segunda-feira, dezembro 31, 2007

Bee Movie

O último filme saído dos estúdios Dreamworks tinha um dos mais inventivos teasers que já vi. O que por si só me atiça a curiosidade.
O trailer era banal em comparação, mas não prejudicava o filme. Se juntarmos a isto o facto de ser o projecto pessoal de Jerry Seinfeld, produzido por Steven Spielberg, A História de uma Abelha era dos filmes de animação que eu aguardava com mais expectativa.
Uma abelha sai da colmeia, para conhecer o mundo real, acabando por criar amizade com uma humana, e meter-se numa série de sarilhos.
Para ser directo ao assunto posso dizer que este é o pior filme de animação computorizada que já vi. Eu perdi diversas fitas, mas nem na Dreamworks, nem na Pixar, nem na Fox, vi algo tão fraco.
Técnicamente é perfeito, claro, as texturas soberbas, visualmente fabuloso. Mas aquilo que sempre diferenciou este género, desde o primeiro Toy Story, foi a imaginação na história, personagens, situações e humor que, divertindo as crianças, tinha sempre algo para tocar os adultos.
Do ponto de vista do argumento este é dos mais fracos que já vi. Vinte trocadilhos entre "be" e "bee", situações disparatadas, personagens desinteressantes, nada ali faz muito sentido, nem nos liga pessoal ou emocionalmente a seja o que for. Passamos as duas horas de filme a pensar como terá sido possivel desperdiçar tanto talento junto e fazer algo que nos faz sair da sala com um amargo de boca, um desalento perante tudo o que o filme podia ser e nunca consegue nem de longe.
Depois de um Shrek o Terceiro abaixo do nivel dos outros dois, A História de Uma Abelha é um falhanço. Esperemos que o próximo Kung Fu Panda ponha a Dreamworks de novo no caminho certo.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Eastern Promises

Este parece ser o ano em que todos os grandes realizadores fazem um filme. Gus Van Sant, Manoel de Oliveira, os irmãos Cohen, Tim Burton, Brian de Palma, Robert Redford, Ridley Scott, Paul Thomas Anderson, Wes Anderson, Neil Jordan, Mike Nichols, Francis Ford Coppola, David Lynch, Todd Haynes, são apenas alguns dos nomes que estrearam ou vão estrear um filmes feito em 2007. David Cronenberg juntou-se à lista com um dos melhores filmes que vi este ano, Promessas Perigosas.
Sem dúvida, Promessas Perigosas é uma aposta comercial, um thriller sobre a máfia russa, que poderia facilmente descambar para uma banalidade superficial. Nas mãos de Cronenberg no entanto, transforma-se numa reflexão sobre a violência, mais um passo na temática que atravessa a carreira de Cronenberg, a transformação do corpo e "o outro em mim", a descoberta do estranho que habita dentro do meu corpo, da minha alma (curiosamente o tema do último filme de Neil Jordan).
É verdade que desde Spider, Cronenberg tem-se afastado do seu lado mais gore, mais agressivo em termos visuais, mas mesmo assim, o sublinhar violento está sempre lá - vide a cena, já antológica, da luta na sauna neste filme.
Voltando a trabalhar com um Viggo Mortensen cada vez mais maduro, cada vez mais refinado, e com Naomi Watts, Cronenberg constroi uma fita com um elenco sólido.
A não perder, Cronenberg firma-se cada vez mais como um dos grandes autores da História do Cinema.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Paranoid Park + Porca Miséria

O hábito não existe, mas há algumas raras excepções em que as longas-metragens em Portugal são antecedidas de uma curta. É mais comum com filmes de animação do mesmo estúdio das super-produções em estreia. Desta vez é uma curta de animação portuguesa a anteceder o último filme de Gus Van Sant.
Porca Miséria é uma curta de Joaquim Pinto e Nuno Leonel, conta a história de um rapazinho de rua e o seu porquinho mealheiro. Dura 4 minutos, é de uma simplicidade desarmante, terno, mas ao mesmo tempo duro e surpreendente. Em apenas 4 minutos fiquei com o coração nas mãos, com vontade do chorar. A abertura perfeita para Paranoid Park.
O último filme de Gus Van Sant é, na sua linha habitual, uma das experiências mais extremas que este realizador já fez. Um acidente sinistro marca a vida de um adolescente.
A montagem descontinuada, a ausência de uma cronologia lógica, a câmera que segue, nos habituais planos longos e fechados, os passos daquele rapaz, tudo contribui para o clima pesado, para a lenta descoberta da verdade, para o olhar perscrutador debaixo da apatia, do dia a dia, do skate, do namoro, dos amigos, no âmago da tragédia. Tragédia essa que quando se revela por fim, negra, chocante, nos deixa ainda mais desarmados.
É dos filmes mais interessantes em exibição, onde a narrativa desce para segundo plano, para dar lugar a tempos, espaços, planos e emoções.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Call Girl

Foi ontem a ante-estreia do último filme de António-Pedro Vasconcelos, Call Girl. Tendo como grande chamariz a promessa de sexo, principalmente a promessa de uma Soraia Chaves muito despida, Call Girl acaba por ficar aquém e simultâneamente além das expectativas.
Não haja dúvidas, Soraia Chaves despe-se e despe-se muito bem, quando dizem "esta é a mulher que Deus queria ter, se tivesse dinheiro", olhando para o ecrã... acredita-se, o que nem sempre é comum. Se no entanto se pretende ver cenas de sexo durante duas horas, se o sexo é o motivo para ver o filme, então a desilusão é garantida. Apesar de sensual, as cenas de cama estão limitadas às vistas no trailer.
Como filme no entanto, na verdadeira acepção da palavra, Call Girl é razoavelmente sólido. Bem construído, com diálogos inteligentes, carregados de ironia e sentido de humor (se bem com um uso exagerado de palavrões, por muito duros que sejam os policias duas em cada três palavras não precisam ser calão), António-Pedro Vasconcelos guia-nos por uma teia de intriga e sedução bem delineada. Destaque particularmente positivo para o elenco. Se Nicolau Breyner já não é supresa, faz um presidente de câmara, honesto e algo inocente, de uma forma impecável, já Soraia Chaves prova ser mais que um corpo. Aguenta bem o filme, responsabilidade dura, seduz e representa, consegue dar um passo para além do óbvio. Ivo Canelas e José Raposo são fortes como os polícias encarregues da investigação. Os quatro são suportados por um elenco de luxo. Joaquim de Almeida, Custódia Gallego, Virgilio Castelo, Raúl Solnado, Maria João Abreu, Daniela Faria e Ana Padrão, esta última com uma performance digna de registo (alguém me explica porque é que no IMDB ela não aparece na ficha técnica?).
"Nos meus filmes preocupo-me sempre que esteja mais gente do lado de cá do ecrã do que do lado de lá" disse António-Pedro Vasconcelos no final da apresentação do filme, rodeado de actores e técnicos (gesto simbólico interessante). Costuma ter. Este não creio que vá ser excepção à regra. Não é genial, não é marcante, mas como um sólido filme comercial português funciona.

terça-feira, dezembro 18, 2007

Música da Semana


Foi, sem mais nem menos, num dia de verão... er... pois...
Ainda ontem era Agosto e num piscar de olhos já estamos no Natal. Para a semana estou de férias (yey!), ainda com ensaios que a estreia se aproxima e estamos a milhas de onde precisamos estar.
Para a semana não devo passar muito por aqui, portanto a música desta semana vai já, por vias das dúvidas, como a música de Natal.
Para hoje escolhi uma tirada de um dos meus filmes favoritos, The Nightmare Before Christmas, O Estranho Mundo de Jack, de Tim Burton. Uma fábula intemporal sobre o dia em que os seres da cidade do Halloween resolvem ser eles a fazer o Natal.
De Danny Elfamn, compositor brilhante que acompanha Tim Burton por todo o lado, aqui fica What's This?, quando o nosso heroi Jack Skellington descobre a cidade do Natal... Enjoy...

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Control

Anton Corbijn, fotógrafo, é um dos responsáveis por algumas das imagens mais iconográficas de diversas bandas, entre as quais se encontram os Joy Division, banda de culto da era pós-punk inglesa, que terminou quase antes de começar, com o suicídio do seu carismático vocalista Ian Curtis.
Mais de duas décadas depois, e após se ter tornado realizador de videoclips, Corbijn realiza a sua primeira longa metragem, Control, um tributo a Ian Curtis, baseado no livro da sua mulher, Debbie Curtis.
A preto-e-branco, como não poderia deixar de ser para quem conhece o trabalho do Corbijn com a banda no final da década de 70, Control começa desde logo por impressionar com o cuidado estético na construção dos planos, um olhar que se nota de fotógrafo, cuidado, atento ao pormenor, se bem que a espaços esse lado se possa sobrepor ou ofuscar aquilo que devia servir, a história e o filme.
O elenco é perfeito, Samantha Morton tem o nivel a que já nos habituou e o retrato que Sam Riley faz de Ian Curtis é uma cópia idêntica - bem como o resto da banda por sinal.
Feito com a adoração de quem esteve próximo, quer no entanto mostrar o lado mais humano, e falhado, de um ser que foi, por vezes, elevado a niveis míticos. É um bom filme, competente, interessante, gerindo bem os niveis emocionais e a relação com o público. No entanto, devo confessar, entrei com expectativas demasiado altas, por causa de tudo o que li e tudo o que me tinham dito. Sendo um esforço sólido, não é um filme extraordinário.
É, contudo, um dos filmes fortes em cartaz.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

The Golden Compass

"E Deus disse: faça-se luz. E a luz fez-se."
No início havia Tolkien. Baseado em mitos e lendas várias criou um novo mundo. Um mundo povoado de seres e lendas, histórias, passados e povos. Um mundo de culturas, de línguas, de guerras, amores e perdas. Nesse mundo ele criou aventura, seguimos o rasto dos seus habitantes por eventos, sabiamo-lo, que mudariam o destino da Humanidade. Tivemos medo, entusiasmámo-nos, chorámos e rimos. E aquele mundo nunca mais nos abandonou.
Deixou muitos seguidores. Umas cópias melhores, outras piores. Até que chegou Harry Potter. Foi um êxito colossal. Nas costas desse êxito vieram os filmes.
O Senhor dos Aneis é uma trilogia épica, marcante na História do Cinema. Os filmes Harry Potter visaram um público mais jovem, mas a milhas da excelência das histórias de Tolkien.
Se Harry Potter é um sub-O Senhor dos Aneis, A Bússula Dourada é um sub-Harry Potter ao terceiro grau.
Aventura épica (?) num mundo paralelo, onde as almas andam ao lado das pessoas e têm formas animais. Carregado de efeitos especiais que já não impressionam, são duas horas de um tanto faz que apenas dá sono. Já não há pachorra para os argumentos copiados, mastigados e cuspidos de tantos outros que os precederam. Não li os livros, mas como filme A Bussola Dourada nem sequer faz grande sentido. Óbvio, previsivel, os eventos sucedem-se sem causar o minimo de interesse, a maior parte do tempo a pergunta que nos fica na cabeça é: p'lo amor de Deus, mas qual é a ideia?
Um desperdício de dinheiro que nem Nicole Kidman consegue salvar. Um bocejo de 180 milhões de dólares...

quinta-feira, dezembro 13, 2007

A doer


Foi ontem. Finalmente ontem acabámos a marcação da peça. Hoje vai ser o primeiro ensaio corrido. Faltam 4 ensaios para a pausa do Natal. Voltamos em Janeiro, uma semana antes da estreia com ensaios diários. Agora é a doer. O texto decorado, marcações feitas, agora a peça começa a existir a sério.
Ontem voltei para casa com uma sensação que já não tinha há alguns meses, aquele abalo emocional que o Chapitô e as aulas com o Thiago me davam. Ontem foi forte, no meio do riso e da galhofa a coisa bateu-me. Pela primeira vez também, senti que finalmente acertei. Não que tivesse sido algo extraordinário, mas finalmente senti estar no sitio certo. Quando, no meio de uma cena intensa, disse as minhas duas deixas e, de repente, a sala toda gelou, senti algo incrivel. Não foi alegria, o meu personagem não dá espaço a tais veleidades, mas sentir que o efeito foi forte, que houve uma resposta... se na peça conseguirmos momentos destes, conseguimos tudo.
Tenho andado tenso, nervoso, a estreia aproxima-se, se acertamos este texto... se eu fosse capaz...

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Lions for Lambs

O título em português é infeliz, Peões em Jogo é tudo menos chamativo e não tem a força do original. Pequeno apontamento que não diminui em nada este filme de Robert Redford.

Peões em Jogo é uma reflexão sobre os eventos pós 11 de Setembro que levaram os Estados Unidos a entrar em guerra em dois países, situação da qual não parece haver uma saída a curto-prazo. Os conflitos já duram há seis anos e ameaçam arrastar-se por muitos mais.
Redford constroi três diálogos, três pontos de reflexão sobre a culpa individual de cada um, cada pessoa, independentemente do seu poder ou cargo, podia em algum momento ter feito alguma coisa, e a verdade é que a maioria não fez, aceitando as decisões que foram sendo tomadas. Políticos, media, população em geral, todos são responsabilizados pelas suas escolhas, ou pela falta delas, num filme político e extremamente bem construido.
Em que é que acreditamos? Quem somos? O que podemos fazer agora? Redford questiona-se, questiona-nos, mas não apresenta soluções, não tem uma verdade apaziguadora que nos conforte, negando ao espectador algum tipo de redenção.
Nos diálogos criados entre Streep e Cruise (jornalista e senador), entre um professor (Redford) e o seu aluno e entre dois soldados presos numa montanha no Afeganistão, dissecam-se muitas das questões morais que rodeiam o conflito armado no Iraque e Afeganistão.
É um filme forte, com interpretações à altura do desafio (Streep brilhante como sempre) e uma construção inteligente por parte de Redford.
Uma das grandes estreias da semana...

terça-feira, dezembro 11, 2007

Enchanted

Quando Shrek apareceu causou uma pequena revolução, agarrou nas convenções dos contos infantis, onde a Disney sempre foi rainha e senhora, virou-as do avesso, e serviu-as temperadas a um público ávido de ideias novas.

É claro que a subversão não foi inventada por este filme, é claro que diversos livros e filmes, mas a inventividade, o puro génio deu a este ogre verde um destaque, um sucesso nunca visto. Criou moda. De tal forma que a própria Disney se viu forçada a aderir, se bem que já com uns aninhos de atraso.

Uma História de Encantar é a tentativa da casa mãe do rato Mickey em sair um pouco dos parâmetros normais das histórias de fadas. Para tal transporta uma princesa de animação para Nova Iorque dos nossos dias, onde ela vai descobrir que os finais nem sempre são felizes.
O início é prometedor, alguns gags interessantes, e um esforço sincero de criar algo inovador. No entanto, algures no caminho, o fantasma do tio Walt deve ter poisado nos ombros dos criadores, fazendo-os virar o barco de novo a rotas conhecidas, com a boa e velha moral Disney, os finais felizes do costume, a previsibilidade desnecessária.

Como filme de familia no entanto, não chateia.

Música da Semana

Ontem à saída do ensaio, a caminho do carro, três colegas minhas cantavam Sympathique, de Pink Martini. Pensei... e porque não Pink Martini para música da semana? Em vez de Sympathique fica Amado Mio, bom dia!

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Contos em Viagem - Cabo Verde


O Meridional tem tido como uma das linhas mestras do seu trabalho a difusão, pesquisa, investigação e criação artística sobre as diversas formas de lusofonia. Seja nos hábitos e culturas locais em Portugal, como os brilhantes Por Detrás dos Montes e À Manhã, seja, como neste projecto Contos em Viagem, no trabalho realizado sobre outros países da lusofonia. Primeiro foi o Brasil, agora chega até nós Cabo Verde.

Cabo Verde é um espectáculo baseado em dezasseis textos de onze autores onde se vê, ouve e sente a vida, os sons, a alma em cru de uma terra. No palco pouco cenário, tábuas e caixas no chão, luzes penduradas, um espanta-espiritos, objectos vários espalhados. Em cena uma mulher e um homem. Ele, Fernando Mota, músico excepcional, traz sons e ambiências dos objectos comuns que o rodeia. Ela, Carla Galvão, actriz inspirada, mil personagens, força da natureza. Cria-se um diálogo, primeiro de Carla com Deus, em criolo como teria que ser, depois consigo própria, personagens, vidas dentro de si, que ela cria e mostra numa fluidez de emoções e palavras, com uma mestria, um à-vontade sem paralelo, como se fosse realmente possuída por cada um daqueles espíritos africanos que, não dúvido, deambulam pela sala. O diálogo estende-se a Fernando Mota. Músico? Actor? Ele é tão parte do espectáculo como cada palavra proferida. Pela música, sonoridade, pelo corpo e fisicalidade dos sons que cria, pela relação que cria com as outras vidas que ali se vivem. Por último o diálogo estende-se a nós, público, que rendido se entrega de braços abertos a mais uma grande noite de teatro. Disse uma vez que o Meridional era a melhor companhia de Lisboa. Volta a provar mais uma vez. E nos seus quadros tem dos melhores actores do país. Carla Galvão está sem dúvida nesse lote, cada vez mais uma figura maior dos palcos nacionais.

Não esquecer o trabalho único de selecção de textos de Natália Luiza, primoroso.
Para a encenação de Miguel Seabra uma enorme salva de palmas, sóbria, emocional, divertida, tensa, joga com as emoções do espectáculo num contínuo brilhante.

Não perder, sai de cena no próximo fim-de-semana.

Uma vénia...


Cabo Verde
Teatro Meridional

Direcção Cénica e Desenho de Luz Miguel Seabra

Selecção de Textos, Dramaturgia e Assistência Artística Natália Luíza

Interpretação: Carla Galvão (texto), Fernando Mota (música)

Espaço Cénico e Figurinos Marta Carreiras

Música Original e Espaço Sonoro Fernando Mota

Até 15 de Dezembro de 2007
Quarta, Quinta e Sexta - 22h, Sábado - 17h e 22h
Preço: 10€ (existem diversos descontos, perguntar na bilheteira)


Teatro Meridional
Rua do Açucar, 64
1950-009 Lisboa
Telefone: 218 689 245
Fax: 218 689 247
www.teatromeridional.net
teatromeridional@teatromeridional
.net

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Contos de Algibeira


Foi ontem no Frágil o lançamento destes Contos de Algibeira, uma edição Casa Verde, que reune textos de dezenas de autores portugueses e brasileiros, numa aventura conjunta de gente que nunca antes tinha trabalhado junto, nem sequer se conhecia. Tratam-se de micro-ficções, com o máximo de 500 caracteres, alguns a ocupar apenas duas ou três linhas. Pequenas histórias, normalmente carregadas de humor, pequenas reflexões do quotidiano.
Ontem, no Frágil, tivemos apenas meia dúzia de conhecidos e desconhecidos, para ouvir o Jorge Silva Melo divagar um pouco sobre esta colecção de textos. É daquelas pessoas que vale sempre a pena ouvir falar, seja sobre literatura seja sobre o que for, foi bom revê-lo e dar-lhe um abraço.
Quanto ao livro é interessante, os textos são inteligentes, surpreendentes até, para além do facto que o Alexandre Borges, nosso ilustre encenador, é um dos autores.
No final, três das actrizes d'Os Hipócritas (o meu grupo de teatro), leram de forma descontraida e informal, uma selecção de textos. Uma noite bem passada.
Contos de Algibeira. Nas lojas...

quinta-feira, dezembro 06, 2007

O tempo


Até segunda-feira ficam as marcações da peça feita. Falta um mês para a estreia, parece imenso tempo, mas na verdade com a paragem durante o Natal, sobram apenas duas semanasem Dezembro. Três ensaios por semana, duas horas por ensaio. É pouco, muito pouco... Sinto o tempo a escorrer-me por entre as mãos, felizmente tenho tido mais facilidade do que pensei em decorar texto. Não para a frente, mas o texto marcado é mais facilmente memorizado, suponho que é lógico, mas sendo esta a primeira peça a sério que faço, todas as pequenas conclusões óbvias a que chego são para mim quase que revelações...
10 de janeiro... tão perto...

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Beowulf

Robert Zemeckis depois de ter realizado o filme Polar Express, animação que utilizava uma técnica de motion capture para reproduzir os gestos e expressões dos actores em cena, com um realismo considerável, apaixonou-se por esta nova tecnologia. Avançou então para este novo projecto, baseado numa lenda britânica, um poema épico escrito há mais de mil anos. A grande inovação é a utilização do 3D, uma técnica recente que foge dos óculos tradicionais azul e vermelhos, para um efeito mais fiel e sem as habituais consequências do método anterior (dores de cabeça, etc).
Se é de técnica que se fala, então Beowulf é um filme notável, a animação é primorosa e o 3D perfeito, principalmente com a noção de profundidade que é imensa. Não saem coisas do ecrã em direcção ao público, não nos esquivamos de setas (nesse aspecto a Disney está anos à frente), mas continua a ser impressionante. Só por essa experiência merece a visita.
Como filme é fraco, uma história demasiado linear, demasiado focada nas cenas de acção, preocupada com o aspecto visual em deterimento do desenvolvimento do argumento. É uma pequena desilusão, Angelina Jolie tem mais sensualidade ao vivo de t-shirt sem maquilhagem, do que em todo o filme, como ser sedutor, irresistivel.
Monstros, dragões, batalhas, tudo se foca exclusivamente nesse ponto, onde o abuso de técnicas a lembrar Bruce Lee, ou mesmo Matrix, tornam essas mesmas sequências demasiado inacreditáveis.
Enfim, é um filme pipoca, com uma lógica de parque de diversões.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Achmed the Dead Terrorist



Thanks Puligare...

Música da Semana

Confesso que a minha relação com Arcade Fire não tem sido fácil. Quando os conheci pela primeira vez foi por mero acaso, numa Virgin, em que os pus a tocar à sorte. Não me convenceram. Quando vieram a Portugal tive diversos amigos em pulgas para os ver, e todos me disseram maravilhas do espectáculo. Dei-lhes uma segunda oportunidade. Continuaram sem me convencer. Há pouco tempo pus o Funeral a tocar no carro, um pouco por falta de alternativas. Pouco a pouco fui mudando de opinião, até chegar ao ponto de ouvir uma música em repeat. Essa canção é Rebellion (Lies), e é a minha escolha para música da semana.
Enjoy...

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Delirium


O Cirque du Soleil veio finalmente a Portugal. O espectáculo escolhido foi Delirium, show que não precisa de tenda, adaptável a salas de espectáculo normais. Erro. Delirium não é um espectáculo de Novo Circo, divaga pela dança, música e multi-média, com diversas projeções de video. Há vários problemas.Para começar o Pavilhão Atlântico deixa, na maior parte da sala, o espectador demasiado longe do palco. A sensação que dá é de estarmos a olhar para um espectáculo que é feito para outras pessoas, ao qual estamos a espreitar por uma racha num muro.Quanto ao que está em palco, não é carne nem peixe. Como concerto é desinteressante. Como circo é quase inexistente. Como bailado, monótono e como show multimédia tem pormenores interessantes, apontamentos fortes, mas nada que surpreenda, nenhuma ideia que não tenha sido explorada já desde os anos 80 em video-clips. A falta de uma linha coerente, narrativa ou não, que una os vários quadros é notória, sendo as coisas atiradas para palco sem motivo aparente. A falta de imaginação é tal que para terminar a performance cantaram o Alegria, do espectáculo homónimo do Cirque, algo que foi criado há vinte anos.Uma desilusão. Muito barulho, ruído visual e não só, num show que dá uma imagem errada do imenso potencial do Cirque Du Soleil.
Em Abril e Maio vem cá o Quidam, esse sim, a não perder.

sexta-feira, novembro 30, 2007

quarta-feira, novembro 28, 2007

Laitakaupungin valot

Aki Kaurismäki é um cineasta que, por minha falha, não conhecia. Finlandês multi-premiado com longa carreira, tem agora o seu último trabalho em exibição em Portugal: Luzes no Crepúsculo.
Um homem solitário vê-se envolvido num crime quando é seduzido por uma mulher fatal.
Fraude e génio, já ouvi dizer de tudo sobre este autor, o que vi não me seduziu mas também não me deixou indiferente. Kaurismäki filma com uma distância tremenda dos seus personagens, com uma frieza, um afastamento que se reflecte numa estética pouco naturalista, forçada, como se pintasse frios quadros de uma paisagem árida, crua, feia até. Não existe grande amor, ódio ou remorso, apenas gestos quase mecânicos, sentimentos que afloram apenas a pele e escorrem demoradamente para o chão.
Não existe uma beleza interior, nem paisagens idílicas, mas uma certa angústia apática, como se aceitasse tudo o que acontece com pálida indiferença.
É pelo menos curioso, merece mais do que apenas 3 pessoas numa sala.

terça-feira, novembro 27, 2007

Música da Semana

Ao ver o Across the Universe fiquei com uma vontade enorme de voltar a Beatles. Não esperei, fui à Fnac comprar o Sgt. Peppers Lonely Heart's Club Band. É o album mais marcante de uma época, de uma geração, e das peças de música mais influentes de sempre. Quebrou barreiras como nunca ninguem e poucos depois o fizeram, com a introdução de revoluções em termos estruturais, melódicos, temáticos, e até de produção num dos mais imitados e emblemáticos trabalhos que conheço.
Aqui fica a genial canção de encerramento, A Day in the Life...

segunda-feira, novembro 26, 2007

Mr. Magorium's Wonder Emporium

Chega a altura do Natal e os filmes com o target familiar começam a brotar por todos os lados. Apesar de ser um terreno tradicionalmente dominado pela Disney, estes últimos anos tem-se assistido ao surgimento de diversos filmes de outras casas a atacar este target. A Walden Media é uma das concorrentes com pretensões no mercado.

É por aí que nos chega este Mr. Magorium's Wonder Emporium, com o título português O Maravilhoso Mundo dos Brinquedos, conta a história de uma casa de brinquedos mágica, o seu criador e das pessoas que orbitam à sua volta.
Durante quase uma hora é um filme terno, com um Dustin Hoffman excêntrico, e uma Natalie Portman doce, como é seu apanágio. Não transborda de imaginação ou criatividade, mas é terno, comovente a espaços, na verdade cumpre a sua função de enterter. Não fosse os últimos vinte ou trinta minutos e o filme seria ao menos divertido, mas o final lamechas, previsível, foleiro e apressado acabam por deitar por terra um esforço que, apesar de não ser genial, era pelo menos competento. Fica o fascinio de Hoffman e o sorriso desarmante de Natalie Portman.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Já cheira mal...


Um cozinheiro da cadeia de hoteis Sana foi despedido por ser sero-positivo. Recorreu para os tribunais. Perdeu na primeira instância e agora na Relação voltou a perder. Os juizes ignoraram TODOS os relatórios médicos e científicos, dizendo que ficou provado que o cozinheiro tinha o HIV no seu sangue, suor, lágrimas e saliva, e que portanto existiria o perigo de contágio a clientes que tivessem "feridas na boca"(!!!!!) É um facto médicamente falso, atestado como tal por todos os especialistas ouvidos, mas os juizes resolveram esquecer os relatórios e testemunhos que vão contra o seu preconceito. Assim, sancionam legalmente a descriminação das pessoas infectadas com SIDA, promovendo o medo e morte social destas pessoas.

E nada acontece a estes juizes... é deprimente...

Notícia completa aqui.

Across the Universe

Julie Taylor, realizadora de Frida, teve uma ideia, fazer um filme que tivesse como base a música dos Beatles. Assim nasceu o musical Across the Universe, que segue a história de um rapaz inglês que parte para os EUA à procura do pai, acabando por criar amizade com um grupo de americanos, no meio do turbilhão dos anos 60.
Across the Universe é um filme visualmente cativante, vivo, cheio de cor, um pouco alucinado até. Conta com um grupo de actores fantástico, de onde Evan Rachel Wood e Jim Sturgess
se destacam. Gosto de ver performances onde tudo é natural, onde ninguem parece estar a representar, e as coisas fluem naturalmente. A música, essa então dispensa apresentações, rodeia-nos, seduz-nos, faz viver o filme.

A história na verdade não é muito coerente. Os personagens e as relações entre eles não são o mais robusto possivel, muitas vezes fica-se com a sensação que o argumento é apenas um pretexto para passar mais uma canção. Se não fossem os Beatles toda a estrutura do filme se ruiria. Mas na verdade não me importo de ouvir mais uma vez albuns como Abbey Road, The White Album ou Sargeant Peppers...

Como filme não é brilhante, mas os Beatles... ah os Beatles...

quinta-feira, novembro 22, 2007

3 em 5...

... dias uteis por semana. Agora são três ensaios semanais. O tempo começa a escassear, mês e meio não é muito, e o trabalho pela frente é ainda intenso. Mas a peça começa a tomar forma. Aos soluços, tropeções, a crescer lentamente, mas com um rumo que começa a parecer cada vez mais definido. Quando a mim, sinto-me mais à vontade no personagem, começo a saber, até mais instintivamente, as reacções do Garcin, o que pensa, o que sente.

10 de Janeiro, cada vez mais perto...

quarta-feira, novembro 21, 2007

3


3 é o segundo espectáculo de uma trilogia, criada pelo teatro cão solteiro, tendo por fundo o tema o sonho. Construído em parceria com André Godinho, cineasta que recolheu imagens do primeiro espectáculo A Carta Roubada.
No Sábado passado não houve representação, falta de público. Ontem só lá estávamos dois, mas mesmo assim avançaram com a performance.
Há ideias interessantes. Para começar, o próprio local, e o percurso que se faz até à "sala", o visitar de um espaço em decadência, como se sentisse a memória do edifício. Cénicamente, o sofá virado de costas tem impacto, as mãos e pés que ocasionalmente aparecem são visualmente bem conseguidas. O video de André Godinho é de uma crueza árida, uma estética Bergmaniana, e acaba por ser o centro da peça.
Mas a base, como sempre, é o texto. Este é um espectáculo de textos, declamados, sem actores visiveis (ou quase), sem narrativa, sem ilustração. É um diálogo entre o texto, o video e o espaço cénico. A representação destes textos, a leitura dos mesmos é um desastre. Os dois actores criam uma forma estéreotipada, oh tão teatral, tão repetitiva, monótona e gasta. Não consegui perceber os textos. As palavras eram atiradas ao ar, Deus nos livre mudar ritmo, entoação, Deus nos livre representar, sentir o que se está a dizer. Não. Há uma pré-concepção intelectual do que é declamar um texto em teatro, e aqui vai disto, uma hora inteira no mesmo registo. O mais grave é que este ponto destroi tudo o resto. A ambiência, o video, até a pequena surpresa final, cuja interpretação se perde. O que é que estiveram a dizer mesmo?
É pena, a ideia tinha potencial...


3
de: Cão Solteiro & André Godinho

2 a 25 de novembro, de 3ª a domingo, às 22h
na R. do Poço dos Negros, 120
reservas 96 017 47 98 (das 14h às 22h)

terça-feira, novembro 20, 2007

In Rainbows


A primeira vez que ouvi Radiohead foi com o single do seu primeiro album Creep. Essa porta de entrada é comum para grande parte dos antigos fãs da banda. O disco era Pablo Honey, interessante trabalho rock, com influências grunge, mas que se destaca principalmente pelo single Creep, enorme sucesso que ainda hoje passa nas rádios. O EP Iron Lung foi um ponto de transição para o seu albúm seguinte, The Bends. Aqui finalmente começa a emergir com maior leitura a sonoridade particular dos Radiohead. Fora das tendências maiores da época (Smashing Pumkins eram reis na altura), The Bends é um trabalho pessoal, algo depressivo, com um Tom York inspirado.
Com Ok Computer é firmado o estatuto mundial de culto de Radiohead. Para muitos o seu melhor disco, Ok Computer é uma vez mais uma evolução sobre o passado, num caminho electrónico, com odes geniais como Paranoid Android, num conjunto de músicas inovadoras que se ouve e (re)descobre vezes sem conta.
Eis que chega Kid A. Aí tudo rebenta. O caminho da banda encontra novos territórios, e se a experimentação é algo que os define, Kid A é um album marcante, de rupturas. Muitos fãs ficaram desiludidos, Kid A não tem um som fácil que fique no ouvido, mas é um dos grandes albuns da década.
Amnesiac. Para mim o expoente máximo de Radiohead. Quando o ouvi pela primeira vez pensei que tivessem perdido o juízo de vez. As ondas de rádio ficaram (com raras excepções) prácticamente arredadas deste disco, e com motivos, quase não há uma música que possa passar, quase nenhuma que se apanhe de ouvido, que tenha uma construção melódica simples. Mas com canções como You and Whose Army?, Like Spinning Plates ou Life in a Glass House, os Radiohead atingiram um nivel de absoluto génio, uma referência única, marcante no panorama mundial, asseguraram um lugar vitalício no panteão das lendas musicais.
Em 2003 o muito aguardado Hail to the Thief é lançado. Qual seria o passo seguinte para esta surpreendente banda? Foi um regresso às origens. Hail to the Thief é um belíssimo CD, mas é quase como se Kid A e Amnesiac tivessem sido apagados e este fosse o seguimento de OK Computer. Nada de mal, não é possivel reeinventar-se a cada passo, e Hail to the Thief é um trabalho sólido.
Este ano voltam à carga com In Rainbows. Para os fãs, quatro anos sem música nova custa um pouco a passar. E no lançamento do disco abanam toda a indústria, as músicas estão disponiveis para download no seu site, e cada um paga o que quer, podendo inclusivé não pagar nada. É o assumir definitivo a morte da forma tradicional de venda de música. Há também uma edição especial, carregada de extras, mais cara, para colecionadores. Pode ser o início de uma revolução. E a música? Bem, a música é do nível a que a banda já nos habituou. Parece que encontraram um local confortável, um tom, um estilo próprio, e que aí se instalaram para lançar sons de qualidade, com uma boa produção, intensos, mas sem surpreender, sem inovar, sem sair desse nicho que criaram para si próprio. Mas In Rainbows é um trabalho que merece uma escuta atenta, não desilude, apenas não inova. Afinal, um bom albúm é ou não é apenas um bom albúm?
A música desta semana é Bodysnatchers, deste In Rainbows. Enjoy.

segunda-feira, novembro 19, 2007

The Invasion

Oliver Hirschbiegel realiza a quarta adaptação ao cinema do seriado de Jack Finney, The Body Snatchers. A primeira foi o clássico de Don Siegel, The Invasion of the Body Snatchers. Digamos que à quarta, já não há nada de novo a acrescentar.
Uma mulher começa a desconfiar que as pessoas à sua volta estão a agir de uma forma estranha. Descobre que cada um começa a ser transformado numa outro ser, quando é infectado por um virus extra-terrestre.
Quando os produtores viram a o que Hirschbiegel andava a fazer com o filme, trouxeram James McTeigue, realizador de V de Vingança, protegido dos irmãos Wachowski, para remontar e até filmar novas cenas. O resultado final é morno.
O filme sustenta-se em Nicole Kidman, ela é o rosto e único atractivo da fita. Mr.James Bond, Daniel Craig anda por ali, mas sem muito que fazer. Quanto a Kidman tem um papel forte, de uma mulher perseguida em busca do filho, mas que se esgota nisso mesmo. A Invasão consegue criar, a espaços, momentos de tensão, algum medo, mas não traz nada, mesmo nada, que não se tenha visto já um milhão de vezes. Não se percebe por que carga de água é que se vai repescar algo tão velho, tão batido.
Das últimas noticias que chegam de Hollywood a maior é a greve de argumentistas, deixando paralisada grande parte da indústria de filmes e séries. Neste caso pode-se dizer que resolveram fazer greve com antecedência, colando pedaços de outras fitas.
Não chateia, mas também não entusiasma. Apenas para fãs de Kidman.

sexta-feira, novembro 16, 2007

American Gangster

Ridley Scott atingiu o pico no início da sua carreira, Alien e principalmente Blade Runner são até hoje o expoente máximo do trabalho deste realizador. Gangster Americano é, no entanto, uma entrada válida para a sua filmografia.

Baseado numa história verídica, o filme segue a ascenção de Frank Lucas, um gangster negro do Harlem que criou um império de droga, com conexões directas com fornecedores no Vietnam.
Ridley Scott não é Martin Scorsese, mas este é um filme ao estilo do realizador italiano. Durante quase três horas assistimos a duas excelentes interpretações. Denzel Washington é um Frank Lucas duro e Russel Crowe dá um grande contraponto como o polícia honesto que o quer apanhar. Aliás, é nesta dualidade entre os personagens (e as performances) de Washington e Crowe que o filme assenta. Enquanto que o gangster é um homem de família, regrado, organizado, com valores tradicionais, cujos amigos são pessoas do mundo da política e do desporto, o polícia está a divorciar-se, dá-se com criminosos, é inconsistente, instável. No entanto o primeiro vive num mundo de droga e corrupção, o segundo vive e apregoa a honestidade a todo o custo. Toda a história aliás está recheada de contradições morais e subtextos, num enredo cativante.

Apesar de forte candidato aos Oscares, não é um clássico, não ficará para a História do Cinema como o Tudo Bons Rapazes ou O Padrinho, mas Gangster Americano é um filme sólido, bem dirigido, e sobretudo com grandes actores.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Rescue Dawn

O último filme de Werner Herzog ia-me escapando por entre as mãos. Em Lisboa está num punhado de salas, na maioria em horário limitado. No Monumental, por exemplo, já só tem uma sessão às 18h50.
Rescue Dawn - Espírito Indomável conta a história verídica de um piloto da Marinha americana que é abatido na sua primeira missão no Laos, no início da guerra do Vietname.
A temática "prisioneiro de guerra" já foi vista e revisitada em milhares de filmes, e o último esforço de Herzog não revoluciona o género. No entanto é interessante o olhar fechado, quase claustrofóbico, intimo que ele tem sobre os seus personagens (reais), sobre o seu lento decompor físico, não fruto de uma qualquer violência ou tortura, mas do passar do tempo e das condições de sub-nutrição a que foram submetidos. "A prisão é a selva" dizem entretanto, e descobrimos que é verdade. Pior que a prisão é a vida fora dela, no ambiente mais hostil que se possa imaginar.
Christian bale volta a ter uma performance de relevo. Tal como em O Maquinista, volta a trabalhar o seu corpo como se fosse plasticina, emagrecendo e degradando-se conforme o filme avança.
Forte, bem filmado, intenso, Rescue Dawn - Espírito Indomável não merece passar despercebido por entre a enchente semanal de estreias.

terça-feira, novembro 13, 2007

Sicko

O último filme de Michael Moore, Sicko, tem, uma vez mais, um alvo controverso: o sistema de saúde norte-americano, onde não existe um serviço nacional de saúde gratuito e igual para todos, e onde as companhias de seguros são rainhas e senhoras.

Que Moore não é imparcial não é novidade, demagógico até por vezes, mas as causas que defende são incriveis. Não se acredita o ponto em que a saúde está nos EUA, a selvajaria com que são tratadas as pessoas, e as vidas destruídas por um sistema que visa o lucro, ao invés do bem estar dos pacientes.
Este é um filme de americanos para americanos, a realidade retratada é de tal maneira extrema que nos escapa completamente como preocupação do dia a dia. A vida, a saúde, a doença, a morte, são algo que muda no nosso quotidiano, por uma volta do destino ou pela capacidade dos médicos. Imaginar que o dinheiro (ou a falta dele) nos leva à morte, que temos a cabeça no cadafalso a cada esquina, é impensável.
Moore aborda o tema com o humor e irreverência que lhe são conhecidos, surpreende a cada passo, e faz mais um documentário forte, capaz de nos deixar a dar graças por sermos europeus.

Uma experiência muito, muito interessante...

Música da Semana

hoje estou numa de revival. Por isso, à mistura com pastilhas Gorila, vou por a passar aqui Ozzy Osbourne. Na verdade, na altura em que ouvi Osbourne pela primeira vez, o ex-vocalista dos Black Sabath era ele próprio um revival de outros tempos. Foi a minha altura do heavy metal, não durou muito, mas como adolescente foi uma fase de descoberta.
Ora bem. Sem mais, aqui fica Ozzy ao vivo, Mamma I'm Coming Home...

segunda-feira, novembro 12, 2007

Elizabeth: The Golden Age

Em 1998, o filme de Shekhar Kapur Elizabeth foi das melhores surpresas que tive no ano. Principalmente pelo desempenho da, então ainda desconhecida, Cate Blanchett. A história era forte, visualmente bem filmado e a performance de Blanchett foi a melhor do ano (injustamente vencida no Oscar).
Quase uma década depois, a mesma equipa junta-se para Elizabeth - A Idade de Ouro, a continuação do primeiro filme. Desta feita estamos durante e era de Filipe, que ameaça Inglaterra com a sua Armada Invencível.
Para quê fazer outro filme? Kapur argumenta que não foi tudo dito no primeiro. É lógico. A vida de qualquer grande personalidade não se esgota em duas horas. Mas por essa lógica poder-se-ia sempre fazer segundas partes de qualquer biopic. Não chega. E na verdade o melhor teria ter deixado a rainha enterrada.
Cate Blanchett mantem-se ao seu melhor nível, parece que não consegue fazer um único papel que não esteja repleto de intensidade dramática. A fotografia é interessante, mas o problema é que Kapur não tem nada para dizer nem mostrar. Há Clive Owen, um Walter Raleigh convincente, há Geofrey Rush e Samantha Morton, mas não se notam. Há um filme de duas horas que parece ter três, um arrastar agonizante do tempo, sem que nada se passe e pouco se sinta. Há a sensação de dinheiro a rodos deitado ao lixo, principalmente na famosa batalha naval, em que pouco se percebe e o que se vê é irrelevante.
Elizabeth podia estar na idade de ouro, mas o filme é quanto muito de cobre...

sexta-feira, novembro 09, 2007

Mariza and friends

Ontem à noite Mariza deu um espectáculo num Pavilhão Atlântico lotado.

Antes de mais, o Pavilhão Atlântico nunca devia ser usado para concertos, a acústica é péssima, tem eco, é horrivel. Ficar sentado do meio para trás equivale a não ver ninguém em palco, ter o concerto quase todo no ecrã.
Mariza entrou também em modo de descanso, e deu mais de uma hora aos convidados, que cantaram sozinhos em palco. Foi desnecessário.
Quando cantava, no entanto, foi deslumbrante. Não é apenas uma figura fisica admirável, não é apenas uma voz, é uma mulher que percebe como e faz uma performance memorável a todos os niveis. Brinca com o público, leva-o para onde quer, é brilhante em palco, os gestos, a dança, as pausas, os tons (aquela descida ao meio da plateia no final foi de génio) e desarma completamente seja quem for que esteja a assistir. É a figura maior da nova geração de fadistas (fado? será que o que ela canta se consegue definir de forma tão redutora), com laivos de vedetismo sim, mas com um talento, uma presença impares.
O clip é do fado que fechou o concerto, Gente da Minha Terra, celebrizado por Amália, mas que não é obviamente filmado ontem...

quinta-feira, novembro 08, 2007

The Brave One

É verdade que raramente vi Jodie Foster a fazer um mau papel. Muitas vezes vi bons filmes de Neil Jordan. Se juntarmos o realizador de Entrevista com o Vampiro e Jogo de Lágrimas, com a actriz de Os Acusados e O Silêncio dos Inocentes, o filme promete.
Uma mulher que faz um programa de rádio sobre a "vida" em NY, está noiva e apaixonada. Num passeio por Central Park com o namorado é brutalmente atacada por um gang. Ela fica em coma, ele morre. A partir desse dia vive em medo. Quando compra uma arma vê-se no papel de justiceira.
Como seria de esperar de um filme de Jordan, este não é um filme de acção, não é Charles Bronson de saias a matar “mauzões” rua fora. Esta é uma história sobre uma mulher que vive uma cidade, sente-lhe o pulso, respira-a e que, de repente, vê a sua vida ser-lhe roubada, virada do avesso, vê a sua cidade virar-se contra ela e mostrar-lhe um rosto que lhe era desconhecido, mostrar-lhe o que é viver com medo, saudade e dor. É dessa dor que emerge uma nova pessoa, mais fechada, mais dura, uma pessoa nova dentro do corpo da antiga. A amargura e confusão, o conflito entre as duas, as noções de bem e mal, certo e errado, amor e vingança, são o cerne deste filme.
Se Neil Jordan filma admiravelmente, se constrói um filme que se questiona a si próprio e nos obriga a questionar a nós mesmos, um filme intenso, pulsante, isso tem uma pedra basilar, Jodie Foster. A actriz tem aqui um papel incrível, pequena, indefesa, sente-se em cada gesto, cada olhar, a emoção vibrante, o nervo, o terror e o arrependimento. Foster abre o livro e explora cada faceta do personagem, cada camada, com uma contenção notável.
A Estranha em Mim é um dos grandes filmes em cartaz actualmente e não deve ser perdido por quem gosta realmente de cinema.

quarta-feira, novembro 07, 2007

Corrupção


Mais de 80.000 espectadores fez o filme baseado no livro Eu, Carolina. Já se esperava um êxito considerável, o livro gerou polémica, o tema era quente, e o trabalho de marketing feito por Alexandre Valente foi muito inteligente.
Uma mulher de alterne apaixona-se pelo presidente de um clube de futebol e vê-se envolvida numa teia de abusos e corrupção.
O filme é um fracasso, a todos os niveis execpto o de bilheteira (por enquanto). João Botelho foi contratado para realizar este "blockbuster" nacional, e foi o primeiro erro. Botelho tem razões pessoais e familiares para fazer uma pequena vendetta, o que tolda a razão. Por outro lado, deve ser dos realizadores mais adversos a fazer este tipo de filmes, com um género de realização demasiado pessoal. Ao ver o filme que tinha em mãos, Valente tomou para si o direito de o cortar, remontar e encher de música, numa tentativa de o tornar mais comercial, ao estilo de um Crime do Padre Amaro, último filme do produtor, e enorme sucesso de bilheteira.
Em Portugal isto não é normal, mas Valente pediu dinheiro ao banco para fazer a fita, sem qualquer apoio estatal, e como tal tem que reaver o seu investimento. Isso obriga-o a mexer-se (e tem-se mexido muito bem), mas corta a liberdade dos realizadores, que têm que fazer um filme para o público. Botelho não gostou e não assinou o filme. Valente estreou-o na mesma.
Corrupção é um filme falhado. É filmado de uma forma pretensiosa, irritante, caricatural. O argumento é ridículo, nada faz sentido, nem a relação de "Sofia" com o Presidente, nem com o Polícia, nem a história episódica, sem ligação, desenvolvimento, nem coisa nenhuma. A espaços torna-se risivel, diálogos forçados, poses exageradas e prostitutas saídas directamente dos anos 70.
Ainda por cima é de tal maneira direcionado, tenta tão desesperadamente provar uma tese e ligado a Carolina Salgado, que transforma o personagem de Sofia em algo bidimensional, uma quase-super-heroína de cartão.
Quanto ao valor de choque é inexistente. A cena de sexo é metida a martelo, sem nexo, sem ser nem revoltante, nem sequer excitante, é só mal feita. Revelações nada, sabe-se mais lendo o Record, falha em todas as frentes, artisticamente, cinematográficamente e até em valor de entretenimento.
Não é um filme Botelho, nem é um Padre Amaro, não agrada a uns, nem a outros, é um zero.
Já o marketing, a venda, essa sim, é de primeira água...

terça-feira, novembro 06, 2007

Eureka

Ontem o ensaio foi curto, hora e meia quanto muito, mas teve um momento eureka. Tentámos pela primeira vez as duas irmãs no papel de criado e, apesar de ainda ser um esboço inicial, o que dali saiu teve imensa força, e imensa graça também. As duas gémeas, a falar em uníssono, como se fossem apenas um corpo, não só trazem uma qualidade arrepiante à cena, como tambem permite alguns momentos com imensa piada, que acontecem quase espontâneamente durante os ensaios...
Promete...

Música da Semana

Há muito tempo que não regresso a Tom Waits. Porque não hoje?
Esta semana, uma das vozes mais singulares do mundo, mr Tom Waits, New Coat of Paint...

segunda-feira, novembro 05, 2007

A Outra Margem

Desde cedo que o último filme de Luis Filipe Rocha me tem suscitado bastante curiosidade, pelo tema, pelo trailer, por aquilo que fui ouvindo nas últimas semanas.
Um travesti cujo namorado se matou recentemente tenta suicidar-se. A irmã vem visitá-lo ao hospital e leva-o de volta a Amarante, a terra onde nasceu, onde ele vai conhecer o sobrinho pela primeira vez, um rapaz chamado Vasco, que é mongoloide.
A Outra Margem é um filme tocante, vive de emoções complexas, mas é filmado com uma simplicidade que é, a espaços, desarmante. Não é, longe disso, um "caso da vida", um telefilme de domingo à tarde, Luis Filipe Rocha toca em pontos importantes em termos de tolerância, discriminação, amor, mas sem nunca resvalar para o fácil, sem caír num tom moralista nem puxar à lágrima. Acima de tudo cria as condições para que os actores contem a história. E que actores. Tomás de Almeida é tocante, Horácio Manuel e Maria D'Aires são equilibrados, mas quem realmente se destaca é Filipe Duarte, que é capaz de ter aqui o desempenho da sua vida.
A Outra Margem é dos filmes que prova que o panorama cinematográfico nacional está a mudar. O Milagre Segundo Salomé, Alice, O Mistério da Estrada de Sintra, entre muitos outros, são algumas das produções nacionais que se lembram que um filme é, antes de mais, um meio para contar uma história, e que essa história tem um público, o espectador. A Outra Margem é bem filmado, bem construído, delineado, emocional, muito bem representado e, antes de mais, pensado para ser visto, em vez de construído para o seu próprio umbigo.

quinta-feira, novembro 01, 2007

quarta-feira, outubro 31, 2007

Julgamento

Pouco mais de 4000 espectadores é quanto o último filme de Leonel Vieira fez com as suas vinte e picos cópias distribuidas nacionalmente. E a culpa não é do filme.

Quatro amigos são presos pela PIDE em 1970, torturados violentamente, acabando um deles por morrer. 30 anos depois a memória dele continua a atormentar a sua filha e os três amigos que sobreviveram. É então que descobrem por mero acaso o homem que julgam responsável por tudo. Resolvem raptá-lo para o obrigar a confessar.
É impossivel ver este Julgamento sem vir à memória o Death And The Maiden (A Noite da Vingança) de Roman Polansky. Aí tinhamos um advogado, a sua mulher (que tinha sido torturada) e um homem que ela diz ser o médico responsável pela tortura. Três actores, três personagens, uma sala fechada. Um filme tenso, muito bem escrito, que se apoia na mestria de Sigourney Weaver e Ben Kingsley, e na capacidade de Polansky nos manter presos sem nunca se desviar do seu trio.
Aqui Leonel Vieira perde-se por um número de personagens desnecessários, flutua de casa em casa, trabalho, tribunal, consultório, escritório, demorando uma eternindade para se focalizar no essencial: os raptores, o raptado e a relação entre eles. Mesmo aí não sabe muito bem como desenvolver a fita, pouco ou nada evolui, queimando depressa a dúvida sobre a culpabilidade do raptado, transformando-o num monstro sádico, desculpabilizando o acto do rapto, dividindo as coisas muito simplesmente entre os bons oprimidos e o mau opressor que, no fundo no fundo, só tem aquilo que merece.
O filme não é, no entanto, distituido de mérito. Leonel Veiria sabe usar uma câmara, do ponto de vista da fotografia e construção da imagem é inteligente, se bem que usa de forma deficiente a montagem como forma de criar tensão. A banda sonora é forte, e alguns actores são bastante bons, destaque para Alexandra Lencastre, que prova uma vez mais ser uma excelente actriz.
Julgamento não é um filme brilhante, mas o tema, os actores, os valores de produção, até a ocasional cena de nudez são mais que suficientes para atrair mais de 4000 espectadores. O que se passa então? Não existe fobia à ficção nacional, infindáveis novelas, floribelas e morangos açucarados provam-no. Mesmo no cinema é possivel atraír público, ocasionalmente mas é. O que é deficiente é tudo o que ultrapassa a produção do filme, o marketing, a divulgação, o poster é terrivel (e nem imaginam quantas pessoas vêm ou não um filme por causa do poster), não me lembro de ver o trailer uma única vez no cinema (eu vou duas a três vezes por semana às salas).
Quem sofre é o filme, o cineasta, os actores e toda a indústria (?) nacional.

terça-feira, outubro 30, 2007

Criado


Não há fome que não dê em fartura. Há meses que andamos sem actor para a personagem de criado e agora temos... dois! Duas para ser mais preciso. Duas actrizes, irmãs gémeas, o que obriga a uma redifinação da movimentação em cena, mas que é capaz de ter um efeito bastante arrepiante, talvez a lembrar o Shining.
Os ensaios vão lentamente no bom sentido.

Esperemos não ter problemas com o facto de estarmos a adaptar Beckett. O homem em vida não deixava que lhe tocassem numa linha de texto, e parece que depois de morto ficou ainda mais chato...

Música da Semana

Ao ver o Fados de Carlos Saura tive momentos dispares. Comecei algo indiferente, acabei apaixonado. Houve alguns momentos que foram realmente tocantes. Um dos principais foi este dueto de Mariza com Miguel Poveda, inesperado dueto luso-espanhol que deu uma nova vida a este velho fado. Esta semana, Meu Fado Meu.

segunda-feira, outubro 29, 2007

Falta

Ontem dei por mim a ouvir Bob Dylan e a ter daquelas conversas dissertativas sobre os anos 60 e as suas consequências; mudou alguma coisa, não mudou e o quê?

Gostava de ter vivido numa época como os anos 60 nos EUA e França ou os anos 70 em Portugal. Bem ou mal, com méritos e excessos, a verdade é que as pessoas acreditavam em algo, lutavam por alguma coisa, democracia, paz, igualdade, direitos humanos, seja o que for, mas sentia-se que o mundo como o conhecemos podia ser mudado, e que estava nas mãos das pessoas o poder de o mudar.
Hoje ninguém acredita em nada. Em Portugal vive-se um clima cinzento, abatido, mediocre. Sente-se que tudo está, no geral, errado, mas que nada é, no geral corrigível. Pior, sente-se que não temos nada a ver com a solução (uma vez mais vaga) para os problemas que se abatem sobre o país, que quer a culpa quer a responsabilidade de os resolver está nos outros, em alguem indistinto (politicos, economistas, futebolistas?) que não têm nem a capacidade nem a vontade de os resolver. Pensa-se pequeno, vive-se pequeno, sem aspirações e sem sonhos. Não temos o poder de mudar, a obrigação de mudar, apenas o direito a um queixume sem fim, mas também sem propósito. Alguém sabe realmente o que quer ver mudado? Mais "direitos", mais "justiça social", chavões vazios que traduzem apenas um mal estar generalizado.

Nada é feito sem cada um de nós. Nada muda sem cada um de nós. Não existe um Portugal externo a mim, vazio, oco, com más notas a matemática, com salários congelados, com uma classe política medíocre. Portugal sou eu e a minha mulher, o meu pai, a minha mãe, o meu vizinho e o vizinho dele. Portugal somos todos nós. Se o país está mal, se é cinzento, feio, fechado a culpa é minha, de todos nós, de cada um de nós e está nas mãos de cada um de nós o poder de o mudar. Não é só com o voto, é com cada dia, cada passo, cada gesto, Portugal existe para lá da Superliga, da Maddie e do défice, existe nas manhãs, nas tarde e noites que vivo e respiro.

Sem nunca esquecer, Abril de 74, Maio de 68 pode ser, deve ser Novembro de 07, Janeiro de 08, Agosto de 09, sem esquerdas, sem direitas, mas com ideias, com mudança.

Está e sempre esteve nas nossas mãos.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Trás-os-Montes


Será que já foram dez anos? Para onde vai uma década? Hoje volto para uma visita rápida ao recreio da minha infância.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Conversa


Ontem tivemos o único ensaio da semana. Uma novidade, as primeiras medições para os figurinos.

Antes do início do ensaio tive uma conversa com o encenador. Na base as minhas dúvidas e dificuldades. Disse-me o que pensava que estava bem e o que estava mal, descansou-me quanto ao caminho a seguir.
Fez-me bem. Acho que entrei bem mais descansado. O ensaio correu melhor, mais solto, mais natural.

Saí sem dúvida mais descansado...

Avante...

quarta-feira, outubro 24, 2007

Sweeney Todd, O Terrível Barbeiro de Fleet Street

A primeira referência a um barbeira assassino que serve de base desta história vem do século XV, numa balada medieval francesa. Foi no entanto em 1846 que Sweeney Todd aparece como personagem num livro de Thomas Peckett, publicado sobre a forma de folhetim semanal, o seu título The String of Pearls. Existem diversas versões, filmes, livros e inclusivé bailados, mas a verão que nos chega hoje tem a sua origem em 1968, quando Christopher Bond, um jovem actor britânico faz a sua versão que estreia no Victoria Theatre de Stoke-on-Trent. Em 1979 Stephen Sondheim adapta esta versão a um musical intitulado Sweeney Todd, O Terrível Barbeiro de Fleet Street.

Dez anos depois de ter sido adaptado a palco em Portugal, volta numa co-produção Teatro Aberto - Teatro Nacional D.Maria II a ser apresentado em Portugal e em português.
É um espectáculo imenso. Nos meios, na produção, no resultado global final.
A adaptação para português está muito bem conseguida, torneando com habilidade as óbvias dificuldades de uma tradução em canto, com rima.
A encenação de João Lourenço é inteligente e eficaz, fazendo com que um espectáculo de quase três horas pareça ter hora e meia, sabe manter o ritmo, criar os pontos cómicos e ao mesmo tempo dar-nos a tensão necessária.
O cenário de Jochen Finke é fabuloso, o quarto/loja de empadas/barbearia/casa/talho central é de um engenho fantástico. Tudo mexe, tudo move, surpreende, enche o olho, mas não é vão nem gratuíto, suporta o trabalho dos actores e do encenador em vez de o ofuscar.
Se falamos de actores há que destacar Mário Redondo, impecável escolha para Sweeney Todd, sempre tenso, preciso no nervo, e para Ana Ester Neves, uma Senhora Lovett hilariante. Do restante elenco poucos merecem destaque, José Corvelo é um fraco Juiz Turpin, Marco Alves dos Santos demasiado canastrão como Anthony Hope e Carla Simões deixa a desejar como Johanna, salva-se Sílvia Filipe, sólida no papel de mendiga. Mas como quase toda a peça é carregada pelos dois personagens principais, o elenco menos consistente não prejudica demasiado o espectáculo.

Sweeney Todd, O Terrível Barbeiro de Fleet Street é um grande espectáculo, um belo musical em qualquer parte do mundo, está em cena até ao fim do ano e merece uma visita muito atenta. A mim fez-me pensar nas peças todas que estão em cena e que quero ir ver, reconciliou-me com o teatro.

Sweeney Todd, O Terrível Barbeiro de Fleet Street
Teatro Aberto/Teatro Nacional D.Maria II
Até 31 de Dezembro
Quarta a Sábado 21h30, Domingo 16h
De: Stephen Sondheim
Versão: João Lourenço, Vera San Payo de Lemos, José Fanha
Dramaturgia: Vera San Payo de Lemos
Encenação: João Lourenço
Direcção Musical: João Paulo Santos
Cenário: Renée Hendrix
Coreografia: Carlos Prado
Maestros: João Paulo Santos, Fernando Fontes
Com: Mário Redondo, Ana Ester Neves, Carlos Guilherme, José Corvelo, Carla Simões, Sílvia Filipe, Henrique Feist, Tiago Sepúlveda, Carlos Pisco, Sara Cipriano, Vanda Elias
Sala Azul
Teatro Aberto
Praça de Espanha
Informações: 213880089
20€ (diversos descontos)

terça-feira, outubro 23, 2007

Música da Semana

Ao folhear o Actual do Expresso dei de caras com um artigo sobre o último trabalho de Radiohead. Ainda não fiz o download do muito aguardado cd daquela que considero ser a melhor banda da actualidade. Na crónica João Lisboa comparava a notoriedade de Radiohead a Pink Floyd na altura do Dark Side of The Moon. Qembrei-me que seria uma excelente ideia. Aqui está live, Pink Floyd, já pela voz de David Gilmour, Eclipse.

segunda-feira, outubro 22, 2007

1408

Adaptações de Stephen King ao cinema são mais que muitas, a maioria não merece o esforço de abrir os olhos para as ver. Desta vez com John Cusack e Samuel L. Jackson, resolvi dar-lhe uma hipótese.
Um escritor de livros de fantasmas anda pelo país a visitar hoteis assombrados para acabar a sua mais recente obra. Ele é um céptico, até que chega ao Dolphin Hotel em Nova Iorque e, contra os avisos do gerente, insiste em ficar no quarto 1408.
A permissa é mais que velha. Casas, quartos e hoteis assombrados não são proprimamente novidade, mas 1408 consegue construir um clima tenso e pregar um ou outro susto. O problema é que rápidamente se perde. Transforma-se num tanto faz, com o quarto a mudar a cada dez segundos, a acontecer as coisas mais espalhafatosas, sem nexo, perdendo-se o clima de tensão, de medo, rodeado de um tédio que se instala enquanto que o sub-aproveitado Cusack é atirado de um lado para o outro sem dó nem piedade. Quando chega ao fim sai-se da sala com um sabor estranho na boca, uma sensação de tempo perdido e pouco mais.

sexta-feira, outubro 19, 2007

The Kingdom

Fez-se muito barulho em torno deste O Reino. À falta de um realizador de renome, o enfoque caíu no seu produtor Michael Mann e no galardoado Jamie Foxx. E pouco mais havia por onde agarrar.
Após um atentado na Arábia Saudita que vitimou centenas de americanos, uma equipa do FBI viaja até lá para investigar e descobrir os culpados.
O filme não é de Michael Mann, mas é a la mode de Michael Mann. Peter Berg não tem curriculum que se conheça, resolve então tentar ser (aqui, porque nem em Very Bad Things, nem em Welcome to the Jungle o fez) um sub-Michael Mann. Imitação pobre na utilização do ecrã largo, nos movimentos de câmara, nas temáticas, na violência. Não tem é metade do talento, nem ideias.
O filme é seco, pouco tem a dizer, os personagens são planos e as ligações entre elas básicas. Como thriller deixa muito a desejar, Berg comete o erro de tentar conduzir a fita para um "who donne it", o problema é que o mistério sobre quem terá sido o autor é inócuo, visto que não existem suspeitos, não os conhecemos nem queremos conhecer. Sem saber por onde conduzir o enredo, O Reino põe os seus personagens principais a não fazer nada durante a primeira hora de fita. Investigação rápida, conclusões óbvias (que a policia saudita é incapaz de tirar), perseguição, muita sorte e um rapto à última da hora com consequente tiroteio. Se como thriller é falhado, como policial também, como filme de acção fica-se pelo partir muito e mostrar pouco. Tiros, explosões, sem se perceber quem como e onde, sem o mínimo de noção espacial, ou seja o que for, o que interessa é fazer muito barulho para ver se ninguém nota.
Percebe-se que Michael Mann não realiza-se um argumento tão fraco. Peter Berg não é assim que algum dia se irá firmar como um realizador a ter em conta.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Death at a Funeral

Frank Oz é um realizador com altos e baixos. Sem nunca ter sido brilhante, tem alguns filmes com apontamentos interessantes.

Morte no Funeral conta a história de um funeral e da estranha reunião familiar que se cria.
É um filme muito british. O início é hilariante, os enganos sucedem-se, e as situações incómodas são aproveitadas com peso e medida, a tempo e sem excessos (um reparo para a tradução que está fora de sincronia durante os primeiros vinte minutos de filme, o que distrai bastante). Os diversos personagens são apresentados sempre com humor, as relações bem desenvolvidas e inesperadas. O problema é que depois de expostos os lugares, problemas, persongens e situações, o filme fica a repetir-se durante mais de meia-hora. Não é que as piadas não tenham graça, mas ao fim de algum tempo cansam.
Felizmente a última meia hora salva o filme. Depois das referências sexuais, do pânico, das drogas, de algumas gargalhadas bem soltas, o filme tem um final até tocante, conseguindo calar uma sala que se ria histéricamente.

Grosso modo é uma fita bem construída, inteligente, divertida, com o seu q.b. de provocação. Acima de média do que se encontra nas salas.

Help...


Temos os actores quase todos. Falta o criado. Mas os ensaios continuam.
Segunda regresso com leitura, ontem começo de marcações em palco.
Desastre...
Na primeira cena, nas primeiras 15 ou 20 páginas, estou em palco com o criado. Desde a primeira leitura que essa é a altura onde sinto que estou pior, com dificuldades ainda mais acrescidas, perdido, falso. Devagar, comecei lentamente a ganhar alguma consciência, talvez mais alguma segurança, ou se calhar apenas a insistir em erros velhos. Tive uma tarde de trabalho com uma amiga que me começou a ajudar a perceber intenções, começar lentamente a melhorar, corrigir, uma tarde que foi um primeiro passo. Até que cheguei ao ensaio...
Mudou tudo, nervoso por subir ao palco entrei pior que nunca. Para agravar o encenador mudou completamente o sentido e leitura do meu texto, do meu personagem. Catástrofe.
Saí de lá a sentir que na verdade não tenho capacidade para fazer aquele papel, que nunca vou acertar, percebê-lo, interiorizá-lo, vivê-lo. Que vou chegar a palco e cair desamaparado no ridículo. Voltei para casa de rastos.
Hoje acordei com a certeza que ia ser horrivel. Ainda tenho essa certeza.
Essa certeza que só passa com trabalho, muito, durante 3 meses...

terça-feira, outubro 16, 2007

T2+1 na Baixa procura dono...






Alguém quer o meu pequeno palácio?

Vende-se...

Mais informações aqui...

Música da Semana

Em 1981 o teatro A Barraca estreia um dos seus mais memoráveis espectáculos “Fernão, Mentes?”, adaptação de Helder Costa da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Com música de Fausto e Zeca Afonso, foi o berço do albúm Por Este Rio Acima, disco quintessêncial da música popular portuguesa e marco do qual Fausto nunca se conseguiu libertar totalmente.
Para esta semana resolvi relembrar A Voar Por Cima das Àguas, uma das muitas músicas deste trabalho, que em miúdo adorava, e ainda hoje adoro.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Planet Terror

Grindhouse parte dois. Quentin Tarantino e Robert Rodriguez criaram um evento cinematográfico de homenagem aos exploitation movies dos anos 70. Uma sessão dupla, com trailers ficticios no intervalo a que chamaram Grindhouse. A fraca receita no box-office americano fez com que os dois filmes fossem distribuidos em separado.

Planet Terror (Planeta Terror) é o segundo filme desta dupla, desta vez a cargo de Robert Rodriguez, realizador de culto, a quem pessoalmente nunca achei muita graça.
Um gás quimico controlado pelos militares é acidentalmente largado sobre a população de uma pequena cidade, transformando-os em zombies carnívoros.
Entrei com expectativas baixas, não gostei do Death Proof (o primeiro filme, realizado pelo Tarantino) e este não me dava grandes indícios.
Enganei-me.
Planet Terror é para o cinema como um gigantesco cheesburguer é para a culinária, é gordurento, a escorrer molho, cheio de sal e colestrol, mas sabe demasiado bem para resistir.
É prazer sem culpa, Rodriguez agarra no género que Carpenter e Romero celebrizaram, encorpora os seus clichés, expõem os seus defeitos e usa-os para nos dar um misto de sátira e homenagem carregada de gore, acção, estilo, onde o humor está sempre presente, e não conseguimos parar de querer mais.
Foi o suficente para eu querer rever o Death Proof e tentar perceber se não me enganei na minha primeira análise. Uma coisa é certa, Grindhouse foi um evento pensado em conjunto, não como a soma de dois filmes isolados, estou ansioso que saia o pacote em dvd para finalmente os poder ver como é suposto, com first e second feature, trailers (mesmo assim conseguimos ver o trailer de Machete) e um enorme balde de pipocas...

sexta-feira, outubro 12, 2007

Carpe Diem

Foto de João Braz


Esteve no Teatro Camões o novo espectáculo de Bruno Cochat Carpe Diem com o próprio Bruno Cochat, Joana Furtado, Mathieu Réau, Mónica Alves, Rita Fernandes, Ruben Garcia e Ruben Santos.
Dizia a folha de sala:

"Espectáculo de dança dirigido a um público jovem e que pretende reflectir universos contemporâneos que hoje invadem territórios cognitivos das vidas de todos nós. O wrestling, os videojogos, a televisão, o sonho na sua relação com o movimento e com as artes performativas foram os temas que serviram de ponto de partida para este evento. Uma reflexão sobre a inscrição da ideia de “espectáculo” nos tempos que correm."

Como diz que disse? Ao me levantar depois de perto de uma hora espectáculo fiquei sem perceber se Cochat alguma vez foi adolescente ou se conhece alguma criança ou adolescente actualmente. De dança pouco se viu, jogos populares, novo circo, clowning, estiveram em palco a tentar fazer um pouco de tudo em vez de fazer aquilo que sabem fazer bem: dançar. É que para circo estão a milhas do que se apresenta por aí e o que vi foi banal. Em vez de um espectáculo para jovens resolveram fingir que eram uma máscara de jovens e andar, sem fio condutor nem nexo, a saltar de vulgaridade para vulgaridade, sem imagem, nem mensagem, nem sequer algo visualmente estimulante. Aliás, tinha duas crianças ao meu lado e elas reagiam apenas nas raras vezes em que a plasticidade dos corpos se notava, nos raros momentos em que a dança se sobrepunha aos pseudo-jogos. Fora isso os miudos ficavam totalmente indiferentes. É pena, a ideia era boa, mas é muito diferente falar aos adolescentes e fingir que se é um adolescente parvo a saltar à corda. É diferente abordar os temas que os afligem ou ter afirmações óbvias e batidas como fumar é mau e a televisão estupidifica.
Pela primeira vez desde há muito tempo saí do Teatro Camões a sentir-me completamente defraudado, a sentir que a Floribela tinha chegado à dança contemporânea...