terça-feira, dezembro 23, 2008

Música da Semana e Feliz Natal e tudo e tudo e tudo


O Sopros deixado ao abandono, ao sabor do vento vá... Não tenho tido tempo para aqui vir actualizar este companheiro que já leva alguns anos de vida.
Agora, com o Natal à porta, ainda menos.

Sendo terça-feira não podia no entanto deixar de mudar a música, que será provavelmente aquela que vai ficar até ao ano novo.

Que música?

Este ano achei que o melhor era deixar algo que comemorasse a vida, afinal o que é que celebramos nesta altura? Nascimento de Cristo? Vida em família? Um recomeço a cada ano?

Seja lá o que for, na verdade É Tão Bom...

quinta-feira, dezembro 18, 2008

Choose life

Choose life, frase emblemática de Trainspotting, não me saiu hoje da cabeça: escolhe e vida.

Escolhe a vida? O que é que isso significa quando a vida que vivemos já não é a nossa, quando somos apenas uma sombra da pessoa que em tempos fomos? Dia a dia, numa luta constante, sopro a sopro, deixando a vida passar, incapaz de a viver. Por vezes, de longe a longe, um gesto, uma frase, um dia em que se vislumbra ali uma imagem da pessoa que existiu, da sua alma, o seu sentido de humor, enfim da sua vida. Fugaz, rapidamente se perde no escoar lento dos dias.

Escolher a vida?

Ontem morreu a Avó Odete.

Até já...

terça-feira, dezembro 16, 2008

Música da semana

Esta semana estou a ouvir Radiohead. Não sei porquê, mas não tinha música nova e peguei nestes velhos conhecidos. Voltei a apaixonar-me. É sempre bom encontrar música que nos toca e surpreende e emociona ano após ano. Música que se reinventa em cada audição, daquela que é a mais complexa e intensa banda que conheço. Ainda hoje fico admirado com a sua capacidade de reinvenção como grupo, de evolução, seja de disco para disco (quem ouça Amnesiac não imagina que Pablo Honey é dos mesmo autores), no alinhamento dos albúns, dentro das próprias canções (do ritmo alucinante à melodia melancólica em Paranoid Android) ou seja a reinvençao das próprias canções, como se pode ver pela minha escolha de hoje, a versão de estúdio e ao vivo de Like Spinning Plates.

É o tipo de banda que me faz reconciliar com a vida, faz saber que é possivel não cair na banalidade, na monotonia, que é possivel atingir sempre novos limites de criação.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Que se foi...


Os ensaios da minha nova peça têm estado a avançar com soluços e sobressaltos. O problema principal tem sido o elenco, vasto e desigual, nem sempre temos todos os actores, na verdade nem sequer tivemos durante meses o número de actores necessário. Mas com maior ou menor dificuldade a coisa vai-se compondo.
Ontem foi mais uma surpresa. Perdemos o Mário.
É claro que perder um actor é mau nesta altura dos ensaios. Ainda por cima o Mário tinha um papel complicado, diversos personagens que ele estava a começar a descobrir com pormenores que só ele poderia desencantar.
Por ser particularmente o moço vai-me fazer falta. É sempre bom ter no grupo um amigo, principalmente daqueles com quem se partilham as pequenas piadas privadas, com quem se encontra o pormenor ridículo onde mais ninguém parece ver.
No entanto o pior é que ele tem sido nos últimos 3 meses uma influência muito positiva no grupo. Ganhou o seu espaço, o respeito e o carinho de todos, num local onde, falo por experiência própria, nem sempre é fácil entrar.

Por estes motivos e por todos a peça ficou mais pobre. Já encontrámos substituto, inesperadamente, tenho a certeza que será competente.

Nós os dois, como sempre, cá nos vamos vendo, entre peças, cafés e jantares pela madrugada. Um abraço. Um dia ainda vamos ter outras oportunidades para contracenar.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

O país em que vivemos


Há pouco tempo entrei num teasing a uma série que vai estrear no MOV chamada True Blood. O anúncio criava uma associação fictícia a favor dos direitos de cidadania dos vampiros contra a discriminação. É uma das temáticas desta série, dos criadores de Sete Palmos de Terra.
Para ajudar à divulgação foi posto no youtube o video da promoção. Este site permite comentários e links. Quase 3500 visualizações e 20 comentários não me parece mal de todo.
Irónico que um anúncio que começa com a frase Quem disse que não existe discriminação no nosso país? tenha o seguinte comentário de um user : Meterem uma preta a dizer "o meu povo" referindo-se ao povo Português é uma prova de imbecilidade maior do que o frango do Quim ontem. Mais merda para poluir a cabeça à juventude e o ambiente televisivo em geral. Dispenso.

É verdade, é mesmo este o país onde vivemos.

Link para o dito aqui: http://www.youtube.com/watch?v=xTjDngluIrg

terça-feira, dezembro 09, 2008

Música da Semana

A ver se esta semana consigo não deixar aqui o Sopros tão abandonado. Para arrancar em força Bad Things a música do genérico da nova série que aí vem e tanto me tem entusiasmado...

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Música da Semana

E falta de tempo! Nem me coço, não posto, não estou com os amigos, não nada! AAAAHHHH!!!
Ok... melhor... A Day in The Life, a ver se os horários se endireitam...

quinta-feira, novembro 27, 2008

quarta-feira, novembro 26, 2008

Righteous Kill

Mas o que é que anda gente deste talento a fazer com as suas carreiras??? Al Pacino, um dos maiores actores do mundo não faz um filme realmente bom desde 1999 quando entrou em O Informador com Russel Crowe, com a honrosa excepção do fabuloso Anjos na América em televisão. Já Robert DeNiro nos obriga a recuar ainda mais, até 1997, até a Manobras na Casa Branca com Dustin Hoffman. E mesmo estes estão longes dos tempos de Touro Enraivecido, Taxi Driver, O Padrinho ou Scarface.
Os dois monstros, símbolos do Método do Actor's Studio, juntam-se pela terceira vez no mesmo filme. Em O Padrinho II nunca se cruzavam (pai e filho em épocas diferentes), em Heat - Corrupção na Cidade eram antagonistas, partilhando duas cenas, agora, em A Dupla Face da Lei são parceiros, uma dupla de polícias verteranos no thriller mais banal, mais morno, mais indiferente que imaginar se pode. Não acontece nada, não existe conflito a não ser no final, num suposto twist imbecil que nada traz a um filme vazio. O melhor de tudo é mesmo o trailer.
Um cartaz com as duas vedetas na capa, e fica o dinheirinho na conta.

terça-feira, novembro 25, 2008

Música da Semana


Acabam esta semana as comemorações dos 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa.
Pessoa tinha um lado menos conhecido do grande público, para além do grande poeta, escritor, pensador, era também um inventor. E na lista das suas invenções estão... os matraquilhos. Esta semana, em honra a Fernando Pessoa... os Fúria do Açúcar com o Rei dos Matraquilhos.

quinta-feira, novembro 20, 2008

Entre Les Murs

Professor, escritor, agora argumentista e actor, este é o projecto pessoal de François Bégaudeau. Escreveu o argumento baseado no seu próprio livro e é o actor principal de um filme sobre o desenrolar de um ano lectivo numa turma de uma qualquer escola no centro de Paris.
A Turma é o primeiro filme que conheço sobre professores e alunos que reporta directamente ao mundo real, actual, aquela escola, aqueles alunos, são em Paris, mas os de Lisboa, da Amadora ou de Almada são iguais, se fizermos os respectivos ajustes nacionais, não há alunos do Mali, mas há de Angola, não há marroquinos mão há brasileiros.
O que é fascinante no filme é a forma complexa com que aborda uma realidade que se julga e representa de uma forma quase sempre linear. Longe dos estereótipos típicos dos filmes de escola americanos, não há gangsters nem ameaças de morte, não há bons e maus, ninguém se salva e (quase) ninguém se perde. É a vida numa escola e apenas na escola, com actores amadores, verdadeiros alunos franceses, mas com uma solidez, uma naturalidade performativa notável.
O argumento é soberbamente bem escrito, não que existam reviravoltas inesperadas ou diálogos particularmente inteligentes, mas o correr do dia a dia, aparentemente banal e pouco memorável, traz momentos de teste constante, de confronto, de surpresas e desilusões, para além de conseguir retratar com detalhe (nada fácil com tantos personagens) cada um daqueles miúdos mais importantes e até os diversos professores. Fazendo uma comparação com o outro filme que vi recentemente, há mais angústia na explosão de um docente que entra na sala de professores a vociferar por causa dos alunos, do que com todos a epidemia de O Ensaio Sobre a Cegueira, há mais tensão num concelho disciplinar aqui, do que com a violação em massa no filme de Meirelles.
A Turma levou a Palma de Ouro de Cannes para casa este ano, pela primeira vez desde há muito tempo atribuída a um filme francês. Um filme fundamental para todos os professores, alunos, todos os que queiram realmente saber o que é isso de dar aulas, ou apenas para qualquer pessoa que goste de bom cinema.

quarta-feira, novembro 19, 2008


Não reconheceram o Elvis, mas a Marilyn houve um que já a tinha visto em algum lado.
Foi assim, numa discussão, animada ao que parece, com os alunos.
Reprodução mecânica? Mas assim não vale! Vale claro que vale - as opiniões dividiam-se num mundo nada consensual.
Eu conheço a Marilyn, ela também está no quadro do outro das bolas - não, não é ela mas há uma loira que é parecida, daí a confusão.
Assim se passa uma aula, de Roy Lichtenstein a Andy Warhol, na descoberta da Pop-Art, entre alunos da quarta classe, de 9 aninhos.

E depois admiram-se que eu me apaixone pela professora louca que põe estes pedaços de gente a discutir, a conhecer e a trabalhar animadamente sobre arte moderna e contemporânea.

terça-feira, novembro 18, 2008

Música da Semana

Como as minhas olheiras estão maiores que nunca e a cabeça demasiado pesada vou deixar que a Joan Baez me embale...

segunda-feira, novembro 17, 2008

Blindness

Muito se falou sobre a adaptação ao cinema daquele que é comummente considerado o melhor romance de Saramago, depois de uma tentativa mal sucedida de um outro, Jangada de Pedra.
É verdade que Ensaio Sobre a Cegueira não é um livro simples, a sua visão apocalíptica facilmente descambaria para um filme voyeurista e perverso, sendo que a fábula, moral como todas as fábulas o são, facilmente se perderia na confusão. Fernando Meirelles a tomar o elmo do projecto no entanto apaziguou-me as dúvidas, se havia alguém capaz de o fazer, seria ele. Talvez...
A comparação com o livro é sempre injusta, principalmente com uma obra desta envergadura, mas a verdade é que o livro existe e é a base de tudo o resto, Ensaio Sobre a Cegueira filme fica a milhas de Ensaio Sobre a Cegueira romance. Não será assim com todos? Talvez, com O Padrinho não foi, para dar um exemplo, mas não creio serem casos incomparáveis.
A questão é que as falhas do filme são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Para começar a adaptação erra na escolha daquilo que deve ser cortado, a directiva de reduzir esta história a apenas duas horas foi fatal, momentos fulcrais como o da igreja passam como notas de rodapé.
A busca de algum realismo também pesou contra o filme. Esta história não se passa nos dias de hoje, em Lisboa ou em São Paulo, fazer destes soldados rapazes de 22/23 anos como os que existem hoje, em vez de membros de um regime semi-totalitário, mesmo que disfarçado de democracia, transforma as suas acções em algo ridículo em vez de tenebroso. Aliás tudo o que se passa no sanatório é mal resolvido, a começar pelo personagem de Gael Garcia Bernal, um ser violento, maquiavélico e intimidador no livro, para um rapaz confuso no filme. Toda a história da comida e da arma é muito pouco convincente e tratada de uma forma atabalhoada. O próprio cego verdadeiro é inconsequente, longe do seu papel fulcral na história original.
De uma forma aparentemente contraditória com o seu historial como realizador, Meirelles reduz drasticamente a intensidade de todo o enredo, a banda sonora cómica dá apontamentos de humor onde eles nunca deviam existir, como a marcha das mulheres para a violação, toda a degradação humana, moral e física é minimizada perdendo muito do seu impacto.
O desenvolvimento de personagens é outro local onde o filme peca. À excepção da mulher do médico todos os cegos são razoavelmente indistintos, aparte claro das óbvias diferenças físicas.
Não é que este Ensaio Sobre a Cegueira seja um mau filme, não é, tem momentos bem conseguidos e uma estética interessante, as duas horas passam sem grande mossa, mas com o material de origem disponível exigia-se muito mais.
É difícil adaptar esta obra? Sim claro, mas veja-se o incrível trabalho que O Bando fez ao levar a palco a sua versão de O Ensaio Sobre a Cegueira e veja-se o que aqui está apresentado. As diferenças são colossais.

quinta-feira, novembro 13, 2008

Não quero ser mãe!

Mesmo... aliás porque nem me lembro do meu último período.

É hoje! Na Fnac do Vasco da Gama é feito o lançamento do livro da minha já mui célebre, mui consagrada, mui badalada (até esteve na Revista do Expresso desta semana) amiga, que eu conheci antes de ser famosa, quando era apenas uma pobre coitada a mendigar uns ovitos mexidos na cozinha lá de casa... bons tempos... hum...

Bem, mas agora a moça é célere... célebre... autora publicada...

Ah bom, mas o livro, sim, o livro chama-se Não quero ser mãe! e é o produto de uma série de entrevistas feitas a senhoras que resolveram não ser mães por opção própria mesmo delas sem ninguém as forçar. Os monstros... aberrações...

Bom, mas as pessoas de bem devem ir comprar o livro para perceber melhor a mente desta gente perturbada... sim...

É uma edição Livros de Seda e está a um preço acessível... COMPREM!!!

Link para a editora aqui.

Link para a agenda Fnac aqui.

Link para a autora aqui.

quarta-feira, novembro 12, 2008

Jerusalém


Confesso que não conheço o romance de Gonçalo M. Tavares, mas conheço o trabalho d'O Bando há mais de duas décadas, motivo mais que suficiente para ir ver Jerusalém com expectativas elevadas. O Bando em sala, numa sala de teatro convencional, tem normalmente prestações menos conseguidas, mas neste caso transformou o pequeno auditório do CCB, tornando-o practicamente irreconhecível, apropriando-se do espaço para o seu universo sensorial. Visualmente foi um trabalho notável, plástico, mutável, com o uso de palha (seria?) a revelar-se uma autêntica caixa de surpresas, e com efeitos de luz (onde o texto era projectado) perfeitos para criar uma atmosfera de estranheza. O texto esse é de uma dureza extrema, narrando a trágica história de uma mulher que conseguia ver a alma dos outros.
A maior falha de uma peça que acaba por crescer em nós, é a escolha de Horácio Manuel para o papel de médico. Repetitivo, monocórdico, tira densidade dramática a uma personagem conturbada, obsessiva, maniaca quase, como contra-ponto (?) à mulher, louca.
Não é um marco na história do Bando, mas é uma peça intrigante, tensa e muito bem construída.

terça-feira, novembro 11, 2008

Ufff...musica para descontrair...

Semana de fecho de grelha sem tempo para nada, como se tem notado aqui no Sopros, desde quinta que não escrevo. Hoje é de fugida, só para deixar a mudança de música da praxe. Vai qualquer coisa levezinha para aguentar o resto da semana... Sweet about me...

quinta-feira, novembro 06, 2008

Mudar de Vida

Culturgest, dia de Halloween. Parado numa esquina com um saco de plástico na mão comia à pressa uma sandes comprada na bomba de gasolina em frente. O dia caótico culminava com o concerto de José Mário Branco, Mudar de Vida. Quatro anos depois do último cd volto a encontrá-lo em palco. Para cima de uma dezena de músicos, toda uma parafernália quase sinfónica, com convidados muito especiais, os Gaiteiros de Lisboa.
José Mário Branco está velho, nota-se no corpo e no branco que lhe cobre a face, mas não perdeu nenhuma da vivacidade nem da irreverência que sempre o caracterizou. Inconformado, se bem que por vezes um pouco monotemático, mantém vivo o espírito dos cantores da revolução.
Foi uma grande noite composta maioritariamente de temas mais recentes sempre apimentados pela orquestração e pela energia constante. Mudar de Vida é uma reinvenção do célebre FMI, mas sem a força desesperada nem a imprevisibilidade do original, que tem no entanto uma musicalidade tremenda.
Os Gaiteiro elevaram a noite a um nível superior, emprestando ao espectáculo um ritmo constante.
Faltou-me apenas uma música, impossível pela falta de coro, mas que roda agora aqui no sopros.

quarta-feira, novembro 05, 2008

A New Hope

Barack Obama é o novo Presidente dos EUA, quebrando barreiras que alguns não acreditavam ser possível ultrapassar nos dias que correm. Foi uma eleição histórica contra o preconceito, pela primeira vez nos EUA foi eleito um presidente negro. Venceu com uma maioria confortável e está apoiado por uma liderança democrata no Senado e no Congresso americano. Foi a eleição da mudança, da esperança no futuro, personalizada numa figura carismática, hipnótica quase, que contagiou metade do mundo. Este é o seu momento. Agora não há desculpas, com esta tripla maioria não há como voltar atrás: Obama tem mesmo que "mudar o mundo". É o risco de se apresentar como um cavaleiro andante, as pessoas vão ficar à espera de um conto de fadas. Quanto a mim, eu acredito.

E por cá? Onde está o nosso Obama? Onde está aquele que apregoa mudança, aquele que marque a diferença, onde estão as nossas alternativas? Ou ainda, onde está o nosso McCain? Mesmo sendo de um quadrante político diferente do meu, onde está ele? A escolha é entre o Magalhães e uma múmia petrificada? Então é nós?

terça-feira, novembro 04, 2008

Música da Semana

Esta semana fica entregue a José Mário Branco e a uma das grandes canções da sua carreira, feita em homenagem a, e cantada com, Fausto Bordalo Dias. No concerto que vi na sexta na Culturgest ele não a tocou e fiquei com saudades...


Não sei se foi por me sentar um pouco mais à frente do que costumo no caminho para o emprego, mas esta foi uma viagem de metro de parelhas improváveis. À minha frente um homem novo, loiro, olheireiras carregadas, ouvia no seu mp3 uma canção de heavy metal. Os dedos frenéticos matraqueavam no aparelho ao ritmo da bateria, que até eu conseguia perceber. Eram eles os únicos livres no movimento que todo o corpo anseava realizar, não estivesse ali, no Metropolitano de Lisboa, entre centenas de desconhecidos, no caminho entre a estação da Rotunda (perdão do Marquês de Pombal) e a de Picoas. Atrás de mim um vulto sem forma definida passava pelo mesmo tormento castrador mas desta vez com uma qualquer música techno (ainda é assim que se chama?) que me furava os tímpanos. Cercado por batidas desconexas virei o rosto para a janela e observei os anúncios que passavam nas estações da linha amarela. Os pares improváveis que ali se formavam foram o ponto alto da manhã... Destriplique o Seu Saldo (Sopa intantânea de cogumelos e espargos), Tráfico Humano (Mediação é Solução).
E assim, com as estranhas frases da sabedoria do azar na cabeça, cheguei ao emprego, para mais um dia de filmes e séries...

1006

Só agora abri os olhos e vi... já 1005 posts, sendo este o 1006º... Muita escrita e tão pouca coisa que se aproveite! Avante campeão da inutilidade, soltai as torrentes do banal sobre o mundo! A festa segue dentro de momentos...

segunda-feira, novembro 03, 2008

Fim de semana de aniversário levou a que a garganta se queixasse e se revoltasse contra o dono. Feita a sua vontade, dia inteiro em casa e curar das dores. Amanhã é um novo dia...

sexta-feira, outubro 31, 2008

quinta-feira, outubro 30, 2008

Eu até gosto do rapaz...


... sim confesso, costumo ler as Divinas Comédias do João Pereira Coutinho e até acho piada ao moço, com as suas mini-crónicas semanais no Expresso em que aborda tudo o que é tema com o seu tom ó-tão-leve e espirituoso.

Esta semana no entanto, talvez fazendo jus à capa da revista, o moço foi ao fundo.

Criticou as iniciativas de António Costa para remover os grafitis do Bairro Alto comparando-o, com uma impressionante falta de bom gosto, a uma favela. Mas começou a crónica a dizer que não frequenta o Bairro. Não frequenta mas opina... parece-me bem...

Em seguida, por causa de Obama e de um amigo que comprou uma t-shirt de apoio a John McCain, afirma que "a esquerda" tem uma "arrogância moral" e que "o pluralismo não entra na cabeça de uma esquerda moralista e intolerante". É sempre bom saber que o mundo se divide entre os intolerantes e os outros, entre os de esquerda, dogmáticos, cegos, anti-democráticos até, e as gentes sérias e com "sentido de humor" da direita. Ora aí está uma posição de alguém sem réstia de arrogância moral, uma posição nada intolerante e descriminatória... parece-me bem também.

Mas o melhor guardou para o fim. Segundo Dennis Sewell, jornalista da BBC, católico conservador e cronista na Spectator, a culpa da crise do subprime não é de Wall Street, nem dos capitalistas, nem da falta de regulação, nem da ganância mas sim... de Bill Clinton e dos pobres. Passo a explicar, na década de 90 Clinton pressionou a banca a dar crédito a pessoas com maiores dificuldades financeiras e instarou fortes medidas de prevenção de atitudes discriminatórias racistas. Em consequência entre 1994 e 1999 "dois milhões de negros e latinos compraram o seu próprio ninho". Ora "os bancos, pressionados, limitaram-se a baixar as orelhas"... coitadinhos. Conclusão brilhante: precisamos é de MENOS regulação e a culpa é dos "negros e latinos"... Para um homem de mente aberta e não dogmático é obra. Acreditar que o único culpado de uma crise financeira mundial são os "negros e latinos" americanos, apoiados pela administração Clinton e que os bancos são as vitimas faz lembrar a bela cegueira soviética! O comunismo, em teoria, funcionava, os seus principios de igualdade são inatacáveis. No entanto parte do pressuposto que o ser humano se transformaria e trabalharia de boa fé para o bem comum, que a tirania, a ganãncia e a preguila seriam não-existentes. A fé cega no dogma do mercado é exactamente igual à fé cega no dogma socialista. No papel tudo funciona, mas o elemento humano é imperfeito, as empresas são constituidas por pessoas que pensam em primeiro lugar no seu bem estar próprio e não na eficiência empresarial. Falta de informação, riscos desnecessários, visão de curto prazo, lobbys, carteis, tirania empresarial, ganância, má-fé, abuso de poder, são tudo elementos que existem e deturpam a beleza da economia de mercado. Daí a necessidade, como em tudo na vida, de controlo, dos tais "checks and balances" que suportam a democracia. Para cada governo há um parlamento, para cada parlamento um presidente da república, para cada presidente tribunais e por aí fora. Os bancos não são vitimas, são culpados. Não esquecer que desde 2000, há 8 anos, que nos EUA temos presidência conservadora republicana e nada foi feito para corrigir os "crimes" de Bill Clinton. E não me venham falar do Congresso, porque os Republicanos têm tido a maioria desde 1997 a 2007, excepto no periodo 2001-2003 com maioria repartida.
Esta fé dogmática de João Pereira Coutinho no Mercado é tão tão... sei lá... marxista-leninista... carregada de uma tão grande... "arrogância moral"...

quarta-feira, outubro 29, 2008

Paris

O Cédric Klapisch é bom moço. Tão bom moço que ficou famoso entre nós com o seu filme de 2002 A Residência Espanhola, que espalhou o sabor do Erasmus pela Europa. Eu que já tinha pena de não ter aproveitado o programa nos meus tempos de faculdade, pior fiquei.
O seu estilo fragmentado colou como imagem de marca, e revisitei-o em 2005, tendo perdido um filme pelo meio, com Bonecas Russas - os mesmos personagens de A Residência Espanhola anos mais tarde. Grossa desilusão. O estilo era o mesmo, o húmor tentava ser o mesmo, o filme era redundante e manifestamente inferior.
Agora chega-nos com este Paris, que se propõem a ter a capital francesa como pano de fundo a uma série de histórias de personagens aparentemente desconexos. Lá está o fragmentado de novo. Bocejo. Longe do passeio pelas vidas comuns de gente vulgar, quiçá com alguma inspiração Fellini, temos perante nós o arrastar lento, vagaroso, pastoso, do tempo. Saltitamos entre uns e outros com pouco o que dizer, ver, fazer, sentir, morre gente, apaixona-se e desilude-se, sempre com o ponteiro do relógio a teimar em não se mexer. Desinteressante, inconsequente, banal, para além de prestações correctas do elenco, fica uma certeza, Klápisch está seco e não tem nada para dizer. Ah, e uma outra, os vendedores de praça, peixeiros e afins, têm uma vida sexual diversa e com muita saída entre as classes sociais acima da sua.
Perca de tempo...

terça-feira, outubro 28, 2008


Ouvi hoje uma frase que me ficou na cabeça:

Há duas maneiras de controlar as pessoas, primeiro assutamo-las e depois desmoralizamo-las.

"Portugal continua na cauda da Europa no que diz respeito à confiança dos consumidores" - Nielsen News
"Confiança dos portugueses no nível mais baixo de 29 meses" - IOL Diário
"Níveis de confiança caiem de forma generalizada" - Economia & Finanças
"Clima económico e confiança de consumidores portugueses em baixa" - RTP
"A confiança entre os empresários e os consumidores europeus caiu mais do que o previsto, "- Jornal de Negócios

Música da Semana

Há dias assim, em que Cansei de Ser... Alala...

segunda-feira, outubro 27, 2008

Come Together e Four Reasons


Regresso ao Teatro Camões algum tempo depois da última visita, demasiado até. Desta vez sessão dupla, com algo para me aguçar o apetite, o regresso de Rui Horta, depois de me ter fascinado com a dupla que fez com João Paulo Santos em Contigo, que vi no CCB. Tenho sempre pena do pouco tempo que estas interpretações estão em palco, neste caso foram 5 dias, a acabar no domingo passado.

A primeira peça , Four Reasons, é o último trabalho de Edward Clug, e foi um um sopro de ar fresco. Trabalho brilhante sobre o espaço, a forma, a direcção, a manipulação cénica com processos simples, mas que transformam por completo o nosso olhar, brincando com verticalidade, forma, cor, corpo e percepção. Four Reasons, com música soberba tocada ao vivo, é um grande bailado.

Eis que chega o intervalo e, entusiasmado, avanço para Rui Horta... Desilusão extrema, balde de água fria a todos os niveis. Podia dizer que era um trabalho cerebral, inteligente, e que normalmente me deixo levar mais pela sensação neste tipo de coisas... a verdade é que não senti que o fosse sequer, não inteligente, talvez esperto, ou melhor, chico-esperto, constantemente a piscar o olho, a fazer gracinhas, a procurar ser diferente e espalhando-se ao comprido. Longe da contenção de Contigo, longe da sua simplicidade profundamente tocante, Come Together é espalhafatoso, excessivo, e prova, uma vez mais, que em termos de conjunto, quando a CNB tenta fazer trabalhos de sincronia, fica sempre aquém.

Mas Four Reasons já valeu a viagem...

sexta-feira, outubro 24, 2008

À espera de...


Estou a desenvolver uma ligeira adicção à Playstation 3... muito ligeira...

quinta-feira, outubro 23, 2008

quarta-feira, outubro 22, 2008

When I Knew


Primeiro foi um livro de Robert Tratchenberg, agora Fenton Bailey e Brandy Barbato fizeram um filme, um pequeno documentário com o selo de qualidade da HBO. Uma sala, uma cadeira, uma câmara, uma pessoa e uma pergunta: quando é que eu soube?

When I Knew é uma pérola, diversas pessoas, comuns, simples, falam sobre o momento em que descobriram que eram gay. Homens e mulheres relembram a altura na sua vida em que eles próprios souberam, momento esse bastante diferente daquele em que se assumiram. Sem parafernália técnica, sem exageros dramáticos, apenas com uma banda sonora a acompanhar cada momento, a sublinhar cada despertar, circulam diante dos nossos olhos vivências e experiências reais, humanas, tocantes. É nessa simplicidade, nessas breves palavras que reside a força emocional do filme, é impossivel não nos deixarmos comover por estes relatos, estes momentos tão banais e tão extraordinários, que definem um novo rumo na vida de cada rosto que ali se apresenta. Ainda e sempre a triste marca da descriminação, dos problemas com a familia, do sentimento de alienação. Mas não é disto que When I Knew é feito, não é um manifesto das maleitas do mundo. É um convívio de amigos, um à vontade directo, como se cada uma daquelas pessoas estivesse ali, na minha sala, com um copo de vinho na mão, a falar comigo depois de jantar. E é impossivel não adorar a conversa...

P.S. - Há agora também um site, mas com um cenário diferente, uma abordagem diferente, com uma série de pessoas a falar de quando souberam. Não é tão interessante, mas vale a pena dar uma olhadela É aqui...

terça-feira, outubro 21, 2008

Música da Semana

O fado e a música popular portuguesa corria o risco de se tornar algo do passado, petrificado no tempo, perdido na voz de Amália, reduzido a armadilha para turistas no Bairro Alto. Curiosamente, esse risco foi puramente teórico, desde há vários anos que a musicalidade mais tradicional se tem conseguido redesenhar, redescobrir, reinventar sem nunca perder as suas raízes. Seja pela força dos cantores de Abril, seja pela melodia - anos mais tarde - dos Madredeus, ou por fadistas que nunca se conformaram a um esterótipo como Mísia, Camané ou Marisa entre outros, até mesmo às experiências de misturas de géneros como A Naifa, a verdade é que o fado está de boa saúde.
Deolinda é a última banda a aparecer neste percurso. Com um tom leve, um húmor particular, cresceu na base da net e está a ganhar alguma reputação.
Esta semana: Lisboa Não É a Cidade Perfeita.

segunda-feira, outubro 20, 2008

Bab Sebta

Bab Sebta é um documentário em competição nacional no DocLisboa, premiado já em Marselha. Segue a rota dos emigrantes clandestinos, desde o norte de África até à Mauritânia, numa lenta descida a um mundo que nos é completamente desconhecido.

Câmara na mão, Pedro Pinho e Frederico Lobo, encontram uma forte ligação num grupo de pessoas cuja vida é uma constante busca da terra prometida, uma entrada para a Europa repleta de sonhos.

Humano, real, tocante, sem nunca usar artifícios fáceis, Bab Sebta é um filme inteligente na forma como aborda o tema da emigração, contundente nas críticas que realiza, inesperado nos diferentes locais que mostra, emocional como poucos conseguem.

Uma obra para não perder, ainda neste doc lisboa, porque não creio ter distribuição comercial.

sexta-feira, outubro 17, 2008

Falar antes de olhar


"ttf disse...
Bem sei que não ajuda muito...mas aquilo não era a capa...Era uma falsa capa, só com esse assunto, por dentro disso, tinhas a capa do Público. Mas vá...compreendo e concordo!"

Este sucinto comentário ao meu post anterior arruinou completamente qualquer sentido do dito post. Afinal não era uma capa, afinal era publicidade, uma capa falsa, algo bastante em voga.

É o que dá falar antes de olhar, antes de confirmar os factos, apenas com um relance de esguelha.
Erro crasso meu, sem consequências num blog quasi-vazio, mas que é mesmo assim um erro.

Sem problemas de ética duvidosa a levantar, de cabeça baixa me retiro...

Nós por cá todos bem


A notícia não é nova, a 9 de Outubro deste ano abriu a Fnac do Vasco da Gama, para agrado de Fnacnianos de toda aquela zona.
O Público noticiou a abertura da Fnac com honras de primeira página. A abertura de uma Fnac... Uma loja... A terceira em Lisboa... A quinta da Grande Lisboa... Primeira página... de um dos jornais de referência do país... Na semana da maior crise financeira mundial das últimas décadas... na véspera da discussão das propostas de lei pelo acesso livre ao casamento civil... Capa...
Não percebi. Sinceramente não percebi. Sou limitado é assim mesmo. Até porque meses antes abriu uma Fnac no Alegro em Alfragide e não houve capa nenhuma. Sim eu sei, o Vasco da Gama é da Sonae e o Alegro não, o Vasco da Gama tem um Continente e o Alegro tem um Jumbo, mas não pode ser isso, não pode ser o facto do Público ser do mesmo grupo. Não. Recuso-me a acreditar que isso tenha influenciado seja de que forma for a decisão editorial de colocar a abertura de uma loja de entertenimento na primeira página de um jornal diário. A décima terceira Fnac do país...
Não há relação... não pode haver... tenho a certeza...

quinta-feira, outubro 16, 2008

O reflexo prata nas águas negras é o único indício para o primeiro visitante de que o Tejo espreita em baixo. Assim se explica a serpente de luz que passeia no meio da escuridão: ponte de uma a outra margem.
Parecem enfeites de Natal ao longe, cada vez maiores, cada vez mais complexos, até se tornarem num clarão rendilhado. Sem esforço reconheço espaços comuns, declives pessoais e sorrio. Lisboa abre-me os braços à noite. Estou de volta a casa...

sexta-feira, outubro 10, 2008

Hoje, deputados do PS votaram contra uma lei que permite o acesso de casais homossexuais ao casamento civil, lei essa com que publicamente concordam..

hipocrisia
do Gr. hypocrisia, forma poética de hypócrísis, desempenho de um papel no teatro, dissimulação
s. f.,
impostura, fingimento; manifestação de virtudes ou sentimentos que realmente se não tem.

On gay marriage...

Creio que isto resume bem a coisa...

quinta-feira, outubro 09, 2008

Burn After Reading

Os irmãos Cohen estão de volta e desta vez trazem companhia de peso, George Clooney, Brad Pitt, Frances McDormand, John Malkovich, Tilda Swinton, e até uma breve aparição de J.K. Simmons, fazem deste um elenco de luxo.

É um regresso às comédias negras que fizeram a carreira dos Cohen, na senda de Fargo ou Barton Fink, mas com um tom mais leve, a fazer lembrar os recentes LadyKillers ou O Brother Where Art Thou? Mas será que esta mistura funciona?

O filme é, antes de mais, um filme non-sense, com um humor peculiar e constante, e um argumento que apenas alguem como os Cohen nos conseguiria fazer engolir. Como diz um oficial da CIA a um subordinado que acaba de lhe fazer um relatório: come back when it all makes sense...

O caos em que o espectador se deixa mergulhar é divertido e perturbador, a loucura é contagiante e para isso bem ajuda a performance do elenco, com alguns actos de coragem, como a exposição de Frances McDormand a todos os mais pequenos defeitos fisicos que tem, analisados em grande plano logo na sua cena inicial.

O problema é que perdidos no delirio, os Cohen ficaram sem saber o que fazer com a fita, que ao fim da primeira hora deixa de ter ideias e sucumbe à tentação do vale tudo, num efeito de deixa andar que, em última instância, acaba por alienar o espectador. Prova disso é a forma atabalhoada e apressada com que acabam este Destruir Depois de Lêr, que, seja como for, está ainda vários pontos acima da mediania que domina as salas de cinema por esta altura.

quarta-feira, outubro 08, 2008

Hoje, não esquecer

Hoje é a segunda flash mob a favor do fim da descriminação no acesso ao casamento civil com base nas preferências sexuais.

às 19h30, na Praça do Rossio, junto à estátua.

Deves levar uma folha em branco e uma caneta. Às 19h30, deves escrever na folha em branco "Acesso ao Casamento Civil", e de seguida erguer a folha para que todas e todos a possam ler. Ao fim de um minuto, deves dispersar, como se nada tivesse acontecido.

terça-feira, outubro 07, 2008

Música da Semana

Afinal não está perdido!!! Há poucos meses fizeram-me um raide pelo carro, partiram o vidro e levaram tudo o que lá estava dentro, incluindo uma prenda que tinha comprado para a Ana e todos os cd's que irresponsávelmente deixei lá dentro. Mas descobri uma cópia de um dos que mais me tinha custado perder, Beirut!
Esta semana volta aqui ao Sopros, em comemoração da descoberta...

segunda-feira, outubro 06, 2008

Gomorra

Baseado no best-seller de Maurizio Braucci e galardoado com o Grande Prémio do Júri em Cannes (uma espécie de segundo lugar), Gomorra chegou a Portugal na senda do sucesso de filmes como Tropa de Elite, retratos de uma realidade brutal, desconhecida para a maioria das pessoas.

A particularidade de Gomorra é que não se passa noutro continente ou num país distante, aquilo que vemos é em Nápoles, mesmo aqui ao lado, são euros nas mãos dos traficantes, o que se traduz num sentimento de proximidade perturbador.

O filme de Matteo Garrone deambula entre vários personagens, peões numa realidade que os ultrapassa, da qual não podem, e muitas vezes não querem escapar.

Violento e directo, não se coíbe de mostrar, de uma forma fria, o incrível submundo da droga e do crime, longe da visão tradicional de uma mafia organizada em familias, onde a honra ainda e os laços de sangue são ainda pedras basilares, Gomorra imerge-nos num mundo onde tudo vale, onde crianças são postas na linha da frente, onde apenas o dinheiro manda.

Garrone tem uma visão quase documental de tudo o que se passa, não só na forma, camera ao ombro, mas principalmente no distanciamento que cria das pessoas que retrata. Flutuando entre os vários personagens, nunca conseguimos realmente sentir uma ligação afectiva, passando por todo aquele horror como pelas noticias da noite, sem lágrimas nem sobressaltos, apenas uma sensação de pasmo.

sexta-feira, outubro 03, 2008

Estrelitas...


Ontem de madrugada acordei com uma cólica tremenda. No WC agarrei a Revista do Expresso, perdão, a Única do Expresso, perdão, a Revista Única do Expresso.
O tema desta semana que passou é as estrelas, suponho que motivado pelos 50 anos que a NASA celebrou dia 1 de Outubro. Por piada, ou por não ter nada o que dizer sobre a NASA e sobre a exploração espacial, está nesta edição um artigo de quatro(!) páginas sobre o desaparecimento das estrelas. Não falo de supernovas ou qualquer fenómeno cósmico, mas sobre as estrelas terrestres, cujo brilho também desaparece, ao que dizem a um ritmo bastante mais acelerado. Não me lembro do nome da criatura que assinou o artigo, lamento, eram quatro da manhã e estava com cólicas. O texto em si era digno de um qualquer blog de dona de casa, durante quatro páginas enumerava estrelas decadentes, misturando Madonna (decadente? a mulher está mais viva que nunca) com a Amy Winehouse, que apesar de carregada de drogas está no auge da carreira, com Herman José, que já viu dias melhores, com Peter O'Toole, que continua a ser nomeado para Oscares apesar de já ter cruzado a barreira dos 80 anos, com o Zé Maria, que nunca foi ninguém na vida. Para o senhor, cujo nome volto a lamentar mas não me lembro, a fama é um fogacho e desaparece. As estrelas brilham intensas e depois degradam-se. Falar de percursos, causas, consequências, dissertar sobre os comos e os ondes, os perigos e precipícios, qual quê, quatro (!) páginas a enumerar nomes. E o moço, (como é que ele se chamava mesmo?), acha que ser um Zé do Big Brother, é comparável a ser a Madonna, que continua a encher arenas e vender milhões de cd's, cuja única coisa a apontar é o facto de ter 50 anos (quem dera a muitas de 30...). Peter O 'Toole já não tem a cara de quando fez Lawrence da Arábia? É natural, passaram-se mais de 40 anos, decadente? Alguém me explique. O moço, cujo nome me escapa, chega a nomear Manoel de Oliveira (!) dizendo que até este um dia passará ao anonimato! O maior caso de longevidade que conheço é dado como exemplo de um artigo (?) sobre o quão fugaz é a celebridade.
Felizmente estava com cólicas e muito sono, portanto tinha mais com que me entreter.
É triste ver a Revista, perdão, a Única, perdão, a Revista Única, desçer a este nível. Preocupante é perceber que o caso de que falo não é, nem de longe, caso isolado...

quinta-feira, outubro 02, 2008


O ensaio não correu da melhor maneira, ainda não temos os actores todos, o texto está leeeeeeento, e tudo muito pouco oleado. Inesperadamente ouvi algo que me levou para casa com um sorriso.
Conversava com o Mário, ele estava a enrolar um cigarro, quando um negro, enorme, com uma garrafa na mão, se aproximou de nós e lhe cravou um cigarro.
Vocês têm um pais com tudo para funcionar, dizia ele, fui ao Algarve e PORRA, vocês têm um clima porreiro sitios bonitos, porque é que não funciona?

Foi então que, já a fumar o tabaco de enrolar, ele diz: lembrem-se da minha cara, eu sou feio, mas o vosso primeiro-ministro é bonito... e o Cavaco, ele também é bonito!

Risos, apesar de bêbado, ele não estava a gozar, o Cavaco é bonito, gostos não se discutem.

Apertos de mão, cumprimentos e boa noite, que a hora é avançada e amanhã é dia de trabalho. Acho que não me vou esquecer da cara dele, apesar de ter a certeza que ele cinco minutos depois já não se ia lembrar da minha.

A subir a rua do Século não consegui deixar de sorrir... o Cavaco é bonito... aí está algo que não se espera ouvir no Bairro a meio da noite... ora aí está algo que nem a Maria Cavaco seria capaz de dizer sem se rir...

E de repente o ensaio parecia quase ser uma nota de rodapé daquele dia...

terça-feira, setembro 30, 2008

Flash Mob


Dia 10 de Outubro está agendada a discussão no parlamento de dois projectos lei que permitem o acesso ao casamento civil de casais homossexuais. Esta é uma questão que está há muito por resolver, e é daqueles pontos cuja única base de discórdia é uma homofobia latente, muitas vezes camuflada. Seja lá o que se argumente há um facto que é indesmentivel, o casamento entre duas pessoas é algo que tem a ver única e exclusivamente com essas duas pessoas. O casamento entre dois homens ou duas mulheres não prejudica em nada qualquer outro ser humano, da mesma forma que o casamento entre heterossexuais não prejudica em coisa nenhuma ninguém. Opor-se à união entre duas pessoas com base numa qualquer pseudo definição tradicional de casamento, ou num suposto objectivo obscuro de procriação é homofóbico, com todas as letras... H-O-M-O-F-Ó-B-I-C-O! Da mesma forma que a oposição a um casamento baseado na raça de quem se casa seria puro racismo.

É preciso fazer ouvir uma voz para que se ponha fim de uma vez a uma desigualdade injustificável.

Para tal estão a ser convocadas duas flash mobs:

1ª Flash Mob, quinta-feira , 2 de Out, às 19h30, junto à saída do Metro Baixa/Chiado em frente à pastelaria A Brasileira.
2ª Flash Mob, quarta-feira, 8 de Out, às 19h30, na Praça do Rossio, junto à estátua.

Deves levar uma folha em branco e uma caneta. Às 19h30, deves escrever na folha em branco "Acesso ao Casamento Civil", e de seguida erguer a folha para que todas e todos a possam ler. Ao fim de um minuto, deves dispersar, como se nada tivesse acontecido.

É preciso ser pontual para que a flash mob tenha efeito.

Divulga esta mensagem, faz a tua voz ser ouvida!

Música da Semana

No meio da crise, com o chumbo do projecto miraculoso Bush de injectar qualquer coisa como o equivalente a todos os prémios do euromilhões dos próximos 300 anos na economia americana, com a euribor a registar valores históricos, as bolsas a cair a pique... apenas uma música me vem à cabeça. É claro que a isto não é alheio o facto de ter apanhado o Cabaret na televisão há poucos dias, mas...

segunda-feira, setembro 29, 2008

1925-2008

Sempre foi daqueles homens que chegou demasiado perto da perfeição. Talentoso, charmoso, de uma beleza que o acompanhou com o passar dos anos, Paul Newman era aos 80 tão cativante como aos 30. Icone do cinema, piloto de corridas, deixará sempre um rasto de saudade, típico da passagem daquelas estrelas que têm um qualquer toque superior aos restantes. Os seus olhos azuis fecharam-se numa luta contra o cancro.

sexta-feira, setembro 26, 2008

Alguém me explica porque é que Lisboa hoje está vazia?

Ou estará o mundo apenas a fugir de mim?

quarta-feira, setembro 24, 2008

The Air I Breathe

O Ar Que Respiramos, título em português que resolveu acrescentar um plural ao título original, é a primeira longa metragem de Jieho Lee, um moço saído da Harvard Business School que virou cieneasta. A premissa é uma que foi popularizada por Paul Thomas Anderson no seu famoso Magnolia e reinventada por Paul Haggis em Crash, ou seja, reunir um conjunto de histórias que, apesar de inicialmente distintas, se entende que estão todas interligadas, até co-dependentes.

Apesar de não ser própriamente muito original o filme tem um início prometedor, a história com Forrest Whitaker é inteligente e suficientemente intrigante para nos manter interessados naquilo que viria a seguir. O problema é que o que vem depois é realmente fraco. O argumento está cheio de pontos sub-aproveitados e desenvolvimentos pouco credíveis. Tudo o que está ligado ao personagem de Andy Garcia é, no mínimo, exagerado.

O elenco recheado de estrelas é sem dúvida um chamariz, mas rápidamente se torna secundário, perante as histórias progressivamente mais monótonas.

O Ar Que Respiramos é apenas mais um filme que se perde na corrente, não tem nada demasiado bom, nem demasiado mau, apenas uma mediania da qual facilmente nos esquecemos.

terça-feira, setembro 23, 2008

Música da Semana

Ufff... início difícil, nem tive tempo de postar ontem. Hoje muda a música para a próxima semana.
E logo hoje, 23 de setembro, a canção só podia ser uma...

sexta-feira, setembro 19, 2008

E ninguém acha isto estranho?


O Mercado funciona.
A intervenção estatal é negativa.
A iniciativa privada é sempre mais eficaz.
O Capitalismo é a única forma de organização possivel.
Os preços são ditados pelo mercado.
As melhores empresas e as melhores prácticas são recompensadas.
O Mercado é transparente.
O mérito é reconhecido.
A competição incentiva o desenvolvimento.
O Estado é mais lento, mais burocrático, mais ineficaz, mais injusto que o Mercado.

Mas depois...

"Fed injecta mais 6 mil milhões de dólares no sistema financeiro
A Reserva Federal (Fed) norte-americana voltou a injectar capital no sistema bancário desta vez no valor de 6 mil milhões de dólares (4,44 mil milhões de euros), depois de ter também hoje realizado um corte inesperado da sua taxa de redesconto de referência em 50 pontos-base para os 5,75%, com o objectivo de mitigar os efeitos negativos da crise no mercado de crédito à habitação de alto risco (subprime) e acalmar as bolsas." - Agosto 2007


"THE US Federal Reserve has confirmed media reports announcing a $107 billion rescue loan for struggling American International Group." - Setembro 2008


"O Banco do Japão (BoJ) anunciou hoje que vai injectar 1.000 mil milhões de ienes (6,7 mil milhões de euros) no mercado bancário japonês para fazer frente às consequências da crise financeira nos Estados Unidos." - Setembro 2008


"O Banco Central Europeu (BCE) vai injectar hoje mais 70 mil milhões de euros no mercado monetário da Zona Euro para aliviar as tensões ligadas à crise financeira desencadeada nos Estados Unidos- Setembro 2008


Mas quando o Governo português ameaça intervir se os preços do combustiveis continuarem artificialmente elevados grita-se logo ai jesus intervenção estatal!.

Ninguém acha isto um bocadinho estranho? É que e mim ninguem me injecta fundos...

quinta-feira, setembro 18, 2008

Berlim

Há cidades que têm imagens gravadas na minha cabeça, os arranha-céus de Nova Iorque, as praças de Florença, os canais de Veneza, o bairro gótico de Barcelona, os bares e cabarets de Berlim.
O problema é que os locais sombrios carregados de fumo, a vida boémia dos anos 30 da capital alemã, são apenas fragmentos de um imaginário colectivo que hoje já não existe, pelo menos da mesma maneira.
Berlim é das cidades europeias que mais sofreu nos últimos anos, passou pelo massacre da Segunda Grande Guerra, pela ocupação de quatro potências estrangeiras, pela divisão entre o Comunismo e o Capitalismo, o muro, a reconstrução, a reunificação e o apagar das cicatrizes nos últimos 20 anos.
Hoje é uma cidade moderna, viva, pulsante, mas não a achei apaixonante, é demasiado recente. Se a tecnologia e a arquitectura dos últimos 10 anos dá um ar da sua graça e cria maravilhas como o Sony Center, a verdade é que as influências dos anos 80 estão em todo o lado, dando a muitas zonas da cidade um ar de Telheiras antiga.
É no fundo uma cidade boa para visitar, mas pareceu-me ser muito mais apelativa para viver.
Com uma qualidade de vida impressionante, seja pelos preços iguais ou até inferiores aos de Portugal, seja pelos transportes públicos que funcionam na perfeição, pelos diversos espaços verdes, ou pelas ciclo-vias que acompanham todas as estradas. Metro, comboio e autocarros complementam-se, se bem que entre o U-Bahn e o S-Bahn (metro e comboio) nos colocamos em qualquer lado. De madrugada autocarros passam de um quarto em quarto de hora, certos ao minuto.
Uma semana não chega para passar a pente fino tudo o que há para ver, para encontrar os seus diferentes espaços, da ilha dos museus ao palácio, do centro histórico ao enorme jardim, o Tiergarten com a estátua que Wim Wenders celebrizou em as Asas do Desejo.
A memória nazi não foi apagada, nem os berlinenses a querem apagar, diversas estátuas e obras de arte fazem com que ninguem se esqueça do horror ali produzido. Nesse aspecto o museu judaico é um ponto de passagem obrigatório, com experiências sensoriais únicas.

Em constante mudança, em constante evolução, adaptando-se, crescendo, ganhando força. Atenta às artes e aos movimentos alternativos, culta, urbana, pensada para quem lá vive, Berlim é uma capital atenta aos seus cidadãos, é facil apetecer ficar por lá...

quarta-feira, setembro 17, 2008

Before The Devil Knows You're Dead

Quando falo em Sidney Lumet apenas um filme me vem à cabeça 12 Homens em Fúria. Um pouco redutor para um cineasta com 60 anos de carreira e títulos como Dog Day Afternoon, The Network ou Serpico, mas o fabuloso filme sobre 12 jurados num julgamento de homicidio é para mim uma referência. Doze actores, uma sala e uma mesa com doze cadeiras, é tudo o que Lumet tem para contar uma história envolvente, tensa, entusiasmante, carregada pelos ombros de um argumento de ouro e de um conjunto de actores invejável, encabeçado por Henry Fonda, mas onde se destaca Lee J. Cobb, numa performance avassaladora de raiva e agressividade.
Antes Que o Diabo Saiba que Morreste é o último trabalho de Lumet, que tem sido bastante bem recebido, mas que me deixa com algum amargo de boca.
Contando novamente com um grupo invejável de actores, Phillip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Albert Finney e Marisa Tomei, Antes Que o Diabo Saiba que Morreste tem como base uma permissa interessante: dois irmãos resolvem assaltar a joalharia dos próprios pais, mas o plano acaba deseperadamente mal.

A montagem que salta constantemente do presente para o passado, vai revelando a intriga em diversos estados de diversos pontos de vista, numa abordagem pouco inovadora mas terrivelmente eficaz. Brutal, directo desde o primeiro minuto com uma cena de sexo bastante explicita entre Hoffman e Tomei, este filme não se coibe de apresentar quer a violência, quer os corpos, quer o intenso drama moral na sua forma mais crua, abrindo caminho para uma tragédia Shakespeariana.
O problema é que a falta de ritmo que atravessa toda a acção, sem agilidade a tensão não se desvanece, mas dilui-se um pouco pelo arrastar do tempo, que nos deixa sem posição na cadeira.
Existem também diversos temas laterais que são desnecessários e que nunca realmente se resolvem, como é o caso da filha de Hawke ou do irmão de um dos personagens que aparece mais no fim.
Pena é o desperdicio de Albert Finney, aquele pai não é explorado como devia, a sua relação com os filhos ainda menos, chegamos ao fim do filme a saber quase tão pouco sobre ele como no incio.

Antes Que o Diabo Saiba que Morreste é um projecto falhado, carregado de boas ideias, de bons executantes, mas que em última análise não consegue aglutinar todos os elementos positivos num filme coeso.

terça-feira, setembro 16, 2008

Musica da Semana

Foi por causa de um trailer de um jogo (em baixo)... mas a música ficou-me na cabeça. Para nos despedirmos do Verão, um excerto do Requiem de Mozart, Lacrimosa.

sexta-feira, setembro 12, 2008

You Don't Mess With The Zohan

A falta de tempo não me tem deixado actualizar o blog como queria, e o post de hoje vai ser também excepcionalmente curto.
Não Te Metas Com o Zohan é o último filme de Adam Sandler que eu, em desespero de causa, tive a infelicidade de ir ver.
Um agente da Mossad resolve fingir a própria morte para ir para Nova Iorque trabalhar como cabeleireiro.
Pouco há a dizer sobre este monte de piadas rasteiras com um humor xenófobo mascarado de boas intenções que descem ao nivel da virilha, tendo sexo com mulheres septuagenárias como a cereja em cima do bolo.
Imbecil do primeiro ao último minuto, não serve sequer para duas ou três gargalhadas, resumindo-se a um insulto ao tempo, dinheiro e paciência do espectador.

quinta-feira, setembro 11, 2008

Música da Semana

Com atraso, sim, que ontem não pude vir até aqui. Assim sendo, vamos deixar que o Fausto acelere as coisas com O Barco Vai de Saída.

terça-feira, setembro 09, 2008

The Hottest State

Em 1996 Ethan Hawke publica o seu primeiro romance. 10 anos mais tarde tem a oportunidade de o passar para o grande ecrã, num filme em que para além do argumento, Hawke assume a realização.

O Estado Mais Quente chega às salas portuguesas dois anos mais tarde.

Esta terceira realização do actor de Antes do Amanhecer é, tal como nesse filme, uma história sem história, que vive do momento, do diálogo, mais até do silêncio, num existir em que os actores criam sem se notar, nascendo personagens que parecem tão naturais, tão simples, que acreditamos que podem descer do ecrã e sentar-se ao nosso lado.

É uma história de amor, de perda, mas sem ceder à tentação do final feliz, ou ao drama da tragédia, como na vida de cada um de nós, o final, o percurso também, não é grandioso nem catastrófico, é o passar de sentimentos com que se lidam com um grau de dor e afecto mais ou menos controlado. Não há grandes traições, grandes chantagens, grandes personalidades "bigger than life", apenas duas pessoas que se encontram e se afastam, sem um motivo maior, tão só porque a vida acontece. Aí reside a força de O Estado Mais Quente e também a sua incrivel emotividade, cada um de nós já viveu, já sofreu, já fez sofrer, conhece por dentro a importância das pequenas derrotas, e dos grandes amores esquecidos.

Simples, belo, sincero, O Estado Mais Quente é um pequeno grande filme.

segunda-feira, setembro 08, 2008

Tabú

Já saiu de cena no CCB, mas ainda consegui apanhar os últimos dias de Tabú, um espectáculo de novo circo da No Fit State, companhia conceituada do País da Gales.

É dificil errar num espectáculo de novo circo, até hoje não fui a nenhuma performance deste género reinventado que fosse um fracasso. Por isso este Tabú tinha um longo histórico ao qual se comparar.
O tema central do espectáculo é o medo.
O que é que assusta os membros da No Fit State, sabendo à partida que aquilo que me enche de terror não será exactamente o mesmo para alguém que ganha a vida a fazer mortais a 6 metros do chão.
O espectáculo decorre dentro de uma tenda onde o público está de pé a ter que andar de um lado para o outro enquanto os diferentes números se vão desenrolando.
Visualmente interessante, todo o percurso é carregado de energia, movimento, e um acompanhamento musical ao vivo verdadeiramente intenso.
Há no entanto alguns senãos.
Em primeiro lugar não se percebe quais são os medos que dão base ao espectáculo, eles são ditos, mas a maioria das vezes perdem-se no ruído de fundo. Os pouco que se percebem não têm ligação nenhuma àquilo que em seguida é apresentado.
Por outro lado sente-se por vezes demasiada histeria geral, confunde-se energia com descontrolo e o resultado é um espectáculo demasiado irregular, que se perde e desaproveita as capacidades dos diferentes performers. Falta ali um lider, alguém que lime as arestas e faça de Tabú um verdadeiro espectáculo memorável.
No final de contas o tempo é bem gasto, se bem que comparando com shows como Ola Kala ou Cirque Du Soleil fica uns furos abaixo.

sexta-feira, setembro 05, 2008

Os portugueses são todos atrasados mentais!!!!


O preço do barril de petróleo tem vindo a cair, nos últimos meses desceu de 140$ por barril para menos de 110$. Os lucros das petrolíferas tem vindo, gradual e constantemente a aumentar. A BP, por exemplo, teve resultados brutos em 2007 de 147 milhões de euros.
Há minutos vi na televisão o presidente da BP em Portugal a dizer que vai aumentar o preço da gasolina esta semana seguindo o exemplo da Galp. Porquê? Porque não interessa que o barril do petróleo esteja em queda livre, ele diz que na refinaria está a produzir-se o litro de gasolina mais caro (?????????) e... POR CAUSA DOS ASSALTOS ÀS BOMBAS!!!!!! A MERDA DOS ASSALTANTES QUE DEVEM TER LEVADO MILHÕES DE EUROS, PORQUE O SENHOR PRESIDENTE DA BP É CAPAZ DE DIZER ISTO NA TELEVISÃO COM UM SORRISO NA CARA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Ufff... era preferivel ser directo e afirmar logo que acha que o país inteiro é povoado por atrasados mentais...

quinta-feira, setembro 04, 2008

Mamma Mia!

Será dificil ainda hoje, encontrar alguém que não conheça pelo uma canção dos ABBA.
É este sucesso duradouro que levou a que fosse levado a palco um musical com músicas desta banda sueca.
Estreia hoje nas salas portuguesas Mamma Mia! a versão de cinema com um elenco de luxo encabeçado por Meryll Streep.
O filme é inteligente na forma como aborda a sua génese, os ABBA são dos grupos mais pirosos da história da pop mundial, como tal Mamma Mia! não se leva a sério, brincando e gozando constantemente consigo próprio, puxando os limites do kitsch ao extremo, usando e abusando de tudo o que são lugares comuns. As músicas e letras parecem ser também elas próprias uma paródia, mas não, os ABBA realmente escreveram aquilo.
Há momentos em que o filme se esquece daquilo que é e tenta levar um rumo mais dramático, erro brutal, nessa meia hora é capaz de levar à nausea qualquer um.
Mas rápidamente corrige o rumo, terminando em apoteose barroca, num histérico cómico, unico tom possivel para aquela banda sonora.
O elenco, encabeçado pela divina Meryl Streep (a única capaz de me arrepia ao interpretar The Winner Takes It All, ela não canta a música, ela representa a música e é fabulosa), é sólido, com Julie Waters e Christine Baranski a liderar o grupo, pelo menos em diversão, só peca pelas capacidades vocais de Pierce Brosnan que são horripilantes.


Qual é o problema desta comédia leve? Normalmente um musical tem um libretto, uma história que depois é musicada. Aqui parte-se de uma discografia sobre a qual se cola uma história. Que história? Nenhuma, não interessa, tudo é apenas uma desculpa para compactar o maior número possivel de êxitos dos ABBA por minuto de filme. Nada acontece, nada tem de acontecer, as canções sucedem-se a ritmo alucinante e pouco mais. Passando meia hora já não se aguenta. Nos EUA já saiu uma versão sing-along nas salas, onde a sessão se tranforma num enorme karaoke colectivo.

Mas o problema deve ser meu, o musical é um êxito há uma década e o filme tem acompanhado o sucesso.

quarta-feira, setembro 03, 2008

O ovo


Ontem terminou uma exposição na Gulbenkian de obras de arte moderna e contemporânea, da extensa colecção do Deutsche Bank.
Fui na interessante visita guiada por obras dos últimos 80 anos, sabendo de antemão uma particular, ausente, que me tinha chamado a atenção.
Um ovo.
Um ovo, de galinha, com a casca polida.
O dito, verdadeiro e em devida altura fresco, com o passar do tempo apodreceu e após ser exposto explodiu, deixando vestígios por todo o lado, um cheiro nauseabundo e problemas com o seguro.
Fiquei a saber que o que o banco alemão comprou não foi um ovo polido, mas um certificado que descreve o dito ovo, podendo este ser substituido por qualquer outro ovo polido que coincida com a descrição da autora, com o seu conceito.
É um ovo, escultural chamemos-lhe assim, que a dado momento resolveu fazer uma performance, contaminando artisticamente os presentes e por pouco, as obras que o rodeavam.
Podiamos ficar a tarde toda a falar de inspiração artística, de criação espontânea, de influências no mundo da arte, discutir se veio primeiro o ovo polido ou a galinha depenada, dava pano para mangas.

Serve pelo menos para um bom título para um livro: A explosão do ovo conceptual.

terça-feira, setembro 02, 2008

Wall-E

Se o cinema é a arte de realizar filmes, a capacidade de contar uma história pelas imagens, Wall-E é a prova que, mesmo numa altura em que o ruído reina, em que criar emoção passa muitas vezes pelo excesso barroco de efeitos especiais, pela montagem epilética em que cada plano não pode durar mais de um segundo, em que o som é descarregado aos gritos sobre o espectador sonâmbulo, mesmo hoje, as bases do cinema não mudaram.

Wall-E é a história do último robot à face da Terra, que 700 anos após o abandono dos Homens, continua o seu trabalho solitário, tendo uma barata como única amiga. Só que em 700 anos Wall-E começa a ganhar uma consciência...

O último filme da Disney Pixar, que desde Toy Story nos tem trazido título após título de grandes fitas (À Procura de Nemo, Ratatouille, Os Incríveis ou Monstros e Companhia), é provavelmento o filme mais terno do ano.

Sem palavras, ou quase, Wall-E leva-nos, passo a passo, a apaixonar por este pequeno robot (?), este embrião de E.T., personagem humano e emocional, destinado a encontrar amor, preso num mundo solitário de descoberta.

Fascinante, sedutor, cómico, Wall-E entra directo no panteão dos grandes personagens do cinema.

No pináculo da tecnologia, o filme é tecnicamente perfeito, a história desenrola-se como se de um filme mudo se tratasse, passo a passo, sem o recurso ao diálogo, muitas vezes fenómeno intrusivo e facilitista do cinema, cujo expoente máximo é o uso abusivo do narrador. Wall-E mostra-nos este novo mundo, apresenta-nos os seus personagens e os seus sonhos, não se limita a falar sobre eles.

Uma vez mais sem faixa etária definida, é indúbitavelmente para miudos e graúdos, perde-se também na definição específica de género.

Mais importante que tudo é que Wall-E é uma experiência apaixonante desde o primeiro segundo.

Música da Semana


Em honra a um dos filmes mais ternos deste ano, aqui fica... Louis Armstrong...

segunda-feira, setembro 01, 2008

De volta...

BERLIM

LISBOA



E agora venham falar-me em mobilidade urbana, trânsito, estacionamento, poluição, qualidade de vida ou o raio que o parta...

quinta-feira, agosto 14, 2008

Berlin...

Pois que sim, que me vou, agora férias mais a sério, duas semanitas com passagem por Berlim, cidade que ainda não conheço, mas que, segundo ouvi, tem muito para dar.
Vou enfim ver a Alexanderplatz, ao vivo, que a versão do Fassbinder ainda não me passou pelos olhos.

Aqui fica um videozinho em homenagem à minha viagem, em tom de provocação para a Manel...

quarta-feira, agosto 13, 2008

Só porque me deu saudade...


Só porque às vezes se reencontram imagens sem estar à espera.
Só porque há gente cuja falta ainda hoje, se calhar mais do que nunca, se sente.
Só porque me lembro de o ver em cena, sozinho, candidato à presidência ou com gin tónico, a falar, a rir, em riste provocante.
Só porque era absolutamente único, brilhante, com a língua afiada como convém, atento, perspicaz e com um sentido de humor afinadissimo.
Só pelo sorriso, conversa, mais ou menos etilizada, depois do espectáculo.
Só porque tinha 16 anos e não consegui ir vê-lo ali, deitado, desaparecido, mudo. Fiquei sentado no carro à espera que alguém me viesse dizer que aquela brincadeira de primeiro de Abril ia acabar. Espero até hoje...
Só porque sim, só porque me deu saudade, só porque não é Domingo...

terça-feira, agosto 12, 2008

Música da Semana

Nestes dias antes das férias o trabalho tem-me afogado...

I need help...

Eu sei que os textos que escrevo são sempre feitos no meio de 30 outras coisas. As críticas a filmes ou peças de teatro são usualmente muito curtas, simples e pessoais.
No entanto, os posts concisos ou a falta de tempo para os escrever não são desculpa para o facto de muitos deles parecerem ser da autoria de alguém com o vocabulário de um miudo de 3 anos com deslexia.

Foi assim o post da peça Diz-me Como a Chuva que tive agora de ajustar.

Memorando para mim mesmo... nunca, mas nunca mais devo escrever algo sem o reler UMA VEZ QUE SEJA!!!!

segunda-feira, agosto 11, 2008

sexta-feira, agosto 08, 2008

Diz-me Como A Chuva


Há muito tempo que não via a Cucha Carvalheiro em palco. Não podia deixar perder esta oportunidade, na última semana de representação de Diz-me Como a Chuva, em cena até domingo.
Baseado em diversos textos de Tenesse Williams, Diz-me Como a Chuva é uma produção da Escola de Mulheres levada a palco na Comuna, casa que Cucha conhece bem.
Foi um misto de sentimentos.
Ver Cucha Carvalheiro de novo a representar não trouxe desilusão, plástica, inteligente, se bem que por vezes irregular, foi um prazer reencontrar esta actriz.
Como peça no entanto, Diz-me Como a Chuva esteve muito abaixo das espectativas.
Os textos de Tenesse Williams são geniais, mas a junção aparentemente aleatória de vários pedaços transforma a peça numa manta de retalhos incoerente, um jogo de atenção que é de longe mais estimulante para as actrizes do que para o espectador.
A encenação de Marta Lapa tem pormenores interessantes, mas peca por excesso noutros momentos, tornando o que deve ser subtil em movimentação óbvia.
A cenografia é impressiva, tal como o texto final uma manta de retalhos do universo de Williams, estéticamente bem conseguida, se bem que, uma vez mais, demasiado dispersa e com pontos de foco desconexos e desnecessários.

Tudo isto seriam pormenores numa experiência agradável, não fosse a performance de Isabel Medina. Uma prestação absolutamente desastrada, forçada, histérica, para esquecer. Nos momentos em que fez de Blanche DuBois a comparação com Vivien Leigh no filme de Elia Kazan torna-se inevitável, e aí o descalabro toma proporções abissais.

Um acto falhado na Comuna, apenas para fãs, ou quem queira ouvir palavras de Williams.


Diz-me Como a Chuva
textos de: Tenesse Williams
Encenação Marta Lapa
Interpretação: Cucha Carvalheiro e Isabel Medina
Quarta a Sábado - 21h45, domingo - 17h
Até 9 de agosto
Preço: 12,5€ (existem diversos descontos, perguntar na bilheteira)
Comuna Teatro de Pesquisa
Praça de Espanha
1070-024 Lisboa
Bilheteira: 931 619 217

quinta-feira, agosto 07, 2008

The Dark Knight

A saga Batman tem tido no cinema uma carreira atipica. São já seis filmes, mas na verdade é como se fossem três duplas diferentes.
Os primeiros dois foram realizados por Tim Burton, carregando o cavaleiro negro de um universo negro e irreal.
Quando Joel Schumacher pega na série, transforma-a num circo e quase ia destruíndo o franchise com um Batman & Robin desastroso.
Eis que entra Christopher Nolan com Batman: O Início e este O Cavaleiro Negro.

Nolan ignora por completo os outros quatro filmes e constroi um imaginário mais próximo da realidade. É uma abordagem interessante, adaptar um personagem tragi-cómico de BD ao mundo tal como o conhecemos.
O Cavaleiro Negro tem sido um fenómeno, nos EUA não só já bateu todos os recordes possiveis, ultrapassando Homens Aranhas, Piratas das Caraíbas, Shreks e outros que tais, como tem sido levado em ombros pela crítica, falando-se inclusivé à boca cheia de Oscares.
Fui ontem ver o filme e sinceramente não percebi o porquê desta reacção.

Vamos por partes, O Cavaleiro Negro é um filme interessante, a visão de Christopher Nolan é pelo menos inovadora neste imaginário e as duas horas e meia de duração passam sem mossa.
O que não entendo é a histeria em torno da fita, alimentada pela morte de Heath Ledger.

Há falhas, muitas.
O filme quer ser estiloso, tão estiloso que está constantemente em pose, com frases pseudo-profundas de algibeira.
Christian Bale funciona como Bruce Wayne, mas quando põe a máscara faz uma voz de bagaço irritantemente forçada.
Buracos de argumento são mais que muitos (não os vou discutir aqui para não estragar o filme).
Há uma coisa que sempre me deu comichão, o facto de toda a gente (salvo o heroi e o vilão) agir como atrasado mental. A policia aqui, pelo menos, não deve muito à inteligência.

Gotham City é aqui uma cidade normal, prédios normais, ruas normais, ganhou realismo, mas perdeu o charme, perdeu força, mistério, perdeu identidade numa cidade que era, ela própria, mais um personagem.

Eis que chega Heath Ledger. Ele é a alma do filme, uma performance assustadora, que enche o ecrã em cada cena. É ele, e apenas ele, que salva o filme da mediocridade. É claro que Morgan Freeman, Michael Caine, Gary Oldman ou Aaron Eckhart são senhores actores e trazem um toque de charme a cada cena em que aparecem, mas Ledger está noutra dimensão. Os pormenores em cada gesto, cada pose, o cabelo, as mãos, a voz, é um personagem perfeito.

Mais realidade diz Nolan, menos acção, mais questões interiores. Talvez.
A milhas de Tim Burton, noutra galáxia, as dúvidas morais, as questões éticas, as ligações emocionais e humanas, a procura do Eu do Bem e do Mal, Burton tem lá tudo e é magnifico.
Nolan tem a máscara, mas por baixo está pouco.

quarta-feira, agosto 06, 2008

Onde o Sol não entra...


Há um sítio, no centro da cidade, onde o Sol não entra.
Depois da sombra fresca do jardim do Principe Real, em frente do reflexo quente nas pedras da Faculdade de Ciências, há um buraco escuro onde nem luz, nem cor, nem vida existe.
Por fora uma loja simples, grades nas janelas e porta. Quem passe pela nesga aberta para a rua pode ver o revestimento de madeira, prateleiras antigas que cobrem as paredes, mas é ao nariz que se deve prestar atenção. O incauto viajante que lá entre descobre um mundo de bruma onde apenas o pó pode viver.
As vitrines devastadas são sinal que a loja foi assaltada pela calada, puro engano, faz parte do antro de terror. O pó suspenso, próprio dos vestígios de uma demolição, é aqui o único ar que se respira, falta o fôlego, falta a força, enquanto se procura uma saída, de relance os esgares de bonecas mortas, entulho e quilos de papel espalhado pelo chão criam um ambiente fantasmagórico. O horror apodera-se de nós, fugir, correr, algo que nos solte, apenas um forte sentido de missão pode ajudar uma pessoa a ficar de pé, no meu caso, 39 milhões de euros. Aquela é a única casa nas redondezas que está aberta na primeira quinzena de agosto e onde posso fazer o euromilhões.
Com requintes de malvadez, o carrasco, dono da loja, alonga-se até nos atender, olhando demoradamente para um pedaço de papel que foi buscar algures. Sem uma palavra faz o serviço e recolhe o dinheiro sem sequer olhar para mim.
Saio para a rua. Respiro longamente antes de continuar caminho.

Mesmo agora, seguro e salvo, o cheiro não me sai do nariz e se fechar os olhos, aquelas imagens horríficas atormentam-me.

Cuidado turistas incautos, tende atenção, não é um lugar para os fracos de espírito.