par perfeito. O estilo visual de Burton encaixa como uma luva na Londres de meados do século XIX em que a peça se desenrola, bem como no tema negro do texto.
É daqueles filmes em que não consigo ser isento. Ainda o genérico estava no início já eu dava pulos na cadeira, sentia-me um miúdo numa loja de brinquedos, a cada imagem só me apetecia bater palmas. Sou fã incondicional do Tim Burton, sou fã do Johnny Depp e sou fã da peça.
Vamos por partes. Sweeney Todd: O Terrivel Barbeiro de Fleet Street é um musical. Baseado no original de Stephen Sondheim, bastante cortado para o cinema, vive da sua ambiência sonora. Sem Danny Elfman (óbviamente) este filme mesmo assim ainda soa como um filme Tim Burton e, imagine-se, Johnny Depp e Helena Bonham Carter até sabem cantar.
Um barbeiro atormendado por ter sido injustamente acusado, regressa a Londres 15 anos mais tarde para se vingar do juíz que o afastou da mulher e filha.
Esta é uma história de culpa, perda e vingança. Negra, mas ao mesmo tempo com o seu toque de humor macabro.
Burton parece atingir aqui a idade adulta. Dentro do seu reino de fantasia, o mal ganha uma corporidade até hoje nunca vista na sua obra, um carácter físico e palpável, roçando por vezes o gore. Depp e Carter são perfeitos nos respectivos papeis e visualmente o filme é tudo aquilo se poderia imaginar de uma peça Burton. Um negro gótico fascinante, uma Londres assustadora e surreal.
É impossivel não comparar o filme à peça, que o Teatro Aberto levou a palco há bem pouco tempo e, curiosamente, a encenação de João Lourenço não fica a perder para o filme de Tim Burton. Em termos de actores há uma vantagem para o filme, mas o personagem de Todd é mais ameaçador na peça, e a própria Mrs. Lovett tem um humor mais macabro. Para o delíro visual do filme, os cenários espantosos do Aberto dão um forte contraponto. Em termos músicais a força instrumental do filme é ultrapassada pela qualidade das vozes do Aberto.
Na verdade são duas abordagens distintas, mas igualmente interessantes.
Quanto ao filme... é sem dúvida para não perder...

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

The Darjeeling Limited

Wes Anderson está de volta, e todos os que ficaram de boca aberta com The Royal Tenenbaums ou deliraram com The Life Aquatic of Steve Zizou, têm em The Darjeeling Limited a oportunidade de reencontrar um dos mais originais e estimulantes cineastas recentes.
Há algo que poucos realizadores conseguem, criar uma marca diferenciada, algo que, com apenas alguns momentos de visionamente nos permita dizer quem está por detrás da câmara. Wes Anderson é uma dessas raridades.
Com um sentido de humor súbtil, Anderson cria um universo absurdo, onde as regras são apenas ligeiramente, apenas um pouco, diferentes, o suficiente para causar estranheza e depois, por incrivel que pareça, empatia e emoção. Quem são os personagens andersianos? Seres trágicos, tocados pela desgraça que carregam em si uma aura, como se nada que os envolva realmente os afectasse, mas que na realidade sentem a sua tristeza e a dos outros profundamente. É nesse olhar trágico que reside a base da comédia brilhante de todos os seus filmes. Em The Darjeeling Limited seguimos a história de três irmãos, numa viagem espiritual de comboio (que dá o nome ao filme) pela India. Familia. Anderson sempre teve a familia com um papel central e fulcral em toda a sua obra e aqui não foge à regra. Sempre familias disfuncionais, mas que no fundo se amam e se compreendem, no meio da rejeição. Os seus actores acabam por ser a sua familia, daí existir um grupo que sempre o seguiu, acompanhou e compreendeu o seu sentido de humor único. A figur paternal central foi, até agora, Bill Murray, que tem uma passagem de testemunho deliciosa e tocante, logo no início da "longa-metragem", onde é ultrapassado por Adrien Brody na corrida para apanhar o comboio.
Brilhante na utilização da câmara, na construção dos planos, na utilização impar da música, da imagem, dos deliciosos travelings, do cenário incrível (genial como sempre, já Steve Zissou era primoroso nesse campo), The Darjeeling Limited é um filme de antologia de Wes Anderson. A não perder por todos os fãs... com uma ressalva, normalmente quem não ama odeia...

quinta-feira, janeiro 31, 2008

O menino rebelde

Isto vai parecer pedante, mas Jack Kerouac, uma das maiores referências da literatura americana moderna, comparado a Hemingway, que influenciou uma geração inteira nos anos 60 com o seu livro On The Road, acaba por ser pouco mais que um menino rebelde.
Ao ler as aventuras e desventuras de Mr. Kerouac percebo que toda aquela estrada, aquela aventura, a boleia, o apanhar comboios de mercadorias com vagabundos, o contar os tostões sem saber o dia de amanhã, trabalhar na terra, na busca da liberdade absoluta é pouco mais que... uma fraude. Em 150 páginas já por três vezes mandou pedir dinheiro à tia, regressando a Nova Iorque para a sua cama e casa confortável.
É óptimo viver utopias, mas liberdade sem preço, escolhas sem consequências de pouco valem. Assim é fácil, é pouco mais que uma fantasia adolescente.
A magia lentamente desvanece-se...

Nove e Meia No Maria Matos

Depois de uma grande série de espectáculos no Maria Matos, chega agora o albúm Nove e Meia no Maria Matos, o último cd ao vivo de Sérgio Godinho.
Depois de ter estado lá a dançar ao vivo, chega agora a altura de recordar em casa.
Recomendo vivamente...

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Detail Korma


Planos para teatro frustrados pelo cansaço no corpo (adiados para hoje), pelo menos salva-se o jantar. Experimentar um indiano novo, mudamos de ideia quando vemos pizza, lasanha e cordon bleu no meio do caril. Vamos ao do costume.
Rua dos Bacalhoeiros, mesmo ali ao pé de casa. Chamuça, Nan, Chicken Korma, tudo óptimo como sempre. A meio da conversa e da refeição reparo... onde está o chicken neste korma? Procuro, procuro, nada, nem vestígio, nem asa, nem coxa, nem peito, nem pele, nada. Chamo o empregado que vai averiguar. Irritado sai da cozinha, deram-me um Vegetable Korma. Pede desculpa, diz que já estão a fazer o prato certo. Na verdade não tenho mais fome, o de vegetais estava saboroso, não há problema, fica para a próxima.
Acabada a refeição chega a conta. 11,5€ por duas pessoas? Deve haver engano, só pode, ora bem... o meu prato não está cá. Estão aqui as entradas, as bebidas, o prato da Ana, mas o meu...
Não paga. Não pago? Não, prato errado não paga. Mas não é justo, protestei, eu comi o prato todo, estava bom, não o substituiram porque eu não quis. Não estamos em casa, responde-me o empregado, não se cozinha qualquer coisa para despachar. Não tem o que pediu, não paga.
Sem mais. Um dos meus restaurantes indianos favoritos (do qual não me lembro o nome, mas é o único na rua dos bacalhoeiros em lisboa), que me voltou a surpreender.