quarta-feira, novembro 07, 2007

Corrupção


Mais de 80.000 espectadores fez o filme baseado no livro Eu, Carolina. Já se esperava um êxito considerável, o livro gerou polémica, o tema era quente, e o trabalho de marketing feito por Alexandre Valente foi muito inteligente.
Uma mulher de alterne apaixona-se pelo presidente de um clube de futebol e vê-se envolvida numa teia de abusos e corrupção.
O filme é um fracasso, a todos os niveis execpto o de bilheteira (por enquanto). João Botelho foi contratado para realizar este "blockbuster" nacional, e foi o primeiro erro. Botelho tem razões pessoais e familiares para fazer uma pequena vendetta, o que tolda a razão. Por outro lado, deve ser dos realizadores mais adversos a fazer este tipo de filmes, com um género de realização demasiado pessoal. Ao ver o filme que tinha em mãos, Valente tomou para si o direito de o cortar, remontar e encher de música, numa tentativa de o tornar mais comercial, ao estilo de um Crime do Padre Amaro, último filme do produtor, e enorme sucesso de bilheteira.
Em Portugal isto não é normal, mas Valente pediu dinheiro ao banco para fazer a fita, sem qualquer apoio estatal, e como tal tem que reaver o seu investimento. Isso obriga-o a mexer-se (e tem-se mexido muito bem), mas corta a liberdade dos realizadores, que têm que fazer um filme para o público. Botelho não gostou e não assinou o filme. Valente estreou-o na mesma.
Corrupção é um filme falhado. É filmado de uma forma pretensiosa, irritante, caricatural. O argumento é ridículo, nada faz sentido, nem a relação de "Sofia" com o Presidente, nem com o Polícia, nem a história episódica, sem ligação, desenvolvimento, nem coisa nenhuma. A espaços torna-se risivel, diálogos forçados, poses exageradas e prostitutas saídas directamente dos anos 70.
Ainda por cima é de tal maneira direcionado, tenta tão desesperadamente provar uma tese e ligado a Carolina Salgado, que transforma o personagem de Sofia em algo bidimensional, uma quase-super-heroína de cartão.
Quanto ao valor de choque é inexistente. A cena de sexo é metida a martelo, sem nexo, sem ser nem revoltante, nem sequer excitante, é só mal feita. Revelações nada, sabe-se mais lendo o Record, falha em todas as frentes, artisticamente, cinematográficamente e até em valor de entretenimento.
Não é um filme Botelho, nem é um Padre Amaro, não agrada a uns, nem a outros, é um zero.
Já o marketing, a venda, essa sim, é de primeira água...

3 comentários:

Anónimo disse...

A polémica à volta do livro já me deixou a pensar sobre as prioridades e os gostos do público - leitor, curioso, etc, etc, etc! - deste país. Não li o livro - nem sequer peguei nele - e não tencionava ver o filme. Depois das tuas palavras, se algum lampejo de dúvida ou de curiosidade me assaltou, acabou de desaparecer! Obrigada.

Fica bem. Bom resto de semana. :)

deep

100 Sentidos disse...

Estava imensamente curiosa à espera da tua crítica a esta filme.
Apenas para confirmar que não era um bom marketing que ia toldar o gosto.

Anónimo disse...

Há por aí muito pior filme, principalmente no campo comercial português. De longe melhor que O Crime do Padre Amaro, esse sim uma nulidade cinematográfica, reduzido às nadegas e aos seios da Soraia Chaves. Neste é de louvar a brilhante interpretação da Margarida Vila-Nova, e uma interessante primeira parte. Infelizmente perde-se depois a partir do meio...mas sejamos sinceros: os principais defeitos são a montagem (risível) e a banda-sonora colocada a cuspe. Portanto, acredito que a versão do realizador é infinitamente melhor...esperemos para ver!