segunda-feira, julho 21, 2008

Casamentos "gay", o debate e a estupidez


... é o título do artigo de opinião de Henrique Monteiro que saíu este fim de semana no Expresso.
Começa Henrique, logo nas primeiras linhas do seu artigo, a precisar de se defender de acusações de homofobia, feitas por "qualquer lobi gay", dizendo que é "no geral, contra qualquer discriminação", acrescentando que é "legítimo e inquestionável, a possibilidade dos casais homossexuais terem mais ou menos os mesmos direitos que os outros casais."
Neste ponto, caro Henrique, estamos conversados, discriminar nunca... a não ser de vez em quando. É bom encontrar alguém com convicções tão firmes.

Mas Henrique explica-se, "há um direito que eu sei que eles não devem ter: o de adoptar crianças".
Ah, ok, percebo... na verdade esses gays tratam mal os miúdos, coisa de maricas, claro. Calma, mas é o próprio Henrique que afirma que jamais dirá que "um casal homossexual, só por o ser, não sabe tratar crianças com amor e com todos os requisitos que elas necessitam."
Hum... agora fiquei confuso então?...
"...o Estado, ou quem guarda as crianças a adoptar, não deve discriminar nenhuma delas entregando-a a um casal que não está dentro da norma" e acrescenta que essa norma é meramente estatística, logo um casal heterosseual. E remata "todos nós ao cimo da terra somos filhos de um pai e de uma mãe e não de dois pais ou duas mães."
Lógica irrepreensível. Não é que um casal homossexual não saiba cuidar dos filhos, é que estatísticamente temos que seguir sempre a norma, vulgo, a maioria.
Agora a sério Henrique e o que é que isso tem a ver com casamentos entre homossexuais?

É que, diz ele, o casamento gay, como ele lhe chama apenas tem uma "agenda escondida, ou seja a adopção de crianças por homossexuais." E remata que "isso seria uma estupidez imperdoável."

Plano diabólico destes gays, que falam de casamento quando querem é falar de adopção.

O que Henrique demonstra aqui, é uma enorme cobardia e desonestidade intelectual. Sim, porque eu não posso acreditar que o Henrique seja estúpido o suficiente para pensar que é a norma estatística que deve guiar a escolha de familías para adoptar crianças. Eu não posso acreditar que o Henrique realmente defenda que as mães ou pais solteiros não possam adoptar. Ou que ache que casais chineses, por exemplo, estatísticamente uma minoria, não devam adoptar só porque são uma minoria.
O Henrique diz que todos nós somos filhos de um pai e uma mãe. Lamento Henrique, mas sabe que isso é mentira. Todos nós somos fruto de um espermatozoide e um óvulo, não de um pai e de uma mãe, pelo menos não no sentido em que a adopção lhe dá. É claro que os filhos adoptados não são biológicamente fruto de quem os adopta. Mas se falamos de pai e mãe, como das pessoas que nos amam e educam, então muita gente tem apenas um pai, uma mãe, ou avós, primos, tios ou vizinhos. O género não é debatido quando uma mãe educa uma criança com a ajuda da avó. O que significa que o problema que o Henrique tem é com as escolhas sexuais dos progenitores, e isso Henrique chama-se homofobia.
E não Henrique, quando se defende o casamento entre pessoas do mesmo sexo não se está a defender a adopção por casais homossexuais. Curiosamente Henrique, há pessoas que dizem o que querem dizer.

Defender o casamento gay, como lhe chama, é defender que duas pessoas, independentemente das suas escolhas sexuais, não podem ser discriminadas, que têm o direito de se casar como qualquer outra pessoa, e viver a sua vida com a pessoa que ama, sem desculpas, sem reticências.
Defender a adopção de crianças por casais homossexuais significa defender que um casal com duas pessoas do mesmo sexo tem todas as capacidades para educar e amar uma criança. Que, tal como as famílias heterossexuais ou monoparentais, uma família homossexual consegue providenciar a uma criança um lar aconchegante, seguro. Que o que a criança tem direito é a não passar a sua vida em instituições do estado.
Henrique, há, por mais estranho que pareça, pessoas que querem casar e não querem adoptar... Há inclusivé, pessoas que querem adoptar, mas não querem casar - estas aliás têm a vida facilitada, basta não dizer que são homossexuais e não ter uma relação com outra pessoa durante o processo de adopção.
Há ainda quem defenda o casamento entre homossexuais e não defenda a adopção.
O que eu nunca tinha visto é alguém que argumente que é um problema estatístico, mas eu recuso-me a acreditar, mesmo, que alguém ache que é apenas uma questão matemática, diga que não Henrique, eu tenho fé...

10 comentários:

Anónimo disse...

Só tem desculpa o sr. Henrique se for maior de 65 anos! No séc. XXI ainda há gente a pensar assim? Não há paciência para tamanha hipocrisia... Mas essa da justificação estatística é que é a grande novidade! Começam a escassear as desculpas, é o que é...Não consigo ver, sinceramente, nenhuma ligação entre homossexualidade e capacidade de adopção - mas se calhar é problema meu...

Varandas.

mir disse...

Há, infelizmente, por este mundo (e n apenas país) fora, mtas opiniões absolutamente absurdas, sem qualquer base ou fundamento do mínimo bom senso (já nem falo de inteligência ou conhecimento de causa). Infelizmente, algumas delas são publicadas.

Algbiboy disse...

Não conhecia este espaço, não conhecia o artigo em questão, mas fiquei bem informado através do bom paralelismo aqui demonstrado entre a hipocrisia mental dessa pessoa e aquilo que o amigo MPR defende...
Abração grande, gostei de aqui passar...

MPR disse...

Varandas, nem com 65.
mir, e ainda lhes pagam...
algbiboy, obrigado, volta sempre...

Astor disse...

é uma questão sensivel esta da adopção de crianças por casais gay.

no entanto, é preferivel o amor de duas pessoas do mesmo sexo que o anonimato de um orfanato.

acho que este argumento dispensa mais conversas e desarma qualquer anti-adopção.

polegar disse...

clap clap clap.

dá-lhes, MPR! eu também tenho estrebuchado muito neste sentido ultimamente. [e por isso percebo o que me dizes no comment dos anos 50 ;)]

MPR disse...

Astor, infelizmente não é tão claro assim
Polegar, pois que eu sei, eu sei, ias-te passar da cabeça!!!

Mas onde estão as vozes discordantes?

pena...

Anónimo disse...

Discordo! Poderiam pegar a sua tendência anti-procriadora (homossexual) aos seus filhos.

E ai, seria o fim da tão bela espécie. A raça humana, a raça superior!

Elementar, caro Miguel.

MPR disse...

Anónimo, é sempre tão difícil falar perante um anónimo... Mas... are you serious???

João disse...

Parece-me que o meu ponto de vista é válido.
Já viste, se fossemos homossexuais não haveria continuidade da espécie. E que seja num ambiente misto (homossexuais e heterossexuais), seriam então os heterossexuais os responsáveis pelas sua continuidade e respectivamente pelo que criam, os seus filhos.