Logo de manhã vejo que vai ser debatida a moção de censura do CDS ao governo. Não acompanho a par e passo a vida da assembleia da república, mas sei que não é a primeira moção apresentada. Com a moção chumbada à partida, resta saber o porquê da apresentação da mesma, sendo que não é propriamente novidade. Não consigo deixar de pensar que, sejam lá quais foram as contas políticas, as armas que se afiam para a esgrima de hoje, as pancadinhas nas costas e as conspirações de corredor, na verdade a moção de censura é um assunto que só faz sentido no gabinete, no autismo que se apoderou da classe política, que desde há muito vive num mundo só seu.
O CDS não gosta do Governo, o Governo não gosta do CDS. Pronto já sabemos. O mesmo se pode aplicar aos outros partidos da oposição. Assunto arrumado. Não haverá outros temas para discutir? Não terá o país problemas concretos, específicos, urgentes, com influência directa na vida das pessoas? Não será através da discussão desses problemas, da marcação da agenda política, das diferentes soluções apresentadas, que realmente se encontram as divergências entre os partidos e as suas ideologias (ainda as têm?) particulares?
Indiana Jones é daqueles nomes que, mais que um filme ou um personagem, é já um icone, um simbolo cultural, uma marca de créditos confirmados. Ninguém desconhece a silhueta com o chapéu, o chicote, e a famosa música de John Williams. Os resultados no box-office deste filme de uma série que começou há mais de um quarto de século, estão a ser impressionantes, arrastando miúdos e graúdos para as salas em quantidades colossais.
Eu não podia deixar de ir ver o último Indiana Jones, desse lá por onde desse. Mas as expectativas sairam um pouco goradas.
O filme segue pelas mesmas linhas gerais dos anteriores, é inclusivé recuperada a personagem de Marion de Os Salteadores da Arca Perdida, e o armazém onde, no fim desse filme, a arca é depositada. Os vilões agora já não são nazis, o tempo passou e os russos tomaram o seu lugar, mas na verdade é um pouco indiferente. São personagens de papel, para Indy descartar conforma avança selva adentro.
Está lá tudo, a acção, a irreverência, as piadas leves, as cidades perdidas, os mapas, a selva, os bons e os maus, mas parece tudo montado sem grande vontade, uma revisita feita de pedaços que se coordenam em piloto automático. Na verdade, se olharmos para a história com atenção, há mais ligações ao recente National Treasure com Nicolas Cage, do que aos Indiana Jones originais.
Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal é uma caça ao tesouro, onde os personagens andam daqui para ali, pista após pista, sem se perceber muito bem porquê, com uma teoria da conspiração velha como as pedras, personagens redundantes e acções inconsequentes.
O tempo passa sim, os efeitos especiais são bons, Jones continua charmoso, mas o melhor mesmo é ir para casa, baixar a luz, levantar o som, e pôr no DVD qualquer dos três filmes originais.
Continua a onda de bandas sonoras aqui no Sopros, depois de Out of Africa e de Indiana Jones, regressa o John Williams com um dos seus trabalhos mais marcantes, o tema do filme Super-Homem. Agora digam lá se não dá um arrepio na espinha...
Uma e meia da manhã de um dia que tinha começado às sete, de uma casa para a outra para buscar roupa, directo para o trabalho, daí para a pós-graduação e três horas depois, sem tempo para respirar, muito menos para jantar, já atrasado até ao Left para o espectáculo. Isto na sexta-feira de uma semana particularmente dura.
Uma e meia da manhã e o corpo já pedia descanso, a solução era simples, não parar nunca. Agarrado ao telemovel, em excesso desde o arranque, a meter conversa, a provocar, a língua bifurcada cheia de veneno a provocar o riso de quem ouve, em contraste com o personagem de palco - pequeno, triste, velho - foram 3 horas intensas sem desarmar.
Já depois das duas da manhã o corpo doía, a cama chamava, os aplausos e os parabéns eram um bálsamo.
A performance no Left correu bem.
É impressionante como o teatro me faz falta...
sexta-feira, maio 30, 2008
Tem sido uma semana daquelas... Hoje, para acabar em beleza, o meu dia começou às 7 da manhã e não vai acabar antes das 3 da madrugada, sem sequer ter tempo para jantar...
Esta sexta-feira vou estar no Left, em mais uma produção dos Hipócritas. Vai ser mais uma animação de um bar, ainda em Santos, mas desta vez um pouco mais encenada, com mais momentos performativos e menos ênfase na interacção com o público. Chama-se Call Me e gostava de vos ver a todos lá.
Custa-me a crer que Sydney Pollack já tivesse 73 anos a pouco menos de um mês de completar 74.
Actor, produtor, mas principalmente realizador, Pollack venceu o Oscar de Melhor Realizador e Melhor Filme com África Minha. Não era um virtuoso, mas foi um realizador competente, inteligente, balançando entre os dramas humanos e os thrillers policiais, género que ajudou a popularizar em filmes como A Firma, A Intérpretre ou Os 3 Dias de Condor. Pessoalmente acho que o seu melhor trabalho foi quando se aventurou num terreno que lhe era menos familiar, a comédia, com o brilhante Tootsie de 1982, com Dustin Hoffman em grande, filme que foi abafado nos Oscares por Gandhi.
Vendo-o em Michael Clayton custa a acreditar que pouco tempo depois morresse, mas não resistiu a um cancro que lhe foi diagnosticado há cerca de nove meses.
Tinha que ser na última noite, na véspera de sair, que algum imbecil resolveu rebentar com o vidro do meu carro (outra vez) entrar lá dentro e roubar tudo o que encontrou. É daquelas coisas que para além do prejuizo, da carga de trabalhos, dá um desgaste emocional lixado.
São as caixas que são poucas, é o cartão que é fraco, as luzes frágeis, as paredes nuas, a tinta estalada. A mudança é suada, aparece lixo de todo o lado, cada folha solta traz atrás de si outra dezena. A expectativa é enorme. Aquilo que era uma casa estranha, grande mas carregada de defeitos, transformou-se aos poucos, pormenor a pormenor, decisão a decisão, dia a dia, num espaço nosso, intímo, acolhedor, carregado de pormessa e oportunidade. A ânsia cresce, sim, mas com o aproximar do último dia, da última noite, cada vez mais me lembro do primeiro dia, de como a casa que agora deixo, antes ainda de se ter tornado demasiado pequena, esteve ligada a par e passo aos últimos anos da minha vida e a quem sou hoje. Amanhã é o dia da grande mudança, feliz claro, mas já um pouco nostálgico...
O que chamar a Shine a Light? Não é um documentário sobre a vida dos Stones, se bem que tem imagens documentais, não é um documentário sobre a preparação de um concerto, se bem que esssas também estão presentes, não é um concerto filmado, se bem que, na verdade, o é. Shine a Light é uma experiência cinematográfica acima de tudo. Durante a Bigger Band Tour os Rolling Stones fazem dois concertos em Manhattan, no Beacon Theatre, num ambiente mais intimista, próximo, privado. Com uma série de convidados e uma energia que parece inesgotável ao fim de quatro décadas de carreira, são entregues nas mãos de Martin Scorsese, que com a mestria habitual nos dá uma experiência singular, mesmo para quem não é fã da banda. Não há engano a ter, ali só há cinema, a música, o concerto, até os Stones, fazem parte do cinema, tal como qualquer outro filme, musical ou não. E de cinema não há quem mais perceba do que o realizador nova-iorquino. Sabendo isto, e sabendo que não ia poder ter o controlo absoluto sobre cada imagem (apesar de artilhar o Beacon Theater como se fosse um estúdio de gravação), conseguiu que os seus operadores de câmara fossem directores de fotografia, muitos dos quais oscarizados. O olhar desses homens ia ser o seu, a decisão no instante faz toda a diferença, o resultado é que Shine a Light é uma obra visual, sonora, sensorial intensa. A não perder.
Esta semana, depois de ver Shine a Light, a canção escolhida só podia ser Rolling Stones. You Can't Always Get What You Want tem quase 40 anos, mas continua a ter mais de 7 minutos de um ritmo e força excepcionais. Os eternos Stones... em grande...
Sean Ellis realiza em 2004 a sua segunda curta-metragem acerca de um estudante de Belas-Artes quem incapaz de dormir por causa do fim do seu relacionamento, resolve arranjar um emprego noturno num supermercado, Cashback. Em 2006 leva este grupo invulgar de pessoas para uma longa metragem com o mesmo nome que chega até nós. Tenho sentimentos mistos quando a Bem-Vindo ao Turno da Noite. Por um lado é um filme em que se consegue ver a curta metragem e se nota os acrescentos feitos. Aquilo que tinha boas ideias de cinema, quase um poema sobre beleza e dor, pintado por um homem de coração partido que consegue ver as pessoas de uma forma única, transforma-se numa comédia excessiva com pouco ou nada a ver com o original. Custa-me ver uma boa curta ser transformada numa longa mediana e que perde tudo o que de bom a outra parecia mostrar. Por outro lado, se se tivesse mantido com apenas meia hora de duração, nunca teria conseguido ver esta obra que tem momentos verdadeiramente inspirados. É uma pena que não exista um espaço onde obras com menos de uma hora possam ser exibidas comercialmente...
"Uma jovem enfurece-se; ela já viu tudo o que há para ver e seu mundo perdeu todo o significado. A sua raiva despedaça o seu pequeno mundo e ela encontra-se no universo de Quidam. A ela junta-se um companheiro alegre e outro personagem mais misterioso, que vai tentar seduzi-la com o maravilhoso, o inquietante e o aterrador." O Cirque chegou a Portugal, finalmente com um grande espectáculo, um movimento de magia que nos abre as portas da imaginação. Quidam é um passante anónimo, Quidam é um mundo dentro do Grand Chapitô. Não é apenas a excelência técnica, se bem que a maioria dos números são absolutamente incriveis, nem sequer o sentido de humor, o melhor que já vi no Cirque com a participação activa do público, não é da música ao vivo, da parafernália de efeitos visuais, nem dos figurinos impressionantes, é da conjução de tudo isto, de uma soma melhor que as partes, de um portal que se abre e nos transporta, nos transforma, nos fascina. É a beleza, o excesso, a ternura. É o Cirque no seu esplendor. Este é o quarto espectáculo que vejo do Cirque du Soleil, e a par de La Nouba, é aquele que mais me tocou. Cada show tem uma base comum, mas é único na sua construção. Quidam é uma oportunidade que não se deve perder, quer seja o primeiro contacto com este grupo, quer conheçam já a sua obra...
Prometia ser uma comédia romântica diferente, um pouco na onda dos filmes indie que agora estão tanto na moda. Promessa frustrada. Um viuvo, pai de três filhas, vai passar férias com a família, um grupo enorme de pessoas mais ou menos esquizofrénicas, mais ou menos normais. No meio de toda a confusão acaba por se apaixonar pela namorada de um dos irmãos. O Amor e a Vida Real acaba por ser uma versão de Family Stone, o filme de 2005 com Sarah Jessica Parker e Diane Keaton. Também aqui há uma familia extensa, também aqui há uma série de personagens diferentes, também aqui há namoradas novas e casais velhos, também aqui há paixões cruzadas e desamores. O desenrolar dos acontecimentos é banal, Juliette Binoche é uma actriz de quem é fácil gostar e compõe um personagem com as mesmas caracteristicas, Steve Carrel faz de Steve Carrel e pouco mais. O argumento é previsivel, os conflitos resolvem-se sem problema, e o tempo passa rápido. Nada mais a assinalar...